Eu sou, e o Agora

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Gosto de pensar sobre as Escrituras e em como, nas entrelinhas de suas histórias, há ensinos aplicáveis à vida. Ao ler sobre a queda da humanidade em Adão e Eva, fiquei a considerar a respeito de algumas questões existenciais.

Quando, no texto bíblico, a serpente tenta Eva, afirma que aquele que provasse do fruto da árvore seria como Deus, conhecendo o bem e o mal. Considero que o equívoco, a mentira, estava em que Adão e Eva já eram como Deus. Eles eram plenos, inteiros, Santos e em completa comunhão com Ele e entre si mesmos. Mas cederam ao engano e à ilusão de que havia uma falta e, ao mesmo tempo, uma má intenção oculta. Negaram o presente que é o Eu Sou, por um Eu Serei baseado em uma perspectiva de falta, insatisfação, desconfiança e medo.

Usando esta reflexão como uma metáfora, fico a considerar se esta não continua sendo a problemática que, ainda hoje, enfrentamos em relação ao ser e à maneira insatisfeita e ansiosa que vivemos? Pois ao negarmos o eu sou, numa busca contínua de ser como o outro, de sermos como os “deuses” em seus Olimpos de sucesso e poder, nos perdemos num turbilhão de exigências e cobranças; deixamos de enxergar o que é e quem somos, para buscarmos ser o que afirmam nos faltar.

Ao fixarmos nossa atenção ao mal desconhecido, à ausência do bem, despertamos para o medo e desconfiamos do amor. Em função disso, o mal se torna parte de quem somos, pois nossas ações e personalidade absorvem as estratégias defensivas diante de um mundo visto como mal e perigoso. Assim, perdemos as oportunidades que surgem em função do medo que nos orienta e, as escolhas benditas são desperdiçadas por nossa incapacidade de afirmarmos nossa identidade com o bem e o eu sou.

É prudente não sucumbir diante daqueles que afirmam a sua inferioridade e negam o seu ser. Afirme o seu valor e valorize suas habilidades. Sabemos que o mundo traz sua mazelas, mas não seja casa para nenhuma delas.

Cristão tem medo de Ciência?

Li um interessante artigo no excelente site Quillette (www.quillette.com), um artigo longo, textão mesmo, como são quase todos os artigos desse site, mas detalhado e muito bem escrito. Coisa fina. Vale ler.

O artigo está acima e mesmo quem não conhece inglês pode traduzir lá mesmo.

Lá o autor trata de uma “briga” de palentólogos em torno das chamadas “Primeiras Nações” ou “Primeiros Povos”. Arqueólogos escavaram numa região que vai do estado do Maine até Newfoundland (Terra Nova), no Canadá, fósseis datados de uns 10 mil anos atrás, que apresentam um povo mais desenvolvido do que povos nativos mais recentes, da região. O “suco do assunto é que os povos nativos americanos passaram a exigir que os paleontólogos e arqueólogos NÃO estudem esses povos, mas que enterrem de volta os achados arqueológicos, no que chamam de “restituição”.

Será que eles não querem saber sua origem? Não é assim. É que os achados apontam para o fato de que os povos que hoje se consideram vítimas dos Europeus foram, eles mesmos, algozes de povos que já estavam na região há mais tempo, desfazendo o mito da sua primazia, e a narrativa de seu bom-mocismo.

Ciência bota medo…

Em outra ocasião, mais recente, cientistas brigam com outros cientistas sobre a validade de destruírem certas posições anteriores com teorias mais modernas, e mais corretas.

Tem gente querendo substituir o Big Bang a todo custo, simplesmente porque não cabe na sua narrativa sobre a origem do universo e da vida. O mesmo Stephen Hawking lutou com unhas e dentes até o fim da vida para tentar achar uma equação, uma explicação para “desdizer” a teoria que ele mesmo trabalhou para explicar e popularizar. Tudo porque seu ateísmo, ou agnosticismo, não podia suportar a afronta de que o universo teria tido um início, e portanto, um “causador”.

Diante disso tudo, nos vemos, cristãos, diante de uma situação em que, frequentemente chamados de negacionistas, terraplanistas e anti-científicos, temos que optar por uma postura mais bíblica, entendendo que a Bíblia pode contradizer a ciência em algum momento.

Os que chamam o cristianismo, principalmente o Catolicismo original e os Reformados de obscurantistas talvez se esqueçam que a quase totalidade das instituições de ensino que hoje lideram a pesquisa científica no mundo são de origem, inspiração ou manutenção cristã ou de cristãos (desde a Universidade de Padova, passando por Oxford, Harvard, Cambridge, todas as PUCs do planeta, e por aí vamos).

Muito, ou mal usado pelo Presidente, o texto de João 8:32, sempre foi um dos meus preferidos. Costumo brincar que é o Texto Áureo dos Auditores:

“E conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará”

Jo 8:32

Se a bíblia é a inspirada palavra de Deus (e eu creio nisso) e o texto acima partiu da própria boca do Filho de Deus (eu creio nisso também), então cristão algum tem o DIREITO de ser acrítico, anti-científico ou jogar na retranca, quando o assunto é ciência.

A razão é muito simples – cremos (eu creio) que Deus é o autor da ciência. Se Ele criou as regras e leis deste universo, que são explicadas e desfiadas na física, química, biologia, etc, NÃO TEMOS o direito de achar que uma equação vai desdizer, ou desfazer o que cremos.

A Bíblia nunca se propôs a ser um livro científico. Escrita para pessoas tão diferentes quanto (adoro falar isso) Albert Einsten e Forest Gump, a Bíblia teve por obrigação ser atemporal, e acessível a ser explicada a todos.

Quando a Bíblia fala de um assunto que está francamente acima da capacidade, mesmo dos mais iluminados humanos, ela deixa claro que há coisas que são “mistérios”, ou que ainda não foram reveladas. Mas isso nada tem a ver com obscurantismo ou qualquer tipo de limitação à investigação. Nos escritos do Velho Testamento, Deus já falava a Adão e Eva que entendessem o mundo, dessem nomes às espécies (numa ordem de taxonomia bem clara).

Posso concluir que se a ciência em algum momento contraria a Bíblia, só pode ser por dois motivos:

  • Erro de Interpretação – Quem diz falar “pela Bíblia” na verdade entendeu errado ou criou um “dogma” que não deveria haver. Um exemplo claro éa insistência da igreja católica em condenar as teorias da terra redonda e que não seria o centro do universo. Na verdade o livro de Isaías já nos advertia de que “Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; ele é o que estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar” – Isaías 40:22)
  • A Ciência ainda não chegou lá – Aqui, o maior exemplo vem da antiga teoria cosmológica, válida durante décadas, de que o universo nunca teria tido começo e não teria fim. Desbancada pela descoberta da radiação de fundo, e comprovada nos laboratórios Westinghouse, em Nova Jersey, por Arno Penzias e Robert W. Wilson. Os “fósseis” de luz comprovariam a teoria de que alguém riscou o fósforo que gerou a explosão.

