É burrice mesmo

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Tem um site que gosto muito, que se chama Quillette (www.quillette.com). é um site de matérias compridas e profundas sobre temas equilibrados, nas quais sempre há espaço para divergência, seja por parte de alguém mais identificado como “libertário” ou como “conservador”. Muito bom, vale verificar. Neste site li uma matéria ontem que me chamou atenção sobre o nível de alienação do ser humano com relação ao rigor intelectual que deve reger a vida de qualquer um de nós, sob pena de escravidão (à opinião do outro, às finanças do outro, ou simplesmente ao outro, como propriedade).

O Caso do Algoritmo Intolerante

O artigo (acesse em https://quillette.com/2021/01/27/beating-back-cancel-culture-a-case-study-from-the-field-of-artificial-intelligence/) traz um exemplo desconcertante de burrice acadêmica explícita, do nível daqueles que acham que sexo é um construto social e não uma realidade biológica inescapável: em síntese, um sofisticado sistema de IA – Inteligência Artificial foi aplicado em scanners corporais (tomografias computadorizadas, etc) para identificar doenças, mesmo antes de haver qualquer traço delas no corpo do paciente.

Pois bem, apresentado num congresso da NeurIPS (Conferência da Neural Information Processing Systems, ou Sistemas de Processamento de Informações Neurais), o algoritmo usado identificava, além das potenciais doenças e condições genéticas, a RAÇA e cor da pele do cidadão/ã com um percentual de acerto altíssimo. Bastou pro mundo cair na cabeça do Dr. Pedro Domingos, professor da California Institute of Technology.

“Citando evidências, por exemplo, de que “sistemas de reconhecimento facial tem muito mais erros para mulheres de pele escura, enquanto tem muito menos erros para homens de pele clara“, a cientista de dados Timnit Gebru, ex co-líder da Equipe de Ética do Google, arguiu que os sistemas de IA estão contaminados pelo preconceito da maioria de programadores, homens brancos que os os criam [algoritmos]. Num “paper” assinado com colegas do Google e minha universidade [CIT, diz o Dr. Domingo] ela avisou que grande parte dos sistemas de IA baseados na linguagem, particularmente encorajam uma “visão de mundo hegemônica” que serve para perpetuar o discurso de ódio e a intolerância”.

Dr. Pedro Domingos, PhD

Não é piada. Tem gente achando normal dizer de público que um algoritmo que faz parte de um sistema de Inteligência Artificial que está voltado a detectar doenças está contaminado com a “brancura” dos programadores. Ninguém que leu, na cátedra, achou anormal a fala. Pai do Céu! Trata-se de um algoritmo, por amor dos meus filhos! É uma fórmula matemática que se baseia em dados acumulados para tecer uma conclusão via cruzamento desses dados com as imagens produzidas por um scanner ou equivalente! É CIÊNCIA, até onde se pode ver.

Tanto é ciência com C maiúsculo, que os resultados são amplamente corretos – e olha que a tal Inteligência Artificial ainda está aprendendo com as leituras feitas, e que alteram o próprio padrão e algoritmo.

O Estranho Caso do Tratamento Preconceituoso

Vez por outra dá entrada num hospital em algum lugar do mundo um transsexual, um não-binário, um “sei-lá-como-se-chama-e-me-perdoe-de-antemão-por-não-saber” que acaba por receber um tratamento inadequado e que acaba tendo graves complicações porque o pessoal da emergência não conseguir, no fogo da batalha pela vida, identificar o sexo (biológico) do paciente.

Se sexo é um conceito social, e não biológico, não faz diferença tratar a próstata da Srta. Myrella ou o útero do Sr. Adamastor. Fazer diferente disso é intolerância e discurso de ódio. Dá pra entender? De uma vez por todas, IGNORE detalhes e bobagens como XX-XY e resolva meu problema de saúde!

Tratamentos são preconceituosos em sua natureza, ao que parece. Afinal, para tratar alguém com eficácia há que se tomar decisões de cunho iminentemente “bigot” (pra ficar chique). É necessário passar ao largo da modernidade e ir buscar conhecimento em conceitos ultrapassados, como hormônios “femininos” e “masculinos”, e órgãos que são diferentes e funcionam diferentes em pessoas XX e pessoas XY.

O Estranho Caso da Mudança de Gênero sem Trauma

Aprendi na escola que se dizia “Obrigado” e se escrevia “Obrigado” independentemente de se ser homem ou mulher. É (era) uma daquelas palavras que não comportavam masculino, feminino, ou “neutre”. Mulher falava Obrigado, Homem se dizia “Telefonista”. Ninguém fazia a menor conexão dos termos com o sexo de quem os aplicava. Era o que era, sem frescura.

Ao longo dos anos, as mulheres começaram a usar o termo no feminino – “Obrigada”, o que foi estranho, no início, mas foi se incorporando ao vernáculo do português brasileiro até que hoje faz parte da norma. Não houve briga, não houve passeata para reforçar o “a” do agradecimento diário. Houve só uso, sem forçada de barra.

