Etarismo


É uma expressão nova e, como quase todas as expressões novas, ainda não se consolidou no vernáculo como algo “auto-entendível” (Sic!).

Etarismo é, ou seria, o ato de alienar alguém pura e simplesmente por conta de sua idade cronológica. Alguém com mais de 50 anos estaria fora do mercado de trabalho justamente pela idade, não por qualquer outra razão.

O Brasil já foi um país de jovens, em que alguém com mais de 30 anos já era visto com certa desconfiança (ou quem, com mais de 50 anos, não lembra da musiquinha cantora da jovem guarda Cláudia “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”?):

Não confie em ninguém com mais de trinta anos
Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros
O professor tem mais de trinta conselhos
Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta
Mais de trinta, oh mais de trinta

Marcos e Paulo Sérgio Valle

A “crítica social” já tramava, de certa forma, contra os “novos velho” de então, os de mais de 30. Hoje, alguém com 30 anos às vezes nem saiu da faculdade e mal e mal conseguiu seu primeiro emprego – não apenas aqui, mas em boa parte do mundo. A adolescência já chega aos 25 anos, e empurrou a maturidade lá pra frente. Melhor medicina e nutrição faz com que os 50/60 sejam os novos 30.

Etarismo no Mercado de Trabalho

Um colega auditor, de Santa Catarina, me disse há uns dois anos, após um simpósio que apresentamos juntos, que se quiséssemos, trabalharíamos até os 90 anos, por pura falta de material humano para fazer o que hoje fazemos, com um mínimo de qualidade.

Não sou tão pessimista (ou otimista, se olhar só pra mim mesmo). Não sei se por graça de Deus ou por ter escolhido minimamente bem, tenho colegas na firma de 20 e poucos anos e que são ao mesmo tempo capazes, comprometidos e com excelente formação. Gente que “criei” desde adolescentes profissionais e que hoje me ultrapassam, em muito, na sua capacidade de execução.

Eu creio que só venci – por enquanto – o etarismo devido ao fato de ter me arriscado, por volta dos 38 anos, e desenvolvido minha própria firma, o que me fez de alguma forma relativamente independente do fator idade no mercado de trabalho.

Recentemente, mesmo, trouxemos um profissional da área de tributos internacionais para nossa equipe, um “guri” de 53 anos, cuja atuação está superando nossas estimativas, tanto em qualidade quanto em “pegada”. Isso não é muito novidade, pois nós, Baby Boomers, sabemos que não tínhamos alternativa a não ser cair de boca na enorme de trabalho que nos era direcionada, a fim de pagar as contas e sobreviver.

Confesso, porém, que mesmo eu com 60 anos tenho cá minhas dificuldades em contratar gente já mais pra cá do que pra lá (no meu caso… antes era mais pra lá do que pra cá, mas já dobrei esse cabo da boa esperança, como diria meu saudoso pai). Tenho um medo, originado da minha própria autopercepção, de que tem menos espaço pra excel e word, e mais pra netos e documentários históricos, na minha agenda, hoje do que havia há alguns anos.

Etarismo, Cronologia e Racionalidade Econômica

O fato é que etarismo diz, hoje, menos respeito a capacidade, e mais a uma espécie de autoflagelação, nossa, dos coroas mesmos. Conscientes de nossas limitações, esparramamos pra dentro da nossa esfera profissional os medos que nos acompanham, tanto da idade como dos custos associados à ela. Ora, o plano de saúde custa mais caro, as limitações de viagem são mais visíveis, e o pique para determinadas tarefas certamente não é o mesmo.

Mas eis que entra em cena a realidade das novas gerações: eles já possuem limitações muito parecidas, desde muito cedo. E não falo aqui dos que não acordam do sonho da adolescência e adentram a maturidade. Claro que adiar o casamento, a vinda dos filhos, entre outros fatores que fazem a pessoa madurar “na marra” é uma realidade cada vez mais presente. Se a mulher pode, com saúde, ter filhos depois dos 40 anos, por que comprometer-se com tanta trabalheira antes disso? Por que, homem, deixar a vidinha de solteiro e a casa da mamãe, se é tão confortável, e o sexo hoje é quase uma obrigação, desde muito cedo, e não mais a “prerrogativa” dos casados?

