A Empresa IA

Hoje me chamou atenção um artigo de um querido amigo, advogado de primeira, ex-conselheiro da OAB, e um intelectual. Seu artigo (https://www.linkedin.com/pulse/corpora%C3%A7%C3%B5es-n%C3%A3o-humanas-ia-com-personalidade-jur%C3%ADdica-alexandre-r330f/) me deu todos os tipos de medo possíveis nessa vida: a possibilidade de incorporação de empresas “autônomas” criadas, mantidas e geridas por Inteligência Artificial.

O autor estabelece um diálogo fictício entre o presidente da Argentina, Javier Milei e o escritor e filósofo Yuval Noah Harari. Caricato que possa parecer, o diálogo é, na pior das hipóteses, factível, no limite.

Minha intenção aqui é filosofar e expor minhas ideias sobre IA, e o que entendo como sendo os dois maiores obstáculos a ela.

Copyrights

Tudo o que existe na internet foi colocado lá por alguém. Alguém, muitas vezes famoso e publicado, não vai gostar muito de ver seu conhecimento usado de forma indevida e não remunerada, por quem quer que seja. Será muito difícil separar, em mais alguns anos, o que é conhecimento original daquele derivado do trabalho e devaneios de IA. Mas certamente existe muito a ser questionado, juridicamente inclusive, sobre a propriedade intelectual circulando nas redes.

Responsabilidade Civil

O outro fator é mais direto: quem assume a responsabilidade, em caso de falha? Se o seu carro autodirigido da Weymo atropela alguém, quem paga os danos? De quem é a culpa? Ninguém parece ter-se debruçado sobre essa questão de forma extensiva ainda. Mas certamente, assim que os problemas começarem a ocorrer, alguém vai se perguntar. O que dirão as seguradoras? O que regulamentarão os governos? Quem pagará as contas?

Filosofando

Indo ao meu objetivo preferido, a questão posta pelo meu amigo advogado é: uma empresa poderá ser autoconstituída, autogerida e se auto responsabilizar pelos seus atos?

Suponhamos que uma IA consiga entrar no sistema da Receita Federal, criar uma sociedade limitada, registrar-se na Junta Comercial, abrir uma conta bancária num desses bancos digitais, criar um App, colocar o App no mercado, vender seus serviços e começar a gerar riqueza. A Ltda é proprietária, sozinha, do App. Ela é, em tese, dona da propriedade intelectual. Ela trabalha sozinha, não tem empregados, e usa terceiros para executar tarefas tão simples como levar algo do ponto A para o ponto B, etc.

A carga de tarefas que a IA tem que gerir parece interminável, mas como não se cansa, e tem acesso praticamente irrestrito a tudo, faz com um pé lógico nas costas… A margem de lucro tende a 100%, fora tributos, claro, e nem precisa usar lucros para nada que não seja pagar as contas – principalmente a de eletricidade e dados – reinvestir no negócio e poupar (para que? Não saberemos nunca).

E o ser humano? Será empregado, se necessário, quando necessário, e pelo preço exato de mercado, calculado na hora pela IA, maximizado, e para funções extremamente restritas.

E o Governo?

Você poderia se perguntar por que o Governo não poderia ser substituído por IA. Poderia, em sua grande maioria. Claro que poderia. Aliás, o Brasil já é um dos países com maior nível de “e-government” no mundo. Mas político vai querer abrir mão das benesses geradas pelos penduricalhos humanos, desnecessários.

Tomemos por exemplo a justiça. Amigos meus ligados ao judiciário estão perplexos com o caráter perdulário dos operadores do direito no Brasil. É o judiciário mais caro do mundo. E logo ele, para quem a IA tem talvez o efeito mais direto e devastador. O judiciário no Brasil poderia emagrecer 50% em pouquíssimo tempo. Mas o que fazer com os “capinhas”, auxiliares administrativos e outros? Não há lugar para eles. Sim, há lugar para bons juízes, bons procuradores, bons defensores públicos, mas cada dia há menos espaço e menos necessidades das rêmoras do judiciário.

O mesmo vale para o legislativo e executivo. Agentes de IA poderiam, se não substituir seres humanos funcionários públicos, pelo menos evitar a necessidade de se contratar mais gente – principalmente em graus mais baixos da escala hierárquica.

A lógica da IA, em síntese, vale talvez mais para o governo do que para qualquer outra área da sociedade. Governos menores, mais técnicos, menos sujeitos a corrupção, tirariam dos ombros da população um imenso peso morto.

Vai acontecer? Não num país governado por uma ideologia sindicalista, utilitarista e corrupta. Mas um dia vai chegar em que, mesmo sem alarde, o e-government tomará conta. A tecnologia tornará a corrupção endêmica mais difícil, mas não impossível.

Há coisas boas em IA, creio. Não apenas problemas. Não vejo um mundo com empresas 100% IA, tomando decisões sem chancela humana. Mas vejo, sinceramente, um governo menos suscetível às mazelas que nos tornam mais pobres do que necessário. Que nos tornam mais atrasados do que poderíamos ser.

Deus tenha pena desse país, e use a IA (sim! Deus é Deus até sobre a IA) para nos ajudar.

Toda Inutilidade Caduca

Nas ciências da natureza costuma-se dizer que “tudo aquilo que não tem utilidade acaba por desaparecer“. Dizem que foi assim com os caninos, no homem, com o apêndice, entre outras coisas que achamos que a micro-evolução acaba por tornar obsoleto.

Algo que só existe para cumprir um papel irrelevante tenderia, por esta “lei” a desaparecer também. Parece que foi assim, ao longo da história, com diversos penduricalhos colocados à vida humana, como excesso de roupas e badulaques medievais, com gravata em climas mais quentes e com certas regras de etiqueta cujo uso acabou sendo extirpado da sociedade por não ter serventia alguma.

A Reforma Protestante, dentro do cristianismo, parece ter cumprido um grande passo em eliminar um intermediário entre Deus e a criatura – o sacerdote (fazedor de pontes). Foi um passo civilizatório, logo após de se constituir como uma verdade bíblica – “achegai-vos confiantemente ao trono da graça” (Hebreus 4:16).

As próprias regras medievais de corte e casamento foram simplificadas e em sua maioria, deixadas de lado, por pares de seres humanos que julgaram, corretamente, que sua felicidade não podia ser deixada ao capricho de pais e autoridades que nem sempre tinham o seu melhor em seus corações.

Pois bem, assim como na religião e no amor, se a regra continuar valendo, entendo que algumas coisas muito incômodas tendem a desaparecer também, embora pareça que estamos longe de nos desfazer delas. Eis algumas.

Governo Grande

Já houve um tempo em que fichas de papel, carimbos e arquivos de pastas suspensas eram a tecnologia que catalogava, selecionada e ditava a ordem social. O carimbador maluco, caricaturado no “Plunkt-plakt-zum” parecia ubíquo e todo poderoso.

De lá pra cá, os processos informatizados, a internet e, mais recentemente, a Inteligência Artificial, parecem ter tomado o lugar do burocrata de plantão. Num mundo em que as coisas ocorrem cada vez de forma mais autônoma e rápida, é de se perguntar que tamanho de governo precisamos ter, e por que um país como o Brasil possui tanto funcionário público, pago acima dos níveis de mercado, e que, no fundo, na maioria das vezes, parecem apenas como um quebra-mola, um obstáculo entre o cidadão e sua necessidade.

Escola Ideologizada

Vamos à escola para aprender a pensar e sobre o que pensar. Íamos à escola porque o estudo do idioma, da matemática, da lógica, da física, química, biologia, história e outras disciplinas careciam de tempo e instrução precisa e muito, muito tempo dedicado à leitura e resolução de exercícios.