Que tranquilidade é saber que a ciência não desbancará, nunca, o Deus Onipotente. Que alegria é saber que a Bíblia é mais inteligente do que alguns se arvoram o direito de se achar. O caso mais recente, emblemático e francamente ridículo foi o do artigo de Mário Sérgio Conti, comparando nossa crença em Jesus Cristo à do coelhinho da Páscoa.

Este douto senhor, do alto de sua inaudita inteligência e certeza de todas as coisas declara-nos a todos nós como crianças burras e obscurantistas… Como se homens (de verdade) muito maiores e mais inteligentes do que ele não tivessem declarado seu pasmo e reverência a esse Deus Criador.

Termino com as palavras de Louis Pasteur, sempre citado pelos cristãos, cujos feitos excedem, talvez, um pouquinho, à montanha de maravilhas criadas por Conti:

Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima.

Louis Pasteur

Nós e os Agostinho Carraras dessa vida

O Álbum da Grande Família': Relembre os figurinos de Agostinho Carrara no  seriado | Estilo | Gshow
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Circula um vídeo do ator Pedro Cardoso, que interpreta(va) Agostinho Carrara na TV, no qual ele derrama sua sabedoria sobre todos nós, respondendo perguntas feitas por internautas sobre os mais diversos temas.

Agostinho, ou melhor, Pedro, nos brinda com o melhor do padrão Globo de pensamento. Tive que comentar porque parece inteligentíssimo. O cara é articulado, e tal como Agostinho da TV, convence quem não entende o que é “blague” e o que é raciocínio, no duro, pra valer.

Duas coisas me chamaram atenção, e comento as duas em separado pois pode interessar a quem queira entender porque falar certas coisas é fácil, e desmenti-las dá um trabalhão…

Portugal é um destino Socialista

Uma das perguntas feitas a Agostinho (digo Agostinho pois certamente parece ter sido ele que respondeu, mas creio que poderia ter sido o Pedro, com os mesmos efeitos) era por que ele não ia pra Cuba, em vez de ter escolhido Portugal.

Com muita ginga e malandragem típicas do Agostinho, o cidadão responde que “se não sabíamos, Portugal era governado por um primeiro ministro socialista”. E para por aí, obviamente sem elaborar, pois que se elaborar, lascou o cano. Explicar com muitas palavras é coisa que complica, em alguns temas – principalmente naqueles em que há necessidade de rigor técnico e veracidade.

Portugal… Cuba… Cuba… Portugal… hummm, sei não. Qual dos dois é o destino que poderíamos considerar compatível com o que pensa o Pedro (o Agostinho creio que gosta mesmo é de Miami)? Se o objetivo é ser coerente com o que pensa o Pedro, ou pelo menos o que verbaliza, Cuba, ou ainda, China ou Coréia do Norte, seriam destinos mais alinhados ideologicamente.

Afinal, Portugal “está” sob um primeiro ministro socialista, eleito democraticamente, e cujo mandato pode ter um fim a qualquer momento, caso uma moção de desconfiança o retire do cargo prematuramente. Ainda, Portugal já esteve sob vários governos com tons de ideologia diferente, e certamente predomina uma certa social-democracia, embora se vejam nas ruas (a última vez que vi ao vivo e a cores foi entre 15 e 30 de Novembro de 2019, antes dessa peste toda) bandeiras com foices e martelos por todo lado.

Nada disso, porém, tirou (ainda) a liberdade dos portugueses de votar e serem votados, propor mudanças na legislação, eleger de acordo com a representatividade de cada região, demitir seus políticos, ter propriedade privada, fazer negócios intera e externamente, comprar e vender como bem entenderem, e qualquer outra atividade que configure uma nação fundamentalmente democrática. Tal não pode ser visto em Cuba, China, Coréia do Norte e outros paraísos frequentemente descritos como o céu na terra pelos ideólogos, o Shangri-la, o objetivo a ser atingido.

Pedro foi para Portugal. Pedro poderia ter ido para Cuba. Não existe forma de convencer Pedro a ir para Cuba, exceto de férias, na praia, talvez. Pedro é “Cardoso”, o que lhe deve ter legado um passaporte da Comunidade Europeia, um ente significativamente democrático, ainda que com viés social-democrata.

Pedro não ganhou dinheiro com Agostinho – só a Globo

A segunda grande colocação que ouvi (confesso que depois disso tive que sair pra não vomitar) foi a resposta à colocação de um internauta sobre o fato dele ter ficado rico com o Agostinho, e posar de socialista.

A resposta, pérola de hipocrisia e desintendimento sobre a natureza do capitalismo foi mais ou menos assim: “eu não ganhei dinheiro; ganhei um salário; quem ganhou dinheiro foi a Globo. É essa a natureza do capitalismo – o capital é que ganha dinheiro”, ou coisa que o valha.

É odiosa a posição dele. Provavelmente não deve ter recebido o jabá dele como “salário”. Como quase todo vivente bem instruído por contadores e advogados, o sujeito deve ter aberto sua Pejotinha (empresa de prestação de serviços), sabe-se lá, a Pedro Cardoso Produções Artísticas Ltda., e se aproveitado dela para faturar pagando algo em torno de 16% de tributos totais, e usando o resultado líquido como distribuição de lucro (não tributada) para receber os proveitos na sua Pessoa Física.

Duvido que o referido socialista tenha deixado na mão da Globo o valor integral do que recebeu, à razão de 27,5% de IR mais 11% de INSS… duvi-de-o-dó.

Bom, às colocações dele:

Salário não é lucro e portanto não deixa ninguém rico

É isso que se pode inferir da resposta – Ora, mesmo na hipótese de que Pedro tenha sido subtraído em mais de 40% sobre seus vencimentos, de IR e INSS, convenhamos que um salário de, sabe-se lá, R$ 1 milhão ou R$ 500 mil por mês está acima do rendimento de quase qualquer brasileiro. Trata-se, porém, de um sujeito que se equipara, em termos de renda, aos maiores empresários do país. Não. Ele não detém o capital (pois não aplicou nenhum na produção do programa nem correu qualquer risco, não contratou gente, contra-regras, não comprou câmeras, nem nada).

Pedro, portanto, se coloca na mesma posição de qualquer trabalhador, empregado com carteira assinada, se sorte tiver. Considera-se um mero peão num joguete que é controlado pela malvada corporação à qual pertence, e que é o vilão de um jogo do qual ele seja, talvez, um dos grandes beneficiários. Não dá pra ser mais hipócrita.

A Globo é o Capital, e como tal, não deve ser boa

Bom, isso ele não disse, mas certamente, ao fazer a colocação do item anterior, certamente é a única coisa que se pode presumir. Capital é ruim. Ponto final. Capital é o vilão e não há discussão – se discutir é fascista, genocida e sei lá mais o que.

Qualquer conservador sabe que capitalismo, no duro, NÃO se faz com monopólios. A Globo já foi quase monopolista, hoje está entrando na vala comum das outras TVs, em termos de audiência. Em termos de qualidade é superior tecnicamente, e inferior moral e em termos de sua objetividade. Há anos sofremos um massacre da Globo. Eu mesmo tive que ser “desmamado” da Globo, como um toxicômano. Que falta fazia o JN… Por que? Por ter assistido desde os tempos do Reporter Esso, Cid Moreira e Eron Domingues à bordo. Outros tempos, herdados por esses que aí estão.

