Cabum!
No dia 03 de Janeiro de 2026, uma surpresa. Na verdade, uma surpresa meio que anunciada: um ditador é removido do poder em poucos minutos, e levado a julgamento nos EUA, por trafico de tóxicos e outras coisas consideradas crimes contra aquele país.
Como já cansei de informar que escrevo basicamente para mim mesmo, ou seja, para conferir no futuro o que pensei no momento e o que acabou sucedendo, não vou aqui deixar de registrar que impressões me vêm à mente e o que pode ou não acontecer. É futurologia mesmo; depois a gente vê se eu tinha razão ou se alguns comentaristas celebridade da TV.
Donroe
O presidente americano, Donald Trump, em seu discurso no seu “castelo” de Mar-a-Lago, reafirmou a Doutrina Monroe (“A América para os Americanos”), com tons mais atualizados (mais belicosidade, maior abrangência). Lembrei dos meus professores história do 1o. e 2o. graus, que esbravejavam e doutrinavam dizendo “A América para os americanos… do Norte”). Ocorre que o contexto da Doutrina, de 1823, era um de guerras e processos de independência em série nas Américas. O objetivo era deixar claro que a América não ficaria como colônia de potências europeias. Nesse contexto nasceram Colômbia (1810), Argentina (1816), Chile (1818), México (1821) Brasil (1822) e posteriormente (Canadá (1867), para ficar em alguns exemplos apenas. A Venezuela nasce em 1821, da Batalha de Carabobo, pelas mãos de Bolivar, assim como várias outras nações da região. Um nobre espanhol, nunca foi um socialista (não havia o conceito) nem um coletivista, mas um libertário puro e simples, da mesma estirpe de Garibaldi e outros, da época.
Que doutrina “Donroe” é essa que agora propõem? Trata-se simplesmente de não deixar que as Américas sejam loteadas, compradas ou venham à zona de atração de potências extra-gerográficas, principalmente de inclinação anti-ocidente, como China, Irã e Rússia. É semelhante à Monroe, e distinta, ao mesmo tempo. Mas não se pode dizer que é inválida.
Claro que quem se alinha mais ao Oriente, e ao socialismo/comunismo, vai tender a achar que é melhor aceitar a influência desses países do que dos EUA (e Europa, por decorrência). Quem se alinha com o ocidente, tende a crer que, embora os EUA não sejam flor-que-se-cheire, e que realmente colocam seus interesses acima dos demais, ainda é uma tirania um tanto mais benevolente do que a alternativa.
Bravatas e Realidade
Maduro bravateou e chamou os EUA (“cobardes… vengan sacarme de acá”) de muitos nomes. Acabou sequestrado (sim, é um sequestro, literalmente) e levado a uma prisão em Nova York, onde será julgados por leis americanas. Rapidamente a imprensa tratou de dizer que o método é errado, embora Maduro seja um ditador, etc. Os partidos de esquerda se apressaram a dizer que Maduro seria, sim, presidente legítimo da Venezuela, e que tudo não passa de uma agressão internacional poucas vezes vistas.
É uma agressão, claro. É um sequestro, definitivamente. Entretanto creio que o mundo já viu muitas vezes no que dá transigir com ditaduras. Neville Chamberlain que o diga; o mesmo se pode dizer mesmo de Stálin, que aceitou o pacto com Hitler (Ribbentrop-Molotov) até que tivesse sido invadido e quase derrotado pela Wermacht. Pessoalmente creio que não se deva negociar com ditadura. Me espanta, há muitos anos, que os EUA tolerem Cuba, ali do seu ladinho, desde 1959, resumindo suas ações a um embargo de resultados duvidosos: resultados ruins da economia cubana são atribuídos a ele, embora saibamos que é a irracionalidade cubana que leva o país ao caos financeiro, a despeito da ajuda externa e da boa vontade de países como China e Espanha, entre outros. É a falta de capacidade mínima de pagamento que Cuba está onde está, por conduzir uma economia como (para surpresa de ninguém) comunistas. Não funcionou em nenhum lugar, não vai funcionar nunca lá.