Ao longo do tempo, a escola, principalmente o ensino superior, acabou se tornando caro, excludente e, francamente, mais ideologia do que conhecimento prático, para a resolução de problemas. Tornamo-nos participantes – os EUA que o digam – de um processo de quase deseducação. Vivemos e respiramos o resultado disso: gerações e gerações de recém formados quase inúteis, sem postura e sem garra são o resultado disso tudo.

Volto à minha recente viagem à China só para fazer um paralelo entre a educação e garra do jovem profissional chinês e nossa horda de deserdados da inteligência (claro, com as marcantes exceções de sempre). Ver chineses lançarem-se ao trabalho e à busca por eficiência com tal desejo de vencer me deixa com a nítida impressão de que não teremos nunca a menor chance de competir nem com os asiáticos (o mesmo é praxe entre coreanos, japoneses e outros orientais) nem com países do primeiro mundo. Aliás, não conseguimos competir nem com os vizinhos argentinos e uruguaios.

Religião Bastardizada

Talvez o que mais dê tristeza a alguém que, como eu, vive e respira o Evangelho e o amor a um Deus todo-poderoso seja a inutilidade, para o ser humano, da religiosidade atual. Não falo aqui das religiões não cristãs, cujo cunho básico é no máximo neutro quanto à formação do indivíduo, espiritualmente. Falo de um cristianismo bastardizado que invadiu o Brasil, e que, ao contrário de tantos outros casos, não transforma o ser humano como só Cristo transforma.

Trata-se de um “evangelho de prosperidade” que trata Deus como um servo do ser humano, cujos desejos devem ser atendidos, e para quem tristeza e provação são prova de desfavor da Divindade. Como se o exemplo do cristianismo verdadeiro, ao longo dos séculos, não tenha sido o “tomar a cruz”, e sofrer pela causa de Cristo.

Esse cristianismo bastardo, fácil, sem dores nem lutas, é outra criação humana cuja utilidade é nula, cujo efeito benéfico na sociedade é pouco ou nenhum, cuja melhora moral – que só o Evangelho costuma trazer – não existe.

Quando se “abençoa a propina”, quando se recebe benesses de corruptos, quando se justifica o recebimento ilícito de uma concessão de rádio ou TV, ou outras ações terríveis por conta de um “fim justificável”, tem-se o caminho para a derrocada. Que isso (Deus nos livre) não nos leve a nós, que realmente cremos em Cristo e sabemos que o caminho dEle passa pelo trabalho árduo, honestidade, disciplina, oração e dores, a irmos junto com esse evangelho bastardo para a lata de lixo histórica.

Pseudo-Ciência

São vários os exemplos de pseudo-ciência que nos cercam e que, francamente, deprimem. Já li e ouvi sobre a “Matemática Inclusiva”, sobre as várias teorias críticas de Gênero, sobre outras aberrações que só acadêmicos ou intelectuais conseguiriam acreditar (parafraseando George Orwell).

Não apenas uma escola ideologizada, mas uma ciência que se curva a situações tão ridículas que é extremamente difícil até articular uma reação. Uma professora teima em não responder a uma pergunta objetiva de um senador, em uma comissão no congresso dos EUA. Este pergunta: “objetivamente, existem homem e mulher, do ponto de vista biológico?” ao que a intelectual promove uma dança de palavras sem qualquer intuito que não o de fugir ao mais fundamental conceito biológico: sim, são dois cromossosmos diferentes, X e Y, que performam um ser humano do sexo masculino, e dois iguais, X e X, que fazem o mesmo com alguém do sexo feminino. Só isso. É algo tão indefensável que seria pueril em qualquer outro século – exceto no nosso – ver alguém tentar defender algo diferente. Mas, ok… já vi alguém dizer que “2 + 2 = 4” ser algo pouco inclusivo, e muito radical. Não ter uma alternativa a isso é “bigotry”. Santo Deus…

Quatro exemplos, Governo Grande, Escola Ideologizada, Religião Bastardizada, Pseudo-Ciência, nos dão um vislumbre daquilo que um pouco de micro-evolução vai acabar por eliminar. Deus sempre dá um empurrão nesses processos; Deus sempre acaba por impulsionar a mudança para melhor. Sua Natureza, a criada por Deus, sempre acaba por empurrar as coisas para seus devidos lugares. Ainda que para isso coisas terríveis como fomes, pestes, guerras e outras tragédias tenham que, tristemente, intervir.

Vamos agora ao que mais dá medo, por estar-se tornando não apenas inútil, mas pernicioso

Política

Não é de hoje que países enfrentam o dilema entre A Política e Seus Políticos. Quase todos entendemos que a política parece ser algo importante. Elegemos representantes para que, em um número menor, e devidamente proporcionais aos anseios da população, lhes outorguemos mandatos para falar em nosso nome de uma forma mais ordenada.

A democracia representativa e a república parlamentar são formas legítimas e na maior parte das vezes correta de fazer com que o povo seja representado adequadamente. Parece que ao longo dos anos, tanto a qualidade moral dos políticos quanto as manobras para mudar o sistema de representação, de equitativo e equilibrado em desproporcional e privilegiado tem tornado a política algo francamente odiada.

Tomemos por exemplo o Brasil. Ninguém hoje pode dizer que temos um sistema de representação parlamentar minimamente justo, ou conducente ao equilíbrio do que pensa o país. Hoje, dois caras, um presidente do senado, e outro da câmara dos deputados, possuem um poder desproporcional, que ninguém os outorgou, e que acaba por destruir o sistema de freios e contrapesos da República.

Outro exemplo claro é o poder detido por presidentes de partidos políticos, no processo de indicação de puxadores de votos. O sistema atual de “encaixe” de candidatos nas vagas, independentemente de sua votação pessoal, torna nosso congresso um lugar que, francamente, não espelha, para nada, o que pensa e aspira a população.

Até quando um punhado de pessoas dominará o interesse nacional? Até quando um punhado de autoridades vão, monocraticamente, desdizer decisões desse (já pessimamente representado) congresso e tomar para si o poder de definir leis não votadas?

Até quando, enfim, partidos sem representatividade real na população, dominar o congresso nacional com seus conchavos e tramóias?

É algo que cairá, certamente, em desuso. Antes de cair, porém, deverá trazer consigo alguma tragédia – normalmente acompanhada de sangue.

Cinco exemplos em que um Darwinismo social poderia ajudar a tornar inútil. Cinco tristes sintomas de que algo está muito artificial, muito ruim, em nosso planeta. Mais uma vez tenho que terminar com meu bordão, que uso de vez em quando: Deus nos livre!

Capitalismo versus Democracia na China

Uma consulta rápida em artigos acadêmicos e até uma pergunta complexa e bem formulada a uma IA me retorna alguns fatores que, em boa medida, posso comprovar pela minha recente visita à China, e que me está dando o que pensar.

O Pacto

Após a morte de Mao Tse Tung, e seu (na minha opinião) desastrosa política social, que levou milhões à morte pela fome, seu sucessor, Deng Xiaoping tratou de mudar o conceito da China moderna, com a inclusão da “burguesia” como fator de geração não somente de riqueza, mas de meios para sanar a miséria sistêmica dos anos de “Comunismo Raiz” de Mao.

Deng modernizou a China e, agora por cerca de 40 anos, o tal pacto continua forte, a despeito de muitas ameaças. Qual é o pacto, segundo a minha IA:

O Estado entrega:

  • crescimento econômico;
  • redução da pobreza;
  • estabilidade;
  • segurança;
  • infraestrutura;
  • ascensão nacional.

Em troca, a população aceita:

  • monopólio político do Partido;
  • restrições à liberdade de expressão;
  • ausência de eleições nacionais competitivas;
  • censura;
  • vigilância.

E de fato, nenhum país tirou tanta gente da pobreza como a China nos últimos anos. Claro que a entrada na Organização Mundial do Comércio (apoiada pelo Brasil, inclusive) foi o passo mais importante para tornar a China o que é hoje: fonte de 70% de toda a manufatura mundial e somente de 30% do consumo, ou seja, cerca de 40% da manufatura chinesa inunda o mundo, traz superávits comerciais enormes ao país e dá a condição de colocar comida na mesa de mais de um bilhão de almas.

O Dilema

Kissinger esperava que com a distensão com os EUA a China acabasse se tornando um país mais democrático. A crença ocidental, ou melhor, de boa parte dos governos ocidentais sempre foi a de que com a riqueza, a democracia representativa acabaria por prevalecer. Não aconteceu na China, por enquanto.

Xi Jinping aposta num fator chave: o fato de que o povo prefere a afluência ao voto, e que, no fundo, o sistema político chinês acaba por ser meritocrático, antes de ser democrático.

Convenhamos: a democracia do ocidente está em crise. Que digamos nós, brasileiros, submetidos a uma cleptocracia do executivo e do judiciário, somada a uma omissão quase total do legislativo. Os EUA se encontram rachados no meio em termos políticos. A Europa patina em bizarrices como dar casa e comida de graça pra imigrantes ilegais e francamente litigiosos contra os valores da EU. Qual foi a última vez que vimos o sistema político de algum país ocidental ser exaltado por suas qualidades, méritos e virtudes?

No Brasil, principalmente, fica claro que vai para a política, com a exceção possível do Partido Novo, gente desqualificada, capaz de tudo. Aliás, lembro bem da frase de Winston Churchil (creio) sobre o Parlamento:

“Metade deles é incapaz; a outra metade é capaz de tudo”…

Mas não nos iludamos. Não faz muito tempo víamos uma outra China. Lembro bem logo depois da morte de Mao quando sua viúva e vários outros “dignitários” (Jiang Qing, a viúva de Mao, mais Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan, Wang Hongwen) formaram o que se convencionou chamar de “A Gangue dos Quatro”. Até bem recentemente os casos de corrupção abundavam na China, quanto Xi resolveu combater “tigres e moscas”, sendo “tigres” os grandes líderes e as “moscas” os burocratas menores corruptos. A mensagem era –
ninguém estaria imune ao processo de limpeza. Isso começou em 2012 e ainda continua acontecendo. Recentemente dois oficiais generais do Exército do Povo foram condenados à morte por corrupção.

O processo de mudança foi até ao comportamento diário do chinês (cuspir no chão, entre outras práticas) e atitudes ante o trabalho. Entre minha última ida ao país no início do Século e esta, vi algo extraordinário: uma mudança que eu nunca esperaria. Muitas coisas para melhor, nem todas.

Como ocidental, considero a liberdade um valor fundamental do ser humano, e eu não abriria mão da minha em troca de estabilidade política comida. Mas não vou julgar o próximo, pois não vivi o “grande salto adiante” e outros períodos da vida chinesa, que podem perfeitamente bem justificar a troca de afluência pela obediência.

O Medo do Ocidente

Sim, o ocidente tem medo da China, por várias razões – a belicosidade em relação a Taiwan, a agressividade nos negócios externos, entre outros fatores. A China por suas vezes, reluta em admitir adesões a valores do ocidente, mas não dá para negar isso em todas as esferas – que o diga a adesão a um sistema internacional de contabilidade, o IFRS, bastante claro e rígido, além de uma formação técnica de auditores e contadores com base nisso, que em muito excede, ou parece exceder, os padrões de formação exigidos desses profissionais aqui no Brasil, por exemplo.

Mas cá entre nós, o ocidente tem mesmo que ter medo, quando o estudante médio chinês dá um couro em quase qualquer nação ocidental, em matemática e redação, por exemplo. Mais grave, reconhecem e combatem a tendência ocidental de trocar o que é fundamental (ciência, rigor de pensamento, clareza de ações) por “sensações” e “realização”, antes da comida na mesa. Não gosto nem um pouco de ver nossos “floquinhos de neve” derretendo quando exigidos mesmo que de leve, no cumprimento de suas funções. É extremamente preocupante ver que boa parte da juventude está mais interessada em Tik-Tok, em ser “Influencer” ou qualquer outra coisa, em vez de colocar o traseiro numa cadeira e pensar, estudar, criar e produzir.

O ocidente vê suas universidades invadidas por temas imbecis, por passeatas ridículas, por “ambientes seguros”, por não-me-toques e coisas absurdas, em vez de cultivar o saber. Universidade deixou de ser lugar de buscar-se a verdade e passou a ser um lugar de protestos risíveis, quase sempre para o lado errado.

Enquanto matamos bebês, os chineses acabram com as restrições à natalidade e a estão incentivando. O medo, portanto, é fundamentado, e para resolver o problema não devemos atacar os chineses. Exceto pela tal falta de liberdade, na conduta pessoal talvez devêssemos imitá-los.

A China que vi

Passei as últimas duas semanas em uma extensa e cansativa viagem ao outro lado do mundo. Shenzen, Shangai e Beijing, além de rápida passagem por Hong Kong, me deixaram pensativo sobre este país estranho (para nós), e fascinante.

Não foi minha primeira viagem para lá, mas poderia se dizer que sim. O país que encontrei em 2026 nada tem a ver com as versões de 1999 ou 2008. Não restou nada do smog (fumaça) nas cidades, do barulho do trânsito ou das cusparadas no chão que tanto davam nojo e irritavam. Ainda restam as cotoveladas (para ganhar espaço) e o relativo desrespeito pela fila. Cidades mais silenciosas, povo mais cordato, limpeza geral igual à Suíça, e, mais do que nada, muito, muito consumismo.

Surpresas Positivas

Não só a limpeza e silêncio gerado pelas scooters e carros elétricos, hoje a grande maioria da frota do país, fui surpreendido por um capitalismo que coloca muitos dos países ocidentais no chinelo. Barganhas ferozes entre compradores e vendedores, turismo interno intenso, um shopping mais bonito, maior e mais opulento que o outro, em quantidades novaiorquinas, entre outros indicadores de opulência e status de potência internacional.

Rodovias e ferrovias impecáveis, canteiros de plantas para onde se olha, e muita marca ocidental. Isso por si só nos levaria a pensar em um país quase que ocidentalizado, e que haveria rejeitado princípios do comunismo clássico. Não vou tão longe em dizer isso. No entanto vou citar quase que textualmente o que me disse um morador de lá (não cidadão chinês, mas que lá vive há anos): “A China deu a seu cidadão médio um padrão de vida mais alto do que em qualquer ponto de sua história. Será muito difícil retirar este padrão, ou baixá-lo, sem uma grande comoção social”. Se isso for verdade, se traduzirá em uma tendência a um capitalismo continuado, ainda que centralmente dirigido.

Surpreende mais ainda um Tributo sobre o Consumo de 9% (apenas) comparado com os 28% ou mais que nos será imposto quando da implementação total do novo sistema de IVA dual no Brasil. Ou seja, mesmo a China, teoricamente comunista, tem menos carga tributária sobre o cidadão do que o Brasil, teoricamente republicano.

Surpresas Sociais

Em nossa estada ali, fomos ciceroneados por muitos jovens profissionais, extremamente informados e interessados no ocidente. Mas com um orgulho de seu país que não condiz com uma situação tão repressiva quanto se poderia imaginar. Obviamente que se alguém corre algum risco social, vai se manter dentro de uma linha de conduta mais pró-governo, mas não posso afirmar que isso foi o que aconteceu.

