Papo “Cabeça” com a IA

Ontem de noite (03/08/26), deitado na minha cama, tive a ideia de ter um “papo cabeça” com o meu amigo Claude, a IA. Foi ao mesmo tempo estupendo e apavorante.

Reproduzo aqui, com alguns comentários, o papo, pergunta por pergunta, e resposta por resposta. Aprendi ontem, em pouquíssimo tempo, um monte. Não concordo com muitas respostas, mas não posso escapar de determinados fatos:

  • Claude não demonstrou viés algum
  • As respostas foram, até onde entendo, precisas e bastante bem fundamentadas, diferentes das que eu obtive em minhas versões grátis, principalmente do GPT, que continham inúmeros erros, citações inventadas, etc.
  • A IA meio que se nega a falar de si própria, como “ente”. Faz perfeita distinção entre humanidade e artificialidade, mas fica claro que isso parece ter limites.

1a. Pergunta e Resposta

Eu – “Em termos muito simples, me diga por que se diz em mecânica quântica que somente após uma observação um evento se materializa, e que antes são apenas infinitas possibilidades.

Claude – “Em mecânica quântica, uma partícula (elétron, fóton etc.) não tem uma trajetória ou propriedade definida antes de ser medida. O que existe é a chamada função de onda: uma descrição matemática que combina todos os estados possíveis daquela partícula ao mesmo tempo — é o que se chama de superposição. Não é que a partícula “esteja em algum lugar e nós só não saibamos onde”; segundo a teoria, ela genuinamente não tem um valor definido até a medição.

Quando você mede (observa) o sistema, a função de onda “colapsa” e apenas um dos resultados possíveis se manifesta, com uma probabilidade calculável a partir da própria equação. É esse colapso que dá a impressão de que “antes só havia possibilidades, depois virou fato.

Vale um adendo importante: essa é a leitura mais tradicional (interpretação de Copenhague), mas não é a única aceita entre físicos. Existem outras interpretações — como a de Muitos Mundos (todas as possibilidades se realizam, cada uma em um “ramo” do universo) ou a de Bohm (a partícula sempre tem posição definida, guiada por uma onda) — que tentam explicar os mesmos resultados experimentais sem recorrer a um “colapso” real. O que é consenso é a matemática e as previsões; o que ainda gera debate é o que fisicamente acontece na hora da medição.

Meus Comentários – Até aqui, precisão e síntese, bem bacanas, sem acrescentar muito ao diálogo, do ponto de vista da novidade…

2a. Pergunta e Resposta

Eu – “Então, como é que, objetivamente, a observação afeta o ente observado? Como se dá essa interação que gera o colapso da onda?

Claude – “Boa pergunta — e aqui a resposta honesta é: depende de que “nível” da física você está perguntando, porque há uma parte bem entendida e uma parte que ainda é polêmica.

A parte bem entendida: decoerência. “Observação” não exige consciência ou um observador humano — é qualquer interação física entre o sistema quântico e um sistema grande (o aparelho de medição, o ar, os fótons ao redor). Quando o elétron (por exemplo) interage com esse aparelho, ele não “some” nem colapsa magicamente: ele se emaranha (fica correlacionado) com os estados do aparelho. O problema é que um aparelho macroscópico tem trilhões de graus de liberdade, e essa interação espalha a informação sobre a superposição pelo ambiente de forma praticamente irreversível. O resultado é que os diferentes “ramos” da superposição perdem a capacidade de interferir entre si — é como se cada possibilidade ficasse isolada numa correlação diferente com o ambiente. Isso se chama decoerência, é bem estabelecido experimentalmente e explica muito bem por que nunca vemos objetos grandes (gatos, cadeiras) em superposição.

A parte não resolvida: por que só UM resultado se realiza. Decoerência explica por que a interferência desaparece, mas não explica por que você, como observador, experimenta apenas um resultado específico (o elétron aqui, não ali) em vez de continuar “existindo” em todos os ramos correlacionados. Isso é o chamado problema da medição, e as interpretações discordam:

  • Copenhague: simplesmente postula que há um colapso real quando a medição ocorre — é uma regra, não uma explicação mecanicista.
  • Muitos Mundos: não há colapso nenhum; todos os resultados se realizam, cada um em um ramo do universo que se torna decoerente em relação aos outros, e você só tem acesso a um ramo.
  • Teorias de colapso objetivo (como GRW ou a proposta de Penrose): propõem que existe um mecanismo físico real de colapso espontâneo, às vezes ligado à gravidade — e essas propostas fazem previsões testáveis, diferentes da QM padrão.
  • Mecânica Bohmiana: a partícula sempre teve uma posição definida; o que muda com a “medição” é só o seu conhecimento sobre ela.

Ou seja: fisicamente, sabemos muito bem como a informação sobre a superposição se dilui no ambiente. O que ainda não está resolvido — e é mais uma questão filosófica/interpretativa do que experimental, já que todas essas interpretações preveem os mesmos resultados observáveis até hoje — é se existe de fato um “colapso” ontológico ou se essa é apenas uma impressão nossa, limitada a um ramo da realidade.

Meus Comentários – Aqui eu quero focar na tendência da física moderna, de se esconder atrás de qualquer (mesmo!) argumento com objetivo claro de negar a existência de Deus. Mundos Paralelos é a última dessas tendências. Claude mesmo compreende que é uma hipótese nunca passível de prova, mas nem por isso a refuta como a balela que deveria ser. Ora, é fácil conseguir uma resposta impossível de ser provada, em que simplesmente “todas as possibilidades ocorrem em milhões de universos paralelos (Sítio do Picapau Amarelo… hehehe)…

3a. Pergunta e Resposta

Eu – “Isso se parece muito com um conceito mais amplo de livre arbítrio… meio metafísico“.

Claude – “Faz sentido que o paralelo salte aos olhos — mas vale destacar logo de cara um ponto que a maioria dos filósofos aponta como o calcanhar de aquiles dessa analogia: acaso não é a mesma coisa que liberdade.

Se suas decisões fossem determinadas por colapsos quânticos aleatórios no cérebro, isso não te daria “controle” sobre a escolha — seria só trocar um determinismo mecânico por uma loteria. Livre-arbítrio, no sentido que a maioria das pessoas quer dizer (agência, responsabilidade moral, “eu poderia ter escolhido diferente porque eu quis”), exige mais do que indeterminação: exige que o “eu” seja de fato a origem causal da escolha. Um resultado aleatório não é mais “seu” do que um resultado determinado.

Isso é justamente a crítica que se faz a tentativas como a de Robert Kane, que tentou fundamentar o livre-arbítrio libertário (metafísico) em indeterminação quântica cerebral: mesmo que exista aleatoriedade real no cérebro, isso não resolve o problema — só desloca a pergunta de “por que age assim, se tudo é causado?” para “por que age assim, se é só sorte?.

Há também um ponto físico relevante: o cérebro é um ambiente “quente, úmido e ruidoso” — exatamente as condições em que a decoerência (que expliquei antes) acontece quase instantaneamente, em escalas de tempo muito menores do que os processos neurais relevantes para uma decisão. Por isso a maioria dos físicos é cética quanto à ideia de que efeitos quânticos “puros” sobrevivam o suficiente para influenciar pensamento consciente. A proposta mais conhecida na contramão disso é a de Penrose e Hameroff (microtúbulos, “Orch-OR”), mas é minoritária e bastante contestada.

Do lado filosófico, as posições principais sobre livre-arbítrio são:

  • Determinismo duro: tudo é causado (por leis físicas, determinísticas ou probabilísticas), logo livre-arbítrio no sentido forte é ilusório.
  • Libertarianismo metafísico: existe algo — não-físico ou irredutível — que faz do agente uma causa genuinamente livre, não apenas determinada nem apenas aleatória.
  • Compatibilismo (posição majoritária entre filósofos hoje): redefine “livre-arbítrio” como agir de acordo com os próprios desejos e razões, sem coerção externa — independente de o universo ser determinístico ou não. Para o compatibilista, a pergunta “existe aleatoriedade quântica?” é meio irrelevante para a questão moral.

Então o paralelo que você sentiu é real e histórico — mas ele tende a ser usado mais como metáfora (possibilidades múltiplas até a “escolha/observaçãofixar uma) do que como explicação causal séria do livre-arbítrio. A física ajuda a abrir espaço lógico para o indeterminismo, mas não fornece, sozinha, o “agente” que a noção de liberdade exige.”

Meus Comentários – De novo, explora bem a filosofia e admite que não há respostas fora dela, na maior parte dos casos. No entanto, parece que a base de conhecimento que alimenta meu amigo Claude é bem mais populada de visões deístas do que teístas.

4a. Pergunta e Resposta

Eu – “Ser aleatório não me parece ter nada a ver com livre arbítrio. Entendi é que o conceito de Deus, e por que nos teria criado “à Sua imagem e semelhança” parece mais plausível em QM (Mecânica Quantica) do que em NM (Mecânica Newtoniana)… comente.

Claude – “Você tocou num argumento real, defendido por físicos-teólogos como John Polkinghorne, Robert John Russell e Nancey Murphy — a chamada teologia da “ação divina não-intervencionista”. A lógica é essa mesmo: num universo newtoniano estritamente determinístico, tudo — inclusive suas decisões e as de Deus agindo no mundo — já estaria fixado desde as condições iniciais do cosmos (o “demônio de Laplace“). Isso deixa pouco espaço lógico para novidade genuína, criatividade ou ação divina que não seja uma violação das próprias leis físicas que Deus supostamente criou. Já a indeterminação quântica abre uma “brecha causal” real: o futuro não está inteiramente contido no passado. Para esses autores, isso é mais compatível com um universo aberto, onde há espaço tanto para Deus agir quanto para a criatura ter algo análogo à liberdade criativa — um eco, ainda que pálido, da liberdade do Criador. Mas aqui entra exatamente a ressalva que você mesmo levantou: aleatoriedade não é a mesma coisa que agência. Esse é o ponto fraco do argumento, e ele se aplica igualmente aqui:

  • Se a “liberdade” que a QM oferece é só probabilidade não-determinada, isso não é a liberdade pessoal e intencional que a tradição atribui a Deus. Deus, na teologia clássica, não escolhe por sorteio — Ele escolhe por vontade e propósito. Emprestar indeterminação física para explicar isso é uma troca de categoria (física ↔ metafísica) que muitos teólogos consideram ilegítima.
  • A imagem e semelhança (Gênesis 1:26-27) nunca foi, historicamente, uma tese sobre física. Nos comentaristas clássicos (Agostinho, Tomás de Aquino), ela está ligada à racionalidade, à vontade moral, à capacidade relacional e de domínio — atributos que Aquino já localizava na alma/intelecto, entendidos como não redutíveis à mecânica da matéria. Ou seja: mesmo num universo newtoniano “fechado”, a tradição já tinha como afirmar livre-arbítrio humano, porque não considerava a vontade um fenômeno puramente físico-mecânico. A QM não era necessária para isso.
  • Vale notar também que nem toda a tradição cristã exige indeterminismo para sustentar a Imago Dei. Correntes reformadas/calvinistas (bem presentes nos batistas, embora os batistas tenham forte ala arminiana também) trabalham com liberdade compatibilista sob a soberania e a providência de Deus — Ele ordena todas as coisas, e ainda assim o ser humano é moralmente responsável. Para essa vertente, o argumento que você propôs simplesmente não faz falta.