Não há só um Bravateiro
Trump também bravateou bastante durante a confusa conferência de imprensa em Mar-a-Lago. Falou demais de petróleo, fazendo com que a esquerda aproveitasse para uma vez mais dizer que é isso que impulsiona os EUA na Venezuela. Ignoram, voluntariamente, que os EUA são autosuficientes em energia há anos, e que o que de fato os impulsiona não é ter, usar e vender o petróleo de Maracaibo, mas negar o acesso a ele a outras potências antagônicas. Donroe se aplica aqui: quer o petróleo das Américas? Comporte-se.
A outra evidente – e burra – bravata de Trump foi a de que “os EUA vão administrar a Venezuela”. Creio que ou acreditam que o regime Chaves-Maduro vai cair como um castelo de cartas, ou que vão cooperar lindamente com a Casa Branca. Não podemos deixar de notar as tremendas dificuldades disso. Delcy, a vice-presidente recém empossada presidente em exercício, acaba de declarar que não há outro líder lá a não ser Maduro e que não haverá qualquer cooperação. Minha aposta pessoal é a de que Maduro é/era muito mais um títere da real liderança (Diosdado Cabello e seus asseclas) do que líder com luz própria. Era muito burro para isso. Não creio que tivesse um mínimo de capacidade de manter junto o regime e o poder. É fruto, parece, de um grupo unido de civis e militares, herdeiros de Chaves, cuja função será agora de provar que não importa quem esteja na cadeira presidencial, não fará as vezes de garante de mudança de regime.
Trump ignora que não possível ocupar militarmente, sem enormes custos, um país do tamanho da Venezuela rapidamente e por tempo indefinido (casos como Coréia, Vietnam e Ucrânia provam isso). Exceto se por decisão de uma população pouco disposta a apoiar seus líderes. E neste ponto, parece que os venezuelanos estão mais divididos do que esquerda e direita mundial querem crer.
Opções à Geografia
Se ocupar o país não funcionaria, só restam as inserções pontuais, como a extração de Maduro, a fim de eliminar gradativamente a liderança Chavista. Israel demonstrou isso bastante bem ao eliminar rápida e eficientemente os líderes do Hamas e Hezbollah em Gaza e no Líbano, respectivamente. O “golpe dos pagers” demonstra essa teoria de forma exemplar: em um piscar de olhos basicamente toda a liderança terrorista dentro de um país estrangeiro foi eliminada sem a necessidade de uma incursão militar maciça.
Isso pode, talvez deva ser feito, na Venezuela. Se nem Maduro, dentro de um quartel, cercado de agentes cubanos, estava à salvo, estarão a salvo Delcy Rodríguez estará? Estará Diosdado Cabello? Estará Vladmir Padrino Lopez? Não creio.
Delcy Rodriguez teve seu momento de bravata também, mas creio que Marco Rubio não iria falar claramente que ela aceita ser uma “ponte” no processo de transição, se ela não tivesse sido muito clara com ele sobre isso. Há uma necessidade de parte dela de se vender aos outros figurões do Chavismo, ma há que se ter uma alta dose de realismo para não ceder, ainda que sem vontade alguma, aos objetivos dos EUA. No fundo ela sabe que o Chavismo tem seus dias contados.
Cuba – Efeito dominó?
É possível um efeito dominó em Cuba? Considerando que depois da queda da URSS Cuba ficou órfã de apoio financeiro (desde 1989), vindo após isso Hugo Chavez como tábua de salvação (1997), hoje Cuba precisaria de um apoio financeiro alternativo maciço de algum lado. China é um candidato? Não sei, mas certamente o Brasil de Lula é o maior país “ameno” às necessidades da Ilha, como já demonstrou com o monstruoso gasto com o Mais Médicos.
O fato é que negando a Cuba o acesso a energia barata (ou grátis, como alguns dizem), os EUA creem firmemente que a queda do regime comunista na Ilha é questão de tempo – o próprio Trump já bravateou recentemente sobre isso, em tons otimistas.
Apoio Popular
Fidel só subiu ao poder, ao descer da Sierra Maestra, porque o povo se uniu a ele. Ho-Chi-Min só resistiu aos militares americanos porque, além do apoio bélico da China e URSS, possuía apoio popular. A Rússia tem uma perspectiva de sucesso bastante limitada na Ucrânia – e essa se fulcra basicamente nos locais onde a população de origem russa é predominante ou importante.