A Globo, sob comando da geração atual, se perdeu em seus padrões morais, e, pior, tenta insistentemente nos influenciar a crer no que os irmãos Marinho parecem ser os temas a serem levantados: promiscuidade sexual, adultério, louvor ao “espertalhão”, desestruturação da família, homossexualismo e outros tópicos que não lembram em nada a Santa Missa em seu Lar, dos tempos idos.

Concluindo, Pedro/Agostinho lançam mão dos argumentos manjados e batidos de qualquer esquerdista. É fácil, diz-se em poucas palavras, e para combatê-los leva-se tempo e é necessário pensar e refletir. Isso não é o forte dessa nossa geração, “shallow now” (and ever).

Vamos pedir a Deus que Pedro finalmente tope passar um tempinho em Pyongyang… Lhe fará bem ver o quanto há de distância entre lá, e Lisboa. Vá com Deus, Pedrinho…

Estados Digitais

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O Contrato Social

Jean-Jacques Rousseau tenta explicar, em seu “O Contrato Social”, a forma como a sociedade elaborou, ao longo de séculos, um pacto, em que os indivíduos abrem mão de determinados direitos em nome de obter as coisas básicas para uma vida “normal”: ordem, paz (ausência de guerras), justiça, etc.

Rousseau viveu numa época em que os estados nacionais modernos se encontravam ainda no nascedouro – tudo, até então, passava por imposição, em maior ou menor grau. Portanto, julgo eu, até a renascença, pelo menos, estados nacionais no conceito moderno do termo, não existiam.

Em 1762, quando Rousseau escreve, estávamos ainda a 14 anos da declaração de independência dos EUA, que abriu a “era moderna” (minha opinião) dos Contratos Sociais. Logo após, em 1789, a Revolução Francesa, uma excelente iniciativa cooptada pela esquerda da época, que a transformou em nada mais do que um grande banho de sangue, mudaria para sempre o comportamento dos reis e presidentes em suas cadeiras – de déspotas, ou quase, a seres incomodados com a opinião alheia – do povo. Isso, pela primeira vez na história.

Para ser bem justo, o primeiro experimento (forçado, diga-se) de algum tipo de descentralização de poder, se dá com a Magna Carta (o título inteiro dá uma boa ideia do que era – “Grande Carta das liberdades, ou concórdia entre o rei João e os barões para a outorga das liberdades da Igreja e do rei Inglês”, assinada debaixo de porrete pelo Rei João sem Terra, da Inglaterra, ainda em 1215. Descumprida pelo monarca desde o princípio, serviu, mesmo assim, de base para a moderna sociedade inglesa. Pasmemos: um documento odiado pelos reis, mal usado pelos nobres e posto em frangalhos pela Igreja serviu, mesmo assim, de base para a primeira grande nação da era moderna, e até hoje nos causa espanto.

Tudo isso computado, quando os EUA se chamam de um “Farol sobre a Montanha”, se referindo ao exemplo que deram ao mundo, não podemos dizer que se trata de exagero. De fato, ter constituição, e leis que tornem o estado democrático de direito algo primordial em uma sociedade, em que:

We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness”… (Temos essas verdades como sendo auto-evidentes, em que todos os homens são criados iguais, dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, entre os quais esão a Vida, Liberdade e a busca da Felicidade)

Bill of Rights, 1789

Definição de Estado Nacional

Antecede esses direitos e definições o conceito mesmo de Estado Nacional. Portugal é considerado o primeiro estado nacional dentro do conceito moderno, de nação – território definido, governo central, cidadania, etc. Fundado (conquistado por casamento) por Dom Afonso Henriques, depois Afonso I, tinha as características que hoje se esperam de um estado nacional:

  • Fronteiras – Definições claras de fronteiras marcam a base de um estado nacional moderno. Sem fronteiras demarcas, e principalmente, reconhecidas, não há estado nacional moderno; Disputas de fronteiras podem ocorrer, mas dentro da sede de um marco legal preexistente e reconhecido ao menos em parte, por outros estados nacionais
  • Cidadania – A definição de cidadão de determinado país, dada fundamentalmente por nascimento em suas fronteiras, é definida diferentemente por alguns países – desde os ultra-estritos, como o Japão (para quem alguém que nasceu lá pode não ser japonês, se não tiver características e ancestralidade japonesa) até os EUA (para quem o nascimento em seu território, mesmo se por acaso ou propósito específico de gerar cidadania são a regra), as definições de cidadania é a mesma – alguém “nosso” para quem nossas leis se aplicam. Neste conceito se abriga o “direito” de deportar cidadãos, por quaisquer razões que o Estado entenda aplicáveis.
  • Governo Central – Entidade controladora da justiça, leis, regras, a quem se delega o monopólio da violência (com exceções, como os EUA e seu sagrado direito de porte de armas ao cidadão) e controle da economia, moeda, etc.

Ficamos apenas nessas três características, já que o texto já se alonga.

Estados Digitais

Se eu estou dentro do Facebook, Instagram ou outra rede qualquer, apenas para ficar nas mais influentes e poderosas, aparentemente estou dentro de um “local virtual de convivência”. Chama-los de “redes sociais” implica, em minha opinião, em chama-los, fundamentalmente, de “estados digitais, no sentido em que, de fato, esses “espaços geo-digitais” se constituem num Estado Virtual. Como não?

  • Fronteiras – Possuem fronteiras claramente demarcadas. Aliás, são as fronteiras mais claras da história – tem que entrar no sistema, ou seja, passar por suas fronteiras, para “estar” no “país Facebook” ou “país Instagram”. Dentro desses países virtuais, temos a clareza absoluta de onde estamos no momento, mas não sabemos onde estão as fronteiras. É como morar no Amazonas e não enxergar, ou talvez sequer compreender, a distância que existe até o Rio Grande do Sul. Pior ainda, porque essas fronteiras se expandem na medida em que novos cidadãos virtuais nascem e desenvolvem novos territórios virtuais, alargando o tamanho da “nação”
  • Cidadania – Ora, para entrar neste país virtual, temos que nos cadastrar, e sermos aceitos. Isso obviamente gera uma cidadania, a qual é-nos graciosamente concedida pelo Governo Central. Os casos atuais de “cancelamentos” virtuais são uma analogia mais que perfeita com os banimentos praticados por alguns estados nacionais. Banir, cercear, punir, prender (ainda que virtualmente), multar ou quaisquer outras atitudes contra o “cidadão” comprovam que há, nesses países virtuais, um conceito claro de cidadania
  • Governo Central – Fica claro que se alguém dita as regras, tem o poder de definir as “leis” e detém o poder de polícia – o monopólio da “violência virtual”. Sua constituição e sua declaração de princípios, da qual lança mão para punir quem quer. Em sendo uma propriedade privada, trata-se, portanto, de uma monarquia, no mais estrito sentido do termo – Um que Manda.

Resultados

Somos então, cidadãos de estados nacionais virtuais, que cobram de nós impostos (pagamos, direta ou indiretamente, para estar ali, ou pagam por nós), nos mantém “na linha” e tem o direito de prender e banir, perguntamos: que direito temos?