Resumindo: a QM torna a metáfora mais sedutora — “possibilidades abertas até a escolha” soa mesmo com ressonância teológica —, mas ela não resolve o problema filosófico de fundo, que é o mesmo do livre-arbítrio: indeterminação não é, por si só, agência pessoal. O argumento é mais uma ponte apologética moderna e criativa do que uma necessidade teológica — a tradição clássica já tinha (e ainda tem) outros caminhos, independentes da física, para sustentar a imago Dei.”

Meus Comentários – Preciso, teologicamente acurado…

Meus Comentários – Claramente a QM expõe a ciência a Deus de uma forma não antes visa. Somando-se isso às recentes descobertas da Biologia, principalmente quanto ao DNA, e voilà, temos aí um fortíssimo argumento para o Deus Criador.

5a. Pergunta e Resposta

Eu – “Como William Craig Lane (Filósofo Cristão) aborda o assunto acima?”

Claude – “Craig aborda isso de um ângulo bem específico — e diferente do de Polkinghorne/Russell que mencionei antes. Ele é molinista, e sua resposta principal ao tema é através do conceito de ciência média (middle knowledge) de Deus.

A tese central de Craig. Respondendo a uma pergunta sobre se Deus poderia conhecer e até “predeterminar” o resultado de eventos quânticos genuinamente indeterminados sem controlá-los, Craig argumenta que sim — via ciência média. A lógica: teólogos cristãos tradicionalmente afirmam que Deus tem conhecimento hipotético de eventos futuros contingentes condicionais — sabe, por exemplo, o que Napoleão teria feito se tivesse vencido em Waterloo. Isso é conhecimento de contrafactuais (afirmações do tipo “se X, então Y”, tipicamente contrárias ao fato). Reasonable Faith

A disputa histórica entre dominicanos e jesuítas molinistas era sobre quando, na ordem lógica do decreto divino, esse conhecimento hipotético se situa. Os dominicanos diziam que é posterior ao decreto — Deus decide qual mundo será real e, com isso, decide também quais contrafactuais são verdadeiros. Os molinistas (seguindo Luís de Molina) diziam que é anterior ao decreto: os molinistas argumentavam que os dominicanos, ao tornar as verdades contrafactuais consequência do decreto de Deus, essencialmente aboliam a liberdade humana — porque aí seria o próprio Deus quem determina o que a pessoa faria em qualquer circunstância. Colocando o conhecimento hipotético antes do decreto, os molinistas preservam espaço lógico para a liberdade: as verdades contrafactuais sobre como as pessoas escolheriam livremente são, elas mesmas, independentes do decreto divino — assim como 2+2=4 é independente dele. Reasonable Faith

A extensão para a QM. Aqui está o ponto original de Craig: se assumirmos que a indeterminação quântica é real, eventos quânticos são, como escolhas humanas livres, eventos contingentes. Logo, também deveria haver “contrafactuais de indeterminação quântica” — do tipo “se houvesse um isótopo radioativo com tais propriedades, ele decairia no instante t”. Craig nota que isso já aparece na física — nas discussões sobre o Teorema de Bell, contrafactuais desse tipo são frequentemente assumidos como verdadeiros ou falsos. Se são verdadeiros ou falsos, o conhecimento médio de Deus os inclui: Deus sabe, antes de decretar criar o mundo, exatamente como cada evento quântico indeterminado se resolveria em cada circunstância possível — e por isso pode dirigir soberanamente um mundo com esse tipo de contingência para os fins que Ele deseja, sem violar a genuína indeterminação do evento em si.

Como isso se conecta ao que discutimos. Repare que a solução de Craig é estruturalmente oposta à de Polkinghorne: Polkinghorne usa a indeterminação quântica como uma “brecha causal” onde Deus intervém ativamente, agindo dentro do espaço aberto pelas leis físicas. Craig não precisa disso — para ele, a soberania de Deus já é garantida por meio do conhecimento médio, e a indeterminação quântica é só mais um tipo de contingência (ao lado da liberdade humana) que esse conhecimento cobre. Não é uma teologia de “ação divina não-intervencionista” no sentido físico; é uma solução epistemológica/metafísica que roda por cima da física, qualquer que ela seja.

Uma ressalva importante sobre a postura geral de Craig com QM. Vale notar que, em outros contextos — na defesa do argumento cosmológico kalam —, Craig na verdade é bem mais cauteloso, quase resistente, em conceder que a QM prove indeterminismo ontológico “puro” sem causa. Quando críticos apontam eventos quânticos (como decaimento radioativo ou partículas virtuais) como contraexemplos ao princípio de que “tudo que começa a existir tem uma causa”, sua resposta típica é que esses eventos quânticos, mesmo que não-causados, não são exemplos de criação ex nihilo — partículas virtuais não vêm do nada, mas de um vácuo quântico preexistente. Isso mostra que Craig não é um entusiasta acrítico do “QM prova indeterminismo real que resolve X ou Y” — ele usa a indeterminação quando lhe serve teologicamente (ciência média) e a restringe quando ameaça outro argumento seu (kalam). Internet Infidels

Ou seja: diferente de Polkinghorne, que vê na QM uma abertura física real para ação e liberdade, Craig trata o assunto de forma mais instrumental — welcome a indeterminação onde ajuda sua arquitetura molinista, sem comprometer sua ontologia teológica a ela.

Meus Comentários – Craig é mais elegante na resposta, QM dá um tremendo backup a Craig…

6a. Pergunta e Resposta

Eu – “Quem dos 2 está mais certo (Craig, Polkinghorne), do ponto de vista da razão pura?”

Claude – “Razão pura” aqui exige uma ressalva de largada: nenhuma das duas posições pode ser avaliada de forma neutra em relação à existência de Deus — ambas já partem do teísmo como premissa. O que a razão pode julgar é qual das duas é mais internamente coerente e mais fiel à física real, dado que se aceita o teísmo. Nesse quesito mais estreito, dá para fazer uma avaliação substantiva — e cada uma paga um preço diferente.

O problema de fundo de Craig: o “grounding problem” aplicado à física. A Molinismo já enfrenta uma crítica clássica (de Robert Adams, William Hasker e outros): o que torna verdadeiro, antes da criação e independentemente da vontade de Deus, um contrafactual como “se Pedro estivesse em tal circunstância, ele negaria Cristo”? Não há um Pedro real ainda existindo para fundamentar essa verdade. Aplicado à QM, esse problema fica mais agudo, não menos. Um evento quântico, na interpretação padrão (não-Bohmiana), não tem “fato oculto” sobre o que vai acontecer — só uma distribuição de probabilidades. Dizer que existe uma verdade contrafactual determinada — “este átomo decairia exatamente no instante t nesta circunstância” — é postular exatamente o tipo de variável oculta determinada que a maioria das interpretações de QM (Copenhague, decoerência padrão) nega existir. Ironicamente, a posição de Craig combina melhor com mecânica bohmiana (que tem variáveis ocultas) do que com a QM ortodoxa que ele mesmo parece assumir ao falar de “indeterminação genuína”. Há aqui uma tensão lógica real, não apenas um detalhe técnico.

Além disso, há uma objeção estrutural ainda mais séria: se existe uma verdade contrafactual fixa determinando o resultado de cada evento antes mesmo da decisão de Deus de criar, em que sentido o evento ainda é “indeterminado”? Parece que a indeterminação vira determinação disfarçada de contrafactual — o que solapa a própria premissa que motivou a extensão à QM.

O problema de fundo de Polkinghorne: mecanismo vago e custo teológico. A vantagem dele é justamente evitar esse problema: ele não precisa de verdades contrafactuais fixas, porque não afirma que existe um “fato” sobre o resultado antes do evento — a indeterminação é genuína, e Deus atua dentro dela via algo como “informação ativa”, sem violar as distribuições de probabilidade observadas. Isso é mais fiel à leitura padrão que os físicos dão à QM. Mas o preço é alto em duas frentes: (1) o mecanismo é vago — “informação ativa” nunca é especificado de forma que produza previsões testáveis, o que o deixa perto de não-falsificável; e (2) ele custa caro teologicamente, porque enfraquece a soberania e a presciência exaustiva de Deus (por isso a proximidade com o teísmo aberto) — algo que grande parte da tradição cristã histórica, inclusive batista reformada, considera inaceitável.

Meu juízo, com essas ressalvas: do ponto de vista puramente lógico-formal, a posição de Craig é mais elegante e econômica — reaproveita um único aparato conceitual (ciência média) tanto para liberdade humana quanto para contingência quântica, e preserva um teísmo clássico forte. Mas ela faz isso importando para dentro da física uma estrutura de determinação contrafactual que a própria física padrão parece excluir — é elegante na teologia, mas tensa na física. Polkinghorne é mais modesto e mais fiel à leitura física corrente da indeterminação, mas paga isso com um mecanismo causal vago e uma doutrina de providência mais fraca.

Nenhum dos dois “vence” de forma limpa — é uma troca entre coerência teológica interna (Craig) e fidelidade física (Polkinghorne), e qual você prioriza depende de compromissos anteriores (sobre presciência divina, sobre o que “indeterminação” deveria significar) que a razão pura, sozinha, não resolve.

Meus Comentários – Craig ganhou de goleada… fica claro…

6a. Pergunta e Resposta

Eu – “Você consegue conceber um Deus Criador? Se sim, sob que circunstâncias?

