Homogeneidade


Sei que vou pedir ao leitor eventual para levar em consideração meu pedido de que interprete meu texto não sob a ótica de alguma ideologia, mas provavelmente será inútil… Esprit des Temps, dirá alguém. Pode ser, mas deixo claro que o que escrevo o faço de boa fé, buscando expressar algo que realmente penso e consigo interpretar, à luz da história, e dos acontecimentos mais recentes, como verdade.

Povo

O conceito de povo é dado pelo dicionário como sendo, em termos simples:

Conjunto de pessoas, geralmente do mesmo grupo étnico, que habitam o mesmo território, falam a mesma língua, têm os mesmos costumes e são unidas por sua história, cultura e aspirações comuns. (Dicionário Michaelis online, citado pelo ChatGPT)

Desse conceito, os dicionários derivam outros menos precisos, eu diria, como “nação ou país”. O conceito acima, com o qual eu concordo, nos remete a um conceito de homogeneidade. Mesmo isso, mesmo aquilo, mesma cultura, etc. Sempre foi esse o conceito. Ninguém o inventou. Ao longo de milênios a gente olha em volta e simplesmente compreende que foi assim que as coisas aconteceram. Os grupos se formaram por uma ou outra razão, criaram identidades, culturas, línguas e aspirações (este termo é importante e voltarei a ele) e por eles viveram.

A mobilidade era pouca, as interações frequentes e fortes. Problemas eram resolvidos internamente, na marra ou na paz, mas sempre preservando o grupo, até por sobrevivência. Separar-se era custoso e perigoso; melhor sentar a discutir termos.

Nação

O povo formava algo mais homogêneo. O povo foi se tornando o país. O país se torna o estado-nação moderno, com fronteiras, governo central e regras, constituições e

A Nação já não é, necessariamente, algo tão homogêneo. Há, ou podem haver povos dentro de uma mesma Nação. As nações se expandem, absorvem outras, se tornam menos homogêneas. Com isso, menos propensas a resolução de conflitos, as nações são mais ebulientes, digamos assim – pode parecer uma afirmação exagerada ou infundada, e posso conviver com essa crítica, apenas penso que sim, há mais saídas numa nação do que dentro de um mesmo povo, para solução de conflitos, que não passem pela discussão e assentamento da questão.

A Nação é mais multicolorida, por um lado, mais inquieta, por outro.

O Estado Moderno

Desde o Condado Portucalense, teoricamente o primeiro estado nacional com características modernas (vejam só!) até o advento (ou experimento) dos Estados Unidos da América, o estado-nação tornou-se algo diferente e maior. Um espaço geopolítico que tende a albergar não apenas povos ou etnias dali mesmo, mas recepcionar e acolher etnias de outros locais, na tentativa de viver em relativa paz, debaixo de leis comuns.

Países como Brasil, imensos, têm dentro de si desde povos com homogeneidade étnica, como Ianomâmis, Quilombolas, que são nativos, ou quase, até grupos transplantados, como russos, italianos, japoneses, alemães, entre outros. Países viveram e conviveram com as diferenças dos outros por diversos anos, o que resultou, depois de 2 ou 3 gerações, em um entendimento e aproximação maior; arestas vão sendo aparadas com o tempo, e um maior grau de homogeneidade – ou pelo menos tolerância – é alcançado.

Estados nação como os EUA absorveram e acolheram tantos ou mais grupos do que o Brasil; o Brasil parece ter feito um trabalho melhor no “assentamento” desses grupos. Pela invasividade natural do brasileiro nativo (negro, índio, português), este tende a deixar quem chega menos em paz. Interage mais, faz mais perguntas, namora mais, se expõe mais. O resultado é que raramente no Brasil italianos ainda falam o idioma ancestral depois de 2 ou 3 gerações, ao passo que os Amish da Pensilvânia continuam a falar seu Plötisch Deutsch em casa. Foram deixados mais “em paz” pelos vizinhos, ou escolheram não se misturar.

Mesmo os herméticos menonitas no Brasil, e suas colônias com cara de Alemanha, tendem a se misturar mais e perder algo de suas características formadoras. Por definição, tornam-se mais homogêneos do que antes, com o passar dos anos.

Desejos de Homogeneidade

Os fascismos do início do Século XX fundaram-se em um estado total, soberano, cujo objetivo era dar condições de desenvolvimento de suas “raças superiores”. Mas não só eles. Diversos outros grupos fizeram, e ainda fazem, uso de certas supostas prerrogativas de grupo para “defender” seu Lebensraum1.

A despeito de toda a tragédia que esse conceito gerou, é inegável que grupos mais homogêneos tendem a conviver melhor do que outros menos iguais. Não estou aqui a defender a superioridade de um grupo sobre outro, e tampouco se pode dizer que apenas os alemães se sentiam superiores aos demais2.

Governos tentam, seja por meio da educação, da disseminação da cultura, das leis e dos símbolos nacionais (bandeira, hino, seleções esportivas, entre outros) criar o máximo de homogeneidade possível. Não sei se intencionalmente ou não, mas certa dose de nacionalismo confere ao cidadão de um país a identidade suficiente para se sentir mais à vontade perto de um concidadão do que de um estrangeiro – percebidamente ou não.

