Adivinhações e Previsões


três dados brancos sentados em cima de uma mesa

Frequentemente eu me pego lembrando de algo que eu achava que poderia acontecer, e aconteceu. Num desses episódios, e que virou piada entre meus amigos e família, me lembro ainda quando meu pai, que também nunca ganhou muita coisa em rifa e sorteio – e nem jogava pra isso, ganhou uma Kombi velha, no sorteio na Igreja de São João Batista, em Macuco, lá pelos idos de 1978 ou pouco mais. Ganhou e doou para a Igreja Batista – De são João Batista para os Batistas. Uma Kombi predestinada.

Eu, segundo amigos, deveria estar riquíssimo (e não estou) com minhas previsões. “Jogue na Loto… vai ganhar”… “até na TeleSena você é capaz de fazer uma graninha…” e por aí vai. Duvido muito que seja aconteça, porque não jogo. Acredito em trabalhar, poupar, investir com sabedoria e viver disso no futuro.

Adivinhação e Previsão são coisas diferentes, que frequentemente vejo quase lado a lado nos noticiários. A adivinhação já foi considerada por Deus como “abominação” (ver por exemplo Atos 16:16, e outros). Previsão, pelo menos como a vejo, é algo mais técnico e menos mágico: toma-se uma quantidade de dados passados, estuda-se, conclui-se quanto a alguma tendência, e daí “projeta-se” algo no futuro. Não se trata de tentar adivinhar, mas um exercício de comparação do passado com um possível futuro.

Economista é, hoje em dia, o Pajé das profissões. Não é algo depreciativo o que digo. Ao contrário, trata-se de uma tarefa extremamente inglória tentar “adivinhar” o que vai acontecer com base no passado. Quanto mais depurado é o dado obtido, maiores as chances de que algo vá a se concretizar baseado nisso.

Sundae de Limão

O livro Freakonomics, e o site https://freakonomics.com/blog/ fazem uma deliciosa mistura de piada e previsões baseadas em dados passados, correlacionando coisas que aparentemente não têm nenhuma ligação. Algumas vezes os resultados parecem absurdos, outras vezes nem tanto.

É o caso da história do cara cujo carro nunca enguiçava na frente da sorveteria quando ele comprava sorvete de limão, e sempre enguiçava quando comprava um sundae de limão. Mesma sorveteria, sempre os dois mesmos produtos, e o carro só enguiçava no Sundae. Parecia piada. E não é que havia uma correlação? Como o Sundae demorava mais a ser preparado, quando o cidadão retornava a seu carro o motor tinha esfriado e o carro tinha dificuldade de pegar. Quando era só o sorvete, o tempo era menor, o motor não esfriava e o carro pegava de primeira.

A questão aqui é que muitas vezes há uma correlação entre dois fatores aparentemente independentes. Quantas vezes temos que escarafunchar uma pilha de dados para concluir sobre alguma correlação entre eles?

Freakonomics fez uma correlação que foi muito mal aceita na sociedade e na mídia: a de que o aumento no número de abortos entre determinada etnia, nos EUA dos anos 1970 tivesse direta correlação com a queda na criminalidade nos anos subsequentes. Freakonomics só fez uma constatação: a de que o número de abortos nesta etnia, sendo mais alto do que a média da população, teve um impacto na criminalidade produzida por esta mesma etnia nos anos subsequentes. Não houve qualquer juízo de valor na afirmação – só a constatação numérica.

Às vezes é só coincidência mesmo. No caso acima, havia uma correlação: mães com menos filhos costumam tratar melhor dos filhos que têm; mais cuidado gera mais estrutura pessoal; mais estrutura pessoal gera melhores estudantes e, por consequencia, mais consciência social; o resultado é menos criminalidade. Será que se pode afirmar isso? Nem sei dizer. Mas me rendo aos dados.

Inteligência Artificial e a nova Aposta

A mais nova fonte de adivinhações previsões não poderia ser outra: a IA. Essa ferramenta tem causado tanto rebuliço no mercado que é indispensável aos “talking heads” falar algo sobre ela. E dá-lhe de opinar. “Vai acabar com tantas profissões”… “Vai gerar riqueza sem precedentes”… “Vai causar a terceira guerra mundial”.

Uma nova investida, que li hoje (https://www.infomoney.com.br/business/global/metade-das-empresas-da-fortune-500-sumiram-isso-ensina-algo-sobre-como-lidar-com-ia/) faz um exercício de futurologia um tanto inano e francamente inútil. Comparando as adivinhações sobre IA com documentados fracassos de estratégia, como o Blockbuster, e em como a demora em sua aplicação “certamente” levará a mais e mais fracassos econômicos. O aviso paralelo é que “mais da metade das empresas Fortune 500” de 2000 já não existem hoje. O diagnóstico dessa derrocada é o seguinte:

“Os únicos CEOs que prosperarão são aqueles que constroem com a IA no centro do negócio, não aqueles que a tratam como uma ferramenta adicional de eficiência.”

(Op. Cit.)

Assim, a nova previsão se baseia em um (talvez bom) palpite: a de que a empresa que não ligar a IA umbilicalmente a seu negócio vai naufragar. E Ponto Final. É a nova aposta.

Está correta? Creio que não, mas é, também, a minha nova adivinhação. E não necessariamente melhor. Eu só chamo aqui atenção para o que disse lá no início: fatores aparentemente irrelevantes, um em relação ao outro, como nosso já proverbial Sundae de Limão, podem, ao menos, indicar o que explica certos comportamentos.

Faria diferença reconhecer o streaming mais cedo, no caso do Blockbuster? Dificilmente. Um conhecido perdeu uma fortuna numa lindíssima loja de CDs num shopping em Curitiba, não por imaturidade empresarial (foi um craque durante toda sua carreira profissional), mas pelo fato de não acreditar que uma tecnologia suplantaria outra tão facilmente.

Outros casos não foram tão aparentes, e tecnologias julgadas miraculosas, como o carro elétrico, não tem tido tanto sucesso de suplantar os motores a combustão interna em pouco tempo, muito menos com custos compatíveis.

A velocidade da mudança parece diferir em cada caso, ficando aquelas tecnológicas (que envolvem menos ativo fixo) mais próximas de ocorrer do que as mais “físicas”. O boom das chamadas PontoCom dos anos 2000 veio a ocorrer mesmo quase 20 anos depois. Lojas físicas, que eram dadas como mortas, cresceram e floresceram nesses anos. Ninguém mais acha que os marketplace substituirão as lojas físicas integralmente. CEOs de Bloomingdale`s, R&M, C&A e outras não tiveram o mesmo destino do da Blockuster. Talvez não por serem melhores, mas por terem continuado seus negócios sem ligar pras notícias. Às vezes dá certo, às vezes não.

 

 

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Uma resposta para “Adivinhações e Previsões”

  1. Gostei imensamente de toda a lógica do nosso escritor.
    Só não gostei ao ler no final a “minha empresa, ou do Betinho” estar entre poderosas grifes e que nem eu nem o Betinho sequer sabíamos disso…

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