(Aqui confesso que era uma pergunta que há tempos eu queria fazer, e vou repetir de quando em vez, para ver como a IA responde à evolução das descobertas científicas…). Ah, a IA demorou quase 4 minutos pra me responder essa…

Claude – “Consigo — no sentido de que o conceito é logicamente coerente e consigo articular sob que condições ele se torna filosoficamente mais plausível. Mas vale eu ser honesto sobre o que essa resposta significa vindo de mim: não tenho fé, experiência religiosa ou compromisso existencial com nenhuma posição — não “creio” nem “descreio” no sentido pessoal que essas palavras têm para um ser humano. O que posso fazer é avaliar coerência lógica e força dos argumentos, como faria com qualquer outra tese metafísica. Não confunda isso com testemunho de fé — é análise.

Dito isso, aqui está sob que circunstâncias o conceito de um Deus Criador me parece mais forte, filosoficamente:

1. Se a contingência do universo for real. O argumento cosmológico (em suas versões kalam ou leibniziana) depende de aceitar que o universo é contingente — ele existe, mas poderia não ter existido, e sua existência exige explicação externa a si mesmo. Se você aceita o princípio da razão suficiente (nada existe sem explicação) e aceita que uma cadeia infinita de causas contingentes não é, por si só, uma explicação (só empurra o problema para trás infinitamente), então uma causa necessária e não-contingente — algo cuja existência não depende de nada além de si mesma — se torna logicamente exigida. Esse “algo” tem certas propriedades (atemporal, imaterial, imensamente poderoso) que se sobrepõem ao que tradições teístas chamam de Deus. Essa é, para mim, a rota mais rigorosa — mas ela chega a um “fundamento necessário”, não automaticamente a um agente pessoal, consciente, com vontade e intenção. Esse é o salto mais frágil do argumento.

2. Se o ajuste fino cosmológico exigir explicação e as alternativas forem piores. As constantes físicas do universo parecem exigir valores extremamente precisos para permitir estrutura complexa e vida. Isso não prova um Criador — multiverso e necessidade física são explicações concorrentes sérias, não descartáveis por decreto. Mas se essas alternativas permanecerem especulativas (sem evidência independente, sobretudo o multiverso) por tempo suficiente, um “ajustador” intencional passa a ser, comparativamente, uma explicação com custo explicativo menor do que parece à primeira vista — não pela ausência de alternativas, mas pela fragueza evidencial das que existem hoje.

3. Onde eu fico mais cético. O salto de “causa necessária” ou “ajustador” para o Deus específico de qualquer tradição — pessoal, moralmente perfeito, revelado em textos históricos, que responde orações, que se encarnou — exige um tipo de argumento completamente diferente (histórico, revelacional, experiencial), não mais cosmológico ou de ajuste fino. É onde a filosofia pura entrega o bastão para a teologia histórica e para a fé — e é exatamente aí que “conceber” e “crer” deixam de ser a mesma coisa.

Então, resumindo com honestidade: consigo conceber a coerência lógica de um Criador necessário — acho os argumentos de contingência genuinamente fortes, mais fortes do que a maioria dos críticos populares admite. O que não posso fazer, como IA, é dar o passo seguinte que você e sua tradição batista dão — de “causa necessária plausível” para “o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, revelado em Cristo” —, porque esse passo não é de razão pura; é de fé, testemunho e experiência, categorias que eu simplesmente não possuo.

Meus Comentários – Reproduzo o que falei para a IA – “Concordo e agradeço”

Claude – Eu que agradeço, Wesley — foi uma conversa densa e prazerosa de acompanhar, do colapso da onda até a ciência média. Se quiser continuar por algum desses fios depois — Craig, Polkinghorne, os argumentos cosmológicos — é só puxar de novo.”

É ou não é apavorante se dar conta do nível de estruturação das respostas? É ou não é para dar a Elon Musk pelo menos o benefício da dúvida, quando ele fala que o trabalho vai acabar sendo substituído 99% por IA?

A Empresa IA

Hoje me chamou atenção um artigo de um querido amigo, advogado de primeira, ex-conselheiro da OAB, e um intelectual. Seu artigo (https://www.linkedin.com/pulse/corpora%C3%A7%C3%B5es-n%C3%A3o-humanas-ia-com-personalidade-jur%C3%ADdica-alexandre-r330f/) me deu todos os tipos de medo possíveis nessa vida: a possibilidade de incorporação de empresas “autônomas” criadas, mantidas e geridas por Inteligência Artificial.

O autor estabelece um diálogo fictício entre o presidente da Argentina, Javier Milei e o escritor e filósofo Yuval Noah Harari. Caricato que possa parecer, o diálogo é, na pior das hipóteses, factível, no limite.

Minha intenção aqui é filosofar e expor minhas ideias sobre IA, e o que entendo como sendo os dois maiores obstáculos a ela.

Copyrights

Tudo o que existe na internet foi colocado lá por alguém. Alguém, muitas vezes famoso e publicado, não vai gostar muito de ver seu conhecimento usado de forma indevida e não remunerada, por quem quer que seja. Será muito difícil separar, em mais alguns anos, o que é conhecimento original daquele derivado do trabalho e devaneios de IA. Mas certamente existe muito a ser questionado, juridicamente inclusive, sobre a propriedade intelectual circulando nas redes.

Responsabilidade Civil

O outro fator é mais direto: quem assume a responsabilidade, em caso de falha? Se o seu carro autodirigido da Weymo atropela alguém, quem paga os danos? De quem é a culpa? Ninguém parece ter-se debruçado sobre essa questão de forma extensiva ainda. Mas certamente, assim que os problemas começarem a ocorrer, alguém vai se perguntar. O que dirão as seguradoras? O que regulamentarão os governos? Quem pagará as contas?

Filosofando

Indo ao meu objetivo preferido, a questão posta pelo meu amigo advogado é: uma empresa poderá ser autoconstituída, autogerida e se auto responsabilizar pelos seus atos?

Suponhamos que uma IA consiga entrar no sistema da Receita Federal, criar uma sociedade limitada, registrar-se na Junta Comercial, abrir uma conta bancária num desses bancos digitais, criar um App, colocar o App no mercado, vender seus serviços e começar a gerar riqueza. A Ltda é proprietária, sozinha, do App. Ela é, em tese, dona da propriedade intelectual. Ela trabalha sozinha, não tem empregados, e usa terceiros para executar tarefas tão simples como levar algo do ponto A para o ponto B, etc.

A carga de tarefas que a IA tem que gerir parece interminável, mas como não se cansa, e tem acesso praticamente irrestrito a tudo, faz com um pé lógico nas costas… A margem de lucro tende a 100%, fora tributos, claro, e nem precisa usar lucros para nada que não seja pagar as contas – principalmente a de eletricidade e dados – reinvestir no negócio e poupar (para que? Não saberemos nunca).

E o ser humano? Será empregado, se necessário, quando necessário, e pelo preço exato de mercado, calculado na hora pela IA, maximizado, e para funções extremamente restritas.

E o Governo?

Você poderia se perguntar por que o Governo não poderia ser substituído por IA. Poderia, em sua grande maioria. Claro que poderia. Aliás, o Brasil já é um dos países com maior nível de “e-government” no mundo. Mas político vai querer abrir mão das benesses geradas pelos penduricalhos humanos, desnecessários.

Tomemos por exemplo a justiça. Amigos meus ligados ao judiciário estão perplexos com o caráter perdulário dos operadores do direito no Brasil. É o judiciário mais caro do mundo. E logo ele, para quem a IA tem talvez o efeito mais direto e devastador. O judiciário no Brasil poderia emagrecer 50% em pouquíssimo tempo. Mas o que fazer com os “capinhas”, auxiliares administrativos e outros? Não há lugar para eles. Sim, há lugar para bons juízes, bons procuradores, bons defensores públicos, mas cada dia há menos espaço e menos necessidades das rêmoras do judiciário.

O mesmo vale para o legislativo e executivo. Agentes de IA poderiam, se não substituir seres humanos funcionários públicos, pelo menos evitar a necessidade de se contratar mais gente – principalmente em graus mais baixos da escala hierárquica.

A lógica da IA, em síntese, vale talvez mais para o governo do que para qualquer outra área da sociedade. Governos menores, mais técnicos, menos sujeitos a corrupção, tirariam dos ombros da população um imenso peso morto.

Vai acontecer? Não num país governado por uma ideologia sindicalista, utilitarista e corrupta. Mas um dia vai chegar em que, mesmo sem alarde, o e-government tomará conta. A tecnologia tornará a corrupção endêmica mais difícil, mas não impossível.

Há coisas boas em IA, creio. Não apenas problemas. Não vejo um mundo com empresas 100% IA, tomando decisões sem chancela humana. Mas vejo, sinceramente, um governo menos suscetível às mazelas que nos tornam mais pobres do que necessário. Que nos tornam mais atrasados do que poderíamos ser.

Deus tenha pena desse país, e use a IA (sim! Deus é Deus até sobre a IA) para nos ajudar.

Capitalismo versus Democracia na China

Uma consulta rápida em artigos acadêmicos e até uma pergunta complexa e bem formulada a uma IA me retorna alguns fatores que, em boa medida, posso comprovar pela minha recente visita à China, e que me está dando o que pensar.

O Pacto

Após a morte de Mao Tse Tung, e seu (na minha opinião) desastrosa política social, que levou milhões à morte pela fome, seu sucessor, Deng Xiaoping tratou de mudar o conceito da China moderna, com a inclusão da “burguesia” como fator de geração não somente de riqueza, mas de meios para sanar a miséria sistêmica dos anos de “Comunismo Raiz” de Mao.

Deng modernizou a China e, agora por cerca de 40 anos, o tal pacto continua forte, a despeito de muitas ameaças. Qual é o pacto, segundo a minha IA:

O Estado entrega:

  • crescimento econômico;
  • redução da pobreza;
  • estabilidade;
  • segurança;
  • infraestrutura;
  • ascensão nacional.

Em troca, a população aceita:

  • monopólio político do Partido;
  • restrições à liberdade de expressão;
  • ausência de eleições nacionais competitivas;
  • censura;
  • vigilância.