Movimentos Migratórios e Explosão Social

Gostemos ou não, estamos diante de movimentos migratórios como nunca antes na história da humanidade. Povos quase inteiros estão sendo transplantados de países de terceiro mundo e jogados dentro de civilizações antigas e estabelecidas.

Recentemente os ingleses têm expressado sua frustração com o fato de que seu governo acomoda imigrantes (legais e ilegais) aos borbotões, em hotéis 4 estrelas nas vizinhanças de grupos sociais estabelecidos há séculos, homogêneos e relativamente fechados. Saem às ruas e se plantam em frente a esses hotéis, enrolados na bandeira de seu país (As famosas bandeiras de São Jorge e a Union Jack), a fim de deixar claro seu desagrado com a situação. Sentem-se invadidos e roubados em seus empregos. Sentem que seu governo gasta seu suado tributo com quem não contribuiu nem possivelmente vá contribuir com a nação.

De outro lado, outro grupo de cidadãos ingleses, esses mais “sofisticados” e “citadinos” brigam e zombam dos grupos embandeirados, chamando-os de “jecas” ou de pequena mentalidade, deseducados, entre outros epítetos. Creem que é dever do estado recepcionar e dar apoio ao processo, que uns entendem como uma invasão.

Não sou inglês, não vou afirmar razão a um ou outro lado. Apenas posso entender que um processo forçado e rápido de recepção de tanta gente heterogênea vai causar uma instabilidade social que poderá levar a violência e sangue.

É natural que aconteça. Não há liga, homogeineidade entre os grupos, que segure juntas as partes sem grande fricção. A Inglaterra tem sido vítima de um processo forçado de aceitação de leis estranhas às suas (a Sharia, sendo o exemplo mais claro) imposta por migrantes que, por força de números, acabam donas do pedaço.

1a. Guerra Civil Mundial

Um colunista da Gazeta do Povo cunhou recentemente um termo que me deixou pensativo, quando formulou o pensamento de que, em vez de “3a. Guerra Mundial”, ele acreditava que teríamos a “1a. Guerra Civil Mundial”. Seria, posso dizer, de a Guerra da Heterogeneidade. A Guerra da Diferença.

Uma guerra sem tanques ou divisões blindadas, mas de paus e pedras, como previu Albert Einstein para a 4a. guerra? Pode ser. O que não acredito é que demorará muito para a sociedade se dilacerar, em sua heterogeneidade, a ponto de tornar a convivência impossível.

Anteontem ainda, Charlie Kirk foi morto por um rapaz de 22 anos, de Utah, quando tão somente discutia abertamente com quem quisesse, dizendo a frase “Prove que estou errado”.

Tachado de extremista, polemista entre outros apelidos, pela mídia “main stream”, Charlie tão somente discutia e argumentava. Não levantava a voz, não agredia ninguém, não chamava ninguém pra briga. Só discutia e expunha sua visão de mundo.

Do outro lado, estudantes universitários, supostamente parte da elite intelectual do mundo moderno, também expondo livremente seus pensamentos.

O teor da discordância deriva das cacetadas que os estudantes e professores normalmente levavam de Charlie, em seus argumentos simples, mas cheios de razão. Em conversa com Dennis Prager, da Prager University, este disse “ora, ficam zangados porque não têm argumentos para nos refutar? Ficam zangados por não terem razão?”.

E dá-lhe pancadaria em cima de Charlie. Pancadaria que acaba por provocar sua morte. Pior que isso, gargalhadas de centenas ou milhares de pessoas, sobre o defunto.

Por essa e por outras é que não tenho como discordar com o articulista da Gazeta, que brilhantemente formulou o conceito de Guerra Civil Mundial. Para isso parecemos rumar. Não há gente, parece, capaz de parar e discutir sem odiar ou querer agredir o outro.

A “boa bala, boa cova, bom paredão” do já famoso ex-professor da UFRJ parece ser, a cada dia, a solução dada para a falta de argumentos.

Uma guerra não declarada, que pipoca a cada dia, em centenas de lugares do mundo, das ruas da Inglaterra às do Tibet, por causa de migração ou liberdade de consumir conteúdo de internet, por qualquer razão.

É a Razão, com R maiúsculo, que acaba por sofrer. A guerra é crescente, não será declarada e dela só sairemos todos mortos, ou até a volta de Jesus Cristo – na qual acredito e pela qual espero.

  1. Lebensraum, ou literalmente “Espaço Vital” foi um conceito de inspiração nazista que propunha a conquista de novos territórios para expansão da “mãe pátria” alemã. ↩︎
  2. Que o digam os Vikings, os japoneses (“Raça Yamato”), os colonos Belgas, Holandeses e outros grupos, além do óbvio senso de superioridade que os Bôeres da África do Sul sentiam, e que o Apartheid ilustra tão tristemente bem. ↩︎

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