Jornalismo é um fruto lindo da imprensa de Guttenberg. Talvez seu fruto mais prático. Desde que a prensa de tipos móveis foi criada até o dia de hoje, o jornalismo foi ganhando contornos cada vez mais honoráveis. Durante a maior parte de sua existência – e em boa parte até hoje – a imprensa foi autorregulada. E durante a maior parte de sua história, a imprensa fez um trabalho razoável em criar o Modus Operandi que levaria as pessoas a comprarem notícia e lerem-nas pelo valor de face.
Como disse Walter Lipmann:
“Dê-me os fatos e eu farei a interpretação”
(atribuída ao jornalista e editor americano Walter Lippmann (1889–1974)
Para que a interpretação seja adequada, os fatos tem que ser descritos fielmente. Durante anos assistimos o Repórter Esso (quem tem a minha idade, 61, se lembra muito bem). Heron Domingues e Contijo Teodoro falavam a cada edição – “Repórter Esso, testemunha ocular da história”, e nós nem piscávamos. Era verdade. Traziam a notícia, e praticamente só ela. Não faziam inferência, não adicionavam opinião de “experts”, nada. No máximo traziam um ou outro professor ou diplomata para explicar e contextualizar, para o cidadão comum não ficar muito perdido em temas mais complicados ou distantes da realidade brasileira.
O advento das mídias sociais diluiu e criou dificuldades para que saibamos o que é “notícia” mesmo. Põe-se, facilmente, a culpa nas próprias mídias sociais. Esquecem-se de que perdemos, fundamentalmente, a confiança na imprensa que os americanos chamam “legacy” ou “mainstream media”. Assim como a vizinha contava algo (fofoca, normalmente) e corríamos para o dicionário ou para a TV para confirmar, teríamos, em tese, na mídia mainstream, o local ideal para confirmar fatos. Não mais.
Guerras e Imprensa
Revendo as guerras, e o quanto os exércitos tiveram que manter a grande imprensa distante dos conflitos a fim de preservar suas ações e o segredo de operações, quase posso afirmar que não houve UMA única guerra que a grande imprensa tenha declarado como justa. Uma vez, de brincadeira, falei com um casal de americanos amigos meus que os EUA havia “perdido” a guerra do Vietnam. Indignados e vermelhos no rosto, mudaram a atitude comigo (claro que com razão), dizendo que eu não sabia que a guerra havia sido perdida “dentro de casa”, por conta da esquerda local (na época nem se dizia que havia esquerda nos EUA) como principalmente, por ação da mídia mainstream.
Sim, eles afirmaram que a imprensa tradicional e o cinemão americano são talvez os principais culpados pelo “empate técnico” na Guerra do Vietnam, guerra esta em que os americanos perderam talvez 60 mil combatentes, contra mais de 1 milhão de vietcongues e civis.
Filmes contra a guerra eram comuns. O governo perdeu o comando da narrativa sobre a guerra. Diferentemente das duas Guerras Mundiais, quando a imprensa se alinhou, ou foi forçada a se alinhar, com os aliados, e mantida à distância, a Guerra da Coréia já foi uma em que havia menos controle da narrativa, e a do Vietnam foi um fracasso de comunicação.
Jornalismo Profissional
Recentemente assistimos no Brasil um embate entre os jornalistas tradicionais e os formados em jornalismo. Tendo um irmão jornalista, vejo o encanto dele com sua profissão, e posterior desencanto, mas mais do que isso, o orgulho de ter-se graduado numa profissão tão importante. Concordo com esse orgulho, embora não ache que Jornalismo devesse ser uma profissão regulamentada, como o são a medicina, a engenharia e a contabilidade, por exemplo.
Profissionais do jornalismo não têm, necessariamente, mais qualificações técnicas, estilo refinado ou isenção para fazer seu trabalho de forma melhor que jornalistas “rábulas”, formado no calor das redações, e expostos ao sabor das diferentes opiniões. Jornalismo, na minha opinião, é antes de tudo, uma espécie de “curadoria”. O “curador” é justamente o cara que pega algo que um leigo não consegue enxergar à primeira vista, examina, testa, e retorna com uma opinião que poderia ser considerada abalizada sobre o fato.
Para o cidadão comum, um vinho ser bom ou não, um livro ser bom ou não, pode ser menos claro do que quando passado pelas mãos de bons curadores. Uma pintura horrorosa pode ser considerada genial por um curador não imparcial, apenas para ser vendida por zilhões na galeria Sotheby`s da esquina.