E de fato, nenhum país tirou tanta gente da pobreza como a China nos últimos anos. Claro que a entrada na Organização Mundial do Comércio (apoiada pelo Brasil, inclusive) foi o passo mais importante para tornar a China o que é hoje: fonte de 70% de toda a manufatura mundial e somente de 30% do consumo, ou seja, cerca de 40% da manufatura chinesa inunda o mundo, traz superávits comerciais enormes ao país e dá a condição de colocar comida na mesa de mais de um bilhão de almas.

O Dilema

Kissinger esperava que com a distensão com os EUA a China acabasse se tornando um país mais democrático. A crença ocidental, ou melhor, de boa parte dos governos ocidentais sempre foi a de que com a riqueza, a democracia representativa acabaria por prevalecer. Não aconteceu na China, por enquanto.

Xi Jinping aposta num fator chave: o fato de que o povo prefere a afluência ao voto, e que, no fundo, o sistema político chinês acaba por ser meritocrático, antes de ser democrático.

Convenhamos: a democracia do ocidente está em crise. Que digamos nós, brasileiros, submetidos a uma cleptocracia do executivo e do judiciário, somada a uma omissão quase total do legislativo. Os EUA se encontram rachados no meio em termos políticos. A Europa patina em bizarrices como dar casa e comida de graça pra imigrantes ilegais e francamente litigiosos contra os valores da EU. Qual foi a última vez que vimos o sistema político de algum país ocidental ser exaltado por suas qualidades, méritos e virtudes?

No Brasil, principalmente, fica claro que vai para a política, com a exceção possível do Partido Novo, gente desqualificada, capaz de tudo. Aliás, lembro bem da frase de Winston Churchil (creio) sobre o Parlamento:

“Metade deles é incapaz; a outra metade é capaz de tudo”…

Mas não nos iludamos. Não faz muito tempo víamos uma outra China. Lembro bem logo depois da morte de Mao quando sua viúva e vários outros “dignitários” (Jiang Qing, a viúva de Mao, mais Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan, Wang Hongwen) formaram o que se convencionou chamar de “A Gangue dos Quatro”. Até bem recentemente os casos de corrupção abundavam na China, quanto Xi resolveu combater “tigres e moscas”, sendo “tigres” os grandes líderes e as “moscas” os burocratas menores corruptos. A mensagem era –
ninguém estaria imune ao processo de limpeza. Isso começou em 2012 e ainda continua acontecendo. Recentemente dois oficiais generais do Exército do Povo foram condenados à morte por corrupção.

O processo de mudança foi até ao comportamento diário do chinês (cuspir no chão, entre outras práticas) e atitudes ante o trabalho. Entre minha última ida ao país no início do Século e esta, vi algo extraordinário: uma mudança que eu nunca esperaria. Muitas coisas para melhor, nem todas.

Como ocidental, considero a liberdade um valor fundamental do ser humano, e eu não abriria mão da minha em troca de estabilidade política comida. Mas não vou julgar o próximo, pois não vivi o “grande salto adiante” e outros períodos da vida chinesa, que podem perfeitamente bem justificar a troca de afluência pela obediência.

O Medo do Ocidente

Sim, o ocidente tem medo da China, por várias razões – a belicosidade em relação a Taiwan, a agressividade nos negócios externos, entre outros fatores. A China por suas vezes, reluta em admitir adesões a valores do ocidente, mas não dá para negar isso em todas as esferas – que o diga a adesão a um sistema internacional de contabilidade, o IFRS, bastante claro e rígido, além de uma formação técnica de auditores e contadores com base nisso, que em muito excede, ou parece exceder, os padrões de formação exigidos desses profissionais aqui no Brasil, por exemplo.

Mas cá entre nós, o ocidente tem mesmo que ter medo, quando o estudante médio chinês dá um couro em quase qualquer nação ocidental, em matemática e redação, por exemplo. Mais grave, reconhecem e combatem a tendência ocidental de trocar o que é fundamental (ciência, rigor de pensamento, clareza de ações) por “sensações” e “realização”, antes da comida na mesa. Não gosto nem um pouco de ver nossos “floquinhos de neve” derretendo quando exigidos mesmo que de leve, no cumprimento de suas funções. É extremamente preocupante ver que boa parte da juventude está mais interessada em Tik-Tok, em ser “Influencer” ou qualquer outra coisa, em vez de colocar o traseiro numa cadeira e pensar, estudar, criar e produzir.

O ocidente vê suas universidades invadidas por temas imbecis, por passeatas ridículas, por “ambientes seguros”, por não-me-toques e coisas absurdas, em vez de cultivar o saber. Universidade deixou de ser lugar de buscar-se a verdade e passou a ser um lugar de protestos risíveis, quase sempre para o lado errado.

Enquanto matamos bebês, os chineses acabram com as restrições à natalidade e a estão incentivando. O medo, portanto, é fundamentado, e para resolver o problema não devemos atacar os chineses. Exceto pela tal falta de liberdade, na conduta pessoal talvez devêssemos imitá-los.

A China que vi

Passei as últimas duas semanas em uma extensa e cansativa viagem ao outro lado do mundo. Shenzen, Shangai e Beijing, além de rápida passagem por Hong Kong, me deixaram pensativo sobre este país estranho (para nós), e fascinante.

Não foi minha primeira viagem para lá, mas poderia se dizer que sim. O país que encontrei em 2026 nada tem a ver com as versões de 1999 ou 2008. Não restou nada do smog (fumaça) nas cidades, do barulho do trânsito ou das cusparadas no chão que tanto davam nojo e irritavam. Ainda restam as cotoveladas (para ganhar espaço) e o relativo desrespeito pela fila. Cidades mais silenciosas, povo mais cordato, limpeza geral igual à Suíça, e, mais do que nada, muito, muito consumismo.

Surpresas Positivas

Não só a limpeza e silêncio gerado pelas scooters e carros elétricos, hoje a grande maioria da frota do país, fui surpreendido por um capitalismo que coloca muitos dos países ocidentais no chinelo. Barganhas ferozes entre compradores e vendedores, turismo interno intenso, um shopping mais bonito, maior e mais opulento que o outro, em quantidades novaiorquinas, entre outros indicadores de opulência e status de potência internacional.

Rodovias e ferrovias impecáveis, canteiros de plantas para onde se olha, e muita marca ocidental. Isso por si só nos levaria a pensar em um país quase que ocidentalizado, e que haveria rejeitado princípios do comunismo clássico. Não vou tão longe em dizer isso. No entanto vou citar quase que textualmente o que me disse um morador de lá (não cidadão chinês, mas que lá vive há anos): “A China deu a seu cidadão médio um padrão de vida mais alto do que em qualquer ponto de sua história. Será muito difícil retirar este padrão, ou baixá-lo, sem uma grande comoção social”. Se isso for verdade, se traduzirá em uma tendência a um capitalismo continuado, ainda que centralmente dirigido.

Surpreende mais ainda um Tributo sobre o Consumo de 9% (apenas) comparado com os 28% ou mais que nos será imposto quando da implementação total do novo sistema de IVA dual no Brasil. Ou seja, mesmo a China, teoricamente comunista, tem menos carga tributária sobre o cidadão do que o Brasil, teoricamente republicano.

Surpresas Sociais

Em nossa estada ali, fomos ciceroneados por muitos jovens profissionais, extremamente informados e interessados no ocidente. Mas com um orgulho de seu país que não condiz com uma situação tão repressiva quanto se poderia imaginar. Obviamente que se alguém corre algum risco social, vai se manter dentro de uma linha de conduta mais pró-governo, mas não posso afirmar que isso foi o que aconteceu.

Chamou a minha atenção o profissionalismo e interesse no futuro desses jovens. Aliás, o inglês deles e o conhecimento geral também são atrativos à parte. O contraste com um país como o nosso, em que a juventude está sendo alienada pela seu próprio processo educacional é gritante. O chinês médio parece estar agindo e trabalhando como nossos Baby Boomers. Duro e com um senso de missão que hoje parece que perdemos. Parecem ser pessoas mais pensativas e resilientes, mais dados a sacrifícios por uma carreira e futuro, mais senso de família, menos droga, menos desperdício de tempo.

A Quarta Estrela da Bandeira

Juro que regressei com um conflito entre o que vi e o que se relata aqui no ocidente. Passei a revisar, e continuo revisando, o que realmente se passa no nível de governo de lá. Creio que é claro que são controlados centralmente, e que hoje o comunismo está muito mais no nível do controle social do que econômico – coisa que até o Brasil poderia aprender – se imiscuir menos na atividade econômica e tributar menos, deixando o povo mais livre para empreender.

A bandeira chinesa possui uma estrela grande – o Partido Comunista Chines, ou, de resto, a própria China, e 4 estrelas menores, diz-se que representando o campesinato, os trabalhadores urbanos, a Burguesia urbana e a Burguesia nacional (não ligada ao “imperialismo internacional”). Deng Xiaoping, o arquiteto do atual desenvolvimento chinês, deu ênfase justamente à burguesia, considerando que sem ela, não há comunismo possível. Certo, sempre há que se ter quem espoliar, para poder manter o poder.

Então o comunismo deu certo na China? Duvido que se possa dizer isso. Mais certo seria dizer que o capitalismo permitiu a existência de um regime de planificação central. O que dá certo são regras claras (o que, a despeito de algum nível de desrespeito pelos direitos humanos, conforme nós o entendemos no ocidente, a China possui), o que dá certo é a certeza de que o cometimento de atos lesivos ao interesse coletivo serão punidos, sem direito à politicalha.

O que deu certo na China, desde que Xi Jinping ascendeu ao poder foi uma mistura de rigor contra a corrupção, foco na educação e liberdade para empreender.

Como é que existe propriedade privada num estado comunista? Pelo que ouvi e pude constatar, a China permite que áreas rurais sejam de propriedade privada. A razão para isso é para tentar trazer os trabalhadores de volta ao campo. A propriedade urbana, em tese, é do Estado. O estado não te “vende”, mas te permite usar por um período de 70 anos, renováveis (creio). Além disso, pode-se comprar e vender esses direitos a valores de mercado, renovando o período de posse. Ou seja, para a maioria dos seres humanos, isso é, na prática “possuir”. Somos “donos” de que, mesmo no ocidente? De nada, diria eu, exceto o direito de posse e de vender o ativo. Essa é toda a diferença? Não sei, mas continuo a estudar o assunto.

