
Fica cada vez mais claro, para mim, pelo menos, que o atual processo de trancamento da liberdade de expressão que vemos no Brasil (e que boa parte da população e da mídia enxerga com olhos benevolentes) é maior do que simplesmente a atual, e próxima a nós, ameaça representada por alguns togados nacionais.
Países tão diferentes como Cuba e Alemanha vivem (uns há tanto tempo como desde 1959, outros mais recentemente) um processo crescente de abolição do discurso livre, em nome de uma “ditadura pró-democracia”. O fato parece ser recente, mais precisamente, desde a ascensão das mídias sociais e a derrocada econômica da “Legacy Media” (mídia tradicional).
O que vemos é um embate épico entre dois titãs – o do passado, jornais e revistas da grande mídia nacional e mundial e o do futuro – a mídia caótica, atrapalhada, por vezes mentirosa das grandes mídias sociais.
Já não nos informamos (com raras exceções) em jornais com uma curadoria cautelosa e profissionais dignos do nome – em parte por conta do preço (grátis ou quase) das mídias sociais, em parte porque com o passar do tempo, o mesmo processo de pressão sobre essas mídias sociais fez com que a Legacy Media passasse a mentir por conta própria, a fim de criar sua própria visão de mundo e tentar cercear o novo.
Carruagens e Cavalos
No grande e educativo filme “Com o dinheiro dos outros” (Other peoples` Money), da Warner de 1991, Danny DeVito faz o papel do capitalista ‘malvadão’ que vai acabar com a indústria de fios e cabos de cobre pelo fato de que o mercado para isso estava indo de mal a pior. As instalações e a terra ocupada pela indústria tradicional valia mais do que o negócio em si. Como empresa de capital aberto, e ainda por cima nos EUA, a empresa sobre uma tentativa de Aquisição Hostil (Hostile Takeover) pelo malvadão representando uma firma de Private Equity.
Choro pra lá, invocações de tradição e amizade pra lá, na assembleia da empresa, o protagonista (Lawrence Garfield, por Danny DeVito) começa sua fala com um “Amém… amém…”. Diz que o que ouviu do Sr. Andrew Jorgenson (magistral Gregory Peck) era uma oração, e do lugar de onde ele vinha, quando termina uma oração, os que estão perto dizem “amém”… e que era uma oração pelos mortos. Mortos, porque a empresa ia quebrar, e ele era o único que conseguia enxergar isso.
Lembrou Garfield que na virada do século XX, havia centenas de empresas que vendiam chicotes para cavalos (“rebenques”), e que no final só sobrou um. Ele tinha certeza de que esse último fazia os melhores chicotes do mercado, mas no final acabou falindo. Por que? Porque o mercado não estava mais lá. Havia migrado das carroças, charretes e equinos para carros e caminhões. Isso convence os acionistas e no final, o malvadão se dá bem e compra a empresa.
Mas não acaba por aí: a antagonista, Srta. Kate Sullivan, neta do Sr. Jorgenson, e por quem o malvadão tinha uma quedinha, liga para ele e diz “airbags”… o Malvadão Garfield pergunta o que era isso, e ela diz que uma nova legislação obrigaria todos os carros da América a usar airbags, e esses usavam uma trama de cobre. Voilà, estava salva a Empresa.
Por quem? Nem Garfield nem Jorgenson tiveram nada a ver com isso. Uma visão externa e inovadora salvou a indústria moribunda, através da observação cuidadosa da realidade ao redor.
Airbags
A mídia tradicional está se vendo, há tempos, enredada no processo de se redescobrir para não morrer. Há anos as mídias sociais acenam com um machado afiado, e que certamente decepará a cabeça de boa parte dos jornais, revistas e mesmo TVs atuais (abertas e fechadas), dando espaço a novos, inovadores e baratos meios de informação e entretenimento.
O fio de cobre da mídia tradicional está tendo sua Assembleia de Acionistas, e está esperneando para manter-se de pé. Apenas que, ao contrário do Seu Jorgenson, não está lutando via discurso e influência, mas com golpes um tanto mais baixos, comprometendo sua própria alma no processo.
Se durante anos vimos os meios de comunicação como grandes guardiães da verdade, vemos hoje, aqui e acolá, os mesmos órgãos como coautores de um massacre à liberdade de expressão. O tal “consórcio” pode até parecer fetiche da direita, como já ouvi aqui e acolá, mas o fato é que não existe nada que hoje esteja sendo perpetrado contra “bolsonaristas” cujo arcabouço não possa e não vá ser estendido a qualquer um de qualquer espectro ideológico, quando os interesses político se virarem de lá pra cá.
Em vez da imprensa estar buscando um “Airbag” (literalmente e figurativamente, aliás), está tratando de matar o “malvadão” do Private Equity… E assim como não deu pra parar Henry Ford e seus calhambeques, não vai dar pra parar Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Cia. Bom, Jeff comprou o New York Times, talvez como forma de compensar o que está fazendo do outro lado da briga. O dono da fábrica de calhambeques comprou uma fábrica de chicotes… e todo mundo achou isso tão civilizado…
Qual seria, então, o possível Airbag da indústria da notícia? Não é uma pergunta simples de responder, mas CERTAMENTE não é o sacrifício aos princípios do bom jornalismo.
