
Vou escrever, não por falta de quem já esteja escrevendo um monte sobre essa febre, mas para deixar explicado a futuras gerações, quiçá mais sábias, sobre o fato em si. Coisa mais de historiador do que de cronista.
A Gazeta do Povo, talvez um dos últimos redutos de jornalismo razoavelmente independente do Brasil, explica o fenômeno para que eu não tenha que explicar: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/bebes-reborn-bonecos-hiper-realistas/?utm_source=salesforce&utm_medium=emkt&utm_campaign=newsletter-bom-dia&utm_content=bom-dia
Brincando de Boneca
No meu tempo de moleque, quando menina brincava de boneca, nós, os “piás” tínhamos por claro que estávamos falando de uma espécie de treinamento para a vida adulta. Afinal, não se imaginava que uma menina pudesse não querer filhos. Não era a “norma”, e nem era imposto como os movimentos feministas atuais querem fazer crer. Era um fato da vida. Nós brincávamos com nossos carrinhos, cavalinhos e soldadinhos, e as meninas com suas bonecas, roupinhas e carrinhos de bebê. E adorávamos. Claro que havia exceções de ambos os lados, e isso era tratado como exceção mesmo.
Meu filho Eric (Keko), por exemplo, tinha um “filho”, lá pela idade de 4 ou 5 anos. Era um urso feioso, de pelúcia branca, que chamava orgulhosamente de filho. O bicho era arrastado para todo lado por ele, pelos cachorros e era uma sujeira só. Mas ele adorava! Não… não era um caso de disforia de gênero. Era “filho mesmo”. Hoje, aos 27 anos, casado e feliz, tem o seu filho de verdade, o meu primeiro neto, o Vicente, e isso faz com que a gente pense que nem todo o moleque que vez por outra gosta de brincar de “filho” seja tendente a outro gênero (idem do outro lado), mas somente alguém que, como o meu Keko, tinha e sempre teve, desejo de ser pai.
Brincando de Gente
O fenômeno atual poderia ser apenas mais um entre muitos casos de excêntricos sem filhos e que compram um boneco super realista e ficam lá, ninando e falando “tatibitati” e coisinhas “cutie” do gênero. Já seria meio ridículo, mas vá lá, dá pra entender a criancice, pois que o movimento dito Woke faz isso mesmo com a pessoa – infantiliza e limita.
Mas não parou aí… Gente grande, profissionais, que vivem por conta própria em suas casas, são reportadas indo a unidades de saúde das prefeituras pedindo “consultas” para seus bebês Reborn, e alegando o “direito” deles à atenção médica.
Eu, se médico, daria um remédio sim – pra “mamãe” ou “papai” do boneco, e diria que os efeitos iam passar por osmose, sei lá, pelo aleitamento… Se creem que o bebê Reborn é passível de doenças, devem acreditar nessa também. A ideia é da Aline, minha esposa, e fica registrado o fato para ela não achar que me apropriei da brincadeira.
Dá para acreditar no nível de carência e necessidade de cuidar do outro que essa gente traz consigo, e que as submete a este ridículo inacreditável? Por que não um bebê de carne e osso, que chora de verdade e, de verdade, tem suas enfermidades e dores? De minha parte a questão pode estar associada ao cultivo de “likes” em redes sociais, ou seja, de um desejo meio mórbido de chamar atenção. Mas não descarto nem por um minuto, a possibilidade de que muitos desses realmente creiam que tem nas mãos um ser vivo.
Reborn
“Ter um filho com alguém hoje é uma das coisas mais difíceis, ninguém se suporta. Filho é projeto a longa duração, é para sempre. A produção independente com um reborn é mais segura. Esse bebê não cresce, não tem pai, não vai ficar doente. É só desligar. Essa mulher permanece como uma menina de cinco anos. Ninguém quer amadurecer”,
Luiz Felipe Pondé, Filósofo – In https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/bebes-reborn-bonecos-hiper-realistas/?utm_source=salesforce&utm_medium=emkt&utm_campaign=newsletter-bom-dia&utm_content=bom-dia
Nem sabia que o bicho ligava e desligava, mas se o Pondé falou, tá falado… O nome “Renascido” ou “Renato” atribuído ao boneco (Reborn) dá um medinho por si só.
O treco poderia se tornar um desses collectibles, como álbuns de figurinhas, selos, moedas ou bonecos cabeçudos de profissões, como se vê bastante por aí.
Alguns argumentam que é um elemento terapeutico dentro da vida de quem perdeu um filho ou ente querido. Duvido que nossos pais, e os pais dos nossos pais, admitiriam tratar suas dores e seu luto com esse grau de ludicidade, digamos. Adulto trata a dor como adulto. Estoicamente, aceitando o que não se pode mudar e tentando mudar o que se pode. Fora disso a atitude não lida, de fato, com a dor, mas apenas mascara, infantiliza e acaba por piorar tudo.
Piada com a Piada
Tem sempre um gaiato nesse país que faz piada com a atitude de piada do alheio. Usar o humor em situações difíceis é saudável e certamente melhor do que refugiar-se num boneco:

Eu concordo com o gaiato acima… hehe… gente doida!