Em monarquias tradicionais (sobram pouquíssimos exemplos delas), os direitos costumam ser nuisances, à disposição e alvedrio do monarca. Aplicam-se, ou não. Ocorre que, sendo estados virtuais supranacionais, não devem nenhuma obediência aos seus súditos. Ou será que deveriam dever (sic!)?

Em termos de Facebook, Instagram, WhatsApp, Parler, etc, não temos muita liberdade de expressão, e, no fim das contas, acabaram por nos caçar o direito de falar o que pensamos. Percival Puggina, hoje, reflete texto de Alex Pipkin, no qual este diz que “o primeiro cancelamento a gente nunca esquece”. De ontem para hoje, um texto dele foi “banido” (equivalente no mundo real de terem censurado o texto por ferir a moral e bons costumes, ou algo semelhante).

Como conservador convicto, creio que a empresa privada tem o direito de fazer o que quiser. No entanto, já não parecem se tratar de empresas, mas de monopólios, monarquias, e como tal talvez devam ser tratadas. À exemplo da Standard Oil ou da Mother Bell, talvez o nosso CADE virtual devesse impor algumas regras de funcionamento ou até provocar sua divisão.

Não apoio a divisão desses meios, pois a medida seria mais arbitrária do que o que essas “comunidades” fazem com seus cidadãos-virtuais. No entanto, equivalente a um posto de gasolina que tem que ter determinadas regras de segurança, ou frigoríficos que devem ter regras sanitárias, entendo que a constituição de um país deva ser aplicada ao mundo virtual que circula e contém seus cidadãos de carne e osso. Ora, se temos, no mundo real, o direito a opinião – ainda que por isso possamos ser levado à justiça – que tenhamos a mesma condição no mundo virtual. Não sermos taxados disso ou daquilo por conta de um rapazote ou moçoila de 20 e poucos anos, que se arvorou no direito de nos cancelar, por terem ficado irritado(as) com o texto.

No fim das contas, num mundo em que vivemos boa parte do dia virtualmente, estamos acabando por ser mais cidadãos virtuais do que reais.

Diversidade

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Diversidade é uma dessas palavras que ganharam novo significado, nos tempos que vivemos. Ganhou um significado que talvez nem todo mundo goste, e que preciso – confesso – entender bem, para não cometer erros de julgamento.

Um cântico que tínhamos em nossas igrejas (evangélicas, e algumas católicas) antigamente se chamava “Unidade e Diversidade”, e se baseava num texto de Atos dos Apóstolos e diz assim:

Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum.

Atos 4:32

O texto fazia menção à diversidade das pessoas que creram em Jesus Cristo, a nova fé do primeiro século, de sua condição diversa (pobres, ricos, livres, escravos) e sua unidade através de “um coração e uma alma”, a ponto de ninguém considerar algo como sendo seu mesmo (voluntariamente).

Era uma diversidade um tanto diferente da que temos aqui: por serem diversos, uniam-se voluntariamente, debaixo de uma fé e um coração, sem necessidade de imposição ou campanhas “explicativas”. O CEO e o peão do chão de fábrica, usando uma comparação moderna, conviviam e tinham as coisas em comum, de forma que ninguém passava necessidade. Voluntariamente, as pessoas davam o melhor de si, uns aos outros, e dessa forma, silenciosamente, essa estranha fé foi mais forte do que um império milenar, fazendo com que o apelo marcial, que mantinha coeso o imenso território de Roma, ruísse pelas mesmas razões da fé em que estavam fundados: o caráter espontâneo, voluntário, de suas atitudes, e o desprezo pelo ataque, pela ofensa, pela violência não defensiva e não provocada.

Ocorre que, aparentemente, voluntariedade, liberdade e discurso se misturam, hoje, numa confusão que torna difícil o que é mais importante – “um coração e uma alma”.

Lendo o texto do artigo acima, depreende-se o objetivo real e explícito de dar exposição a segmentos entre segmentos da sociedade, principalmente a inclusão de pessoas dessa ou daquela origem, cor, raça ou orientação sexual, a fim de dar diversidade aos Conselhos de Administração das empresas.

A entrevistada é uma excelente profissional, membro de diversos conselhos de administração de grandes empresas mundo afora. Portanto, está ali por capacidade e não porque é mulher, ou negra, ou homossexual, ou qualquer outra especificidade, válida ou não. Muito bom.

Minha dúvida vem no sentido contrário: o quanto de fato sabemos sobre a diversidade e quanto dessa diversidade está povoando as administrações públicas e privadas mundo afora, apenas pelo “conceito” de diversidade, em si, e não por efetivamente agregar algo, no que importa – capacidade de realizar o que é necessário.

O “sentido contrário” a que me refiro aqui diz respeito ao fato de que para mim pouquíssimo importa se uma pessoa é branca, negra, homem ou mulher, hétero ou homo, cristão ou não-cristão, no que tange à sua qualidade para orientar a tomada de decisões (ou tomá-las) na esfera dos grandes conselhos de administração mundo afora. Sempre vou privilegiar a capacidade intrínseca, em estado bruto, da pessoa que senta comigo em um Conselho ou que comigo compartilha decisões.

Nossa empresa é uma empresa fundada em valores cristãos, e como tal não pode discriminar por qualquer razão – pode, sim, e deve, deixar claro o que pensa em termos da fé que fundamenta nossos princípios de negócios, e a igualdade, verdadeira, dentro da diversidade do ser humano, sem, contudo infringir os princípios da Palavra de Deus em nossas decisões.

O tipo de confusão semântica gerada pela hiperssimplificação de termos às vezes difusos, ou difíceis de definir – como diversidade – nos leva a situações às vezes cômicas (como as discussões sobre a diversidade na matemática) ou trágicas (como a incapacidade de trabalho conjunto e proativo para debelar uma pandemia). A realidade tem importado menos do que os desejos, sensações ou estados de espírito.

Viva a diversidade, com consciência e responsabilidade!

P.S. – E viva o melhor que temos na nossa sociedade, a Mulher, em seu dia!

O Bonito é Difícil?

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Lutei a infância e adolescência pra aprender a ler música e a tocar um instrumento por ela. A preguiça e a pressa não me permitiram. Toco um violão meia boca, um baixo pior ainda, tudo de ouvido, e apenas e quase só na Igreja os nas atividades dela.

Minha esposa começou aos 5 anos no piano, lê música, rege corais, cursou faculdade de música sacra e é minha fonte de inveja eterna… Foi persistente e isso dá a ela hoje um “ativo” difícil de se obter depois de velho.

Um violinista disse que odiou o violino e as partituras até que finalmente começou a não pensar mais na “técnica” e a tocar o que lhe desse na cabeça, lendo ou não a pauta, porque já não precisava dela. A técnica o escravizou, depois ele escravizou a técnica.

