
Não sou jornalista, não sou articulista. Talvez, cronista. Quando escrevo algo é para mim mesmo, para uns poucos que me leem, e, principalmente, para que a minha posteridade saiba no que eu cria, o que eu pensava, principalmente quando em relação a determinado momento da história que vivi, pessoalmente.
Hoje, entre Julho e Agosto de 2025, vivo num país em que as leis estão sob ataque de quem deveria protegê-las. Hoje, meu país vive sob ameaça de um verdadeiro embargo econômico à lá Cuba ou Venezuela.
Parte da elite dirigente parece imóvel e meio blasé, até, com relação aos efeitos disso. O nosso presidente declarou que “a guerra comercial começará quando ele responder aos EUA com reciprocidade de tarifas”. Para o leitor do futuro, incluído eu mesmo nesse rol, são 50% de tarifas propostos pelos EUA, como se o proverbial gorila de 500 Kg pudesse, de fato, ser batido pela formiga. Esse engano já nos está custando caro. Deixarei esse texto aqui, sem mexê-lo, ainda que tudo transcorra muito bem pro país, como testemunho do meu estado de ânimo.
Vida Bandida
Somos, talvez, o único país do mundo em que o que há de pior (culturalmente, educacionalmente, eticamente) se encontra no poder. Somos o único país do mundo cuja liderança se orgulha de não ler, de não saber, de não ter formação. É o único país do mundo que acha engraçadinho as palhaçadas das “moças da vez” alçadas a um cenário internacional onde um certo verniz era, e é, indispensável à convivência, e cuja crueza de atitudes e palavras parece não gerar nenhuma repulsa interna.
É a vida bandida dos trópicos. É o velho oeste em casa, trazendo a nós tudo o que o velho oeste americano trazia a eles, e que teve que ser erradicado a duras penas, muitas vezes na bala: desordem, falta de leis, desestruturação de caráter, enaltecimento do mais forte em detrimento do mais sábio, propriedade privada em xeque, vidas valendo nada, ou quase nada, vício mais importante do que a virtude, Deus em segundo plano.
Blocos
Este mês fui, como vou todos os anos, à minha querida Cordeiro, no Rio de Janeiro, e aproveito pra rever amigos e parentes. Gente boa, simples, educada e amada. É sempre uma alegria revê-los, mas cada dia piso mais em ovos. Do nada, uma opinião escala com uma rapidez impressionante para palavras ásperas e defesa ferrenha de um ponto de vista.
Uma menção a determinado político gera reações apaixonadas, e na maior parte das vezes (de ambos os lados) destituída de muita razão ou reflexão maior. Claro que sendo conservador, exponho minhas conclusões e posições da maneira mais clara possível, mas está cada dia mais difícil discutir com polidez e educação.
Lendo o Estadão, que costumava ser considerado um jornal “conservador”, vejo um indisfarçável viés anti-bolsonarista. Isso não me incomoda. É um direito de qualquer veículo de comunicação assumir sua posição política desde que separe jornalismo de opinião de forma clara. Essa fronteira está cada dia mais difícil de definir, ao ler (qualquer) jornal. O Estadão, a Folha, o Globo, entre os veículos mais formadores de opinião (se ainda o são) tendem a rechaçar o clã Bolsonaro de forma total e absoluta. Lembram que o sujeito “desrespeitou a ordem do STF de não postar nada em mídia social” como se isso fosse, no seu nascedouro, uma ordem válida, em um país democrático.
De outro lado, outros defendem o clã Bolsonaro com unhas e dentes, sem levar em conta que, sim, eles têm alto grau de participação nas tais sanções. Eu, de minha parte, entendo que é um remédio amargo, mas talvez necessário, para evitar uma venezuelização total. Tenho pavor da distinta possibilidade que vejo agora, de que venhamos a nos tornar presa de um Cartel de los Soles tupiniquim. Mas quando vejo o arrojo de alguns ministros do STF, de um lado, e o acadelamento de outro grupo, não consigo deixar de enxergar que por detrás deste medo absurdo se se pronunciar exista um poder de pressão que passe pela chantagem e ameaça.
Sem Noção
O governo não tem noção. O presidente oferece jabuticaba, chama pra jogar truco, diz que vai chamar para a conferência do clima (COP-30) entre outros mimos. De outro lado, defende abertamente os inimigos declarados do ocidente. Chovo no molhado, claro, mas como é uma crônica-memória, quero, eu mesmo, me lembrar de como pensei e me senti neste momento crucial da nossa história.
Executivo sem noção, congresso amarrado por dois líderes atados pelo rabo, judiciário achando que tem que ser ente politicamente ativo, ou seja, tudo revirado de cabeça para baixo. Ou nos próximos dias veremos uma tomada de posição clara do Congresso, único agente capaz de retornar o país a um simulacro de normalidade, ou estaremos perdido por mais uma geração.
P.S. Entre o início e o fim desta pequena reflexão, faleceu J.R. Guzzo, um cara notável, pensador e escritor corajoso, e que, ao longo de sua carreira, nunca cedeu à militância de redação. Foi duro, foi leal, e, ao que transparece, intelectualmente honesto até o fim. Li seus artigos ao longo da minha vida e sei que o país perdeu um dos seus grandes – Academia de Letras para ele? Nunca nem se pensou. Dão-na a gente como Fernanda Montenegro, Gilberto Gil e outros “luminares” da palavra. Negam-na a gente grande das letras. País estranho esse…