A despeito de tudo isso, é interessante notar que o mercado começa a se dar conta do fato de que a relação custo X benefício está pendendo muito mais para o lado dos coroas do que dos mais jovens. A saúde vai melhor até os 70 anos; a cabeça continua em dia, junto com uma maratona diária de exercícios físicos. Tudo isso torna gente de 50, 60 e até 70 anos muito mais produtiva do que jamais foi. Chovendo no molhado, para entrar no fator cash flow do assunto. Passa a ser muito mais econômico contratar gente já com anos de estrada, formada, experiente, e que já viu “a banda passar” (outra referência datadíssima…). É mais rápido um coroa pegar no breu, como se diz aqui em Curitiba, e entrar em altitude de cruzei rápido. Esses grisalhos demoram menos tempo para entender processos às vezes complexos, e precisam de muito menos supervisão.

O Perigo do Etarismo Reverso

Desde a antiguidade, as pessoas aprendiam umas com as outras, em guildas, ou em casa, com papai e mamãe, a fazer as coisas que a família havia aprendido e aperfeiçoado por gerações. De confecção de tecidos a fabricação de cerveja, passando por marcenaria e uma série de ofícios, o filho aprendia aos pés dos pais.

Com o advento da escola pública, e posteriormente, o ensino profissionalizante, pais marceneiros passaram a ter filhos médicos, e pais médicos passaram a ter filhos historiadores, e por aí vai. Hoje, espera-se até o fim da universidade para começar uma carreira profissional. Poucos são os que trabalham pra valer, mesmo em classes menos favorecidas, muitas vezes.

Com o advento da Inteligência Artificial, da Robótica e outros truques tecnológicos, onde vai parar a nova geração de trabalhadores? Onde vão aprender, se nem sequer o ambiente de trabalho existe como existia, e boa parte do povo está em home office? Como criar uma cultura empresarial, como alimentar um processo de fertilização cruzada de ideias se as pessoas já não interagem?

O temor é que a morte inevitável das gerações mais antigas, aliada ao desenvolvimento tecnológico faça com que tenhamos nas mãos uma geração de pessoas com formação pior do que a necessária para enfrentar o mercado de trabalho. Mais do que isso, uma geração que pode ser sustentada (até quando não se sabe) por programas sociais, que retiram delas a necessidade de labutar para sobreviver. Alguns acham isso o máximo: todos dependentes do pai-governo. Eu acho que isso se assemelha muito à onda de bebês-adultos que temos em nossas casas hoje; gente que está segura de que os pais continuarão a manter seu estilo de vida mesmo na velhice deles. Ledo engano… não é cronologicamente viável.

O mercado de trabalho corre o risco de se desabastecer por conta da alienação das gerações mais jovens; as gerações Z, Millenials, etc, correm o risco de se tornar imprestáveis ao mercado de trabalho, pois têm a “casca fina demais”, se magoam facilmente demais, achar ter mais direitos do que deveremos.

Nações envelhecidas como Japão e parte da Europa já se ressente desses efeitos. Tudo isso sem contar que a base etária maior no topo do que embaixo está causando devastação das políticas de seguridade social mundo afora; gente que já contribuiu quer se aposentar; os estados gastaram boa parte do que foi arrecadado com a própria máquina; sobrou quase nada dessa pirâmide financeira para aposentar as novas gerações. O resultado é ainda mais desencanto com carreiras e profissões. Isso pode ter um efeito, digamos, salutar, de tornar a vida mais difícil, deixando o povo mais esperto quanto à necessidade de sobreviver.

São ciclos, sabemos, mas que nunca se repetem da mesma forma. O advento da IA e da robótica pode modificar sensivelmente o mercado de trabalho que conhecemos hoje.

Apostar igualmente em coroas e garotos pode ser a melhor pedida, nesses momentos de mudanças radicais.

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