
Ontem vi com assombro a simplicidade com que o tema “controle de mídias sociais” está sendo tratado pelos órgãos mundiais de cooperação. A UNESCO, teoricamente responsável por patrimônio histórico, cultura, entre outras coisas não diretamente relatas, lançou há algum tempo uma iniciativa (veja em https://www.unesco.org/pt/articles/midias-sociais-unesco-lidera-o-dialogo-mundial-para-melhorar-confiabilidade-das-informacoes e https://www.unesco.org/pt/articles/desinformacao-online-unesco-divulga-plano-de-acao-para-regular-plataformas-de-redes-sociais)para controlar, efetivamente, o que se diz em praça pública.
É um movimento que vem ao encontro das aspirações talvez as mais nefastas que vagam por este mundão de meu Deus. Por que? Leiam e vamos interpretar:
“Audrey Azoulay, diretora-geral da UNESCO, alertou nesta segunda-feira sobre o aumento significativo da desinformação e do discurso de ódio online, que constitui “uma grande ameaça à estabilidade e à coesão social”. Para pôr fim a este grande perigo, ela apresentou o plano de ação da UNESCO, resultado de extensas consultas em âmbito mundial, e que foi apoiado por uma pesquisa de opinião global que destaca a necessidade urgente de ação.”
(Audrey Azoulay, in www.unesco.org)
A pergunta, portanto, não é brasileira. É um movimento mundial no sentido de controlar o discurso. Carmen Lúcia, nossa ministra do STF declarou anteontem algo que em outros momentos da vida mundial seria considerado chocante, mas que sequer desperta um levantar de sobrancelhas mais:
“A grande dificuldade está aí: censura é proibida constitucionalmente, eticamente, moralmente, e eu diria até espiritualmente. Mas também não se pode permitir que estejamos numa ágora em que haja 213 milhões de pequenos tiranos soberanos. E soberano aqui é o direito brasileiro. É preciso cumprir as regras para que a gente consiga uma convivência que, se não for em paz, tenha pelo menos um pingo de sossego. É isso que estamos buscando aqui: esse equilíbrio dificílimo”…
“A grande dificuldade está aí: censura é proibida constitucionalmente, eticamente, moralmente, e eu diria até espiritualmente. Mas também não se pode permitir que estejamos numa ágora em que haja 213 milhões de pequenos tiranos soberanos. E soberano aqui é o direito brasileiro. É preciso cumprir as regras para que a gente consiga uma convivência que, se não for em paz, tenha pelo menos um pingo de sossego. É isso que estamos buscando aqui: esse equilíbrio dificílimo”…
https://www.poder360.com.br/poder-justica/carmen-lucia-defende-impedir-que-213-mi-tiranos-sejam-soberanos-na-internet/)
Segundo Carminha, portanto, censura é algo até espiritualmente proibido, claro (nem Deus nos censura de pensar a bobagem que quisermos, e as falarmos). Mas… ah… o mas…
Mas…
Parece manchete de jornal coordenada. Já viram as manchetes na Globo, SBT, Band, CNN e até na Exame, e que parecem que saíram da mesma redação? Revejam acima se não parece tudo saído ou do STF ou da UNESCO. Estranhamente, e bovinamente, nos deixamos ir tangendo como a boiada que somos.
Mas somos 214 milhões de tiranetes? Ora, quem sou eu senão um tirano de mim mesmo, como disse o Marques de Maricá, em uma época em que políticos mais ou menos pensavam – “o invejoso é tirano de si mesmo”. E quem somos nós todos senão invejosos? Por isso trocamos ideias na ágora digital. Por isso os videos bobos, com opiniões bobas, algumas até vexatórias e ridículas. Típicas de tiranos.
Mas o que? Quem é o soberano?
Mas o que, companheiro? Deixemos o povo falar. Quem escreve, de alguma forma, em alguma medida, pensou antes. Palavras por combustão espontânea creio que existam, mas não frequentemente.
A Ministra vira pra população e diz que “soberano” não é o cidadão, mas o “direito brasileiro”. Uai sô (como diria a mineirinha):
“Todo poder emana do povo que o exerce por meio de representantes eleitos direta ou indiretamente“.
(CF-88 Art. 1o. Inciso V, Parágrafo Único)
Carmen foi eleita diretamente? Indiretamente? Não? Então por que julga a nós todos como pequenos tiranos? Me espanta que, em qualquer lugar são de cabeça, a ministra tivesse, no mínimo, recebido uma forte reprimenda do Senado Federal, responsável por fiscalizar essa gente.
Que figura é essa denominada “direito brasileiro” a quem a ministra remete a soberania? Vejam: ela arroga ao judiciário (“guardião das leis”) a soberania, debaixo de nossos narizes, e ninguém sequer questiona.
Pasmem, tanto a UNESCO como o STF estão falando isso abertamente, e nós somos submetidos, por uma minoria ideologicamente de esquerda, a um massacre midiático e que nos impede hoje, no varejo, e impedirá no futuro, no atacado, de exercer nosso direito de fala.
Quod Custodiet?
O voltamos ao romano, Juvenal:
Quod custodiet ipsos custodes?
Juvenal
Quem vigia os vigilantes da Lei? Quem é “o guardião dos guardiães” do direito brasileiro? Retire-se este direito dos representantes eleitos, e teremos a ditadura perfeita, como alguém já apontou em algum lado.
Malhar em Ferro Frio
Tudo isso é malhar em ferro frio, remetendo à metáfora de nossos avós, ou “clamar no deserto”, qual um João Batista moderno, que fala, fala, e ninguém escuta.
Deus santo! Será que teremos que conviver com um anticristo caseiro, antes do Anti-Cristo mesmo, que nos diga o que devemos ou não falar? Será que o arcabouço jurídico brasileiro não é suficiente para dar a alguém presumidamente ofendido o direito de defesa, legalmente, desde a primeira instância?
Até quando clamaremos no deserto, e ouviremos parentes, amigos e outros, achando o maior barato que tenhamos “illuminati” cuidando de nossos interesses pela via da censura?
Cenas dos próximos capítulos, somente se a censura deixar.