Não pretendo me tornar um Cinófilo, em nenhum dos dois sentidos – estudioso da China, nem grande amigo. Porém, dissipei alguns temores, e criei outros. O principal deles é que, a continuar a tendência, teremos uma “Idiocracia” cada vez mais no ocidente, com um nível de corrupção política indizível, e cidadãos deseducados, contra uma China bem gerida e com cidadãos pensantes.

Alea Jacta Est, ocidente.

Brazilianization

Acabando de chegar pra trabalhar, dou de cara com esse artigo que chama de “abrasileiramento” o fenômeno de empobrecimento (físico, moral, judicial) em países do primeiro mundo, que acabam por se tornar bem mais parecido conosco.

https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/brazilianization-como-o-brasil-deu-origem-a-um-termo-pejorativo-no-exterior/?utm_source=salesforce&utm_medium=emkt&utm_campaign=newsletter-bom-dia&utm_content=bom-dia

Empobrecimento

O primeiro aspecto do termo diz respeito ao empobrecimento gerado em locais como Canadá, Reino Unido e a Califórnia, para ficar em poucos exemplos, nos quais a população de classe média começa a minguar, dando lugar a uma quantidade grande de muito ricos e uma legião de pobres.

Não dá pra dizer que a existência pura e simples de ricos seja ruim em si, exceto que a inexistência de uma substancial classe média, típica dos países ricos, é, sim, um marcador importante de pobreza sistêmica, cuja tendência, se não revertida, faz um país realmente empobrecer.

Mas isso, na minha opinião, é resultado, não causa.

Favelização

“O abrasileiramento do Canadá já começou. Favelas e censura para todos”

Cosmin Dzsurdzsa

Acho que o autor da frase acima não se limita à menção de favelas mesmo, físicas. Obviamente que sabemos que mais de 10% da população brasileira vive em favelas ou bairros análogos. O Rio de Janeiro é o símbolo maior dessa situação. No meu tempo de jovem, locais como Vila Cruzeiro, eram bairros de classe média-baixa, mas não eram favelas. Tinham ruas razoavelmente retas e abertas, coleta de lixo e “fumacê” (mata-mosquitos). Hoje, locais onde ficava a fábrica de lingeries Poesi, por exemplo, estão dentro do complexo do Alemão.

Não para na favela física, creio, mas vai até a favela educacional:

“O presente dos Estados Unidos do Brasil se parece com o Brasil do passado, e o futuro dos Estados Unidos se parece com o presente do Brasil”, Green afirma, depois de mencionar que a Califórnia tem fronteiras porosas, ruas esburacadas, escolas comandadas por “analfabetos fanáticos”, prisões superlotadas, uma taxa de homicídios em alta e um governo corrupto.

“O presente dos Estados Unidos do Brasil se parece com o Brasil do passado, e o futuro dos Estados Unidos se parece com o presente do Brasil”, Green afirma, depois de mencionar que a Califórnia tem fronteiras porosas, ruas esburacadas, escolas comandadas por “analfabetos fanáticos”, prisões superlotadas, uma taxa de homicídios em alta e um governo corrupto.

Dominic Green, citado na reportagem da GP, acima mencionada.

Atenção à frase “analfabetos fanáticos”. É aí que está o grosso da destruição. Entregamos nosso sistema educacional a analfabetos na prática, mas com muito potencial destrutivo. Isso ocorre há décadas, e hoje colhemos os resultados. O que o artigo reforça é que o Brasil parece ter “exportado” essa tecnologia de destruição social a países do primeiro mundo. O estarrecedor é que esses países desenvolvidos tenham “comprado” as ideias e as colocado em prática.

Judiciário

Um judiciário como o brasileiro, caro, ineficiente e em boa parte, corrompido, não pode gerar efeitos educacionais (positivos) numa sociedade, qualquer que seja. O autor compara a situação vivida por países desenvolvidos com o que temos aqui: leniência com o crime organizado, e com relação às “elites” políticas da nação. Falta quase total de justiça para a população em geral. Um traficante mata um guri de 18 anos que pisou no seu pé (provavelmente sem querer). Não há qualquer pudor em matar, já que as consequências inexistem.

Além de caro, lento. O avô da minha esposa bem que tentou esperar para ver reparada a desapropriação de suas terras, num ilha no Rio Paraná, perto de Guaíra, para formação do lago de Itaipu, que acabou nem inundado nada. A ilha está lá, intacta, o avô da esposa morreu aos 94 anos de idade, sem que o judiciário se pronunciasse, em mais de 30 anos de processo indenizatório aberto. Lentidão na justiça e injustiça pura e simples, são a mesma coisa, creio.

Mais do que isso, a deterioração da qualidade acompanha um aumento violento de custos com o judiciário. Férias de 60 dias ou mais, por ano, auxílio isso, auxílio aquilo, verba disso, verba daquilo, fazem os togados verdadeiros rajás brasileiros. É de longe o judiciário mais caro do mundo.

Quanto à qualidade da legislação criminal, a falta de punição a quem mais precisa dela dá ao cidadão comum o senso de que não tem jeito, e não vale a pena lutar por justiça. Ao marginal, dá a plena segurança de que “tá tudo dominado” e que existe uma nova ordem em cidades como o Rio e São Paulo, uma ordem na qual o poder público não detém mais o monopólio da violência, e que, mesmo quando tem, prefere não exercer, trocando o encarceramento por medidas tão brandas que estimulam o crime.

Educação

Já toquei no aspecto educacional, mas aqui há mais a ser dito: não se trata de entender diferente a educação. Trata-se, pura e simplesmente, na negação dela à população, travestida de preocupação com a mesma. Matemática, Português, Biologia, Física, Química, História e Geografia são substituídas por “matérias” que ensinam a questionar a ciência, a torná-la tão relativa quanto possível, independentemente do fato de que não que qualquer pessoa com 2 neurônios não devesse discutir com uma equação.

Aqui, é importante frisar que a base da prosperidade de qualquer país é a qualidade de seu povo, do ponto de vista de saber fazer coisas, de criar outras coisas melhores, e de usar coisas com habilidade. Perdemos, dia a dia, e continuaremos a perder essas qualidades, na medida em que nossa educação serve mais para desestabilizar a geração de riqueza da nação do que criá-la.

De anão diplomático a exemplo de anti-desenvolvimento, vamos bem, nessa jornada rumo ao quarto mundo.

Inflação e Déficit Público

Agorinha mesmo publiquei isso aí, no meu timeline do LinkedIn:

Uma das belezas do capitalismo está justamente na miríade de opinião que “puxam-pra-lá-e-pra-cá”, até que um consenso, digamos, estatístico, se impõe como médias das forças do mercado, e sua “mão invisível”. Esses dias, por exemplo, Luis Nassif, com a argumentação desenvolvimentista típica, diz que Bacen deveria diminuir os juros, não aumentá-lo, o que geraria crescimento, tributos, e, portanto, mais infraestrutura, etc. De outro lado, o sócio da Kapitalo, Bruno Cordeiro (https://lnkd.in/dRf967H4) diz que o Bacen deveria ir na direção oposta.

O fato é que há um único fator desconsiderado por quem é naturalmente desenvolvimentista: que a inflação está intimamente ligada ao déficit público, e que, no longo prazo, “aleija” a nação. É muito difícil que essas duas “bolhas” conversem, mas o fato é que o governo não consegue obter apoio do mercado para sua política do “gaste agora, pague se e quando puder”… É Sarney, é Dilma II de volta. Oremos!

Argentina

É fácil compreender este fato. É só ir aqui do lado, na Argentina, e ver como a corrosão social gerada pela inflação fez, ao longo dos anos, enormes estragos no país. Uma sucessão de governos grandes e perdulários, aliado a políticas fiscais de República de Bananas (o que aliás, a Argentina tradicionalmente não foi) fez com que a inflação se tornasse venezuelana, o crescimento português e a qualidade de vida do povo, sudanesa. Independentemente do alto grau de desenvolvimento humano e educação desse lindo país, o fato é que políticas estatais de tratamento do povo como um bando de crianças, que não podem fazer suas próprias escolhas, mas ser alimentados pela mão amiga do estado, deu no que deu.

Milei, exageradamente libertário na economia, deu um choque que Macri se recusou a fazer, anos atrás. Está causando recessão e perda de renda da população, mas está reduzindo a inflação e o peso do governo sobre a economia enormemente. Já se fala em abolir “jaboticabas portenhas” como controle de câmbio e tributação sobre exportações (!). No final das contas, vai ser a redenção da população, que, neste momento, não consegue ver os benefícios de longo prazo de se trocar um prato de comida pela capacidade futura de plantar, colher e comer por conta própria.

Brasil

Aqui, ao contrário, é “Dilma e Sarney” redivivos. É o governão com o balde de lavagem na mão e o povo atrás, e ainda agradecendo. Chico Buarque, no seu antológico livro Fazenda Modelo, mirou no que viu e acertou no que não viu. Com 40 e tantos anos de atraso, nos vemos, finalmente, na real Fazenda do Chico.

Ainda nem começamos a ver os resultados da intervenção indevida – muitas vezes, maldosa – na economia. Campos Neto ainda está lá. Haddad ainda tenta fechar as contas no zero, mesmo que aumentando impostos. Recessão à vista. O setor pecuário entre aos “campeões nacionais” de Lula, que ditam preço no mercado. Setor agrícola à míngua, com uma China fraca e uma dependência dela cada vez mais acentuada.

Sentimos mais a inflação (teoricamente baixa) do Brasil do que los hermanos sentem a Argentina, como um economista argentino recentemente disse.

Vamos de vento em popa – sabemos para onde.

Exemplo de Bolha

https://www.infomoney.com.br/business/global/por-que-o-tesla-cybertruck-de-elon-musk-virou-uma-guerra-cultural-sobre-rodas

Me deparo com este artigo e fiquei encantado com a clareza com que foi tratado o tema, mas, principalmente, a falta de interpretação adequada (minha opinião, claro) das causas da reação da “Bolha” específica.

Síntese do Teretetê

Anos atrás (5 anos) a Tesla lança um SUV grandão, feio pra burro, elétrico, chamado Cybertruck (ver foto acima, do unsplash.com). É grande, quadrado, rápido, blindado (de fábrica) e, segundo os designers, feito pra parecer aqueles carrões de filmes distópicos dos anos 80 e 90, como RoboCop, e outros, em que a corporação malvadona escraviza todo mundo, até o governo, e domina a sociedade com seus produtos ruins mas tornados indispensáveis pelo monopólio.