O mesmo vale pra leitura. Nessa área eu vou melhor um pouco. Papai, professor de Português, sempre teve centenas de livros em casa e nos incentivava a ler. E não a ler qualquer coisa. Tenho até hoje a versão d’Os Lusíadas que ele me “deu” (roubei, melhor dito), da Editora Melhoramentos de 1950 e qualquer coisa. Linda! Li Machado de Assis pra caramba e odiei (Lusíadas também). Meu maior desafio, porém, foram os Diálogos, de Platão – principalmente “A República”, que eu me lembre. Sensação de perda de tempo, de opressão mesmo. Livro vai, livro vem, fui me ajustando a uma literatura, digamos, mais cordial a mim, como Stephan Zweig, Henri Charrière, Émile Zola, entre outros “clássicos não tão clássicos”. Adorei o conceito de “série” contida na epopéia dos Rougou-Marquart, de Zola, “uma história natural e social de uma família sob o terceiro império”, que começa com a história de Naná, uma prostituta, e cuja família vira “gente fina”. Fui polindo minha leitura até que hoje, vejam vocês, vou de um lado a outro do espectro, de “coisas” como J.K. Rowling e mesmo Paulo Coelho até C.S. Lewis, Eugen Rosenstock-Huesy, entre outros.

Bonito, então, é difícil sim. Tem que ser, pois que bonito é algo que se olha de fora e se admira como algo pouco, ou muito, extraordinário. Duvido que achemos uma flor algo “simples”, uma concha perfeita como “simplória” ou um soneto de Vinícius de Moraes algo “comum”. Útil também é difícil por natureza – pois que para ter utilidade deve necessariamente se prestar a um papel diferente do de estar parado, sem uso.

Para que todo esse palavrório? Porque estamos vivendo uma época de preguiça mental e hiper-simplificação de conceitos e significados. Esses dois exemplos – a música e a literatura, e a necessidade de trabalho duro sobre ambas, a fim de dominar o básico, para daí seguir, é um chamado ao “Ordo ab Chao”, sobre o que já tenho chamado atenção aqui e acolá. A ordem sobre a tendência do ser humano de simplificar coisas além do que é possível, e a certeza, como disse Einstein, de que não se deve simplificar além do máximo possível. A vida não para de pé, a sociedade não pra de pé, a religião não para de pé, nem um motor de fusquinha “para de pé” por assim dizer, se não houver a complexidade mínima que permita às partes funcionarem.

O título do artigo poderia ser “O Bom é difícil” ou “O útil é difícil” ou muitos outros. Apenas selecionei “bonito” por ser compatível com os dois exemplos que dei. Não há música bonita sem a mínima complexidade das notas que a compõem, assim como não há literatura possível sem o mínimo de trama, de arrumação gramatical ou semântica que nos leve a ter prazer nela.

Com nossa tendência ao caos, ao “mínimo possível”, à lei do menor esforço, enfim, a tudo o que desarruma, em vez de arrumar, teremos o mesmo fim melancólico que estamos presenciando na cátedra hoje, na família, hoje, na igreja, hoje, e em todo lugar.

Há um “diabo” em sociedade que nos sopra no ouvido sempre que o “simples é melhor” – simples sim, mas não menos do que o necessário à utilidade e beleza .

Aborto Eugênico

A Gazeta do Povo de hoje traz matéria falando da eugenia (limpeza racial, à lá nazistas) promovida pelo aborto na Europa. O texto (https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/como-as-leis-do-aborto-promovem-uma-eugenia-silenciosa-na-europa/) fala de “eugenia silenciosa”, com a eliminação de fetos com síndromes, como Down, que, segundo a reportagem, teria reduzido os nascimentos de portadores de Down em 54% entre 2011 e 2015.

Freakonomics

O livro com o título acima (algo como “Economia maluca”) não tem nem muito a ver com economia nem com maluquice, mas com estatísticas. Os autores pegam variáveis aparentemente não relacionadas e chegam a algumas conclusões inusitadas, que no fundo não sabemos se podem ser consideradas científicas ou não, pois na maior parte das vezes podem ter tido efeito de “n” variáveis não controladas.

Um dos capítulos do livro correlaciona os abortos, nos EUA, à melhoria dos índices de criminalidade na cidade de Nova York, entre os anos de 1970 e 1990. de 2200 mortes nos anos 70, passou para 300 mortes nos 90. Várias explicações foram dadas, desde a atividade do então prefeito Rudy Giuliani, até a melhoria da economia, entre outros fatores. O livro (tradução livre abaixo) reproduz o “chat” entre um dos autores e um pesquisador, achando outro “culpado” e textualmente diz:

LEVITT: E lembro-me como se fosse ontem. John diz: “Sabe, eu tenho uma ideia maluca. Quer dizer, é totalmente absurdo. ” E eu disse: “Oh, o que é?” E ele disse: “Bem, acho que talvez o aborto legalizado possa ter reduzido o crime na década de 1990”. E eu disse: “Isso é tão engraçado”. E eu alcancei meu armário de arquivo, puxei uma coisa enorme e grossa e bati com ela na mesa.

DONOHUE: Sim. Está certo. Quando conversei com Steve sobre isso, como costuma ser o caso, já que ele é uma mente muito criativa, ele disse: “Ah, sim. Você sabe, eu me perguntei sobre isso. “

LEVITT: Eu disse: “Tive a mesma ideia, mas não está certa”. E ele disse: “Bem, o que você quer dizer?” E eu o conduzi através da minha lógica, e não pensei profundamente o suficiente sobre isso. E eu estava me concentrando no fato de que quando o aborto se tornou legal, houve uma redução no número de filhos nascidos. E John disse “Sim, mas e quanto a indesejabilidade?” E eu fico tipo, “O que você quer dizer com ‘indesejabilidade’?”

Freakanomics, Steven Levitt, etc al

A explicação do livro é mais ou menos a seguinte – Após a decisão da Suprema Corte Americana, chamada Roe X Wade, que admitiu o aborto, houve uma “epidemia” de abortos, chegando a 1,4 MILHÃO de abortos por vários anos, principalmente de mães solteiras, e pessoas de baixa renda, que achavam que não conseguiriam criar os filhos. a análise de causalidade vai assim – menos filhos, mais dinheiro sobrando, e com isso mais filhos “desejados”, com isso mais tempo de qualidade com os filhos, e com isso filhos mais bem educados e com isso menos criminalidade. Algo do estilo.

Pois bem. Sabe o que eu acho? Que a explicação dada pode ser essa mesmo. Se é uma explicação que me agrada, não.

Eugenia e Escravidão nos EUA

Uma outra visão do fenômeno Eugênico foi dada, e com propriedade, sobre a qualidade física, força, resiliência e altura dos negros americanos. Não existe no mundo atletas mais soberbos, corpos mais delineados, capacidade respiratória, explosão muscular e coordenação motora dos atletas negros americanos. Simplesmente imbatíveis.

A escravidão nos EUA teve esse lado de “seleção do gado”, com os senhores dos escravos colocando os homens com melhores características genéticas para reproduzirem-se com as mulheres igualmente capazes fisicamente. O resultado, de talvez séculos de “seleção” tenha sido essa força física e capacidade motora que já mencionei.

De novo, é um resultado positivo? Sim. É algo condenável? Mais ainda.

Morte em Família

Quero deixar registrado, para mim e para minha posteridade, que neste EXATO momento em que escrevo, fui agredido no meu coração por uma notícia terrível, e que de certa forma se alinha com esse artigo, ou parte dele – Meu primo irmão, Carlos Eduardo Montechiari, de 57 anos, acaba de morrer, vítima de tiros, durante assalto na frente de sua fábrica, na Penha, no Rio de Janeiro.