Em vários momentos da história, o invasor ou o revolucionário somente teve sucesso porque, em um grau importante, a população ou estava apática ou apoiava a troca do controle sobre o estado. O Iraque e a Líbia mudaram seus regimes porque a população fundamentalmente odiava Saddam ou Kaddafi.
Não parece que a Venezuela tenha, hoje, uma população (fora o funcionalismo público, as milícias e o exército) que apoiem o Chavismo. O problema lá pode ser a apatia. Lá como aqui, o povo está meio que anestesiado quanto às possibilidades de sucesso da gente de bem. Há uma sensação de cansaço, devido à ação de poderes mal constituídos, contra o povo mesmo.
Um colega de trabalho meu, Venezuelano, conta que sua família diz que as ruas estão vazias; não há protestos nem celebrações no país. Todos têm medo de eventuais repercussões. Isso é fruto, claramente, do medo de que o regime não esteja derrotado – e não parece estar, ainda Uma vez que outro figurão do chavismo acabe num navio americano, a população vai gradativamente acordar para a possibilidade de um levante que, de fato, destrone os atuais donos do poder.
Conclusão – se é que alguma é possível
- Não se ocupa militarmente um país complexo geograficamente como a Venezuela, com tal extensão de selva e costa. Nem há necessidade disso. É mais importante que o país “se ocupe” por decisão própria – ou medo individual de sua liderança.
- Não há necessidade de ações de força, exceto as cirúrgicas, contra os Padrinos e Cabellos da vida. Israel demonstrou isso com maestria.
- O petróleo é importante para os EUA, claro, mas muito mais como fonte de poder contra quem dele necessita do que como fonte de energia para consumo próprio.
- Os EUA ressuscitaram a Doutrina Monroe após um processo de enfraquecimento internacional contínuo e grave, e que fazia do mundo um lugar menos seguro. Esperamos que com “fala mansa e porrete grande” os EUA retomem poder dissuasor que detinha até o fim da Guerra Fria. Não nos iludamos: ressuscitar Monroe só é capaz porque o establishment norte-americano reconhece que o estado de coisas precisava mudar.
- Cuba pode, sim, ser o dominó da vez. Queira Deus que seja. Chega de um enclave ideológico dentro do ocidente, do lado dos EUA, que exporta revolução e gente miserável impunemente.

3 respostas para “Venezuela e Sr. Monroe”
Como já escrevi e lhe mandei algumas das minhas ousadas percepções sobre o “causo” em comentos preciosos e sábios seus acima. Não tenho como contestar ou sequer discutir qualquer dos parágrafos.
Outrossim, imagino que o dono do bom porrete deixou nas entrelinhas que o cerco do castelo alheio e seus arredores não será retirado tão cedo.
A estratégia de cerco/pressão continuada e progressiva que ele reafirmou que manterá com o porrete em riste, efetivamente funciona. Veja que aqui mesmo não foi necessário ameaças mais contundente:- mais cedo do se esperava os nossos arriaram os suspensórios e entregaram ao referido senhor até mais do que ele exigia. A isca atraiu e foi mais do que convincente. Certamente, muito do que foi aqui negociado saber-se-á mais a frente. Nada contra A ou B ou C. Mas tenho observado uma tal de Terceira Via bem aceitável e palatável nascendo no horizonte…
Como já escrevi e lhe mandei algumas das minhas ousadas percepções sobre o “causo” em comentos preciosos e sábios seus acima. Não tenho como contestar ou sequer discutir qualquer dos parágrafos.
Outrossim, imagino que o dono do bom porrete deixou nas entrelinhas que o cerco do castelo alheio e seus arredores não será retirado tão cedo.
A estratégia de cerco/pressão continuada e progressiva que ele reafirmou que manterá com o porrete em riste, efetivamente funciona. Veja que aqui mesmo não foi necessário ameaças mais contundente:- mais cedo do se esperava os nossos arriaram os suspensórios e entregaram ao referido senhor até mais do que ele exigia. A isca atraiu e foi mais do que convincente. Certamente, muito do que foi aqui negociado saber-se-á mais a frente. Nada contra A ou B ou C. Mas tenho observado uma tal de Terceira Via bem aceitável e palatável nascendo no horizonte…
Grato pelas palavras, como sempre. Escrevi igual se compra telesena da virada – botei minha aposta lá e depois confiro se ganhei ou não…