
Quanto mais velho fico (ficamos, incluo Aline, minha esposa, nisso…) mais difícil é viajar, e mais agradável é voltar. Ontem, mais uma vez, experimentei a alegria de retornar à casa. O cheiro, os sabores, as coisas conhecidas, nos fazem querer ficar quietinho no nosso canto, indo, no máximo, à um outro escritório da firma, ou na praia, pegar uma vitamina D.
Agora, por exemplo, empacotamos umas semanas e, entre trabalho e passeio, tive a oportunidade de visitar umas quantas cidades, nos EUA e México. Fui recebido por amigos queridos, e colegas super profissionais (e, por que não dizer, amigos também…). Fomos convidados para almoços e jantares, curtimos a presença de muita gente boa, vimos paisagens fantásticas, mudamos de hotel e cidade mais vezes do que me lembro agora.
O que é estrangeiro, estrangeiro é…
Pois é isso mesmo… pra não dizer “estranho é”, pois nem sempre é estranho no sentido de mau. Não posso chamar de mau visitar a bonita Tequila, a pacata Ennis, Texas, ou as vibrantes (e estranhas) Los Angeles, San Diego ou San Francisco. É algo diferente, e que nos remete a um desejo que todo brasileiro tem, de visitar “as estranjas”…
É estrangeiro e continuará sendo estrangeiro, não importa quantos anos tenhamos vivido fora daqui, em quantos países tenhamos passado, e menos ainda, a qualidade do tratamento que tivemos – no meu caso, com raríssimas exceções, sempre muito bom.
É estrangeiro e se torna mais estrangeiro ainda na medida em que envelhecemos e enrijecemos as juntas, e o cérebro. Falar outro idioma já não vem com a mesma facilidade; comer comidas diferentes (não importa quão boas) já não nos toca o paladar da mesma forma. A velhíssima e proverbial estória da falta do arroz com feijão deixa de ser somente uma estória e passa a ser bem real.
Por fim, é estrangeiro porque amamos isso aqui. Com mazelas, com encrencas e com ladrões em todo lado. Amamos isso aqui.

A água é verde-azulada, e morninha. Limpa que dá gosto. Tudo é de primeira. Mas o litoral do Paraná? Ahhhh… o “nosso” litoral… me sinto um Policarpo Quaresma, ao falar das nossas praias, que nada, nadinha, tem de especial, exceto o fato de que as sinto “nossas”. Mesmo sendo do Rio de Janeiro, e tendo frequentado aquelas praias de lá, famosas e badaladas, fico com cara de bobo aqui.
Um roteiro para valorizar o retorno
Fui sem vontade de passar tanto tempo fora. Fui sem muita expectativa, e com enorme medo de como deixaria as coisas aqui na firma. Fui com saudade do Vicente, meu neto, antes mesmo de ir. Fui deixando filhos, nora e sobrinho tomando conta do “boteco” lá em casa, e com os sogros supervisionando, mas, no fundo, fui por necessidade de ir. É muita coisa para empacotar em 4 semanas, e pouco espaço de bagagem. Temos que nos preparar com uma logística militar, para todos os eventos e reuniões, sem perder a chance de ter as roupas de sempre conosco. É pouco sapato, pouca roupa debaixo e muita roupa de festa. Uma bagunça de dar gosto.
Mala? Tem razão de quebrar, em tantas escalas e tantos voos. Tudo volta meio cambeta, rodinhas tortas, malas quebradas ou rasgadas. Os tais anõezinhos malignos do comercial do passado existem. Creiam-me.

Cada cama de um jeito. Cada travesseiro um aprendizado (para o pescoço). Cada chuveiro uma guerra para ajustar. Cada local um cheiro, cada casa uma forma de ver o conforto. Não tem como não nos tornarmos mais flexíveis depois desse furdunço todo. Creio que voltamos, Aline e eu, um tantinho mais jovens por essa causa – exceção feita às costas e traseiros, cujos assentos de carros e aviões não nos ajudam em nada.
Os colegas da América Latina brincam comigo: “Curitiba, a cidade más linda del mundo…”… como eu costumo dizer, “do universo”. Ufanismo puro de quem sequer nasceu por aqui, mas adotou como seu esse lugar chuvoso e cheio de mofo nos confins dos armários. Mas tem fundamento: gosto daqui – vou no meu Rio de Janeiro nativo ver a família e volto com alegria – e o mais rápido possível.
Ah… mas a volta…
Ontem, a volta… o churrasquinho em casa, com a família, o molho vinagrete, a salada de batata e a alegria de deitar na minha cama. A alegria de voltar ao nativo, ao “bocado acostumado” proverbial (literalmente) é inenarrável. Até os problemas, o mofo da casa, os cachorros já um pouco malcheirosos do banho atrasado, o carro sem ligar há tempos, tudo contribui.
Voltar ao escritório e à rotina me lembra o dizer do meu amigo Arthur Pollis – “a felicidade está numa boa rotina”. Sim, é verdade. Com problemas ou sem eles, com muita ou pouca grana, com dor nas costas e fuso horário ainda descompassado, voltar à rotina é ótimo. Até as ruazinhas apertadas, tão diferentes das autoestradas de outros países, são um convite à reflexão sobre a bênção de uma boa rotina.
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