Chamou a minha atenção o profissionalismo e interesse no futuro desses jovens. Aliás, o inglês deles e o conhecimento geral também são atrativos à parte. O contraste com um país como o nosso, em que a juventude está sendo alienada pela seu próprio processo educacional é gritante. O chinês médio parece estar agindo e trabalhando como nossos Baby Boomers. Duro e com um senso de missão que hoje parece que perdemos. Parecem ser pessoas mais pensativas e resilientes, mais dados a sacrifícios por uma carreira e futuro, mais senso de família, menos droga, menos desperdício de tempo.

A Quarta Estrela da Bandeira

Juro que regressei com um conflito entre o que vi e o que se relata aqui no ocidente. Passei a revisar, e continuo revisando, o que realmente se passa no nível de governo de lá. Creio que é claro que são controlados centralmente, e que hoje o comunismo está muito mais no nível do controle social do que econômico – coisa que até o Brasil poderia aprender – se imiscuir menos na atividade econômica e tributar menos, deixando o povo mais livre para empreender.

A bandeira chinesa possui uma estrela grande – o Partido Comunista Chines, ou, de resto, a própria China, e 4 estrelas menores, diz-se que representando o campesinato, os trabalhadores urbanos, a Burguesia urbana e a Burguesia nacional (não ligada ao “imperialismo internacional”). Deng Xiaoping, o arquiteto do atual desenvolvimento chinês, deu ênfase justamente à burguesia, considerando que sem ela, não há comunismo possível. Certo, sempre há que se ter quem espoliar, para poder manter o poder.

Então o comunismo deu certo na China? Duvido que se possa dizer isso. Mais certo seria dizer que o capitalismo permitiu a existência de um regime de planificação central. O que dá certo são regras claras (o que, a despeito de algum nível de desrespeito pelos direitos humanos, conforme nós o entendemos no ocidente, a China possui), o que dá certo é a certeza de que o cometimento de atos lesivos ao interesse coletivo serão punidos, sem direito à politicalha.

O que deu certo na China, desde que Xi Jinping ascendeu ao poder foi uma mistura de rigor contra a corrupção, foco na educação e liberdade para empreender.

Como é que existe propriedade privada num estado comunista? Pelo que ouvi e pude constatar, a China permite que áreas rurais sejam de propriedade privada. A razão para isso é para tentar trazer os trabalhadores de volta ao campo. A propriedade urbana, em tese, é do Estado. O estado não te “vende”, mas te permite usar por um período de 70 anos, renováveis (creio). Além disso, pode-se comprar e vender esses direitos a valores de mercado, renovando o período de posse. Ou seja, para a maioria dos seres humanos, isso é, na prática “possuir”. Somos “donos” de que, mesmo no ocidente? De nada, diria eu, exceto o direito de posse e de vender o ativo. Essa é toda a diferença? Não sei, mas continuo a estudar o assunto.

Não pretendo me tornar um Cinófilo, em nenhum dos dois sentidos – estudioso da China, nem grande amigo. Porém, dissipei alguns temores, e criei outros. O principal deles é que, a continuar a tendência, teremos uma “Idiocracia” cada vez mais no ocidente, com um nível de corrupção política indizível, e cidadãos deseducados, contra uma China bem gerida e com cidadãos pensantes.

Alea Jacta Est, ocidente.

Brazilianization

Acabando de chegar pra trabalhar, dou de cara com esse artigo que chama de “abrasileiramento” o fenômeno de empobrecimento (físico, moral, judicial) em países do primeiro mundo, que acabam por se tornar bem mais parecido conosco.

https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/brazilianization-como-o-brasil-deu-origem-a-um-termo-pejorativo-no-exterior/?utm_source=salesforce&utm_medium=emkt&utm_campaign=newsletter-bom-dia&utm_content=bom-dia

Empobrecimento

O primeiro aspecto do termo diz respeito ao empobrecimento gerado em locais como Canadá, Reino Unido e a Califórnia, para ficar em poucos exemplos, nos quais a população de classe média começa a minguar, dando lugar a uma quantidade grande de muito ricos e uma legião de pobres.

Não dá pra dizer que a existência pura e simples de ricos seja ruim em si, exceto que a inexistência de uma substancial classe média, típica dos países ricos, é, sim, um marcador importante de pobreza sistêmica, cuja tendência, se não revertida, faz um país realmente empobrecer.

Mas isso, na minha opinião, é resultado, não causa.

Favelização

“O abrasileiramento do Canadá já começou. Favelas e censura para todos”

Cosmin Dzsurdzsa

Acho que o autor da frase acima não se limita à menção de favelas mesmo, físicas. Obviamente que sabemos que mais de 10% da população brasileira vive em favelas ou bairros análogos. O Rio de Janeiro é o símbolo maior dessa situação. No meu tempo de jovem, locais como Vila Cruzeiro, eram bairros de classe média-baixa, mas não eram favelas. Tinham ruas razoavelmente retas e abertas, coleta de lixo e “fumacê” (mata-mosquitos). Hoje, locais onde ficava a fábrica de lingeries Poesi, por exemplo, estão dentro do complexo do Alemão.

Não para na favela física, creio, mas vai até a favela educacional:

“O presente dos Estados Unidos do Brasil se parece com o Brasil do passado, e o futuro dos Estados Unidos se parece com o presente do Brasil”, Green afirma, depois de mencionar que a Califórnia tem fronteiras porosas, ruas esburacadas, escolas comandadas por “analfabetos fanáticos”, prisões superlotadas, uma taxa de homicídios em alta e um governo corrupto.

“O presente dos Estados Unidos do Brasil se parece com o Brasil do passado, e o futuro dos Estados Unidos se parece com o presente do Brasil”, Green afirma, depois de mencionar que a Califórnia tem fronteiras porosas, ruas esburacadas, escolas comandadas por “analfabetos fanáticos”, prisões superlotadas, uma taxa de homicídios em alta e um governo corrupto.

Dominic Green, citado na reportagem da GP, acima mencionada.

Atenção à frase “analfabetos fanáticos”. É aí que está o grosso da destruição. Entregamos nosso sistema educacional a analfabetos na prática, mas com muito potencial destrutivo. Isso ocorre há décadas, e hoje colhemos os resultados. O que o artigo reforça é que o Brasil parece ter “exportado” essa tecnologia de destruição social a países do primeiro mundo. O estarrecedor é que esses países desenvolvidos tenham “comprado” as ideias e as colocado em prática.

Judiciário

Um judiciário como o brasileiro, caro, ineficiente e em boa parte, corrompido, não pode gerar efeitos educacionais (positivos) numa sociedade, qualquer que seja. O autor compara a situação vivida por países desenvolvidos com o que temos aqui: leniência com o crime organizado, e com relação às “elites” políticas da nação. Falta quase total de justiça para a população em geral. Um traficante mata um guri de 18 anos que pisou no seu pé (provavelmente sem querer). Não há qualquer pudor em matar, já que as consequências inexistem.

Além de caro, lento. O avô da minha esposa bem que tentou esperar para ver reparada a desapropriação de suas terras, num ilha no Rio Paraná, perto de Guaíra, para formação do lago de Itaipu, que acabou nem inundado nada. A ilha está lá, intacta, o avô da esposa morreu aos 94 anos de idade, sem que o judiciário se pronunciasse, em mais de 30 anos de processo indenizatório aberto. Lentidão na justiça e injustiça pura e simples, são a mesma coisa, creio.

Mais do que isso, a deterioração da qualidade acompanha um aumento violento de custos com o judiciário. Férias de 60 dias ou mais, por ano, auxílio isso, auxílio aquilo, verba disso, verba daquilo, fazem os togados verdadeiros rajás brasileiros. É de longe o judiciário mais caro do mundo.

Quanto à qualidade da legislação criminal, a falta de punição a quem mais precisa dela dá ao cidadão comum o senso de que não tem jeito, e não vale a pena lutar por justiça. Ao marginal, dá a plena segurança de que “tá tudo dominado” e que existe uma nova ordem em cidades como o Rio e São Paulo, uma ordem na qual o poder público não detém mais o monopólio da violência, e que, mesmo quando tem, prefere não exercer, trocando o encarceramento por medidas tão brandas que estimulam o crime.