Mais recentemente toda sociedade está sendo impelida a dizer que “todes somes pessoes boes”, ou o que quer que se queira dizer, em linguagem “neutra”. Usar o masculino ou feminino, ou ambos “todos(as) somos pessoas boas” já não basta. Saber que “pessoas”. “somos” e “boas” não tem qualquer implicação de gênero já não basta. É importante marcar uma posição. Não importa quão ridícula, ou o quanto dificulta o entendimento diário.

Línguas evoluem de acordo com o conforto de quem as usa. É mais confortável? Faz mais sentido prático? Não é ambíguo? Usa-se e ponto. O uso consagra. Não mais… para onde vai a praticidade da língua, ou da Novilíngua, sendo mais Orwelliano, não importa.

É burrice mesmo

Mas no fundo, no fundo, é burrice mesmo. É querer complicar as coisas indevidamente. Pior, é criar uma situação de tal forma ridícula, que os possíveis beneficiados com a intenção de quem age (o guerreiro social) vejam o tiro sair pela culatra.

É burrice tornar as expressões ambíguas. É burrice tornar os diagnósticos e tratamentos mais difíceis. Enfim, é burrice trocar um algoritmo por um sentimento. Uma ponte cai se mal construída, não importa o sentimento do engenheiro calculista quanto à equação que usa, ao botar no papel a largura dos pilares da estrutura. Cai e ponto. E cai a 9,8 m/seg². A gravidade não mudará porque hoje estou “me sentindo leve”. Pule da ponte alegre e você verá, até não ver mais.

Enfim, é burrice não ver evidências claras de que é preciso testar fórmulas antes de usa-las, é preciso usar remédios testados; não é terraplanismo achar que uma droga experimental é isso mesmo – experimental. Independentemente da relação custo X benefício que nos leva a usá-la. Não é negacionismo achar que há que se ter cuidado em vacinar crianças, por conta da mesma relação custo X benefício. É prudência somente. Me vacinei porque julguei que o custo de não me vacinar superava o benefício de não ter a droga no organismo. Da mesma forma, não vacinaria um filho abaixo de 12 anos por conta do mesmo raciocínio feito na mão inversa.

A burrice só é extirpada com consciência de que testar, estudar, conversar e refletir são atos a serem exercitados diariamente, sem parar e sem descanso. E olha que burrice vai e volta. Se deixo de refletir e pensar por alguns dias, fico mais burro, com certeza. Ou burro sobre um assunto diferente (quando aliás tendo a expressar minha opinião sem reservas…).

Num mundo em que a capacidade de reflexão e tomada de decisões do indivíduo estão sendo substituídas por um Estado-Pai que não admite decisões privadas, mas que enfia um modelo padrão a todos, a burrice só tende a aumentar, sem que possamos sequer saber se aqueles que criam o modelo padrão têm o mínimo de bom senso para fazê-lo.

A burrice é mais forte que a morte.

Evolução

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Criação

Sou cristão, radical… Creio na divindade e na ressurreição de Jesus Cristo. Portanto, creio no “sobrenatural” de Deus. Não sou, porém, um desses cristãos que acha que a terra foi feita em 6 dias de 24 horas, e que no 7o. dia Deus descansou – literalmente.

Aliás, acho que a interpretação do termo hebraico “Yom” foi levada longe demais (que pode ser tanto “dia” como “período” como “era”) pelos tradutores da Bíblia da antiguidade, que nos legaram um termo que se não é inadequado, é incompleto. Quanto mais eu leio os primeiros capítulos de Gênesis, mais em me convenço de que estamos tentando fazer com que ele seja algo que o autor, Deus, via Moisés, nunca se propôs: que fosse um texto científico.

Como disse o radialista e filósofo judeu, Dennis Prager, “Se Deus tivesse se proposto a escrever um livro científico, traria talvez milhões de vezes mais informação do que toda a literatura técnica do mundo; precisaríamos de milhões de anos só para entender as equações que teriam que ser escritas para deslindar o mistério“.

Deus só seria justo se nos deixasse um livro que qualquer pessoa senciente pudesse minimamente examinar e encontrar eco na alma. De Albert Einstein a Forest Gump, todos temos que poder examinar a escritura e tê-la explicada de forma que a entendamos.

Imaginem explicar o mundo, e um universo de 14 bilhões de anos em meras meia dúzia de páginas de um livro. Dá pra entender que Deus pôs o mundo em marcha e o moldou com as próprias mãos, em “Yoms” (eras). Isso pra mim está correto, e ao mesmo tempo não importa muito. Deus criou o mundo etapas, que chamou de Yoms, seja lá que duração tenha o tal Yom. O fato inescapável é que Ele criou.

Com cristãos somos fustigados dia e noite pela aparente contradição entre criação e evolução. Por culpa nossa mesmo, judaico-cristãos, lançamos sobre nós a pecha de crermos no que nem mesmo as Escrituras dizem.

