Não sei se é por estar ficando mais velho, ou por estar me exercitando um pouco menos, por uma combinação de ambos ou ainda por tomar mais vinho do que deveria. O fato é que a realidade está começando a parecer me escapar.
Em que sentido? Não sei bem. Parece como uma película leitosa que cobre tudo o que eu leio, e tapa meus ouvidos, só um tantinho, ao que eu ouço. Tudo está mais de longe, menos real, mais denso, mais estranho.
Coisas que antes pareciam vívidas e brilhantes parece que agora tem mais dificuldades em me atingir o cerne do pensamento. Eu vejo meu neto, Vicente, o Vivico, vejo sua vivacidade, sua energia espoleta, o quanto ele cresce e aprende a cada dia, e me pergunto às vezes “quem é esse guri?” Não que eu não saiba, obviamente, mas é como se entre ele e eu, e entre eu e minha amada esposa, ou entre meus filhos queridos, ou entre eu e minha mãe querida, meus irmãos amados, houvesse essa dita película que torna tudo meio translúcido.
Os nomes escapam. Ontem na Igreja, ao ver o Alfredo, meu amigo e colega da célula, de volta ao banco de hábito, seu nome simplesmente fugiu. Fugiu pra onde? Para onde foi o nome tantas vezes repetido? Até o nome do meu filho, Eric, o famoso “Keko” outro dia simplesmente fugiu da mente, retornando 30 segundos depois. Fiquei preocupado, e continuo preocupado.
Vejo noticiários, vejo a política acontecer. Me indigno, como quase qualquer brasileiro de bom senso, mas já não consigo ter a “ira santa” que costumava tomar conta de mim. Não dá mais. É como se eu estivesse nadando numa piscina de melado. Tudo acontece meio que em câmera lenta. Eu trabalho em câmera lenta, falo com menos eloquência, mais devagar, parece. Sou menos contundente. As coisas teimam em parecer andar mais devagar, quadro a quadro em slow motion; quando na verdade sinto o tempo passar muito mais rápido do que jamais passou.
Como diria o saudoso tio Elir Werneck:
“A inflação no Brasil foi tão alta que afetou até o tempo; uma hora hoje parece que não vale nem 30 minutos”
(Elir Werneck, o filósofo do Arraial do Sapo)
Pois não é que parece verdade? O ano de 2025 já acabou, e nem começou, na minha cabeça. Tudo o que fiz durante esse ano parece não ter sido quase nada, comparativamente ao que acontecia, e que eu conseguia fazer, há 10 anos.
A realidade passa por mim e eu a percebo de forma cada vez mais indistinta. Até a sagrada leitura da Bíblia, hábito e prazer, tem estado sufocada pela necessidade de seguir o plano de leitura, e me manter lendo os 66 livros do Livro a cada ano. Leio, releio, e todos anos sinto que o texto sagrado me transmite mais, mas retenho menos.
Aliás, a leitura em geral está desse jeito. Eu lia entre 80 e 100 livros por ano (parece muito, e é) até 2022. De lá pra cá tomei a decisão de ler menos, mais devagar, livros maiores e talvez mais densos. Tive bons resultados no início, mas na medida em que o tempo foi passando, percebi que até os excelentes romances de ficção histórica que eu adoro passaram a me dar menos alegria e prazer. Logo eu, que me prometi passar a velhice lendo, e que não me deixaria parar de aprender algo a cada dia. Estou tomado de um pavor enorme de perder o contentamento, sobre o qual meditou Salomão:
“Lembra-te do teu Criador nos dias de tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos nos quais venhas a dizer: “não tenho neles contentamento”
(Eclesiastes, 12:1)
Cheguei a pensar que tudo isso era fruto de comodismo, e que um determinado nível de bem estar não é de todo bem vindo; que seria melhor viver com um nível “saudável” de ansiedade pela vida. Pois bem, continuo ansioso por quase tudo, sem ter o mesmo motivador para ir adiante e tirar o melhor proveito possível de cada situação. Ansiedade que antes resultava em “fight mode” hoje representa só ansiedade mesmo, sem distinção alguma de qualquer outro sentimento.
Isso é envelhecer? Não sei mas não estou disposto a deixar isso tomar conta de mim. O que fazer? Mais exercício físico? Meu filho, Thomas diz que o pai acha que tudo se resolver com exercício físico – de dor de cabeça a câncer no pâncreas… Não é bem assim, mas estou seguro de que um corpo cansado tem menos tempo de se sentir doente.
Eu tinha rompantes de fala agressiva e respostas duras. Isso irritava Aline e deixava as pessoas a meu lado chateadas. Não tenho mais a fala agressiva no tom. Só no conteúdo – o que é igual de ruim. Hoje já não se sabe mais se estou brincando, sendo sarcástico ou se estou bravo mesmo. Uma tragédia que nem minha companheira de quase 4 décadas deslinda, às vezes. E com justa razão, fica irritada.
Como eu disse ao Thomas em uma ocasião, talvez a pior postura do ser humano diante da vida seja a ironia e o sarcasmo. E me tornei assim. Dizem que a ironia é o subproduto de um espírito fino e de um humor afiado. Duvide-o-dó. Acho que é só mesmo uma certa expressão de agonia diante da vida e das coisas que se pretende diferentes e não se consegue mudar. Pior ainda: quando sequer se quer mudar algo, mas apenas não se tem sequer a vontade de fazê-lo.
Como uma forma de mudar esse status quo, como forma de enxergar o mundo com outros olhos, eu me pus a mexer com as mãos na marcenaria. Fiz uma reforma em um móvel antiquíssimo que Aline comprou. Fiquei com os braços doídos de mexer no troço. Festá ficando muito bom, na minha não abalizada opinião (ainda inacabado – julguem pela foto):

A questão é se estou ou não disposto a ver se dá pra retirar a tal película leitosa da frente da cara e ganhar, uma vez mais, gosto pela vida cotidiana. Não me entendam mal: não se trata de perder gosto PELA vida. Isso não. Sou extremamente grato ao Senhor pela vida que tenho, os amigos que fiz e mantive, e pelo que consegui alcançar. Apenas que gostaria de retirar esse embotamento da minha frente.
Quero, no fundo, rir da barriga doer (pois terei motivos para tal); quero pensar mais devagar, e agir com mais intencionalidade; quero viver agora, e deixar que Deus continue tomando conta do futuro. Quero, enfim, sentar no banco da Igreja, ouvir Deus falar comigo através do pastor ou pregador, e me deliciar com Sua Palavra. Deliciar – não entender; deliciar – não suportar. Deliciar e beber o que Deus tem para falar.
2025 chega ao fim como um ano que começou maravilhoso pela chegada do amado e esperado primeiro neto, o Vicente, e termina como um borrão rápido, com mais problemas do que gostaria, com menos realizações do que planejei.
De qualquer forma, que termine com a meditação sábia do Salmista:
“Ensina-nos a contar os nossos dias de maneira tal que alcancemos corações sábios”
(Salmo 90:12)
Que venha um 2026 brilhante, com suas alegrias e mazelas, mas que venha com a correspondente disposição de enfrentá-lo e vivê-lo por inteiro.
