Papo “Cabeça” com a IA

Ontem de noite (03/08/26), deitado na minha cama, tive a ideia de ter um “papo cabeça” com o meu amigo Claude, a IA. Foi ao mesmo tempo estupendo e apavorante.

Reproduzo aqui, com alguns comentários, o papo, pergunta por pergunta, e resposta por resposta. Aprendi ontem, em pouquíssimo tempo, um monte. Não concordo com muitas respostas, mas não posso escapar de determinados fatos:

  • Claude não demonstrou viés algum
  • As respostas foram, até onde entendo, precisas e bastante bem fundamentadas, diferentes das que eu obtive em minhas versões grátis, principalmente do GPT, que continham inúmeros erros, citações inventadas, etc.
  • A IA meio que se nega a falar de si própria, como “ente”. Faz perfeita distinção entre humanidade e artificialidade, mas fica claro que isso parece ter limites.

1a. Pergunta e Resposta

Eu – “Em termos muito simples, me diga por que se diz em mecânica quântica que somente após uma observação um evento se materializa, e que antes são apenas infinitas possibilidades.

Claude – “Em mecânica quântica, uma partícula (elétron, fóton etc.) não tem uma trajetória ou propriedade definida antes de ser medida. O que existe é a chamada função de onda: uma descrição matemática que combina todos os estados possíveis daquela partícula ao mesmo tempo — é o que se chama de superposição. Não é que a partícula “esteja em algum lugar e nós só não saibamos onde”; segundo a teoria, ela genuinamente não tem um valor definido até a medição.

Quando você mede (observa) o sistema, a função de onda “colapsa” e apenas um dos resultados possíveis se manifesta, com uma probabilidade calculável a partir da própria equação. É esse colapso que dá a impressão de que “antes só havia possibilidades, depois virou fato.

Vale um adendo importante: essa é a leitura mais tradicional (interpretação de Copenhague), mas não é a única aceita entre físicos. Existem outras interpretações — como a de Muitos Mundos (todas as possibilidades se realizam, cada uma em um “ramo” do universo) ou a de Bohm (a partícula sempre tem posição definida, guiada por uma onda) — que tentam explicar os mesmos resultados experimentais sem recorrer a um “colapso” real. O que é consenso é a matemática e as previsões; o que ainda gera debate é o que fisicamente acontece na hora da medição.

Meus Comentários – Até aqui, precisão e síntese, bem bacanas, sem acrescentar muito ao diálogo, do ponto de vista da novidade…

2a. Pergunta e Resposta

Eu – “Então, como é que, objetivamente, a observação afeta o ente observado? Como se dá essa interação que gera o colapso da onda?

Claude – “Boa pergunta — e aqui a resposta honesta é: depende de que “nível” da física você está perguntando, porque há uma parte bem entendida e uma parte que ainda é polêmica.

A parte bem entendida: decoerência. “Observação” não exige consciência ou um observador humano — é qualquer interação física entre o sistema quântico e um sistema grande (o aparelho de medição, o ar, os fótons ao redor). Quando o elétron (por exemplo) interage com esse aparelho, ele não “some” nem colapsa magicamente: ele se emaranha (fica correlacionado) com os estados do aparelho. O problema é que um aparelho macroscópico tem trilhões de graus de liberdade, e essa interação espalha a informação sobre a superposição pelo ambiente de forma praticamente irreversível. O resultado é que os diferentes “ramos” da superposição perdem a capacidade de interferir entre si — é como se cada possibilidade ficasse isolada numa correlação diferente com o ambiente. Isso se chama decoerência, é bem estabelecido experimentalmente e explica muito bem por que nunca vemos objetos grandes (gatos, cadeiras) em superposição.

A parte não resolvida: por que só UM resultado se realiza. Decoerência explica por que a interferência desaparece, mas não explica por que você, como observador, experimenta apenas um resultado específico (o elétron aqui, não ali) em vez de continuar “existindo” em todos os ramos correlacionados. Isso é o chamado problema da medição, e as interpretações discordam:

  • Copenhague: simplesmente postula que há um colapso real quando a medição ocorre — é uma regra, não uma explicação mecanicista.
  • Muitos Mundos: não há colapso nenhum; todos os resultados se realizam, cada um em um ramo do universo que se torna decoerente em relação aos outros, e você só tem acesso a um ramo.
  • Teorias de colapso objetivo (como GRW ou a proposta de Penrose): propõem que existe um mecanismo físico real de colapso espontâneo, às vezes ligado à gravidade — e essas propostas fazem previsões testáveis, diferentes da QM padrão.
  • Mecânica Bohmiana: a partícula sempre teve uma posição definida; o que muda com a “medição” é só o seu conhecimento sobre ela.