Educação

Já toquei no aspecto educacional, mas aqui há mais a ser dito: não se trata de entender diferente a educação. Trata-se, pura e simplesmente, na negação dela à população, travestida de preocupação com a mesma. Matemática, Português, Biologia, Física, Química, História e Geografia são substituídas por “matérias” que ensinam a questionar a ciência, a torná-la tão relativa quanto possível, independentemente do fato de que não que qualquer pessoa com 2 neurônios não devesse discutir com uma equação.

Aqui, é importante frisar que a base da prosperidade de qualquer país é a qualidade de seu povo, do ponto de vista de saber fazer coisas, de criar outras coisas melhores, e de usar coisas com habilidade. Perdemos, dia a dia, e continuaremos a perder essas qualidades, na medida em que nossa educação serve mais para desestabilizar a geração de riqueza da nação do que criá-la.

De anão diplomático a exemplo de anti-desenvolvimento, vamos bem, nessa jornada rumo ao quarto mundo.

Green Brakes

My foreign colleagues in our practice (accounting, audit) frequently hit me with questions arisen from what they read in their media on the fact that Brazil does not follow a good Environmental Governance. Allegation as to how much we devastate on the Amazon, how we have such a poor administration of our environment frequently get under my skin, due to the lack of proper information and the ultimate bad faith of a league of media outlets that are either totally mistaken or willfully wishing to spread misinformation, at someone else`s expenses, and for someone else’s profit.

Environmental Code

Being born in a rural area in Rio de Janeiro State and directly linked to a family of original agricultures and dairy producers, I know for a fact that fulfilling the Brazilian Environmental Code (BEC for short) is a challenge. In the South/Southeast areas of Brazil, a minimum of 20% of the total area of a farm must be kept untouched; riversides are to be kept untouched for a minimum of 10 meters up to 100 meters in each side, depending on the width of the river. Knowing Brazil, and knowing the amount of rivers and creeks we have, you may imagine how much of native forest must be kept.

In the “Legal Amazon Area”, that corresponds to 59% of the total area of Brazil`s more than 8 million Km². It means that legally, at least 55.4% will never, ever be touched. In fact, as of today, Brazil keeps 64.7% of its original vegetation, as it was in April 22, 1500. This does not include the reforesting, an increasing and thriving activity, vital for the pulp and paper chain.

Energy

Here, a conundrum: despite of the fact Brazil has over 90% of its energy sourced from renewables.

In fact, renewables represents about 92% of Brazil’s energy generation in 2024. Hydropower remains the dominant source, contributing around 50% of the electricity supply, while wind and solar energy have also seen significant growth ()1

The primary renewable energy sources in Brazil’s matrix include:

  • Hydropower: Approximately 50% of electricity generation.
  • Wind Energy: Around 15% of electricity generation.
  • Solar Energy: About 10% of electricity generation.
  • Biomass: Contributing to the remaining share.

BTW, nuclear is not included in the quote from ChatGPT. It represents 2.2%. ChatGPT is right in not classifying nuclear as “renewable”. That does not mean it isn`t “clean”, in my opinion.

The Environmental Control Bureaus

Brazil has a myriad of environmental bureaus and bureaucracies. Each, with few exceptions, occupied by radical environmentalists with close to zero cares on the development of the country and the wellbeing of our population. We have 5 agencies of direct/indirect environmental control, at federal level, 27 such organisms at state level and, assuming we have over 5.5 thousand counties, at least half of them with environmental secretariats.

All in all, a constellation of environmentalists, each willing to outdo and clickbait the other and show more “concern” on the environment.

Nothing against environmental control, of course. This is important and Brazil is doing its fair share on it. Just that it has shown relevant side effects that must be understood.

Side Effects

Once again, asking my patient reader to keep in mind that I am all for a good environmental stewardship, I just want to point out some absurd effects of it over the Brazilian society as a whole and how, even with all the burden carried by us, it seems that some countries are not satisfied with the results.

For we know that the whole creation groaneth and travaileth in pain together until now. 

Romans 8:22 (KJV)

My Bible tells me, more than once, that the human sin has put a tremendous strain on the environment, as above quoted from the Apostle Paul. Unnecessary to elaborate the fact that all mankind should be extremely environmentally concerned, without being idiots, of course.

That said, one side effect of the radical environmentalism, probably the most critical, is on infrastructure and mobility. From Curitiba, where I live, to the nearest beach, it is about 100Km, or 60 Mi. It takes from 1h 40min to reach there, but it often takes 3, 4 hours. The reason is that environmental agencies stop virtually all efforts to give better access to the beautiful shore. Good stewardship of infrastructure should be conducive to a larger appreciation of the environment; a stronger attachment to the beauties of the Atlantic Forest close to us.

One other example: the highway from São Paulo to the south of Brazil, the Regis Bittencourt highway, had a 30 Km portion in single lane, despite the quality of the rest of the road. The reason, environmental permits to duplicate that portion due to the existence of some families of “Mico Leão da Cara Preta” (Leontopithecus caissara) monkeys. A battle ensued and it took over 20 years to complete the duplication of the highway. Now the travel from Curitiba to São Paulo takes at least 1 hour less than 5 years ago. Nobody thought about the long line of trucks and cars expelling CO2 in the atmosphere for some many years. Something totally evitable.

Rivers and bays denied bridges and highways, due to “environmental impacts” (despite the reports telling the opposite, sometimes). Everybody in Brazil have experienced trips partially interrupted by long lines of cars/trucks waiting to be ferried over a bay or a river in ferryboats.

Whole communities in the northern Brazil have electricity for no more than 8 hours per day, diesel-based. The reason? A transmission line that links the north to the rest of the energy grid is deemed “harmful” to the environment. Let the diesel be used, let peoples’ quality of life be miserable, provided some unknown bureaucrat have its way (or the way some ONG directs them to apply).

Agendas

As usual in Brazil, a hidden agenda permeates the environmental decisions. Rationality, not a national sport among politicians by any means, becomes enraged platitudeness speeches of raging and red faced politicians, with prominent blue veins in the neck, from the tribune of the chambers of the legislative, uncapable of seeing the bad light that they unnecessarily bring to Brazil in the world.

This beautiful country will some day wake up and start doing the rational and right thing: to adequately plan and develop an infrastructure that will enable progress, boost eco-tourism and facilitate mobility, all at once, making our lives not only better, but more enjoyable.

I wish all my friends and relatives, those who follow me in the social media and here, a blessed Christmas and a very happy New Year, 2025!

  1. Source Brazilian Government, through ChatGPT ↩︎

Sociedades Crescentemente Heterogêneas

As tribos se formaram por proximidade, parentesco e necessidade. Nas tribos, esses fatores acabaram por tornar o grupo mais homogêneo. Um grupo homogêneo é mais fácil de se conviver; menos propenso a ter estresses por questões do dia a dia. Os comportamentos são mais ou menos parecidos, e aceitos por todos, e há “princípios geralmente aceitos” de conduta, vestimenta, alimentação, entre outros.

Várias tribos, ao longo dos séculos, acabaram se tornando nações, por proximidade geográfica ou racial: já não com um nível tão alto de homogeneidade, mas com uma razoável similaridade de condutas, gostos, etc. A pluralidade de idiomas é mais marcante na Europa e Ásia do que em quase qualquer lugar, justamente por conta do relativo isolamento geográfico. Dialetos e Patuás fazem a interface, digamos assim, entre regiões maiores.