Essa situação que me faz chorar e lastimar pela perda do primo – de quem eu estava num processo de reaproximação, devido a morarmos longe, através do meu irmão Hirann. Meu primo foi mais uma vítima da violência de alguém que, sem consciência ou piedade, puxa um gatilho em direção a alguém para tomar-lhe, sei lá, uns trocados… A tentação é a de amaldiçoar o infeliz. A tentação é a de pedir pena de morte. A vontade é, usando Talião, matar o desgraçado. Mas Deus não permite que o meu coração se vingue dessa forma. Me falo, a mim mesmo, no meu coração – “errado está quem cria as condições para a existência dessa criminalidade. Errado está quem afrouxa a lei, solta bandido, e faz o mal parecer bem, e o bem, mal. Errado está quem faz parecer que o crime compensa.

Ao meu primo Carlos, minha singela homenagem pelos anos de convivência, e minha oração pela minha tia Neide, e minha prima Carla Andréa, que ficam sem o irmão, tão próximo da morte do pai, Tio Aluízio.

Síntese da Insanidade

A síntese parece ser – os fins justificarão os meios. Afinal, ter gente mais saudável parece justificar o aborto. E se você achar que o ser humano é só a carne que a gente vê e interage com ela, sim. Seria mais fácil.

Aliás, uma vida mais “fácil” parece ser tudo o que o ser humano moderno quer. Se me incomoda? Jogo fora. Me limita? Me livro. Me irrita? Elimino. Desde os “amigos” do Facebook que nos irritam e nós os “barramos”, até o filho na barriga, que não queremos por qualquer razão, passando pelo marido ou esposa que se tornaram incômodos, a ideia é tornar tudo mais “fácil”.

Essa impermanência, esse caráter descartável, tem sim, seus lados positivos. Obviamente é melhor viver sem ter Downs no mundo, ou gente com paralisia cerebral, ou para-tetraplégicos, ou gente de QI abaixo da média, gente com microcefalia… livremo-nos dele.

Fale isso pro pai da linda mocinha com Down, que a ama e nutre desde o ventre, e que se recusou à “vida fácil” que o aborto proporcionaria. Pergunte-lhe se ele se descartaria dela. Fale isso pro pai (aqui mesmo) cujo filho passou quase 12 anos preso a uma cama, por sequelas de sarampo, e que lutou para não ver o menino (moção de 17 anos) partir.

No final das contas, fale isso quando for confrontado com seu crime (sim, apesar de “resolver um problema”, aborto, para mim, é crime hediondo). Quando, sei lá onde, Deus te chamar para mostrar seu lindo bebê abortado, mas que Ele, na sua Graça, não esqueceu.

Enfim, com o perdão do desabafo – pois que no meio da crônica o peso da morte me atingiu como uma bigorna na cabeça – a humanidade das escolhas fáceis será oprimida por aqueles que têm a histamina e a maldade para tal. Quando os exércitos não vêm mais em forma de suástica, eles vêm em forma de “direitos humanos”, e “progressismo”. Perdão se pareço piegas, mas é assim que me sinto: impotente diante de uma sociedade que está cavando sua própria sepultura.

Viscondes negros da Rússia Czarista (ou o cancelamento da precisão histórica)

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Assisti a duas produções muito bem feitas, do Netflix e do Starz esses dias. Duas séries muito bem escritas, cenários lindos, bons atores e atrizes, produção caprichada – Bridgerton (NetFlix) e The Great (Starz). Achei legal. Mas o que chama atenção, em ambos os casos, não é a beleza, a produção ou o enredo, mas a proposta politicamente correta…

Brigerton tem nobres, “gentry” e até membros da casa real negros. Aqui, o primeiro Alerta de Bom Senso: O Ministério da Cidadania Adverte – “Não estou fazendo QUALQUER afirmação de caráter racista. Longe de mim, de verdade, discriminar quem quer que seja, com base em qualquer coisa, seja cor da pele, credo, nacionalidade ou outra – Peço aos desavisados ou leitores “de superfície” que releiam o que escrevi!“.

Já o ótimo The Great, que tem por subtítulo “uma história (quase sempre) verdadeira sobre Catarina da Rússia“, retrata o amante da Czarina como sendo um baixinho fogoso, mas estéril, mulato, o Conde Vorosnki. Legal… É uma releitura, digamos… Não só isso, havia também nobres de origem oriental e até meio indígena, diria eu…

Entendo o aspecto da releitura dos episódios históricos, entendo perfeitamente a ironia ou mesmo o humor. Exemplos abundam, como Graham Chapman, de Monty Python interpretando Brian Cohen em a Vida de Brian. Um inglês branquelo, de olhos verdes no papel de um para-messias confundido com Jesus, já que nascera no mesmo dia – o nome já é uma bela piada, de cara… Brian, judeu levantino, sobrenome Cohen – ou “sacerdote”.

Ou ainda – e pior – uma Elizabeth Taylor, branca, de olhos liláses, no papel de Cleópatra, com um Julio Cesar igualmente branco, louro de olhos azuis, interpretado por um Richard Burton com basta cabeleira, quando Cesar era (quase) careca e romano (moreno, nariz reto, grande, cabelo preto)… São épocas diferentes, objetivos diferentes – do humor à estética ocidental mal aplicada, pura e simplesmente.

O caso aqui, bem como casos como a recente briga para saber quem interpretaria a nova Cleópatra – no caso, Gal Gadot, israelense, morena e esguia (o que já é um avanço étnico sobre Liz Taylor, diga-se). As críticas choveram à escolha de Gadot, “por não ser de origem egípcia”, mas israelense. A piada aqui é que tampouco Cleópatra era egípcia, mas Macedônica, pois que descendente de Ptolomeu, general de Alexandre, o Grande, e que ficou com o Egito quando da morte do patrão, como espólio de guerra.

Mas voltando ao tema central – seja por humor, seja por politicalha ou doutrinação, vamos perdendo a acuidade histórica por conta de imbecilidades sem fim. Shakespeare está proibido em alguns lugares, nos EUA. Abraham Lincoln está a ponto de ser “cancelado”, assim como Thomas Jefferson e outros dos “pais fundadores” da democracia americana. A razão? Tinham escravos, num tempo em que isso não era nem ilegal e nem incomum.

Por aqui, o escravagista Zumbi dos Palmares ainda reina supremo como figura de proa do movimento negro, a despeito de ter sido, ele mesmo, dono de escravos. A história, como a conhecemos, vai sendo reescritas a golpes de foice politicamente correta. Seja por imbecilidade, desconhecimento histórico ou simples desejo de apagar algo (que ocorreu, para o bem ou para o mal), vamos vendo as novas gerações incapazes de ver o que aconteceu da forma como aconteceu, independentemente de aprovarmos ou não.