Eric Metaxas, em seu livro “Is Atheism Dead?” (“O Ateísmo morreu?” – ainda sem tradução em Português, creio) fala da quase total assertividade da sequência da evolução, e principalmente da chamada “Explosão do Cambriano” (período de poucos milhões de anos em que “surgiram” milhões de espécies no mundo).

Eu próprio dei de cara com essa análise – da impressionante assertividade do relato do Gênesis, quando um professor de Geologia entrou na sala e começou a escrever no quadro os dias da Criação segundo o Gênesis:

  1. No 1° dia, criou a luz e separou a luz das trevas.
  2. No 2° dia separou “águas das águas” e criou os céus.
  3. No 3° dia criou a terra, os mares, as ervas do campo e as árvores frutíferas.
  4. No 4° dia criou as estrelas do céu, e segregou o dia da noite.
  5. No 5° dia criou os grandes peixes do mar, os répteis “de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies” e toda as aves conforme cada espécie.
  6. No 6° dia Deus fez as feras da terra conforme a sua espécie, o gado, o homem à sua imagem – à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.).
  7. No 7o. dia Deus descansou…

As risadas enchiam a sala de aula. Era o auge, talvez, da descrença e do cientificismo acadêmico que desaguou na falta total de imaginação científica que vemos hoje. Na incapacidade de ver o que não é óbvio. O professor continua fazendo um paralelo com as eras geológicas:

  1. Aazóica – “Ausência de Vida” (Pré-Cambriana)
  2. Arqueozóica – “Vida Antiga” (Pré-Cambriana)
  3. Proterozóica -“Vida Anterior” (Pré-Cambriana)
  4. Paleozóica – “Vida da Pedra” (Explosão do Período Cambriano – Eras Cambriana, Ordoviciano, Siluriano, Devoniano, Carbonífero, Permiano)
  5. Mesozóica – “Vida Média” (Triássico, Jurássico, Cretáceo)
  6. Cenozóica – ” Vida Nova” (primeiros vestígios do Homem – Do Grego “Kainos”, novo e “Zoe” – vida)
  7. Neozóica – “Vida Nova” (era em que nos encontramos hoje – Do Latim, “Neo” e do grego “Zoe”).

Agora volte e compare os períodos… com poucas diferenças, nós temos uma descrição bastante acurada da Criação, por um pastor de ovelhas do deserto do Sinai, mais de 1.500 anos antes de Cristo… O que? Como é que o cara poderia ter uma ideia mínima dessa correlação tão marcante?

O professor termina (com silêncio sepulcral na sala) dizendo: “Não sabemos, mas aprendam a não fazer ciência com conclusões prévias no bolso do colete”, ou coisa que o valha).

Evolução

Na minha opinião “resolvemos” a questão básica das diferenças entre a Bíblia e a Ciência com essa constatação acima. Mas obviamente há a questão da evolução. Charles Darwin relutou muito em publicar seu livro A Origem das Espécies, pelo menos parcialmente por questões de fundo religioso, sua possível ou alegada relação com o cristianismo (tendo inclusive cogitado ser clérigo anglicano em certa altura da vida).

Independentemente disso, outros tomaram sua Teoria e lançaram-na contra a Bíblica com furor. Os líderes cristãos engoliram a isca com linha e chumbada, sem qualquer reflexão e passaram a tentar colocar a teoria numa espécie de ostracismo herético, o que somente fez com que parecessem ridículos aos olhos “iluminados” do mundo.

Estamos no meio de uma batalha entre biologia evolucionária e cristianismo? Não sei nem consigo enxergar assim. Tão somente vejo um nível alto de premissas sendo usadas como verdades reveladas por parte dos cientistas (biólogos, paleontólogos, etc) que não possuem mais validade intrínseca do que uma manifestação de fé qualquer.

Não vi ainda um único link entre uma e outra espécie ser comprovado. Apenas “uma” espécie aqui, e “outra” ali, com algumas características que podem ser consideradas complementares ou parecidas, mas sem uma continuidade que possamos comprovar. Perto desse nível de, digamos, evidência, a fé na historicidade de Jesus ou das Escrituras, como um todo, me parecem teorias bem mais sólidas, mantendo as devidas proporções e diferentes áreas do conhecimento.

O fato é que ninguém explica a tal “Explosão” do Cambriano, ou seja, o 4o. dia da Criação. Ninguém, na verdade, pode explicar a frase atribuída a Einstein que:

As coisas deveriam ser o mais simples possíveis, mas não mais simples do que isso

Albert Einstein

O que eu quero dizer com isso: ninguém, nem mesmo em condições absolutamente controladas em laboratório jamais conseguiu gerar algo vivo de componentes não vivos. Ninguém consegue desconstruir uma célula até seu nível molecular, atômico, e enxergar exatamente em que ponto algo não orgânico passa a se tornar “vivo.

Por isso, digo que não há nada que me proíba – nem creio que haverá jamais – de continuar glorificando a Deus por minha existência, por Sua Graça expressa através de Cristo, ou do fato de que Ele sustenta a vida na terra.

Fora disso, estamos apenas contrapondo Fé com fé. Só isso.