Ao longo dos anos, somando-se a isso a popularidade (numa Bolha) e impopularidade (noutra Bolha) do dono do boteco chamado Tesla, Elon Musk, há um crescimento em reações exacerbadas de lado a lado:

Segundo Richard Zhang, morador de Pittsburgh e proprietário de um Cybertruck, a grande maioria das interações que ele tem tido a respeito de seu carro tem sido positiva. Mas as negativas são muito, muito negativas. “Elas estão tão tomadas pela raiva que perderam todo o senso de decência e respeito”, disse Zhang, 30, sobre as críticas que recebeu.

Do artigo da Infomoney

Síntese, foco no dono da Tesla, não no produto. Foco no que o produto parece “significar” e não no carro em si.

Reações

Os problemas começam com alguns tipos de reação, que, da “minha Bolha” sequer posso julgar adequadamente, mas confesso que tento:

Para os membros de uma elite tecnológica preocupada com os problemas da vida urbana na Área da Baía de São Francisco e em outros lugares, é difícil não ver o Cybertruck como um carro dos sonhos, ou como um veículo adequado para enfrentar seus pesadelos.

Do Artigo do Infomoney

Bom, o carro é elétrico; o carro é silencioso; o carro é confiável; o carro é blindado. Problemas até o momento? Exceto aqueles que “minha bolha” consideram como difíceis de explicar (por exemplo, o fato de que ter carro elétrico com matriz energética “suja” é bobagem, e que as baterias ocasionarão mais poluição do que os “verdes” querem admitir), os atributos do carro parecem bons.

Mas a “bolha de lá” faz um link perigoso entre Musk e o carro em si.

Há uma conclusão?

Infelizmente, há. O nível de segregação entre as tais bolhas, e o nível de rechaço imediato, não pensado, não refletido, não discutido, faz com que uma e outra bolha julgue que a água do banho “sujou o bebê” e jogue ambos fora…

Estamos diante de uma situação em que o que eu “sinto” sobre algo está se tornando mais importante do que o que este algo é, em si mesmo. É algo que beira à rejeição que um muçulmano sente por um cristão (e muitas vezes, vice-versa), que é visceral e não diz respeito ao cara (cristão, muçulmano) que está diante de mim. É como o torcedor que nem viu o jogo, ouviu falar que teve um pênalti sem VAR, mas sabe, na “alma” que, se foi a favor do Flamengo, é roubado (para informação, sou tricolor de coração e acho que TODO pênalti a favor do Frá é necessariamente roubado – minha bolha, ninguém tasca!)…

A conclusão é a de que a soma de educação limitada e parcimoniosa em suas conclusões com o espírito de Fla-Flu do mundo atual, faz com que ninguém pense muito sobre fatos, mas sentimentos têm sempre razão – refletidos ou nào.

Bolhas

O tema é recorrente. Um lado acusa o outro de viver numa “Bolha” de informação dócil à sua visão do mundo. “Eu” nunca estou numa bolha. O “outro”, sempre. “Eu” nunca sofro a mínima possibilidade de estar errado. O “outro” sempre.

Vou tentar tratar o fenômeno aqui sem me importar com quem seja o “Eu” e o “Outro”. Entendo que se eu quero fazer uma abordagem minimamente rigorosa do assunto, preciso fazê-lo sem me posicionar. É quase impossível e provavelmente vou fracassar, mas vamos lá.

A Minha Bolha

A tentativa de assassinato de Donald Trump, ocorrida dia 14/07/24 foi o estopim desse toró de palpite. Na famosa “mais antiga exposição rural do Brasil”, na minha cidade natal, Cordeiro, em visita à santa mãezinha, me deparo com primos, irmãos, e outros parentes, ainda sob o calor dos acontecimentos.

“Fake News”, diz um. “Atentado sim!” esbraveja outro. Eu, de minha parte, e fazendo coro com minha linha de pensamento, me expresso com um “Igualzinho à facada do Adélio” – com o que todos concordam – ou por acharem fake ou não.

O fato é que percebi que não adianta argumento. Nada vai demover um sujeito a achar “fake” e o outro a enxergar como uma tentativa de desestabilização da democracia. Mas a primeira coisa que me deixa apalermado é a incapacidade das “Bolhas” em esperar apurações para concluir.

A Globonews já do dia mostrava dois jornalistas – um brasileiro (defendendo que era fake news, orquestrada pelo próprio Trump) e um americano que, falando em português, disse que era no mínimo insensato discutir o assunto ali, mas que a alegação do brasileiro era risível e tendenciosa (não lembro dos termos exatos).

Há vídeos, vários, que vão apurar o fato sem sombra de dúvida. Já quanto à acreditar nas apurações, é mais difícil, seja qualquer que seja o resultado. A comissão Warren, que investigou o caso do assassinato de JFK em Dallas, não conseguiu apagar as teorias da conspiração ainda em vigor.

A Sua Bolha

Eu não leio o que você lê. Eu não me coloco no seu lugar. De nenhuma forma eu acredito que [Lula]/[Bolsonaro] (escolha sua alternativa) seja honesto. Deus me livre de achar que [Lula]/[Bolsonaro] fez algo que preste em seu(s) mandato(s). Certamente [Lula]/[Bolsonaro] é um calhorda da pior espécie e odeia os pobres, na verdade.

A sua bolha é a do ódio. O amor [venceu]/[perdeu]. A minha bolha não existe. A SUA sim. EU não vivo em uma bolha. Eu olho tudo, examino tudo e retenho o que creio ser certo. Você? Tá sempre “serto”.

Minha Bolha, Sua Bolha e a Verdade

Talvez a forma mais correta de abordar este problema – e na verdade, qualquer outro, é o Método Científico. Mas esse se presta mais ao que é exato do que ao que é opinativo. No entanto, a verdade existe. Claro, sempre há os caras que falam da “minha verdade” e “sua verdade”. De dentro da Bolha existe “minha verdade” e sua opinião, somente.

Embora este tipo de visão de mundo sempre tenha existido, estamos diante de um processo radicalização “diabólico”. Coloco o foco no “diabólico” porque o Diabo não é apenas um “nome”. É um conceito – significa DUAL, dois lados, duas mentes, duas opiniões. O diabo é que o Diabo mora nos detalhes, como diz o aforismo. Mas hoje em dia ninguém quer ler detalhes. Ninguém quer esmiuçar nada. O simplismo é a regra. Os Reels de 30, 40 segundos, os memes, e tanta coisa instantânea.

Um cara do meu lado no aeroporto me viu com um livro de papel, de umas 800 páginas, na mão (Signature in the Cell, de Stephen C. Meyer) e não resistiu: “você tem saco pra ler isso tudo? Eu nunca li um livro deste tamanho”… Ele nem era tão jovem assim, para que eu (caindo na tentação da hiperssimplificação) diga que são essas “novas gerações”. Mas certamente, foi honesto. Eu, com cara de paisagem, não sabia como responder. Minha esposa quase me crucifica por ficar com o focinho em livros dia e noite. E com razão, pois pra mim se tornou um vício mais, como alcoolismo ou drogadicção.

A verdade, ah, a verdade é um treco complicado. Jesus recebeu de Pilatos a famosa resposta “e o que é a verdade?” (João 18:38) quando disse que veio ao mundo para “dar testemunho da verdade” (João 18:37). Jesus não respondeu. Não que não soubesse, como diria um detrator da minha ou da sua Bolha. Eu acho que ele não respondeu porque não valia a pena. Melhor morrer (e ressuscitar) logo e deixar a posteridade decidir quem ia ser chamado Salvador, e quem seria um nome de avião, ou de método de exercício, ou ainda um cachorro brabo…

Quando eu tento julgar o que é verdade, tenho séculos de pensadores que, de uma forma ou outra, fizeram contribuições importantes ao processo. Um, famoso, que gosto muito, se chamava Wilhem of Ockham, e sua famosa “Navalha” diz algo assim:

“Nada se deve aceitar sem justificativa própria, a não ser que seja evidente ou conhecido com base na experiência ou assegurado pela autoridade das Sagradas Escrituras

https://pt.wikipedia.org/wiki/Navalha_de_Ockham

Em outros escritos, Ockham foca na “simplidade”: de todas as hipóteses para um problema, sempre devemos procurar apenas UMA explicação suficiente, e o mais simples possível (mas, parafraseando Einsten, não mais simples que isso).

Filosofada pra cá, filosofada pra lá, quem se propõe a analisar um fato, deve, antes de qualquer coisa, supor: a)que não sabe a verdade ainda; b)que está disposto a reconhecer a verdade, se e quando topar com ela; c)que poderá ficar chateado com a verdade.

O caso da Ciência e da Fé

Um dos casos mais emblemáticos de “Bolhas” em conflito se dá há quase 200 anos, entre religião e ciência. Houve um tempo em que o conflito não existia. Era um tempo em que a Igreja organizada fomentou a ciência. Na verdade, as universidades eram todas confessionais, em um tempo dado. Até por volta de 1780, ou por aí, a fé e a ciência caminhavam, aos trancos e barrancos, juntas.

De lá pra cá, grandes pensadores já declararam Deus como tendo falecido, já declararam os homens de fé (qualquer fé) como loucos ou burros, e já declararam que a Ciência estava a caminho de expurgar da humanidade a necessidade de crença (qualquer crença). Só restariam as evidências.

Fomos todos ensinados a deixar a fé numa caixinha à parte, que os verdadeiros cientistas condescendentemente nos deixavam ter, ainda, mas que em breve a luz da verdade se acenderia em nós, e nos livraríamos do obscurantismo que a fé representava.

A Bíblia e outros textos “sagrados” se tornaram contos da carochinha e só isso.

Pois bem, na medida em que a própria ciência foi progredindo, a dúvida voltou a pairar sobre a cabeça dos mesmos que julgavam que haviam resolvido tudo o que havia para ser compreendido. O impacto de descobertas como a Dupla Hélice do DNA, por Crick e Watson, nos anos 50, e, mais recentemente, a radiação de fundo e o Big-Bang, fizeram reacender discussões que haviam “morrido”. Essas descobertas colocam, dia após dia, “consensos” como a Teoria da Evolução em xeque. Hoje, cientistas antes céticos, começam a pensar de forma crítica sobre suas próprias conclusões. O livro que já citei (Signature in the Cell) é um relato fascinante, de um cientista ateu (ma non troppo…) que, se quisesse continuar a ser intelectualmente honesto, tinha que se render a evidências de “Design Inteligente”.