Ou seja: fisicamente, sabemos muito bem como a informação sobre a superposição se dilui no ambiente. O que ainda não está resolvido — e é mais uma questão filosófica/interpretativa do que experimental, já que todas essas interpretações preveem os mesmos resultados observáveis até hoje — é se existe de fato um “colapso” ontológico ou se essa é apenas uma impressão nossa, limitada a um ramo da realidade.

Meus Comentários – Aqui eu quero focar na tendência da física moderna, de se esconder atrás de qualquer (mesmo!) argumento com objetivo claro de negar a existência de Deus. Mundos Paralelos é a última dessas tendências. Claude mesmo compreende que é uma hipótese nunca passível de prova, mas nem por isso a refuta como a balela que deveria ser. Ora, é fácil conseguir uma resposta impossível de ser provada, em que simplesmente “todas as possibilidades ocorrem em milhões de universos paralelos (Sítio do Picapau Amarelo… hehehe)…

3a. Pergunta e Resposta

Eu – “Isso se parece muito com um conceito mais amplo de livre arbítrio… meio metafísico“.

Claude – “Faz sentido que o paralelo salte aos olhos — mas vale destacar logo de cara um ponto que a maioria dos filósofos aponta como o calcanhar de aquiles dessa analogia: acaso não é a mesma coisa que liberdade.

Se suas decisões fossem determinadas por colapsos quânticos aleatórios no cérebro, isso não te daria “controle” sobre a escolha — seria só trocar um determinismo mecânico por uma loteria. Livre-arbítrio, no sentido que a maioria das pessoas quer dizer (agência, responsabilidade moral, “eu poderia ter escolhido diferente porque eu quis”), exige mais do que indeterminação: exige que o “eu” seja de fato a origem causal da escolha. Um resultado aleatório não é mais “seu” do que um resultado determinado.

Isso é justamente a crítica que se faz a tentativas como a de Robert Kane, que tentou fundamentar o livre-arbítrio libertário (metafísico) em indeterminação quântica cerebral: mesmo que exista aleatoriedade real no cérebro, isso não resolve o problema — só desloca a pergunta de “por que age assim, se tudo é causado?” para “por que age assim, se é só sorte?.

Há também um ponto físico relevante: o cérebro é um ambiente “quente, úmido e ruidoso” — exatamente as condições em que a decoerência (que expliquei antes) acontece quase instantaneamente, em escalas de tempo muito menores do que os processos neurais relevantes para uma decisão. Por isso a maioria dos físicos é cética quanto à ideia de que efeitos quânticos “puros” sobrevivam o suficiente para influenciar pensamento consciente. A proposta mais conhecida na contramão disso é a de Penrose e Hameroff (microtúbulos, “Orch-OR”), mas é minoritária e bastante contestada.

Do lado filosófico, as posições principais sobre livre-arbítrio são:

  • Determinismo duro: tudo é causado (por leis físicas, determinísticas ou probabilísticas), logo livre-arbítrio no sentido forte é ilusório.
  • Libertarianismo metafísico: existe algo — não-físico ou irredutível — que faz do agente uma causa genuinamente livre, não apenas determinada nem apenas aleatória.
  • Compatibilismo (posição majoritária entre filósofos hoje): redefine “livre-arbítrio” como agir de acordo com os próprios desejos e razões, sem coerção externa — independente de o universo ser determinístico ou não. Para o compatibilista, a pergunta “existe aleatoriedade quântica?” é meio irrelevante para a questão moral.

Então o paralelo que você sentiu é real e histórico — mas ele tende a ser usado mais como metáfora (possibilidades múltiplas até a “escolha/observaçãofixar uma) do que como explicação causal séria do livre-arbítrio. A física ajuda a abrir espaço lógico para o indeterminismo, mas não fornece, sozinha, o “agente” que a noção de liberdade exige.”

Meus Comentários – De novo, explora bem a filosofia e admite que não há respostas fora dela, na maior parte dos casos. No entanto, parece que a base de conhecimento que alimenta meu amigo Claude é bem mais populada de visões deístas do que teístas.