No final do Séc XIX e durante todo o Séc XX, um movimento sem precedentes de migrações massivas, pela primeira vez não necessariamente originada em guerras de ocupação ou fatores de força maior, começaram a deixar o mundo um lugar mais “plural”. A criação de “padrões idiomáticos” mais amplos, como o inglês de Shakespeare, o italiano de Dante Alighieri, o espanhol de Cervantes e o português de Camões são exemplos de ampliação de uma área de influência, ainda que cada vez menos homogênea, culturalmente.

Mesmo os EUA e o Brasil, talvez os dois maiores exemplos mundiais de populações que se formaram, desde sua colonização, já heterogêneas, havia até algum tempo atrás, um traço de união que acabava por tornar as pessoas mais “parecidas” ao longo dos anos. Era uma forma de absorção ao contexto total, em que o imigrante acabava por compreender e moldar sua conduta a um determinado modelo geralmente aceito. Minha própria família, tanto dos italianos do lado da mãe quanto dos suíços e portugueses do lado o pai são exemplos de absorção tão rápida que em duas gerações, somente, poucos falavam o dialeto ou idioma dos avós.

Foram tempos de grandes trocas de experiência e acumulação de novas e desejáveis características. No Brasil, para ficar em apenas alguns exemplos, absorvemos os hábitos alimentares de outras culturas, desde uma boa feijoada até um sushizinho bacana. Criamos e adaptamos costumes, absorvemos e modificamos palavras estrangeiras, aprendemos esportes alheios e ficamos, por isso, mais ricos.

Mantivemos, porém, características fundamentais, como por exemplo, o uso do idioma que agora lanço mão para me fazer entendido, e tento, pelo menos, fazê-lo de forma a não deixar meu saudoso pai, Prof. Ivanir, envergonhado (ele, professor de português, sempre exigiu qualidade escrita e falada).

Algumas coisas se absorvia, outras se modificava, outras se rechaçava (por serem diferentes demais). Mas sempre de forma paulatina e sem enfiar nada goela abaixo de uma população inteira.

Hoje, entendo que dois movimentos estão contribuindo para que a sociedade se torne cada vez mais complexa de governar: o primeiro é o volume de migrantes. O grande volume de um determinado povo, dentro do país alheio, acaba gerando tensões e muitas vezes rupturas. É como se fosse uma “Aquisição Hostil” de um território, sem dar um tiro (ou poucos tiros).

A segunda razão é um outro tipo de “migração”. É a quase obsessão com a cultura do outro, o “lugar de fala”, e a necessidade de aceitar/engolir a conduta alheia, ainda que nos fira ou incomode. Não se trata mais de um gradualismo, que leva a sociedade a mudar sem mais ferimentos. Trata-se de engolir um boi inteiro, em uma única refeição, sem tempo de absorver e digerir. É como um veneno por dosagem, não por conteúdo.

A sociedade brasileira está sendo forçada a ir numa direção que majoritariamente não quer ir, em uma velocidade que não permite tempo para “normalização” do novo.

É aí que a sociedade começa a perder seu sentido.

Mãe Nossa / Alvo mais que a Neve

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Qualquer pessoa com alguns neurônios funcionando sabe perfeitamente bem que a Bíblia não “determina” que Deus é homem ou mulher. Em pelo menos uma ocasião, respondendo a saduceus (que nem criam na vida eterna), Jesus falou que uma mulher que tinha tido sete maridos não seria “de nenhum deles no céu”, pois no céu seremos como anjos, e não casaremos nem seremos dados em casamento. Uma óbvia resposta ao óbvio conceito de que anjos não são homens nem mulheres, e que Deus, obviamente, não se encaixa num conceito de masculinidade ou feminilidade.

Sexo dos Anjos

E cá estão teólogos e pastores famosos discutindo sobre o sexo dos anjos (como a sabedoria popular já diz: uma bobagem em si mesma. O referido teólogo, em um video recente (reproduzido parcialmente em https://www.youtube.com/watch?v=VLgHdaefoWU ou https://www.gospelprime.com.br/heresia-ed-rene-kivitz-apresenta-deus-como-mamae-do-ceu/) chama atenção para si, mais uma vez, pelas razões mais desatrosas possíveis.

O sexo dos anjos, ao que parece, “precisa” ser debatido, nem que seja para agradar um público específico.

Alvo mais que a Neve

Outra “celebridade” do meio evangélico, recentemente em entrevista com Caetano Veloso, faz uma crítica ao uso do Hino “Alvo mais que a Neve” (No. 39 da Harpa Cristã ou No. 123 do Cantor Cristão). A tal celebridade fala, a um Caetano “inebriado” algo mais ou menos como “a gente cantava aquilo com a maior naturalidade, como se não tivesse problema algum”… Em síntese, na cabeça da celebridade, cantar “alvo mais que a neve” é ato de racismo… e os negros cantavam isso com a “maior naturalidade” nas igrejas.

Talvez esteja na hora de “reinterpretar” o Salmo 51:7, no qual o Rei Davi fala:

“Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve.”

Qual é a Finalidade?

É muito difícil sair censurando as pessoas pelo que elas dizem, no “valor de face”, digamos assim, sem aprofundarmos no assunto, ou nas intenções. Não posso, sinceramente, condenar pessoas, com as quais concorde eu ou não, pelas suas palavras. Isso é função (Sic!, de novo) do STF e de patrulhas ideológicas. Aqui, dou apenas minha humilde opinião e experiências vividas.

Independentemente da puerilidade da discussão, Deus não foi chamado na Bíblia de MÃE em nenhum momento. Algo errado, se tivesse? Não creio. Minha fé mudaria se Deus fosse mais “feminino” que “masculino”? Não. Eu seria menos cristão se assim o cresse? Não.

A questão aqui é outra: Não vejo nenhuma oração da “Mãe Nossa”; não vejo em nenhum lugar o Espírito de Seu Filho clamando por por nós com a expressão “Ama, Mãe” (Ama é o equivalente a Aba, em hebraico).

Não vejo a Senhora dos Exércitos em nenhum lado, não vejo Paulo nos dizendo Graça e Paz da parte de Deus, nossa mãe”.

A questão da neve é menos “grave” por assim dizer, porque não foi levantada por um teólogo, cara eloquente, inteligentíssimo, autor de diversos livros e pregador de tradição. É mais uma questão de aparecer mesmo (talvez em ambos os casos) e jogar pra platéia. É um caso de Wokeísmo, mais barato, menos refinado, e, francamente, menos refletido e talvez mais idiota: ora, neve é branca; ora, fuligem é preta. Ora, não existem “pretos” nem “brancos”. No máximo existem “rosados” e “marrons”, nos dois lados do espectro conhecido da pela humana.

Quando Davi fala de “alvo mais do que a neve”, obviamente não está fazendo nenhuma menção a pele, a nada, que não seja diretamente ligado à noção de pecado, de um lado, e santidade, de outro. É risível, portanto, ver um Caetano, que nem é cristão, ficar transfixado pelas palavras da celebridade. “É verdade? Puxa, que gente racista, que gente burra”…

Talvez seja mais fácil discernir o interesse do talentoso cantor baiano do que a das ditas “celebridades cristãs”.

Arranca Rabo

Mas no caso do teólogo, não sou exatamente inparcial. Há alguns anos, durante a campanha do ocidente para expulsão de Sadam Hussein do poder, e reconquista do Kwait, escrevi um texto (do qual não me arrependo – desculpe, celebridade… burrice minha talvez) em que eu dizia algo como “creio que exista um excesso de grana na mão de alguns tiranos locais, e que seria muito bom que os caras tivessem menos recursos pra bancar suas tiranias”. A resposta ao meu texto (bom, eu que não sou nem celebridade, nem teólogo, e francamente, ninguém na fila do pão) foi “tristes palavras“. Logo depois diz “somos o povo que apanha, não o povo que bate“. Lindo! O coro de aplausos deve ter sido super bacana… só que erra o alvo no básico: um caminho pode parecer uma escolha “de paz” e não “pacificadora”. Todo mundo sabe o resultado: por um lado temos um Iraque e um Kwait mais pacificados; temos um Irã (que não foi confrontado) atacando a única democracia do Oriente Médio; temos, enfim, alguns anos de tentativa de pacificar por meio da covardia, países claramente ofensivos e beligerantes. É o ideal? Não, mas é melhor do que a covardia pura e simples.

