Slogan é definido no dicionário como “Frase de Efeito”. Minha IA o define como “uma frase curta, marcante, fácil de lembrar, que resume a ess6encia, os valores ou o diferencial de uma marca, produto ou serviço, ajudando a criar conexão e reconhecimento imediato com o público, como “Just Do It” (Nike) ou “Amo muito tudo isso” (McDonald’s). Funciona como uma assinatura verbal estratégica no marketing, fixando a identidade da empresa na mente do consumidor para se destacar da concorrência.”
A palavra Slogan tem origem no gaélico escocês e irlandês – “sluagh-ghraim“, que significa “grito de guerra” ou “grito do exército”. É algo que nos remete à caserna antiga, dos bravos sujeitos que saíam, meio pelados, meio vestidos, pintados de azul na cara e no torso, brandindo espadas contra seus adversários, historicamente os ingleses, ou eles mesmos, entre clãs e tribos.
Presta-se a traduzir de forma rápida e inequívoca uma ideia que, de outra forma, levaria mais tempo para ser traduzida e entendida. Slogans têm sido usado aqui e acolá para definir países, ideologias, situações específicas. “Ordem e Progresso” é nosso slogan, baseado no Positivismo de Auguste Comte; “E Pluribus Unum” (de muitos, um) é o lema dos EUA; “Patria o Muerte” é o lema dos bolivarianos, hoje suprimidos de seu líder maior.
O Slogan como Ideia
Não se pode negar a validade e utilidade do Slogan como forma de mobilização e condensação de uma ideia para uso imediato. É um sonrisal, uma aspirina, de uso tópico, imediato, para um fim específico. É a comunicação da multidão, de dentro dessa, ou de fora dela para insuflá-la. É uma forma efetiva de criar determinado efeito de forma confiável e inequívoca.
Por trás de um Slogan, portanto, deveria sempre haver uma ideia. É possível entender que o nível, ou profundidade da ideia por trás de um slogan varie bastante. É de se entender que quando um país define seu slogan como sendo “Ordem e Progresso”, alguém parou, pensou e entendeu o efeito que se quer dar com a frase. No caso da nossa bandeira, um país que, na visão Positivista, se firmaria na Ordem e no Progresso – síntese de uma frase mais completa e complexa: “O Amor por princípio, a Ordem por base, o Progresso como objetivo“. Da frase ao Slogan, neste caso, andou-se uma boa distância – e creio, para longe da ideia inicial.
Os EUA, ao definirem “E Pluribus Unum” como seu motto, ou Slogan, se define, desde o início, como uma nação em que muitos perfazem uma unidade, em suas diferenças. Também parece se tratar de algo bastante bem pensado.
Alguns Slogans parecem conter uma ideia de perna quebrada. O caso mais emblemático, e para alguns, sacrossanto, é “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, nascido do Iluminismo e da Maçonaria. Ao longo dos anos a experiência nos levou a ver claramente que só se pode ter dois desses três ideais: Liberdade e Fraternidade. A Igualdade parece ser algo inatingível, e francamente um ideal que não leva em conta, absolutamente, o fato de que o ser humano é, e sempre será, inerentemente diferente. Uma pessoa não é nunca, nem será, igual a outra, em capacidade, garra, honestidade, espiritualidade ou quaisquer dos milhares de fatores que tornam cada um de nós único. Somos iguais? Sim. Perante a Lei (ou deveríamos ser) e perante o nosso Criador. De resto, há que se respeitar as diferenças inerentes, desde que não firam a Lei.
O Slogan como Entendimento da Realidade
Aqui reside um problema bastante complexo. O Slogan PODE ser usado para interpretar a realidade? Uma frase de efeito PODE ou DEVE ser base para que encaremos a realidade como ela é? Dificilmente. Interpretar a realidade através de um Slogan parece levar, invariavelmente, à hiper simplificação da vida, com os resultados nefastos que invariavelmente se seguem.
Quando eu defino minha conduta baseado em um Slogan ou de uma frase de efeito a mim falada muitas vezes, eu tenho a tendência a não refletir sobre o fato por trás da frase e não medir as consequências que a aplicação do Slogan podem acarretar. Quando eu falo “O povo unido jamais será vencido” e justifico isso para quebrar uma vidraça em nome de uma ideologia, o que eu estou fazendo é renunciar ao meu direito de pensar sobre meu ato, e justificá-lo pela ótica do Slogan: rápida, rasteira, certeira e quase sempre injusta.
Quando eu justifico meu ódio aos judeus pela aplicação do Slogan “Do Rio ao Mar a Palestina será livre”, eu abro mão de entender: a)o que é Palestina; b)por que têm direito à terra santa toda; c)por que o judeu tem que morrer para que isso ocorra.
Resultados
“Fascista!”, “Terraplanista!”, “Vá estudar!” são Slogans (se é que se podem ser chamados assim) usados com bastante frequência por quem, aparentemente, não tem a menor vontade de pensar no que está falando. Quando você entra numa Universidade e se depara com dezenas ou centenas de “manifestantes” aos berros, sem deixar que uma pessoa se expresse, apenas atacando a pessoa sem pesar ou medir suas palavras, quando você diz que o bom mesmo para seu adversário é “uma boa bala, uma boa espingarda, uma boa cova”, você deixou, claramente o Slogan superar sua humanidade.
O advento do “Scrolling” nas nossas telinhas de celular e computador fez muito para aprofundar esse problema: nossa atenção tem-se reduzido a alguns parcos segundos. Mais do que 5 segundos e seguimos adiante, sem dar muita atenção ou refletir sobre o que vimos/lemos. Queremos “Scrollar” a vida, mesmo fora das telinhas. Quem é capaz de parar e pensar antes reagir? Frequentemente me vejo com cada vez menos capacidade de assistir um filme inteiro. Ficar duas horas diante de uma tela já me parece algo impensável, o que está me tirando um prazer antigo, que é o de assistir uma história sendo narrada e absorver algo dela; formar uma opinião baseada no que assisti, e seguir adiante com a capacidade de dizer a outros o que achei, e por que.
Não parece haver muita chance de mudança nesse status-quo: é possível que nossa profundidade mental e espiritual continue a diminuir, enquanto em caráter inversamente proporcional nossa empáfia e nossas certezas aumentem. Já mencionei num outro artigo o filme “Idiocracy” (2006), um sujeito meio burro vai parar 200 anos no futuro, e lá é considerado um gênio, tão somente por conhecer o básico do básico em termos de vida e bom senso. Afinal, quando o presidente do país decide regar o milharal com Gatorade, porque água “é muito pobrinho”, qualquer analfabeto com dois neurônios funcionando parece um gênio.
O mundo está tão chato e tão raso que não consigo imaginar muita gente lendo, como eu e meus colegas líamos nos anos 1980, coisas como Guerra e Paz de Leon Tolstoi, e mesmo coisas menores e menos densas como os romances de Émile Zola, Ayn Rand e outros. Difícil acreditar que haverá uma volta atrás, a um, digamos, classicismo. É cada vez pior – na minha época já éramos chamados de cabeças-de-vento e casos perdidos. Olho para trás, me comparo com a geração anterior, e vejo que a distância entre nós era imensa, mas minúscula em relação ao “gap” atual (Gen Z, Millenials, etc e tal).
Neste contexto, o Slogan terá cada vez mais espaço, e a reflexão, menos. Triste mundo.