A Reforma Protestante é um fato histórico, goste-se dela ou não. Católicos não a aprovarão, evangélicos sim, mas independentemente de qualquer opinião, foi um fato, e está aí. Papas tiveram dezenas de filhos, reis foram estupradores, e mesmo o quase “santo” Martin Luther King, pastor batista, com todos os seus feitos em prol dos Direitos Civis nos EUA, era chegado num sexo pago, fora de casa, e, dizem, em algumas substâncias ilícitas.

Ora, não é, nem deveria ser papel do historiador, tentar fazer da história algo palatável à sua preferência. Dos talvez 10 mil anos de vida do homo sapiens sobre a terra, 9,8 mil tenham-se passado sob regimes de escravidão, como coisa comum e corrente. Do antigo Egito até quase no século XX, houve escravos no mundo sob legalidade.

Criticar a Inglaterra por ter tido escravos, e fomentado o tráfico, é fácil. Difícil é reconhecer que William Wilberforce, junto com Willian Pitt e John Newton, conseguiram acabar com o tráfico negreiro no Reino Unido, o que logo depois foi seguido (não sem brigas) pelo resto do mundo ocidental.

O que hoje é um absurdo, há pouco mais de 100 anos era realidade legal. A escravidão ainda existe, na prática, em muitos lugares. A história que está sendo feita hoje deve retratar a triste realidade das mulheres do leste europeu, escravas sexuais de máfias do oeste da Europa, como uma tragédia, de forma correta e científica – como ocorreu! Vi essa realidade com meus próprios olhos na República Moldova, em casas-lares que nossa missão teve que erguer e manter, para abrigar os órfãos de mães vivas, as lindas moldovas, que eram cooptadas como “modelos” na Itália, Espanha e outros países, para acabarem como prostitutas e ter o passaporte preso e mortas, em caso de gravidez ou doenças sexualmente transmissíveis.

Por que cancelar Shakespeare? Por que cancelar Monteiro Lobato? Qual é a dificuldade de entender que eram simplesmente outros tempos, e que, aprendendo com eles, eliminamos diversos comportamentos absurdos? Qual a dificuldade de entender que conhecendo o passado com precisão talvez não venhamos a ser presas de comportamentos parecidos?

Será que achar que as Cleópatras eram louras de olhos liláses, ou que havia um Conde Voronski mulato no tempo da Czarina Catarina, a Grande, ou ainda que Monteiro Lobato era um maldito racista, pois que a Sinhá Nastácia não tirava férias, nos torna livres das práticas que vemos registradas ali?

O dito é que “a história é escrita pelos vencedores“. Heródoto, o pai da história, se remexeria no túmulo, creio. História deve ser mantida a todo custo, e retratar o que aconteceu, com tanta precisão quanto possível. Claro que há ângulos diferentes da mesma história – talvez por isso Deus tenha nos legado não somente um, mas quatro Evangelhos, cada um com um enfoque diferente, um do ladinho do outro, pra vermos que há formas diferentes – e não necessariamente conflitantes ou erradas – de encarar um fato observado.

Não nos cabe raspar fotografias para retirar delas nossos desafetos. Não tem honra, muito menos honestidade histórica, o sujeito ou sujeita que apaga seus posts, por terem se tornado inconvenientes à sua atual narrativa. Melhor seria dizer “eu estava errado”, “eu acreditava errado” ou ainda “eu me arrependo”, e deixar lá o maldito (ou bendito) registro do que um dia pensamos e postamos. Apagar posts, raspar fotos, ou ainda quebrar estátuas de reis anteriores são exemplos, antes de qualquer coisa, de medo. Sim, o medo de que algo venha a assombrar nossa vida atual ou atrapalhe algum plano que temos. A mim me parece que se tenho esse tipo de medo, tenho alguma intenção menos digna na cabeça.

Deixemos os cancelamentos de personalidades, ou a quebra de estátuas, raspagem de fotos e re-inscrição de textos para os medrosos e para quem tem o que esconder ou enganar. Não vamos permitir, não podemos permitir, que a acuidade histórica, que a história como ciência, seja eliminada de nossa vida.

Livros

Numa cena de Indiana Jones e a Última Cruzada, o personagem de Harrison Ford pergunta à também arqueóloga e colaboradora dos nazistas, a loura alemã Dra. Elsa Schneider: “Por que, ao invés vez de queimar livros, vocês não experimentam lê-los?“.

Bela pergunta… e que vem se repetindo desde que a Igreja Católica criou o Index Librorum Prohibitorum, em 1559, pelo Papa Paulo IV – somente revogado, pasmem, em 1966, pelo Papa Paulo VI.

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Era o auge da contra-reforma, e o objetivo era o de banir textos que atentassem contra os dogmas da Igreja. Alguns personagens de destaque foram “agraciados” com uma menção no tal Index, como Rousseau, Descartes, Galileu, & Cia. Isso não foi exclusividade dos católicos. Luteranos e Calvinistas, o próprio Calvino à frente, também proibiram, ou tentaram proibir, o acesso das pessoas ao que eles julgavam inadequado. Acho que nós, batistas, fomos os menos afeitos a isso, o que nos deu a alcunha de “Livres Pensadores”, naquela época. A fé se adquire livremente, pelo exame de tudo (como disse o Apóstolo Paulo em I Tessalonicences, 5:21 – “Julgai todas as coisas, retende o que é bom“.

A síntese de toda a censura pode ser condensada numa palavra: MEDO. Lideranças católicas, protestantes, muçulmanas, e outras, tinha medo de que seus fiéis se “perdessem” nas firulas e intricácias de pensamento de alguns textos, e com isso, se afastassem da influência de seus líderes.

Vivi a vida toda no meio de Livros… eu os amo com paixão. Dediquei boa parte da minha vida a colecioná-los e lê-los. Não deixo entrar na minha estante nada que eu não tenha lido, usado em pesquisas, ou ambos. Tenho um Livro na cabeceira que nunca deixo sair, a Bíblia (na verdade uma coleção de livros).

Ao longo dos últimos anos passei a usar o Kindle, que me dá uma baita velocidade de leitura, mas me tira muito da retenção de detalhes, da capacidade de rabiscar (não sou muito fã, mas faço) mas me dá a possibilidade de ler da hora que acordo à hora que caio de sono, às vezes de madrugada. Estou pensando seriamente em reduzir drasticamente meu uso do Kindle – mas terei que aumentar minhas estantes, e a patroa é capaz de me jogar pra fora de casa…

Livros são tesouros. Mesmo os ruins. Afinal, de que servem apenas os bons conselhos, se os não temos os maus conselhos para fazer o tão necessário contraste “claroscuro” que nos dá capacidade de enxergar a realidade?

Por isso um texto de Madeleine Lackso, hoje, na Gazeta do Povo, me chamou atenção. Dê uma pausa, por favor, e leia, no link https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/madeleine-lacsko/movimento-quer-proibir-todos-os-livros-porque-nao-sao-politicamente-corretos/ e depois volte.

Voltou? Pois bem, minhas considerações vão na direção exatamente do MEDO. A tal hashtag “#DisruptTexts” foi criada por uns professores americanos que entendem que existe a necessidade de “purgar” as mentes e corações dos jovens de textos que eles acham inadequados. O argumento não é feito com relação à falácia de um texto ou em como ele pode “disruptar” um dogma ou ideologia. Diz respeito tão somente ao que consideram “politicamente incorreto”. Ou seja, querem informar ao leitor por que ele não deve ler Shakespeare, ou Homero, como fala a autora do artigo.