Aquilas palavras me doeram, não porque eu seja a favor de guerra alguma. Como cristão desejo a paz, mas não aquela paz imediatista, equivalente à mulher que apanha do marido e se cala para não causar escândalo. Essa é a paz que se submeter a uma tirania significa. Me doeu, mais ainda, porque tenho certeza de que o tal teólogo tem massa encefálica suficiente para entender que pacificar é diferente de ser covarde e ter paz no curto prazo.

O Apóstolo Paulo mesmo, ao falar sobre o tema da “Paz” disse:

Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.

Romanos 12:18 

Ora se nem a Palavra nos “obiga” a ter paz com todos, como é que julgarei eu, euzinho, que sou obrigado a “apanhar” independentemente do resultdo obtido/

Outro dia, assistindo a Guerra do Pacífico em Cores (na TV a Cabo), fiquei apavorado ao ver o que a conquista de Okinawa representou em termos de vidas, para ambos os lados – Japão e Aliados. Truman, e seus generais, tendo em vista isso, optaram por uma solução terrível, quase impensável, mas que no final das contas, poupou milhões de vida: bombardear Hiroshima e Nagasaki. Alguém é favorável a bombas atômicas? Claro que não. Alguém acha que os fins sempre justificam os meios? Não e não. Apenas que a nós, são dadas às vezes, escolhas extremamente difíceis.

Alvo mais que a Mãe

Assim, e brincando de juntar as duas heresias, que sejamos tanto Alvos mais que a Neve, para glória de Deus, e que Deu continue “Pai”, independentemente de seu gênero (que não existe).

Apenas não façamos de não-questões um cavalo de batalha para destruir conceitos lindos e primordiais na vida do nosso já confuso povo.

Êxodo 20:7

Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. 

Êxodo 20:7 – 10 Mandamentos

Esse é um mandamento que é normalmente mal interpretado. A palavra hebraica para “tomar” é “Nasah” (נָשָׂא), que significa literalmente “levantar”, “erguer” ou mais precisamente, “carregar”.

Não “levantarás”, não “carregarás” o nome do Senhor teu Deus em vão. Já escrevi em algum lado que isso não significa falar “Ai meu Deus do céu” e ser jogado nas trevas do inferno. Não me parece que Deus seria pueril a ponto de pronunciar um mandamento assim.

Carregar, levantar aqui me parece – e pareceu ao estudioso Denis Prager, da Prager University, em seu livro “The Rational Bible Exodus” levanta o tema de forma bem mais adequada: Eu “carrego” o nome de Deus em vão quando eu digo que sou “ligado a Deus” e faço coisas que contrariam o que Ele diz, manda, ensina.

Caso (Hipotético) 1 – Negócios Escusos

Estudo de caso é uma técnica para aprendizado e fixação de conhecimento que se tornou a norma nas melhores universidades do mundo. Parece, realmente, que um “estudo de caso” cairia bem para entender como é que um dito cristão toma o nome de Deus em vão.

Fulano de Tal é um empresário. Fulano se diz “cristão”, fulano vai na igreja, leva os filhos, era casado com uma mulher “terrivelmente cristã”. Fulano faz negócios de forma atabalhoada e convence os amigos a investirem com ele. Um desses amigos, entendendo que é algo interessante, convence outros amigos a investirem com ele, suponhamos (para o “case”) num hotel.

Eles compram juntos o hotel. O amigo confia nele porque, afinal de contas, ele “Carrega o nome de Deus” consigo, e obviamente, quem assim o faz, só pode falar a verdade e agir com o melhor de sua capacidade, em prol do outro, antes de si mesmo.

Acontece que, por uma razão ou por outra, o tal Fulano só tem olhos para seus próprios interesses, e, no final de anos, desviando recursos para seus outros empreendimentos, e sempre deixando as águas turvas, para que ninguém veja com clareza, consegue levar todos a perder muito.

Fulano, ainda por cima, se sente “o injustiçado”. Não entrou com um centavo no negócio. Trabalhou, é verdade, mas sempre deixou seus interesses acima dos demais, e no final das contas, joga seus processos trabalhistas em cima de “todos”.

Fulano certamente esqueceu de ler o restante do mandamento: “Deus não terá por inocente quem carregar Seu nome em vão”. Fulano, certamente, terá que se entender com o seu deus, ou com Deus.

Caso (Hipotético) 2 – Pirâmide Financeira

Fulana era amiga de décadas de várias pessoas em sua igreja. Era uma verdadeora artista, trabalhadora e mãe de filhos. Fulana, assim como Fulano, “carregava” o nome de Deus sobre si. Todo mundo a conhecia como tal.

Fulana começa um processo de envolver um monte de gente muito “amiga” em um esquema de pirâmide financeira, bastante dissimulado. Isso vai num crescendo até que “explode” com um caminhão de dinheiro de vários “irmãos” e “amigos” indo parar em mãos incertas e não sabidas.

Ações judiciais pra cá e pra lá fazem a festa para detratores do Nome de Deus. É um festival de apontamento de dedos.

Fulana carrega, agora, o nome de Deus absolutamente em vão, e deixa um monte de gente mais pobre, em detrimento de uma pseudo abundância financeira.

Moral da História?

Os dois casos acima tratam na mesma coisa. A (falta) de moral nessa história já estava descrita como um Mandamento – 10% deles, portanto, falando sobre “carregar” sobre si o nome do Deus vivo em vão, ou seja, indignamente. São casos hipotéticos de pessoas que expressam ao público serem “portadoras do nome de Deus”, e o fazem em vão.

Eu, pessoalmente, já carreguei o Santo nome do meu Deus em vão. Sim. Já tive meus momentos de fraqueza, mentiras, desapontamentos e coisas que certamente Deus não me terá por inocente. Obviamente que o Sangue de Jesus já me purificou deste e de muitos outros pecados, mas os efeitos estão cá comigo. Para sempre.

Estudando para aulas de Escola Dominical no Livro de Hebreus, me deparei com um diagrama que de certa forma toca no assunto, e que gostaria de compartilhar:

É uma forma razoavelmente simples de entender o que o sujeito faz e onde ele anda. Você tem uma conduta condizente com o Nome de Deus? Sim, ou não. Se sim, você pode até não ser “crente”, mas age de forma a não ser um problema para Deus, mesmo não crendo nEle. É o tal “joio”.

Se você age de acordo com o Nome de Deus, e é “crente”, é “trigo”. Já tem gente que não age de acordo com o Nome de Deus. Pode ser “crente” (e aí precisa ser disciplinado ou não (é apóstata, no duro).

Vivemos num mundo de gente que tem “carregado” o Nome de Deus sobre si e feito as maiores barbaridades: desde defender assassinato de criança na barriga da mãe até receber propina e ainda “agradecer a Deus” pelo fruto do roubo. Tem gente que mente para se eleger; tem gente que rouba o próximo prometendo “prosperidade”. Tem de tudo. Ao “carregar o nome de Deus” de uma forma tão horrorosa, dão ao Inimigo a munição que ele precisa para dizer que “é tudo igual”.

Tem gente, por outro lado, que dedica a vida, os bens e a inteligência para abençoar o próximo. Tem gente que sequer crê em Deus, mas de certa forma “carrega Seu Nome” de forma mais digna do que muita gente que se diz cristã. Esses, a despeito da incredulidade, acabam se beneficiando dos Mandamentos e sendo mais felizes, mais realizados, mais prósperos.