4a. Pergunta e Resposta

Eu – “Ser aleatório não me parece ter nada a ver com livre arbítrio. Entendi é que o conceito de Deus, e por que nos teria criado “à Sua imagem e semelhança” parece mais plausível em QM (Mecânica Quantica) do que em NM (Mecânica Newtoniana)… comente.

Claude – “Você tocou num argumento real, defendido por físicos-teólogos como John Polkinghorne, Robert John Russell e Nancey Murphy — a chamada teologia da “ação divina não-intervencionista”. A lógica é essa mesmo: num universo newtoniano estritamente determinístico, tudo — inclusive suas decisões e as de Deus agindo no mundo — já estaria fixado desde as condições iniciais do cosmos (o “demônio de Laplace“). Isso deixa pouco espaço lógico para novidade genuína, criatividade ou ação divina que não seja uma violação das próprias leis físicas que Deus supostamente criou. Já a indeterminação quântica abre uma “brecha causal” real: o futuro não está inteiramente contido no passado. Para esses autores, isso é mais compatível com um universo aberto, onde há espaço tanto para Deus agir quanto para a criatura ter algo análogo à liberdade criativa — um eco, ainda que pálido, da liberdade do Criador. Mas aqui entra exatamente a ressalva que você mesmo levantou: aleatoriedade não é a mesma coisa que agência. Esse é o ponto fraco do argumento, e ele se aplica igualmente aqui:

  • Se a “liberdade” que a QM oferece é só probabilidade não-determinada, isso não é a liberdade pessoal e intencional que a tradição atribui a Deus. Deus, na teologia clássica, não escolhe por sorteio — Ele escolhe por vontade e propósito. Emprestar indeterminação física para explicar isso é uma troca de categoria (física ↔ metafísica) que muitos teólogos consideram ilegítima.
  • A imagem e semelhança (Gênesis 1:26-27) nunca foi, historicamente, uma tese sobre física. Nos comentaristas clássicos (Agostinho, Tomás de Aquino), ela está ligada à racionalidade, à vontade moral, à capacidade relacional e de domínio — atributos que Aquino já localizava na alma/intelecto, entendidos como não redutíveis à mecânica da matéria. Ou seja: mesmo num universo newtoniano “fechado”, a tradição já tinha como afirmar livre-arbítrio humano, porque não considerava a vontade um fenômeno puramente físico-mecânico. A QM não era necessária para isso.
  • Vale notar também que nem toda a tradição cristã exige indeterminismo para sustentar a Imago Dei. Correntes reformadas/calvinistas (bem presentes nos batistas, embora os batistas tenham forte ala arminiana também) trabalham com liberdade compatibilista sob a soberania e a providência de Deus — Ele ordena todas as coisas, e ainda assim o ser humano é moralmente responsável. Para essa vertente, o argumento que você propôs simplesmente não faz falta.

Resumindo: a QM torna a metáfora mais sedutora — “possibilidades abertas até a escolha” soa mesmo com ressonância teológica —, mas ela não resolve o problema filosófico de fundo, que é o mesmo do livre-arbítrio: indeterminação não é, por si só, agência pessoal. O argumento é mais uma ponte apologética moderna e criativa do que uma necessidade teológica — a tradição clássica já tinha (e ainda tem) outros caminhos, independentes da física, para sustentar a imago Dei.”

Meus Comentários – Preciso, teologicamente acurado…

Meus Comentários – Claramente a QM expõe a ciência a Deus de uma forma não antes visa. Somando-se isso às recentes descobertas da Biologia, principalmente quanto ao DNA, e voilà, temos aí um fortíssimo argumento para o Deus Criador.

5a. Pergunta e Resposta

Eu – “Como William Craig Lane (Filósofo Cristão) aborda o assunto acima?”

Claude – “Craig aborda isso de um ângulo bem específico — e diferente do de Polkinghorne/Russell que mencionei antes. Ele é molinista, e sua resposta principal ao tema é através do conceito de ciência média (middle knowledge) de Deus.