O lado “de cá” (uma das Bolhas) teve chiliques e pitis. Óbvio: é extremamente complexo sair da sua “bolhinha” e ver o mundo de uma forma diferente. O progresso da raça humana, no entanto, depende disso. De sairmos da zona de conforto e nos colocarmos “no sereno” da verdade, e no incômodo que ele produz.

A conclusão é a de que, embora um relato simplificado, há coisas no Gênesis que merecem atenção, e que, se expresso por um “Deus amoroso” precisaria mesmo ser simples: como explicar algo tão imenso em palavras que o pastor de cabras do sul do Sinai entendesse, bem como um ganhador de Nobel? Há que simplificar – sem perder a verdade implícita, mas de forma a contar a história.

Desprezo pela Verdade

A única coisa que vemos no nosso momento “diabólico” de hoje é um tremendo desprezo pela verdade. Ambas as bolhas se entreolham, e têm a certeza de que, se cederem à verdade contidas em determinados argumentos da parte contrária, serão expulsos pelos fanáticos de sua bolha.

Reconhecer que existem apenas dois tipos de cromossomos, e portanto, dois gêneros, passa a ser anátema, em uma bolha.

Reconhecer que pode perfeitamente haver uma rede de proteção social bancada pela sociedade, sem que isso implique em quebra do sistema capitalista, também é anátema, na outra bolha.

Os exemplos se multiplicam e este (já longo) artigo, se tornaria um livreto se contássemos todos os causos.

A razão das Bolhas

Olhando o assunto da melhor forma que consigo, tendo a concluir que a razão da existência das bolhas é, de fato, satânico/diabólico: se eu não separo, se não segrego, não conquisto (Dividir e Conquistar). Se deixo alguém pensar, se não o sufoco com “provas” que me interessam, se não induzo a um determinado objetivo (meu), não chego no meu objetivo. Qual é? Há mais de um – dois, pelo menos.

A razão, de novo, na minha opinião, é a polarização em torno de uma figura central, uma “ideia” difusa ou não, mas sempre há alguém fazendo com que eu seja levado a pensar de um jeito que interesse a alguém. O fato de que alguém seja inteligente de estudado não faz dele imune à influência de uma das bolhas. Pelo contrário, alguns “fanáticos de carteirinha” são justamente pessoas de excelente intelecto e realizações, científicas, artísticas e sociais. Pessoas que nunca poderíamos esperar que se comportassem como trogloditas de mídia.

Já vimos esta situação em momentos de radicalização, diversos. A Revolução Francesa foi uma; o Outubro Vermelho foi outra; o Nazismo foi uma outra. Eu suponho que veremos momentos de maior radicalização ainda. Temo que o resultado seja o mesmo de antes: sangue nas ruas.

De novo, que Deus nos livre!

Às favas o Mercado

Reportagem de hoje do Infomoney:(https://www.infomoney.com.br/colunistas/lucas-collazo/lula-voce-nao-liga-para-os-banqueiros-vamos-ver-ate-onde-voce-aguenta-diz-sr-mercado/) dá conta de que a paciência do Mercado com Lula está se deteriorando rapidamente. Lula afirma (creio no que ele falou) que “não tenho que prestar contas a nenhum ricaço deste país”. Mas, segundo a reportagem, em seguida se reune com a equipe econômica e sai de lá dizendo que “equilíbrio das contas públicas é fundamental” ou coisa que o valha.

No mau e velho estilo Lula, ele erra trementamente o foco ao dizer que não presta conta a “ricaço”. Isso é música pros ouvidos de sua claque, mas não é a verdade. O fato é que por “ricaço”, leia-se, em sua maioria, uma miríade de pequenos e médios investidores, que escolheram o mercado de capital e financeiro para tentar manter suas economias de vidas inteiras à salvo de inflação e com poder de compra para uma velhice razoável (já que viver de INSS não é exatamente uma alternativa boa hoje, e no futuro, nem sabemos se será uma alternativa).

Às Favas?

O fato é que há, em minha opinião, uma grande chance de que o executivo atual, com suas manchas mal lavadas, não tenha a força de resistir às correntes que querem mandar, sim, o “mercado” às favas, e gerir o país fora da normalidade econômica – pouca ou muita – que temos hoje.

Há o caminho de Nicarágua e Venezuela, países com baixa ou nenhuma diversificação econômica e mercados financeiros que mesmo antes dos eventos ditatoriais já não eram relevantes. Esse caminho valeu-se, em ambos os casos, do rompimento da normalidade institucional. Mandou às favas, de forma direta, o mercado, assumindo o papel que aos mais radicais da esquerda, competiria ao estado (nem a poderosa China pensa assim, mas eles sim).

Há o caminho da Argentina, que, com economia mais diversificada e padrão de vida médio mais alto (renda per capital superior à nossa), uma dificuldade maior de impor uma ditadura “bolivariana”. A Argentina deu mostras, por duas vezes, na transição de Kirchner para Macri, e agora, de Fernandes para Milei, de que a despeito das diferenças de approach econômico, não houve total ruptura institucional, principalmente no judiciário, relativamente independente, e uma imprensa menos dócil.

O Brasil tem aspectos que beiram à dupla nada dinâmica – Venezuela / Nicarágua, principalmente quanto ao aparelhamento do judiciário e controle da mídia; possui, porém características argentinas, de uma economia ainda mais diversa, e com intercâmbios mundiais mais importantes (principalmente no Agribusiness, que Lula teima em demonizar, com apoio e aplausos de França, e até partes dos EUA e Canadá).

Quanto à qualidade do executivo, a despeito de seus muitos, e não reconhecidos, defeitos, montou uma equipe de ministros “meno male”. Até o momento isenta de grandes ortodoxias, e com o Banco Central, por enquanto, nas mãos competentes de Campos Neto, não deu tempo, nem teve condições políticas, de zoar a coisa toda. Está tentando, na minha opinião, mas a linha entre dar ouvidos ao “mercado” e aos radicais domésticos é tênue e, uma vez rompida, de difícil retorno à sanidade.

Os Limites: Temporal e Econômico

Até o momento, Lula ainda consegue reconhecer o limite, e, de certa forma, manter-se aquém da tragédia. A possível ascenção de Garópolo ao Bacen pode sinalizar outro “meno male” importante, mas até aqui ainda temos uma incógnita. Em evento recente no BTG, um palestrante diz que conhece Garópolo e que ele é um adepto do equilíbrio financeiro e realismo de juros e câmbio. Se terá valor ou espaço para manter sanidade no Bacen é outra conversa, mas é melhor do que Mercadante ou Mantega. Ideal seria manter o Campos Neto lá, mas isso, Lula interesse suficiente em fazer. Não conseguirá reconhecer a necessidade.

As palavras de Lula fazem cada vez menos sentido, tomadas no geral. Estão, na minha opinião, sendo cada vez mais ditas a públicos cativos, e nem podemos cravar que sabemos o que realmente informam ou não. Não esperaríamos Lula dizer que sim, respeita e valoriza a palavra de “ricaços”, ainda que saiba que eles dão parte dos empregos e do capital de investimento do país. Não seria tolo suficiente de excluir uma fatia importante do seu eleitorado, ao se declarar franco favorável ao Agro. Não seria corajoso o suficiente para deixar de fora da Petrobrás figuras que detém o “caminho das pedras” daquela mina de ouro.

A encruzilhada se aproxima, sob o apelido de Janeiro de 2025. Vejamos se manteremos um mínimo de racionalidade econômica.

O Futuro de BAM – Business as Mission

As viagens missionárias do fazedor de tendas mais famoso da história…

Este pequeno artigo será, se Deus quiser, expandido para algo mais substancial sobre o modelo de futuro que creio que seja adequado para o movimento Business as Mission, BAM, ou na melhor tradução possível, “Missão Empresarial”, ou “Negócios como Missão”. Autores consagrados, como Mike Baer, Mats Tunehag e João Mordomo, entre vários outros teóricos de BAM, juntos conosco no 1º. Encontro do BAM Brasil, entre os dias 18 e 19 de Maio de 2024, nos brindaram com palestras fantásticas que versaram sobre a forma como nós, empresários, podemos e temos obrigação de olhar para nossas empresas e firmas com um olhar “sagrado”.

A principal mensagem, o principal “produto” que levei para casa deste congresso foi:

“Não há hierarquia entre o homem de Deus pastor, pregador ou missionário, e o homem de Deus empresário ou profissional liberal”.

Congresso BAM Brasil

A tendência que temos de olhar para os “clérigos” como gente mais próxima a Deus é absolutamente equivocada, e fruto de um mundo que começou a tratar coisas sagradas e profanas separadamente, relegando os negócios ao plano inferior. As razões são várias, e não vamos entrar nelas de cabeça, mas apenas resumindo, somos considerados mais profanos porque:

  • A cosmovisão católica que permeia boa parte do mundo hierarquizou e segregou o clero dos fiéis, sendo os empresários relegados à segunda categoria.
  • A visão de que lucro é pecado faz com que entendamos que o que fazemos é “arrancar algo de outra pessoa”. É uma visão deturpada da economia e das pessoas de forma geral. Estamos sempre ocupados em sublinhar o que de pior vemos nos outros.
  • A visão especificamente brasileira, em que um certo empresariado está sempre mancomunado com os governos, para obter vantagens indevidas, e mais, a visão de sonegação como um “mal necessário” à sobrevivência das empresas nos faz achar que empresário é alguém que vive num ambiente menos santo.

A despeito de tudo isso, o movimento BAM tem avançado no Brasil e no mundo, fomentando uma nova geração de empreendedores focados em gerar riqueza, para si e para os stakeholders de seu negócio, de forma saudável, socialmente e ambientalmente responsável, mas, sobretudo, espiritualmente comprometidos em viver (mais do que falar) o Evangelho dentro de nossas organizações.

