Homo Bulla


Radicals tend to be highly intelligent and wholly ignorant of reality. They live in worlds of their own.”

(Livro Nothing new on the Land, Andrew Wareham)

A frase acima, livremente traduzida como “Radicais tendem a ser altamente inteligentes, e totalmente ignorantes sobre a realidade. Eles vivem em mundos próprios” saltou aos meus olhos lendo esse livreto bastante “corny”.

E não é que é? Radicais realmente tendem a viver em mundos próprios, no que hoje se convencionou chamar de “bolhas”.

Todos Radicais

O problema está nisso: hoje, todos podemos ser chamados de radicais, porque já não há como não viver em bolhas. Eu e você já não conseguimos, quase, distinguir o mundo sem as lentes do que lemos, ouvimos e assistimos.

Eu sou claramente alguém conservador e cristão. Não me considero, porém, alguém totalmente incapaz de reconhecer ideias progressistas como tendo virtudes. Não sou “capitalista” a ponto de imaginar um mundo sem salvaguardas de uma rede de proteção social, e acho que isso é uma das poucas coisas que o governo deveria fazer, além de defesa, infraestrutura e diplomacia.

Então, por definição, se vivemos em “mundos próprios”, todos podemos ser rotulados de radicais.

Meu Radicalismo

Se ter um “lado” no espectro de opiniões é, por si, radicalismo, sou radical. Mas não acho que isso seja radicalismo, por si só.

Como disse Voltaire (ou atribui-se a ele):

“...posso não concordar com uma palavra que você disse, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la“.

Eu concordo com isso, e sou perfeitamente capaz de discutir sem achar o outro um idiota total (idiota, talvez, total, nunca), e entender que o outro ache o mesmo de mim. O que não posso tolerar – bem radicalmente, diga-se – é que alguém não dê ao outro o direito básico de dizer o que pensa, e querer caçar sua palavra.

Internet e Discursos de Ódio

Isso nos remete à óbvia situação que vivemos não só no Brasil, mas mundo afora, com tentativas seguidas de calar a praça pública eletrônica.

A impressão que tenho é que há uma junção de políticos no poder com órgãos de imprensa trabalhando, por um lado, para limitar o discurso geral, e do outro, uma instituição que agoniza, tentando manter seu status quo financeiro e, em última análise, sobreviver. Sabemos que animais acuados são perigosos, e o que vivemos é um momento de “onça no canto”.

Voltamos então a quem desde sempre ocupa o imaginário popular de piores vilões das galáxias, mas sem os quais não costumamos viver, e aos quais muitos bajulam de 2 em 2 anos, pelo menos. Os políticos, essa raça de víboras, necessárias, mas que não sabemos até quando.

Inteligência e a Bolha

Sim, posso ser inteligente e viver numa bolha. Posso ser inteligente, radical, e falar bobagem. Posso, enfim, viver no meu mundo, sem trocar nem oxigenar ideias, e ser radical e até extremista.

O mundo do Covid provou que o ser humano, deixado a sós e sem necessidades de cooperar para sobreviver, vai preferir uma bolhinha do seu tamanhinho, e ficar quietinho lá. Desde que não falte comida, abrigo ou diversão (eletrônica serve), não se sentirá tentado a trocar ideias ou mesmo fluidos.

Vai ver estamos vivendo a era do Homo Bulla, ou homem da bolha e não sabemos. Se, como dizem biólogos evolucionistas, evoluímos pela necessidade de sobreviver, o Homo Bulla já não teria mais esse impulso, o que o levaria uma condição de desprezo por tudo o que o é alheio, e que no fim das contas, tira tudo da equação, a começar por Deus, o outro, e terminando com higiene pessoal.

O Homo Bulla sou eu e é você. Ele é uma espécie em franca reprodução assexuada, e se proliferar muito, gerará um mundo de (sim…) zumbis “embolhados” incapazes de perceber o outro.

Com tempo de sobra para si, continuarão a desenvolver uma espécie de inteligência, de muito pouca utilidade, mas estará sempre disposto a impor seu discurso ao outro, nas raras vezes em que interagir com ele.

Talvez só a necessidade de sexo ainda possa nos salvar, pois talvez seja a última interação impossível de conter. A última bolha.

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