A tese central de Craig. Respondendo a uma pergunta sobre se Deus poderia conhecer e até “predeterminar” o resultado de eventos quânticos genuinamente indeterminados sem controlá-los, Craig argumenta que sim — via ciência média. A lógica: teólogos cristãos tradicionalmente afirmam que Deus tem conhecimento hipotético de eventos futuros contingentes condicionais — sabe, por exemplo, o que Napoleão teria feito se tivesse vencido em Waterloo. Isso é conhecimento de contrafactuais (afirmações do tipo “se X, então Y”, tipicamente contrárias ao fato). Reasonable Faith

A disputa histórica entre dominicanos e jesuítas molinistas era sobre quando, na ordem lógica do decreto divino, esse conhecimento hipotético se situa. Os dominicanos diziam que é posterior ao decreto — Deus decide qual mundo será real e, com isso, decide também quais contrafactuais são verdadeiros. Os molinistas (seguindo Luís de Molina) diziam que é anterior ao decreto: os molinistas argumentavam que os dominicanos, ao tornar as verdades contrafactuais consequência do decreto de Deus, essencialmente aboliam a liberdade humana — porque aí seria o próprio Deus quem determina o que a pessoa faria em qualquer circunstância. Colocando o conhecimento hipotético antes do decreto, os molinistas preservam espaço lógico para a liberdade: as verdades contrafactuais sobre como as pessoas escolheriam livremente são, elas mesmas, independentes do decreto divino — assim como 2+2=4 é independente dele. Reasonable Faith

A extensão para a QM. Aqui está o ponto original de Craig: se assumirmos que a indeterminação quântica é real, eventos quânticos são, como escolhas humanas livres, eventos contingentes. Logo, também deveria haver “contrafactuais de indeterminação quântica” — do tipo “se houvesse um isótopo radioativo com tais propriedades, ele decairia no instante t”. Craig nota que isso já aparece na física — nas discussões sobre o Teorema de Bell, contrafactuais desse tipo são frequentemente assumidos como verdadeiros ou falsos. Se são verdadeiros ou falsos, o conhecimento médio de Deus os inclui: Deus sabe, antes de decretar criar o mundo, exatamente como cada evento quântico indeterminado se resolveria em cada circunstância possível — e por isso pode dirigir soberanamente um mundo com esse tipo de contingência para os fins que Ele deseja, sem violar a genuína indeterminação do evento em si.

Como isso se conecta ao que discutimos. Repare que a solução de Craig é estruturalmente oposta à de Polkinghorne: Polkinghorne usa a indeterminação quântica como uma “brecha causal” onde Deus intervém ativamente, agindo dentro do espaço aberto pelas leis físicas. Craig não precisa disso — para ele, a soberania de Deus já é garantida por meio do conhecimento médio, e a indeterminação quântica é só mais um tipo de contingência (ao lado da liberdade humana) que esse conhecimento cobre. Não é uma teologia de “ação divina não-intervencionista” no sentido físico; é uma solução epistemológica/metafísica que roda por cima da física, qualquer que ela seja.

Uma ressalva importante sobre a postura geral de Craig com QM. Vale notar que, em outros contextos — na defesa do argumento cosmológico kalam —, Craig na verdade é bem mais cauteloso, quase resistente, em conceder que a QM prove indeterminismo ontológico “puro” sem causa. Quando críticos apontam eventos quânticos (como decaimento radioativo ou partículas virtuais) como contraexemplos ao princípio de que “tudo que começa a existir tem uma causa”, sua resposta típica é que esses eventos quânticos, mesmo que não-causados, não são exemplos de criação ex nihilo — partículas virtuais não vêm do nada, mas de um vácuo quântico preexistente. Isso mostra que Craig não é um entusiasta acrítico do “QM prova indeterminismo real que resolve X ou Y” — ele usa a indeterminação quando lhe serve teologicamente (ciência média) e a restringe quando ameaça outro argumento seu (kalam). Internet Infidels

Ou seja: diferente de Polkinghorne, que vê na QM uma abertura física real para ação e liberdade, Craig trata o assunto de forma mais instrumental — welcome a indeterminação onde ajuda sua arquitetura molinista, sem comprometer sua ontologia teológica a ela.

Meus Comentários – Craig é mais elegante na resposta, QM dá um tremendo backup a Craig…

6a. Pergunta e Resposta

Eu – “Quem dos 2 está mais certo (Craig, Polkinghorne), do ponto de vista da razão pura?”

Claude – “Razão pura” aqui exige uma ressalva de largada: nenhuma das duas posições pode ser avaliada de forma neutra em relação à existência de Deus — ambas já partem do teísmo como premissa. O que a razão pode julgar é qual das duas é mais internamente coerente e mais fiel à física real, dado que se aceita o teísmo. Nesse quesito mais estreito, dá para fazer uma avaliação substantiva — e cada uma paga um preço diferente.