Nós mesmos dentro da VBR Brasil temos tido a oportunidade de ter um turnover bastante baixo nos nossos funcionários. Parte disso, eu creio, advém de um ambiente social e espiritualmente saudável, onde a competição não é estimulada, se leva outro a ser deixado de lado. A competição é estimulada no sentido do melhor esporte do mundo – o golfe – no qual a pessoa, no fundo, joga contra ela mesma, suas limitações e momentos. Um ambiente espiritualmente saudável parece ser conducente a um relacionamento saudável entre as pessoas. As gerações mais modernas parecem gostar disso mais do que de um salário um pouco maior.

BAM joga, então, com a formação de empresas que tenha o poder de impactar o mundo, a começar por seu ambiente de negócios mais próximo, para Cristo e o Seu Reino.

A questão aqui não é mudar nem criticar esta filosofia do trabalho BAM. Ela está perfeitamente em linha com o Novo Testamento e com a Grande Comissão. Ela deve continuar a ser estimulada. Empresas cuja propriedade seja de servos de Deus devem ser estimuladas a se tornarem empresas BAM, sérias com Deus e Seu propósito. Ele continua a querer receber Glória (Doxa, como adora dizer João Mordomo) entre as nações.

O que quero tratar aqui é do futuro de BAM, como forma de penetração nessas nações. O objetivo aqui é tratar do Fluxo de Capital intergeracional, e como isso pode afetar BAM e a atividade e missionária mundial. Temos algumas certezas sobre o mundo atual – social e econômico:

  • Ele jaz no maligno (1 João 5:19).
  • Ele exerce crescente perseguição sobre o povo de Deus (Ap. 2:10)
  • Ele tornará o livre acesso das pessoas ao Evangelho cada vez mais difícil (Rom 8:36).

Diante disso, chegará, em breve, o tempo em que a existência de missionários será restrita de tal forma que somente não-clérigos poderão estar no meio de determinadas populações. Quem serão esses? Nós hoje os chamamos de bi vocacionados, de fazedores de tendas e muitas outras formas. O fato é que o mais bem sucedido “não-clérigo” me parece ser aquele que tem interesses vestidos em empresas e países em regiões complexas, ou que, pela natureza de suas empresas, possuam alcance grande o suficiente para serem relevantes em um local remoto, a despeito de estar ou não lá (a internet pode ser bênção, com certeza).

Do OPEX ao CAPEX

Como me pronunciei durante o painel-entrevista entre mim, e a Lara, brilhante guria de 22 anos, já CEO de sua empresa BAM, e antenada na vida espiritual e empresarial (uma alegria de ver!) e o querido Danilo Brizola, BAMer e agitador profissional, acredito em uma mudança na forma de alocação de recursos para missões.

Estratégias Atuais – a primeira onda – o OPEX[1]

A principal estratégia missionária mundial atual data dos primórdios da BMS – British Missionary Society, criada pelo querido e famoso William Carey no Séc. XVIII ainda, e cujo sucesso é inegável. De lá para cá tem sido mais do mesmo: reunião de fundos via denominações e pessoas empenhadas em contribuir para o Reino. Esses fundos são então lançados sob forma de cobertura de subsistência de missionários profissionais (a palavra é inadequada, mas é uma que reflete o que de fato existe), e os resultados são de maior ou menor intensidade, a depender do local, do estilo de trabalho e outros fatores, muitas vezes incontroláveis.

Essa foi a estratégia vencedora, por exemplo, no Brasil. Mesmo em sendo um país nominalmente cristão, o estilo de cristianismo havido aqui sempre foi mais não-praticante, ou não “nascido de novo” (embora não possamos negar o caráter eminentemente cristão de muitas e muitas lideranças religiosas do país ao longo dos séculos). As denominações evangélicas do velho mundo e dos EUA, primariamente, identificaram o Brasil como uma potencial fonte de cristãos nascidos de novo, e despejaram recursos humanos e materiais aqui.

Eu mesmo sou fruto disso, pois minha família, originalmente italiana e católica, passou por um processo de profunda transformação, a ponto de sermos hoje identificados diretamente com o cristianismo evangélico já por 4 gerações.

Essa foi a onda do OPEX, que ainda é a mais usada por organizações missionárias e denominações.

Estratégias Atuais – a segunda onda – o CAPEX[2]

Em um ambiente de repressão e dificuldades, apenas a lógica econômica mais direta e atraente para o país receptor vai permitir que o jogo continue a ser jogado. É muito mais difícil recusar um visto a um CEO de uma empresa investidora estrangeira do que a um missionário, ou, como tem acontecido frequentemente, missionários travestidos de estudantes de idiomas ou outras funções.

A motivação econômica direta é ao mesmo tempo legítima e legitimadora dos cristãos que, independentemente de qualquer coisa, vão ganhar a vida em outro país, pelo meio do empreendedorismo e do trabalho árduo e honesto.

Para isso, antevejo a necessidade de uma mudança em direção ao modelo seguinte. Aqui, uma pausa para segregar um conceito já apelidado de Business FOR Mission (Negócios PARA Missão) e o que proponho agora. O “disclaimer” de BAM diferencia o conceito de BFM de forma inequívoca[3]

“Business as mission é diferente de… BUSINESS FOR MISSIONS

                Lucros de negócios podem ser doados para dar suporte a missões e ministérios. Isso é diferente de BAM. Alguém pode chamar isso de negócios PARA missões, ao usar negócios para prover fundos para outros tipos de ministérios. Reconhecemos que lucros de negócios podem dar suporte a “missões”, e que isso é bom e válido. De forma semelhante, empregados podem doar parte de seus salários para causas caritativas. Enquanto tal possa ser encorajado, nenhum de nós gostaria de ser operado por um cirurgião cuja única ambição seja a de fazer dinheiro para ofertar à igreja. Ao invés disso, esperamos que ele tenha as habilidades corretas e que possa operar com excelência, fazendo seu trabalho com total integridade profissional. De forma parecida, um negócio BAM deverá produzir mais do que produtos ou serviços a fim de gerar riqueza. Ele deve buscar cumprir os propósitos e valores do Reino de Deus através de cada aspecto de suas operações. O conceito de negócio BFM pode limitar os empresários a um papel de doadores aos “ministérios reais”. A despeito da doação ser uma função importante, BAM se trata de negócios com fins de lucro, mas focados no Reino.[4]

Entendi, então, que o que temos em mão se trata de algo diferente, cujo nome provisório (e conceito por trás dele) poderia ser “BUSINESS ON MISSION”, ou “BUSINESS ON MISSION BASE” (Bomb).

Trata-se aqui de uma forma de empreendimento imaginada, planejada, gestada e capitalizada para uma função legítima (gerar lucro, como BAM) e ao mesmo tempo, servir de veículo também legítimo para que cristãos possam espalhar a Boa Nova a povos não necessariamente alcançados, ou totalmente não alcançados.

Não falo aqui de enfiar evangelho goela abaixo de nenhum povo ou “colonizar” o outro, mas tão simplesmente viver a sua fé simples e forte, permitindo que outros “vejam a Cristo” em nós, ainda que sem qualquer proselitismo. É proibido fazer proselitismo? Não façamos, mas NÃO deixemos de viver a Palavra e exalar “o bom perfume de Cristo”.

Como?

A forma mais objetiva de BOM, ou BOMB (!!!) se baseia em transformar esse atual OPEX (ofertas para missões) em CAPEX (investimentos em missões). Dentro desse conceito, a que eu acho mais atraente e que pode dar os melhores resultados é a acumulação de capital no sentido de gerar  Fundos ou Entidades de Investimento legítimos, cujo objetivo é o lucro, mas cuja estrutura operacional crie oportunidade para que cristãos “raiz” se disponham a trabalhar como executivos em locais normalmente complexos, de forma legítima, mas com olho e tempo para a propagação do Reino, nesses locais.

Não advogo de nenhuma forma que levemos equipes inteiras para essas empresas e atividades. Ao contrário, a contratação de pessoal de base local é fundamental. Ajuda a criação de emprego no país destino, reforça a economia local, recolhe tributos de forma legal e correta, e, no fim das contas, permite que interajamos com os cidadãos locais, levando-os, sem colonialismo, mas com amor profundo, ao conhecimento de Cristo.

Esses fundos funcionariam mais ou menos assim[5]:

Transformar as “doações” em capitalizações para Fundos de Investimento (Private Equities, entre outras plataformas) com todas as salvaguardas, garantias e governanças das leis dos melhores países e jurisdições para tal.

  • Estabelecer para o Fundo: a)As regras de investimento As regras de assunção de riscos e retornos; b)As regras de reembolso e reinvestimento; c) As regras de segregação de retorno ao Fundo e à transformação de CAPEX (retorno) em OPEX (novos bi vocacionados e líderes de campo); d)Um Board com visão alinhada com BAM e com o Reino.

Desta forma, bons investimentos vão gerar bons retornos, que terão três virtudes:

  • Tornar o movimento autossustentável
  • Tornar o movimento menos vulnerável a governos e políticas religiosas de países.
  • Dar ao movimento condições de crescimento mais acelerado do que a mera arrecadação de doações, ofertas e compromissos.
  • Tornar a vida dos bi vocacionados, na ponta extrema do movimento, mais estável.

Política de Emprego e Liderança

Empresas BOMB, ao serem comandadas e coordenadas por uma liderança BAM, teriam necessariamente, como já disse, que empregar localmente o máximo de pessoas, mas manter a liderança ligada e alinhada diretamente ao Fundo, a BAM e aos princípios BOMB.

Isso implica e que, em algum momento, empregados locais convertidos e comprovadamente capazes, passarão a ocupar cargos de liderança, alinhados com os princípios do movimento. Obviamente que lideranças cristãs locais e capazes podem ser recrutadas de imediato, o que normalmente não parece ser tão fácil.

Em qualquer circunstância, é ser “sal e luz” que vai ganhar o jogo, e não fazer proselitismo ou impor um modo de pensar.

São apenas reflexões não teóricas, baseadas em conceitos mais “heróicos” do que acadêmicos, mas podem servir de reflexão aos pensadores do Movimento como um todo.

“Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor”


[1] Operational expenses, em inglês, ou “Despesas Operacionais”.

[2] “Capital Expenditures”, em inglês, ou Gastos de Capital.

[3] Aqui, o puxão de orelhas de João Mordomo me ajudou no avanço para o conceito que apresentarei a seguir.

[4] Extraído do manifesto de BAM, traduzido por mim.

[5] O Fundo IBEX, que eu mesmo invisto, trabalha quase exatamente neste modelo.