Imparcialidade
O fato é que é difícil ver uma guerra e não ter a tentação de tomar partido; de ver a política e não tomar partido; em ver o drama da existência humana, dia a dia, e não tomar partido. Ser imparcial é difícil, de fato. Antigamente, a parcialidade era reservada aos Editoriais dos grandes veículos de comunicação, Não mais. Hoje, as redações estão recheadas de parciais disfarçados de curadores. A busca é pelo dinheiro, única e exclusivamente. E o mais triste é que quanto mais a mídia tradicional corre atrás dele, para não morrer, mais perto chega do precipício da desconfiança pública. O clickbait está acima da verdade, e isso fica cada vez mais claro. Frases em rede nacional como “O senhor não deve nada à justiça”, ditas por um âncora de TV famoso, diante da maior fraude já cometida no Brasil, e talvez no mundo, acabam ecoando por muito mais tempo do que os veículos líderes de audiência gostariam.
Em vez de se reinventarem, se livrarem da dependência de um governo ou de um grupo pequeno de anunciantes, enfiam bovinamente o pescoço debaixo da pesada cangalha, e passam a mugir o que os “donos” desejam. Em vez de buscar credibilidade, e com isso realimentar sua audiência, rever seus métodos administrativos e buscar soluções alternativas que preservem – e não destruam – os preceitos do bom jornalismo, se lançam em aventuras políticas com tipos cada vez mais cabulosos. Ninguém, nem de esquerda nem de direita, crê mais. É fácil ver ambos os lados do espectro político brandir “Isso, a Globo não mostra”. Longe de ser um indicador de isenção e competência, implica em uma marca de desconfiança. O correto seria que nenhum dos lados tivesse razão ou espaço para questionar a ética de um veículo desses. Mas têm, e com razão.
Guerras
Como eu disse, e que era pra ser o objeto desse escrito, a imprensa odeia a guerra – todos odiamos. Mas odeia pelas razões erradas: odeiam por princípio, sem sequer tentar identificar que há guerras justas e guerras injustas.
Há um adágio que se tornou comum no primeiro mundo e que reflete bem o nível de comprometimento que a curadoria (Sic!) do jornalismo moderno representa: “No Jews, No News” (não tem judeu no meio, não tem notícia, em tradução livre). É o seguinte – se o exército israelense atacar uma base do Hamas escondida dentro de uma escola, certamente vai matar civis. Mas não há como desalojar terrorista sem fazer isso. Ninguém, obviamente, gosta disso, mas é um fato da guerra. Ah, se um grupo de galalaus de 16, 17 anos, ataca uma patrulha israelense com granadas e AK47s, são “pobres jovens oprimidos” para a imprensa, sem qualquer análise do fato. Não. Não são pobres oprimidos. São adultos, com capacidade de matar, avisados de que seriam reprimidos pelo poder oficial se pegassem em armas. Portanto, são combatentes.
Ah, o Hamas invade Israel e mata 1,2 mil pessoas – TODAS civis, TODAS desarmardas? Isso é justificável. Afinal, Israel ocupa áreas “Palestinas”. Ora coloquemos as coisas em perspectivas e ofereçamos ao público os fatos. E deixemos o público julgar. Não neguemos os fatos crus ao público, a fim de sustentar uma narrativa.
Minha pergunta é se algum veículo de comunicação dos grandes passaria impune de uma investigação sobre suas fontes de fundos e influência. Duvido.
A Guerra gera manchetes, e disso a imprensa sempre se aproveitou. Contudo, sempre se alinhou com os “bonzinhos profissionais” (comunistas e progressistas de forma geral) sem pensar nas consequencias do que diz, e se isso é ou não jornalismo, se é fato. A guerra é má, é claro. Mas há guerras que precisam ser lutadas.
O último caso é esta miserável guerra nova no Irã. É tão absurdo o contexto que dá raiva de ter que recordar: um governo que matou até agora mais de 40 mil de seus cidadãos; um governo que declara abertamente a morte – ou o direito de eliminar – um estado vizinho, reconhecido como tal pela imensa maioria das nações e membro da ONU; um governo que declara que vai matar e atingir os EUA.
Pior de tudo – uma teocracia que está certa de que trará o fim do mundo, para surgimento de sua própria versão do Messias. E para isso se prepara para ter uma bomba atômica. COMO nesse mundo de meu Deus, não atacar esse país com todas as forças, de forma concertada, e tirar de lá esse governo do mal, e colocar qualquer outro governo, que preste conta a seus cidadãos? É uma guerra justa, se é que alguma já houve.
É cansativo, mas necessário declamar em alto e bom som que o jornalismo é importante, é vital para uma sociedade livre, plural e auto governada. É triste, porém, ter que reconhecer que estamos diante de um bando de perdedores de microfone na mão, com mais voz do que cérebro, ovelhas de regimes ditatoriais e de grandes fortunas com objetivos escusos.