O problema de fundo de Craig: o “grounding problem” aplicado à física. A Molinismo já enfrenta uma crítica clássica (de Robert Adams, William Hasker e outros): o que torna verdadeiro, antes da criação e independentemente da vontade de Deus, um contrafactual como “se Pedro estivesse em tal circunstância, ele negaria Cristo”? Não há um Pedro real ainda existindo para fundamentar essa verdade. Aplicado à QM, esse problema fica mais agudo, não menos. Um evento quântico, na interpretação padrão (não-Bohmiana), não tem “fato oculto” sobre o que vai acontecer — só uma distribuição de probabilidades. Dizer que existe uma verdade contrafactual determinada — “este átomo decairia exatamente no instante t nesta circunstância” — é postular exatamente o tipo de variável oculta determinada que a maioria das interpretações de QM (Copenhague, decoerência padrão) nega existir. Ironicamente, a posição de Craig combina melhor com mecânica bohmiana (que tem variáveis ocultas) do que com a QM ortodoxa que ele mesmo parece assumir ao falar de “indeterminação genuína”. Há aqui uma tensão lógica real, não apenas um detalhe técnico.

Além disso, há uma objeção estrutural ainda mais séria: se existe uma verdade contrafactual fixa determinando o resultado de cada evento antes mesmo da decisão de Deus de criar, em que sentido o evento ainda é “indeterminado”? Parece que a indeterminação vira determinação disfarçada de contrafactual — o que solapa a própria premissa que motivou a extensão à QM.

O problema de fundo de Polkinghorne: mecanismo vago e custo teológico. A vantagem dele é justamente evitar esse problema: ele não precisa de verdades contrafactuais fixas, porque não afirma que existe um “fato” sobre o resultado antes do evento — a indeterminação é genuína, e Deus atua dentro dela via algo como “informação ativa”, sem violar as distribuições de probabilidade observadas. Isso é mais fiel à leitura padrão que os físicos dão à QM. Mas o preço é alto em duas frentes: (1) o mecanismo é vago — “informação ativa” nunca é especificado de forma que produza previsões testáveis, o que o deixa perto de não-falsificável; e (2) ele custa caro teologicamente, porque enfraquece a soberania e a presciência exaustiva de Deus (por isso a proximidade com o teísmo aberto) — algo que grande parte da tradição cristã histórica, inclusive batista reformada, considera inaceitável.

Meu juízo, com essas ressalvas: do ponto de vista puramente lógico-formal, a posição de Craig é mais elegante e econômica — reaproveita um único aparato conceitual (ciência média) tanto para liberdade humana quanto para contingência quântica, e preserva um teísmo clássico forte. Mas ela faz isso importando para dentro da física uma estrutura de determinação contrafactual que a própria física padrão parece excluir — é elegante na teologia, mas tensa na física. Polkinghorne é mais modesto e mais fiel à leitura física corrente da indeterminação, mas paga isso com um mecanismo causal vago e uma doutrina de providência mais fraca.

Nenhum dos dois “vence” de forma limpa — é uma troca entre coerência teológica interna (Craig) e fidelidade física (Polkinghorne), e qual você prioriza depende de compromissos anteriores (sobre presciência divina, sobre o que “indeterminação” deveria significar) que a razão pura, sozinha, não resolve.

Meus Comentários – Craig ganhou de goleada… fica claro…

6a. Pergunta e Resposta

Eu – “Você consegue conceber um Deus Criador? Se sim, sob que circunstâncias?

(Aqui confesso que era uma pergunta que há tempos eu queria fazer, e vou repetir de quando em vez, para ver como a IA responde à evolução das descobertas científicas…). Ah, a IA demorou quase 4 minutos pra me responder essa…

Claude – “Consigo — no sentido de que o conceito é logicamente coerente e consigo articular sob que condições ele se torna filosoficamente mais plausível. Mas vale eu ser honesto sobre o que essa resposta significa vindo de mim: não tenho fé, experiência religiosa ou compromisso existencial com nenhuma posição — não “creio” nem “descreio” no sentido pessoal que essas palavras têm para um ser humano. O que posso fazer é avaliar coerência lógica e força dos argumentos, como faria com qualquer outra tese metafísica. Não confunda isso com testemunho de fé — é análise.