Ao cair na artimanha de seus patrões, os jornalistas, com as exceções de praxe, destruíram as máquinas que faziam os fios e cabos de cobre, e que, em pouco tempo, poderiam fazer as tais malhas pra Airbags.
Que Airbag? Não sei, mas talvez veículos como a Gazeta do Povo, de Curitiba, ou o Quillette, mídia canadense, poderiam ser bons exemplos. Mesmo veículos com tendências “progressistas” como a revista britânica The Economist, conseguem. Com uma política agressiva de administração, reconhecimento (antes de quase todo mundo) da falência do modelo anterior de negócio e focando em jornalismo e curadoria, a GP conquistou um mercado cativo de leitores que querem se informar sem recorrer ao guarda-chuva estatal e sua tendência a corromper o que toca. Ah, é de direita… pode ser, e eu, como conservador, não estou nem um pouco infeliz com isso.
Mas poderia haver bons veículos de mídia semelhantes, dispostos a fazer bom jornalismo, com curadoria, sem que isso representasse curvar-se ante imbecilidades de toda ordem. Com bom senso, claro, poderiam defender que bandeira quisessem, desde que com argumentos, e com checagem de fontes.
Antes, deixaram esse papel aos togados, que se arrogam a jogar na cara da sociedade impropérios e bobagens como “Perdeu, Mané”, “Vencemos o Bolsonarismo” ou ainda apoiar o desmanche da Lava Jato sem qualquer grau de vergonha sobre o fato, que eles mesmos ajudaram e apoiaram durante o desmanche da quadrilha do Mensalão e Petrolão.
E a República de Weimar de volta
Esta semana, a já citada revista Quillette publicou uma matéria inquietante sobre a Alemanha chamada “Já esquecemos de Weimar” (https://quillette.com/2025/04/22/have-we-forgotten-weimar-censorship-free-speech-germany/) na qual os alemães parecem estar meio preocupados com as atitudes em seu país, contra o livre exercício do direito de expressão. Hitler e outros líderes de partidos extremistas foram impedidos de falar. Não deu certo, e deu no que deu. O modelo mental que suporta tal reviravolta, em que o atacado acaba por tomar o poder baseado nas regras de censura que foram inicialmente aplicadas contra si mesmo se chamou de “O Fenômeno do Fruto Proibido”, conforme divulgado pela antiga presidente da mal afamada ACLU (American Civil Liberties Union, ou “União para Liberdade Civil na América), Nadine Strossen. Segundo ela, foi justamente a censura a esses extremistas que acentuou o desejo público de conhecer essa mensagem censurada, e, depois disso, apoia-la.
Os alemães atuais tem toda razão de ter medo do mesmo fenômeno, e como ele hoje pode acabar privilegiando a AfD (Alternative für Deutschland, ou Alternativa para a Alemanha), partido que acaba de levar 20% do parlamento alemão, recentemente, identificado como radical de direita, neonazista e coisas do gênero, e, de certa forma, atacado por isso.
Há uma conclusão sobre esse Imbróglio todo?
Sempre há lições a tirar da história. Gente como Sir Roger Scrutton e mais recentemente Sir Niall Ferguson, nos ensinaram e ensinam isso. Não aprender com a história nos condena a repeti-la, como disse George Santayana.
Estamos vendo, no Brasil e em muitos lugares, com o dedo coçando para assinar uma decisão, um decreto, um ato qualquer, que de alguma forma cale críticos e impeça que o “populacho” dê sua opinião.
Ah, mas é muita fake News… É mesmo. E daí? Essa pode ser a primeira conclusão:
Proibir as chamadas Fake News é burro e impossível.
Por quê? Primeiro porque alguém precisa julgar isso, imparcialmente. Como imparcialidade é uma coisa rara (que o digamos nós, brasileiros, vendo nossos togados falarem e canetearem). Segundo porque a medida que realmente resolveria o problema seria fechar, de uma vez por outra, as mídias sociais, deixando-as como o paraíso dos “bom dias”, “linda mensagem do guru fulano” ou ainda textos de Khalil Gibran, e mais nada. Isso, claramente, acabaria com o “pobrema”, mas levaria consigo a liberdade de expressão. Claro, alguns veriam isso com muita alegria – a mídia tradicional entre eles.
A questão leva à segunda conclusão:
A mídia tradicional, no dia seguinte ao fechamento das mídias sociais, seria a próxima vítima.
Parece óbvio. Uma vez garantido o pão de cada dia, os donos das mídias tradicionais precisariam continuar a gerar conteúdo e engajamento. Como? Voltariam à curadoria? Voltariam a reportar o que pensam e apuram? Dificilmente a vida seria tão fácil para eles no médio e longo prazos.
Uma vez obtido um poder de polícia, abdicar dele é difícil. Os togados serão o maior exemplo disso.
Daí à terceira, óbvia e difícil conclusão:
Livre falar é só falar.
Plagiando Millôr Fernandes (“livre pensar é só pensar”). Não dá pra cercear NADA, sob pena de gerar o tal Fenômeno do Fruto Proibido, e, por decorrência, correr o risco da adoção de uma ditadura.
Não dá pra cercear tias do Zap, nem o imbecil que escreve artigos de M (como este, talvez você pense, e eu teria que aceitar…). Não dá pra tirar a possibilidade do político falar mentira, nem do honesto, pro vezes, cometer certos sincericídios.
Por fim, é só deixar a vida nos levar…
