Jornada de Trabalho e a Felicidade


Preguiça de três dedos na Costa Rica

Meu primeiro trabalho, como trainee na Arthur Andersen auditores, era uma tragédia em termos de horários, locais e horas extras. Não havia lá muita consideração com o local onde vivíamos (no meu caso, o subúrbio da Penha, RJ), o tempo até chegarmos ao cliente ou escritório (muitas vezes mais de 2 horas de deslocamento) ou viagens para fora da cidade. Recebíamos horas extras, religiosamente, mas éramos sujeitos a jornadas longas, cheias de pressão, extenuantes. Foi ali que moldei minha carreira e a capacidade de trabalhar sob pressão (difícil!) e em condições menos que ideais. Não adorava aquilo, mas sabia que era uma formação melhor até do que a universidade.

Fui depois trabalhar numa empresa francesa, multinacional. Jornada de 36 horas por semana, cheia de “quitutes” e benesses, bons salários, benefícios excelentes, tudo igualzinho à França. Primeiro mundo, 40 dias de férias por ano, um luxo. Fui de um mundo a outro em uma troca de carteira de trabalho.

Na Andersen tínhamos, sei lá por que, um ambiente de menos reclamação do que na Sita Telecom (a empresa francesa). Era comum termos um ambiente de fofoca de corredor, reclamando disto ou daquilo na Sita. Era meio piada, parecia, e isso me soava como deboche, diante das excelentes condições de trabalho. Claro que não eram todos os que reclamavam, mas uma parte importante do pessoal parecia ter tempo suficiente nas mãos para passar no corredor falando mal da empresa e dos chefes.

O que isso me ensinou foi que em nenhum dos dois extremos eu vi meus colegas satisfeitos. Nem sempre um ambiente de mais pressão é aquele em que as pessoas estão mais infelizes, ou vice-versa.

Fim da Jornada 6 X 1

Tudo isso para chegamos no que quero discutir aqui – a atual redução de jornada de trabalho das atuais 44 horas semanais (hoje boa parte, por decisão não imposta, ou consensual faz 40 horas por semana) para 36 horas – 6 dias de 6 horas somente ou 5 dias de 7,2 horas. É uma redução das horas disponíveis ao empregador importante – 22%, sem redução de salários. É óbvio que o custo da mão de obra subirá neste mesmo, exato percentual. Impacto direto no preço dos produtos.

Somos um país jovem ainda – embora envelhecendo rapidamente – e temos necessidades enormes de produtividade. Nossos jovens tem dificuldades de entrar no mercado de trabalho, nossos velhos de sair dele com decência financeira. À primeira vista ficaria mais fácil o acesso dos jovens ao mercado com uma jornada menor. Temo que acabará por ter o efeito contrário.

Explicando: com o aumento do custo proporcionado pela redução de jornada,

Melhoria da Qualidade de Vida?

Depende de quem recebe o tal “benefício”. Mais tempo nas mãos parece representar mais “vida” privada. Façamos um paralelo com o Home Office e os tempos de prisão domiciliar da pandemia. Subiu a qualidade de vida de alguém com Home Office? Tenho cá minhas dúvidas. O que tenho visto, claramente, é que cada dia que passa o empregado recebe mais benesses, e reage da forma diametralmente oposta à que seria esperada – quanto menos faz, menos parece querer fazer.

Eu sou um exemplo disso – depois de 60 anos decidi fazer “Rollmops” (como diria minha ex-assistente aqui em Curitiba) metade do dia. E estou fazendo isso, pois creio que tenho que abrir espaço para meus colegas assumirem responsabilidades que são minhas. No fim das contas, é um estágio para a aposentadoria, que terá que vir mais cedo ou mais tarde.

Como reagi? Mal, devo dizer. Meu cérebro começou a procurar sucedâneos para as horas passadas no trabalho, cérebro cheio, jornada intensa, problemas fluindo para mim, sendo resolvidos ou repassados, enfim, adrenalina. Depois da jornada reduzida, estou menos receptivo a mudanças, mais engessado, e comecei a inventar moda (pintura, aquarela, marcenaria e outras coisas). Não consigo ficar sem o mesmo tanto que fazer. Ver TV e assistir streamings é algo que tem um limite claro para mim. Ler é algo que faço contumazmente. Não vou aumentar ou diminuir esse vício.

Troque o executivo de contabilidade e auditoria pelo “blue collar” típico – o que vai acontecer? Onde esse cara vai gastar o tempo extra? Será bom para ele? Será produtivo? No meu tempo de escola primária a professora me contava sobre o equilíbrio que deveria haver entre sono, trabalho e descanso – 8, 8 e 8 horas para cada. Isso foi um mantra expresso nos versinhos do Jardim de Infância Eny Galvoza da Costa, em Cordeiro, RJ:

Cantemos felizes a canção do dia / Hoje é quinta feira, dia de alegria /A escola nos ensina que devemos trabalhar /O estudo é nossa vida Trabalhemos a cantar.

(Ensinado a nós pela querida Tia Jane Nacif, por volta de 1968)

Desde então a escola (pública) já nos ensinava uma ética de trabalho que acabou sendo um marco muito produtivo na minha vida, e creio, na vida de quase todos os meus colegas e amigos desde então.

Ninguém imaginava nada diferente disso para nossa vida, e isso parecia ser “equilíbrio” puro e simples.

Por que a defesa do desequilíbrio?

Fico com a estranha sensação de que os propositores de uma jornada de 36 horas querem um determinado desequilíbrio. Afinal 36 horas por semana dá 144 horas de trabalho num mês modal que tem 240 horas “de sol”, a 8 horas por dia. Isso dá 60% de horas trabalhadas “de sol a sol” – ou nem tanto, contra as atuais 73% atuais (8 horas por dia) ou 80% (a 8:44 horas por dia).  Como mente vazia costuma ser oficina do diabo, temo pela nossa sociedade, ainda em formação.

Eu de minha parte estou tentando recuar do meu “Rollmops” e voltar a ser mais ativo na firma, sob pena de chatear meus colegas sócios e gerentes, mas com uma visão de manter meu equilíbrio mental. Não sei se todos os blue collars que serão beneficiados com a medida conseguirão ter a mesma noção do perigo do ócio – nem sempre criativo.

“Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos e sê sábio.”

(Provérbios 6:6)

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