A obsessão da Intelligentsia brasileira com a França


Torre Eiffel sob o céu azul durante o dia

Não parece haver limites para a puxação de saco da intelectualidade brasileira com a França. O país do “barnabé” (quem é mais velho lembra do filme do Mazzaropi – Barnabé era o único servidor público que trabalhava – daí o sinônimo) é, para a intelectualidade brasileira, a epítome do desenvolvimento. Um em cada 5 franceses são “barnabés”. O país tem déficits fiscais monstruosos, de 5,8% do PIB este ano, pelo que se sabe. O país tem mais de 50% de sua população direta ou indiretamente ligado ao poder público. O país tem a maior tributação da OCDE.

Em suma, o país é uma piada na Europa, pelo caráter retrógrado de sua economia e seu protecionismo absurdo. E nossos intelectuais o amam. Quando ganham um bom dinheiro, compram apartamento em Paris. Quando podem, fogem pra lá. Consideram aquilo uma maravilha.

Trabalhei durante muitos anos para uma empresa francesa. Para o empregado não tinha nada melhor. 40 dias de férias por ano, diversas benesses e uma liberdade de trabalho que beirava a irresponsabilidade. Ser demitido era quase uma impossibilidade, reservada a fraudadores ou delituosos semelhantes. Paris foi durante algum tempo um lugar que visitei e conheci muito, durante longos períodos. É uma bela cidade, como na verdade, é linda toda a França, com poucas exceções.

Ao longo da vida, no entanto, vejo que a França tem sido um poço de contradições. Exporta uma visão de si totalmente diferente daquela que pode ser percebida internamente. Grande parte de sua população não concorda com uma política de fronteiras abertas, que levou o país a ter o mais alto índice de aplicação da lei Sharia fora dos países muçulmanos, ao arrepio das leis locais. Grande parte também não concorda com o nível de interferência do governo na economia.

Mas a França convive com isso desde a Idade Moderna. Reis absolutistas, uma revolução sangrenta, um império centralizador e uma nova república governada por um forte e centralizado sistema de funcionalismo público criaram uma França moderna na qual não há lá muito espaço para o contraditório, o conservadorismo ou mesmo pensar relativamente diferente de uma certa ideologia sancionada.

A Intelligentsia brasileira

Se é que podemos chamar assim um grupo de intelectuais que se rendem e derretem pelo jeito de ser da França, temos uma elite supostamente esclarecida que teima em não ver que o rumo que a França toma não pode ser considerado um modelo para o Brasil. Mas a despeito disso, eu sinceramente prefiro que o Brasil vire uma França do que uma Nicarágua ou Venezuela. Claro, não é fácil, num ambiente europeu, subordinar toda uma população a um sistema despótico. A França está longe de ser despótica, mas adota um modelo de governança baseado quase que no conceito fascista de Mussolini – “tudo pelo estado, tudo para o estado, nada fora do estado”. E é isso aí. O estado dá as ordens, a população segue. Há algum espaço de discussão desde (e bota “desde” nisso) que haja um alinhamento ou conformismo com as regras vigentes.

O estado brasileiro atual parece almejar esse tipo de fasci-comunismo que centraliza e controla a ponto de deixar ao cidadão tão somente o momento do voto (presidente, deputados, etc.) e olha lá. Uma vez depositado o voto na urna, o cidadão que obedeça o que o Estado lhe impõe, em troca de uma estabilidade social cada vez mais difícil de ser mantida.

O Brasil quer seguir neste caminho? Eu diria “meno male” para o brasileiro médio. Eu, contudo, não acredito. Acredito que não temos a disciplina e a qualidade do serviço público francês, que, de uma ou outra forma, mantém o país andando (vide o sistema de trens, metrôs, águas e energia elétrica, etc.). Sequer temos as qualidades morais que os franceses demonstram em seu trato com a coisa pública – escândalos lá são mais raros que aqui, obviamente, o que diz muito sobre os resultados de cada gestão.

Mas intelectual nunca é fonte de sabedoria, necessariamente. Os nossos, com raras exceções, são péssimos em sua leitura da realidade. Desde o “eu odeio a classe média” de Marilena Chauí, até a “boa bala, bom paredão…” de Mauro Iasi, vivemos num país em que os que deveriam pensar se recusam a ouvir antes, se recusam a ler a realidade com objetividade. Intelectual de slogan não me parece ser uma grande fonte de inspiração.

 

, ,

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *