O “Dono da Lancha” mundial


O Dono da Lancha

“O dono da lancha é o cabeça branca”, diz uma musiquinha terrível de feia e brega, que fez um sucesso enorme recentemente – como quase tudo que é “engraçadinho” e feio no Brasil…

Mas tirando a feiúra artística, há uma mensagem interessante aqui – o cara é velho e possivelmente feio, mas “as novinha” bebem seu champagne e comem seu caviar… Fazem selfie e publicam em redes sociais, mas “o cabeça branca nunca aparece”.

Tem sua mensagem, que muito bem poderia ser aplicável ao mundo do pós guerra. Temos um dono da lancha na forma de um país, os EUA. Temos umas novinhas, na forma de países da Europa – bonitinha, que “todo mundo quer visitar” (desculpem a crueza da metáfora) mas que na hora de mostrar as selfies, excluem o cabeça branca delas.

Anos de Champagne

Foram anos, desde o fim da 2a. guerra mundial, que o (já proverbial) dono da lancha paga a conta. Um Plano Marshall, que hoje teriam custado mais do que USD 130 bilhões – duvido, pois aqui falta a paridade do poder de compra do que se gastou então. Eu não ficaria surpreso se essa reconstrução tivesse custado aos cofres públicos americanos menos que USD 1 trilhãozinho, redondinho.

Além do Plano Marshall, a OTAN também consumiu, ao longo dessas décadas, pelo menos USD 700 bilhões por ANO, entre 1949 e 2017 (se o GPT e a Meta não falharam). Vá lá… vamos arredondar para baixo, para USD 500 bilhões por ano. Ainda assim é um número astronômico.

Nesses “Anos de champagne” a Europa pode-se dar ao luxo de economizar esse dinheiro, e fazer um uso muito diferente dele. Claro que os EUA não gastaram este dinheiro a troco de nada – obtiveram, durante anos, um alinhamento político e social muito grande dos países da Europa, isoladamente ou em bloco.

Ocorre que este alinhamento vem sido progressivamente rompido, tanto pelo afastamento da Europa dos valores típicos ocidentais como pela ascensão da cultura Woke, que criou uma (quase) ojeriza do europeu médio à cultura do ocidente que, em última análise, é a cultura da própria Europa – EUA sendo caudatários dela.

Chega de Champagne

Trump, com seus imensos defeitos, dentre os maiores o narcisismo e histrionismo, foi o único presidente americano a declarara que “O Rei está nu” (na metáfora do excelente vídeo “Europe has killed the western alliance, not Trump”, do historiador britânico David Starkey conversando com o influencer Konstantin Kisin, de Triggernometry – de origem russa, mas britânico também – fácil de achar no Youtube).

Trump simplesmente se cansou das “novinha” Europeias e jogou todo mundo pra fora da lancha, direto na água, sem direito a carona de volta pra praia. Obviamente que a Europa está aos berros, ao mesmo tempo se borrando de medo das consequências, e orgulhosa demais para admitir que se esbaldou no champagne do velho da lancha por muito tempo.

O fato, comentado por Kisin no vídeo mencionado, é que Trump avisou, ainda em 2020, que a Europa não devia depender da energia da Rússia, e financiar o chamado Plano “Net-Zero” às custas de combustíveis fósseis, sem pensar numa transição mais segura e menos ambiciosa, de prazo tão curto. Líderes europeus riram, e muito, na cara de Trump. Como quase sempre, a forma sobrepujou o conteúdo. O histrionismo de Trump falou mais alto do que o pragmatismo e verdade do conteúdo dito. O resultado parece muito com o título daquele livro de Arthur Schoppenhauer – “Como vencer um debate sem precisar ter razão“. A Europa venceu um debate, ficou bacana na mídia, agradou Wokes e Verdes, e deu no que deu. Quando Putin invadiu a Ucrânia, a maravilhosa Europa quase nada fez, ou pode fazer, pelos agredidos Ucranianos. Konstantin Kisin menciona no vídeo que a “grande ajuda” britânica no início do conflito foram 5 mil capacetes… uma piada.

A Europa usou o orçamento de defesa – não aplicado nisso – para criar o famoso Welfare State que é inveja de tantos no ocidente, inclusive dos próprios americanos. Educação, Saúde, tudo “de grátis” para todos, só que não: só que à custa do Tio Sam.

A Ressaca

Agora vem a ressaca de tanto champagne, e a possível crise de abstinência que advirá dela. O dono da lancha já jogou todo mundo no mar, e assiste de camarote as reações. Uns vão morrer afogados, olhando pro cabeça branca e ladrando seus “direitos” de serem resgatados e voltarem ao bem-bom. Outros serão mais pragmáticos, nadarão até a praia e tentarão comprar pelo menos um bote de borracha para chamar de seu. Outros ainda ficarão quietos, pedirão desculpas, e talvez até voltem ao festerê.

O fato é que foi o contribuinte americano que financiou, ao longo de décadas, o estado de bem estar social proporcionado pela Europa aos seus. Foi o champagne que a Europa, depois de anos de festa, recusa-se a reconhecer como uma benesse, e passou a achar um direito.

Trump é um elefante em loja de cristais. Todo mundo sabe disso. É um “Bolsonaro” brancão e de cabelo laranja. Mas é alguém que não se pode chamar de politicamente correto, na pior acepção do termo. Não. Ele é truculento e reconheceu um fato simples, que qualquer pai sabe bem. Filho com mais de 18 anos em casa, está lá de favor. Ou se comporta de acordo com as regras dos pais, ou vai caçar seu rumo por conta própria. A Europa é o filho de 50 anos, ainda em casa, que não arruma o quarto e acha que os pais já velho são responsáveis por financiar toda e qualquer modinha que inventem. É mais fácil vestir uma camisa vermelha do Che, votar Verde, dar apoio a movimentos de apoio a refugiados, a dar hotel 4 estrelas a imigrante ilegal, e mais uma centena de formas de “deixar o quarto zoneado” do que entender que já não cabe no ambiente paterno. Tem que se virar e ponto, disse o cabeça branca, para horror dos líderes de Bruxelas.

Daí resolve (de forma muito imbecil, creio eu) dizer que vai comprar a Groenlândia. De novo, o filho de 50 anos no quarto do pai diz que isso é uma injustiça. E é. Só que para poder cantar de galo, é melhor pegar sua Groenlândia e cuidar dela, o que dificilmente fará, seja por falta de grana ou por falta de capacidade – militar, inclusive.

Será uma ressaca sofrida, mas, como toda ressaca, tende a passar. Algumas vezes o povo cura ressca permanecendo bêbado, o que é sem dúvida uma forma de fazê-lo, mas francamente, estúpida. Esperemos que a Europa decida entrar em forma, arrumar o quarto, e, no mínimo, agradecer pelos anos de champagne de graça proporcionados pelo dono da lancha…

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2 respostas para “O “Dono da Lancha” mundial”

  1. “Orgulhosamente”reconheço todo o mérito de quem (e olhe que são raros atualmente) consegue observar no telescópio da história os sinais e, mesmo, fatos incontestáveis que vêm desde há muito, desconstruindo valores morais e civilizatórios que foram dados a humanidade.
    Ainda bem que Ele também ainda nos envia “Donos de Barcos” e outros dos seus “Santos” ocasionais para serem sacrificados em prol da civilidade em momentos cruciais da mesma história dos mundos.
    Que o nosso escritor magistral consiga me perdoar por estragar a sua belíssima “prosa” original.

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