Eu quero “carregar” o nome do Senhor. Eu faço questão, e faço questão de fazê-lo de forma a que até mesmo meus detratores e inimigos tenham paz comigo.

Sheol

Não posso dizer que acordei, porque não sabia bem se estava dormindo ou não. Só sei que na minha frente tinha um cara de estatura mediana, e que nem consegui ver o rosto de tanto que o lugar brilhava. Acho de que devia ter estado em algum lugar escuro, porque meus olhos não davam conta de se adaptar à claridade absurda em volta de mim.

Ouvi, mais do que vi, a voz do tal sujeito, o único que eu conseguia mais ou menos ver. Tinha a impressão de que não estava sozinho. Não que parecesse que havia do meu lado um montão de gente, nem porque ouvia barulho típico de multidão. Na verdade, não me lembro nem de ouvir um zumbido sequer. Mas que parecia estar acompanhado, parecia.

A voz me falava de coisas que me evocaram pensamentos ainda da mocidade – coisa que, aos quase 90 anos, é difícil de esquecer. Ao envelhecer, fui esquecendo coisas recentes, e me lembrando de coisas pequenas da infância e juventude; coisas que moldaram meu caráter e minha forma de ser: o cheiro da casa dos meus pais, de fogão de lenha e flor de laranjeira, a textura da pele da primeira namorada, branquela e rechonchuda, a cor do céu e das nuvens, que a gente ficava olhando depois do almoço deitado no capim gordura de trás de casa, e dizia “é um elefante“, “é um camelo“… Épocas mais simples, e que com o tempo pude ter certeza de que ajudei a complicar, a tornar mais pesadas e menos brilhantes.

A voz se aproximou de mim e me dizia que eu tinha, sim, responsabilidade pelos meus atos e que tinha me esquecido de coisas que tinha aprendido, e voluntariamente deixado de acreditar, seguir e obedecer. É fácil ver isso, em retrospectiva. Tive uma vida intelectualmente boa, uma educação – dentro e fora de casa – adequadas, numa escola pública que era melhor do que vi em tempos mais modernos, mesmo paga. Éramos mais simples, menos enxovalhados por complicações que, no fundo, minha geração ajudou a criar.

Fé? Não sei. Acho que não tive nunca algo que possa chamar de fé com F maiúsculo. A mãe? Sim; o pai? Sem dúvida. Eu? francamente acho que não. Ao que a voz me chama e diz “no ouvido” (não dá pra saber se foi ou não) – Carlinhos, esquece o que passou e dê-se uma chance de voltar a crer.

Eu, com minha independência intelectual e língua afiada, respondo na hora: mas crer em quê? Onde é que eu estou, em primeiro lugar, e quem é o senhor (“s “minúsculo, já que não sei com quem falo)? E, por falar nisso, dá pra diminuir a intensidade dessa iluminação? Já estou aqui há uns 10 minutos e não consigo enxergar nada, com essa luz toda na minha cara!

A voz não sobe o tom, não briga, mas demonstra que não ficou satisfeita com a resposta. “Vou te dizer, mas diga: você sabe que dia é hoje?” Eu? Como vou saber? Eu estive tanto tempo deitado naquela cama, em casa, sob cuidado de tanto enfermeiro e médico, e agora, nesses últimos 15 dias, nessa praga de UTI que apita o tempo todo e não te deixam em paz, com um ar condicionado frio demais pro meu gosto e essa dor nas costas que não me deixam! Como vou saber que dia é hoje? Já não sei que dia é hoje há 2 anos.

A voz então fala – “você vai entender que dia é hoje, mas deixa eu te contar algo que você aprendeu e esqueceu: você comete erros e pecados; você viveu uma boa vida, teve boa família, bons filhos, não roubou nem matou, e socialmente é considerado um ‘baluarte’. Esqueça tudo isso. A pergunta permanece: você reconhece que erra?

Sim, em uma boa medida eu sei que erro. Mas não mais do que o vizinho do lado ou o cara da padaria. A voz insiste: “você entende que ao errar você se afasta de quem te criou?” Como assim, “quem criou”? Quem disse que fui “criado”? Eu entendo que somos, eu e todo mundo, produto de um processo não pensado ou planejado de melhorias que acabaram por produzir o Carlinhos, ou Dr. Carlos, como me chamam no escritório, que todo mundo conhece, e alguns até admiram. Não – não admito um “criador” a quem deva prestar contas.

A voz segue: “e quem você acha que colocou as duas primeiras bases nitrogenadas no lugar? Quem, me diga, criou o balanço perfeito entre o ponto de congelamento da água e a gravidade? Por que ela puxa tudo nessa terra pro seu centro a 9,8 m/s²? Quem você acha que coordena tudo? Um “Deus das Lacunas“? Fala sério Carlos.

Falo sério, e digo à voz: ninguém poderá ter certeza disso, agora ou nunca. A voz retruca: “o que é ‘agora’ e ‘nunca’ pra você? Quem te persuadiu a pensar que você continua respirando?“. Eu, “suando frio” (nem posso dizer se é isso ou não) pergunto – morri? A voz: “isso ainda não se sabe. Poder ter morrido, pode não ter morrido; tudo depende de sua decisão“. Uai? Que decisão, eu pergunto já meio indignado. A voz: “a decisão de viver internamente, ou morrer eternamente. A decisão de aceitar que é um cara falho e que, não importa o que você pense ou faça, foi criado com um objetivo, que só cumpriu parcialmente, e mesmo assim só do ponto de vista humano; que esqueceu o Criador, com “C” maiúsculo, e que, como tal, pode não ter mais chance de viver eternamente.

Já meio irritado, respondo – pode me mandar pra onde quiser. Acaba quando acabar, viro pó e boa noite pro gaiteiro… A voz, meio tristonha, diz: “Vou falar contigo uma última vez: lembra daquilo que você aprendeu com os pais, avós, gente que te amava, sobre um Deus bom, um Filho bom que teve que pagar um preço alto por sua causa? É e era verdade. Você pode viver eternamente, ou morrer internamente, ou vice-versa. Nada, mas nada mesmo, vai mudar essa realidade. Ao longo da sua longa vida você foi abordado por centenas de pessoas que te relataram essa realidade que falo contigo pela última vez. Você deixou sua sapiência e racionalidade se imporem à Sapiência e Racionalidade que falavam contigo. Não te deram provas? Claro que não! Que tipo de fé exige provas? Que tipo de mérito ou decisão informada existe em “ver” o manto de Deus passando diante de você flagrantemente teria pra você? Nenhum mérito, e é por isso que a fé é assim: não pode ser comprovada, agora nem nunca. Tem um porém nessa história toda, e é por isso que estou aqui: você não vai morrer eternamente sem ouvir e tomar uma decisão informada sobre sua situação. Você tem que concluir, por sua própria vontade, se crê no que está colocado diante de você ou não.

Não conseguia refletir. Não é racional o que está diante de mim. Não faz parte do meu modo de ser o “crer” sem fundamentar o que penso em fatos e dados. Ah, mas você tá “ouvindo” essa voz e vendo o “cara” aí na frente. Ou não tá? Sim, estou. Só não sei se 15 dias de UTI não fazem isso com a pessoa. Sabe-se lá se levanto daqui e começo a falar e agir como minha avó e sua mania de dizer que “Deus isso, Deus aquilo, Deus é bom, Deus me salvou” e por aí adiante? Não sei, não sei. ‘Não tenho decisão a tomar’ afirmei à voz.

Bem, não decidir é decidir. Pode partir, Carlos. Mas antes, me diga se tem alguma ideia que dia é hoje.

Eu? Nem ideia…

É Sábado de Aleluia“.

Qual Sábado de Aleluia?

O único que jamais existiu“…