O conceito de “Espírito do Tempo”, conhecido em todas as línguas (Esprit du Temp, Zeitgeist, e trololós) foi cunhado exatamente porque há séculos o homem se depara com a leitura de textos que se baseiam em realidades diferentes das suas. Ao advertir, ou chamar o leitor para atentar para o Zeitgeist, quem escreve ou fala nos diz: “era assim que se pensava naquele tempo”…

Os romanos achavam abjeta a prática do sexo homossexual dos gregos, e chamavam o homossexualismo de “Vício Grego” (aqui, eu, eu mesmo, peço que invoquem o Zeitgeist e não me apedrejem – ainda). No entanto, os romanos de alta classe mandavam seus filhos para serem instruídos aos pés dos grandes filósofos gregos da época. Fica claro que, há mais de 2 mil anos, os romanos já conseguiam entender o conceito de Zeitgeist contido nos clássicos da literatura grega, e “perdoar” (Sic!) Homero, Ésquilo & Cia.

O próprio Shakespeare conseguiu escrever livros que o remetiam a tempos anteriores ao dele próprio, retirando a lição de vida, o entretenimento e a beleza de dentro do Zeitgeist, sem que fosse necessário purgar ou “disruptar” o que quer que fosse.

Essa nossa sociedade não consegue entender que a Cabana do Pai Tomás representa o espírito de uma época. Tom Sawyer e Huckeberry Finn, clássicos da minha infância, são considerados inadequados para que nossos filhos os leiam. Há alguém, de fora da cultura, de fora do entendimento do passar do tempo, que está nos dizendo o que ler, no que acreditar, como nos comportar, como falar. Estamos assistindo passivamente a destruição da cultura, da filosofia, e até da ciência.

Não se discute com uma equação. Ponto final. Isso foi o que aprendi. Não mais, aparentemente. Uma equação nos “faz sentir” mal ou bem. Portanto, se a realidade não se adapta ao que eu penso, dane-se a realidade. Dane-se a razão, dane-se o bom senso, viva a fogueira de livros, tocada a Readers` Digest dos anos 60, 70, 80 (hoje impossíveis de serem lidos sem o crivo dos “iluminados” do novo Index Librorum Prohibitorum.

Nunca poderia imaginar que o fim dos tempos (sim, creio que estamos perto dele) poderia acontecer não pelas mãos de um tirano de bigodinho ridículo ou um penteado mais ridículo ainda e olhinhos puxados, mas pelas mãos de professores teoricamente encarregados de nos esclarecer e ensinar a pensar.

Para quem ama livros, perdê-los é como viver escondido por ter-se recusado a receber a marca da besta.

O próprio bafo

macro photography of person wrapped with clear plastic bag
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Se tem uma coisa irritante em toda essa pandemia, não é o medo do vírus, não é o lockdown, não é a falta de restaurante aberto pra ir nem a falta dos amigos, que não podem nos visitar. É o bafo! Pior. É o NOSSO próprio bafo. Represado dentro das miseráveis máscaras, sentimos o que dantes não nos incomodava.

Bafo é algo que normalmente só irrita o alheio. Bafo é como chatura. O chato, ou o bafudo, nem se dá conta. No caso do bafo a culpa é da glândula pituitária, que “satura” e a gente nem percebe mais. O chato é igual. Eu como chato de galocha sei disso: a gente tá mais preocupado com o que nós mesmos achamos e pensamos que saímos distribuindo nossa “expertise” a torto e a direito, sem perguntar se o outro gosta ou não do que estamos falando. Adoramos ouvir o som da própria voz.

A chatura é o bafo da alma. O bafo é a chatura da boca. Mas qual é a do bafo? Sabe bem quem usa máscara. Tem que cobrir a boca e o nariz. É como aquele gesto de bafejar na mão antes de um encontro, pra ver se a moça que vamos beijar não vai desmaiar como resultado do nosso mau hálito. Coisa de tempos em que não havia Listerine. Comia-se pasta de dente e olha lá. A máscara institucionalizou a estética do hálito. Estética é algo que não costuma ser relacionada com bafo, nem com coisas do nariz, mas creia-me: depois da Covid, o próprio bafo se tornou uma questão de sobrevivência. Tem gente que não liga, que põe a máscara, sente aquele “gás mortal” entrando de volta pelas narinas e em 5 minutos já não sente mais… e segue pela vida, bafejando e sendo bafejado.

Cubro a boca e o nariz porque me mandaram cobrir. Não me convenceram totalmente de que é realmente necessário, mas faço em respeito ao meu vizinho, meus semelhantes. Isso teve o saudável efeito colateral de me informar que (e quando) estou bafudo. Dia desses me peguei em oração – “cuida da alma que o corpo já era“… Que bafo! E tratei de caçar o enxágue bucal. Aline, a patroa, não gosta de criticar o bafo alheio, mas eu peço pra ela fazer um certo controle de qualidade. Ela faz sob protesto, mas faz. De vez em quando ela fala “tá com um pouquinho de bafo” – e eu sei que estou matando urubu em pleno voo – ou estaria, não fosse a máscara.

Já a chatura, essa não tem muito jeito. Não tem uma máscara de cobrir a cara que tenha o condão de fazer a chatura voltar na nossa cara. Quem dera! Seria um aliado fantástico pra não perder amigos, negócios ou se envolver em discussões tolas. Outro dia, eu e o filho de um grande amigo expulsamos da sala de jantar o resto dos convivas, só pelo caminho que certa discussão pegou. Era “papo cabeça”. Chatura na veia! O bafo da nossa chatura afastou o povo. Não demos a mínima – como todo chato que se preza – estávamos curtindo o bafo um do outro, e nem ligamos pra quem se afastou. Coisa de chato profissional.

Estou certo de que a Covid, então, teve esse efeito colateral positivo – a redução do bafo (acho que reduziu-se o bafo percebido, claro, mas certamente o “real” também). Tem gente que nunca se importou com o próprio bafo, já que não a incomodava, mas deve estar roxa de vergonha agora, ao lembrar de momentos de cochichos e conversas próximas que de repente afastavam o outro… Só restava um fingimento do tipo “ora veja você!“… “não diga!” e um menear de cabeça pra trás, pra longe do jato de vento fedorento diante de nós.

Peço a Deus por uma Covid da alma – entendam-me – não quero um vírus pra alma (tem gente que é literal e não interpreta texto muito bem…): falo de algo que devolva na nossa cara o odor fétido da nossa chatice – aliás, chatice, chatura, chateza, chateação… leiam como quiserem (não sejam chatos vocês também!). Quisera eu receber na cara uma lambada de chatice fedorenta de volta, cada vez que começasse a chatear o alheio.

Chato assumido que sou, embora com a melhor das intenções, descobri que um bom disfarce pra chatura é o humor. Você disfarça sua vontade de jogar indiscriminadamente pros outros suas ideias, exatamente como o chato. Mas sob forma de humor se torna um pouco mais palatável (ou cheirável). Humor é o Listerine do chato.