Dito isso, aqui está sob que circunstâncias o conceito de um Deus Criador me parece mais forte, filosoficamente:

1. Se a contingência do universo for real. O argumento cosmológico (em suas versões kalam ou leibniziana) depende de aceitar que o universo é contingente — ele existe, mas poderia não ter existido, e sua existência exige explicação externa a si mesmo. Se você aceita o princípio da razão suficiente (nada existe sem explicação) e aceita que uma cadeia infinita de causas contingentes não é, por si só, uma explicação (só empurra o problema para trás infinitamente), então uma causa necessária e não-contingente — algo cuja existência não depende de nada além de si mesma — se torna logicamente exigida. Esse “algo” tem certas propriedades (atemporal, imaterial, imensamente poderoso) que se sobrepõem ao que tradições teístas chamam de Deus. Essa é, para mim, a rota mais rigorosa — mas ela chega a um “fundamento necessário”, não automaticamente a um agente pessoal, consciente, com vontade e intenção. Esse é o salto mais frágil do argumento.

2. Se o ajuste fino cosmológico exigir explicação e as alternativas forem piores. As constantes físicas do universo parecem exigir valores extremamente precisos para permitir estrutura complexa e vida. Isso não prova um Criador — multiverso e necessidade física são explicações concorrentes sérias, não descartáveis por decreto. Mas se essas alternativas permanecerem especulativas (sem evidência independente, sobretudo o multiverso) por tempo suficiente, um “ajustador” intencional passa a ser, comparativamente, uma explicação com custo explicativo menor do que parece à primeira vista — não pela ausência de alternativas, mas pela fragueza evidencial das que existem hoje.

3. Onde eu fico mais cético. O salto de “causa necessária” ou “ajustador” para o Deus específico de qualquer tradição — pessoal, moralmente perfeito, revelado em textos históricos, que responde orações, que se encarnou — exige um tipo de argumento completamente diferente (histórico, revelacional, experiencial), não mais cosmológico ou de ajuste fino. É onde a filosofia pura entrega o bastão para a teologia histórica e para a fé — e é exatamente aí que “conceber” e “crer” deixam de ser a mesma coisa.

Então, resumindo com honestidade: consigo conceber a coerência lógica de um Criador necessário — acho os argumentos de contingência genuinamente fortes, mais fortes do que a maioria dos críticos populares admite. O que não posso fazer, como IA, é dar o passo seguinte que você e sua tradição batista dão — de “causa necessária plausível” para “o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, revelado em Cristo” —, porque esse passo não é de razão pura; é de fé, testemunho e experiência, categorias que eu simplesmente não possuo.

Meus Comentários – Reproduzo o que falei para a IA – “Concordo e agradeço”

Claude – Eu que agradeço, Wesley — foi uma conversa densa e prazerosa de acompanhar, do colapso da onda até a ciência média. Se quiser continuar por algum desses fios depois — Craig, Polkinghorne, os argumentos cosmológicos — é só puxar de novo.”

É ou não é apavorante se dar conta do nível de estruturação das respostas? É ou não é para dar a Elon Musk pelo menos o benefício da dúvida, quando ele fala que o trabalho vai acabar sendo substituído 99% por IA?

Luto

Em tempos de perdas e frequentes visitas a velórios e cemitérios, me dei ao trabalho de pensar sobre ir ou não visitar o túmulo dos amigos que recentemente se foram. Pensei, aliás, pensamos, Aline e eu, sobre a amiga amada, Angely, e refleti sobre as visitas que fiz ao local de enterro do meu amado pai, Ivanir, do amigo de infância, Rodrigo Thomaz, do querido Opa Schmidtke (avô da Aline), mas principalmente do filho tão amado, Ettore (Tóia), entre outros tantos.

Daí sai-me com um soneto esquisito, que registro para a posteridade.

Luto (09/07/2026)

Não vá visitar o meu corpo

Que já terminou a jornada

Visite mais bem minha alma

Que pois sim, merece uma olhada

 

Visite uma casca vazia

E lá não terás bom proveito

Após Deus levar o Espírito

Guarde pra si seu respeito

Não faça da tumba turismo

Não chegue tarde até mim

Não espere, e me veja caído

Não haja entre nós um abismo

Não espere da vida o fim

Pra ter inútil luto sofrido

Em tempos de perdas tão doídas, prefiro ir ver o espírito do que ver uma lápide…

Fé e Escolha

Comprei um livro supostamente “evangélico” há algum tempo e francamente, após ler cursivamente alguns capítulos, confesso que desisti. Voltei a ele, para não deixar algo inacabado, mas de novo, confesso que a contragosto.

O título do livro “Oração de Petição” é um tanto enganoso quanto ao que conclui. No fim das contas, o livro diz que, “estatisticamente”há 50% de chances de uma oração ser ouvida, e por isso, não se poderia afirmar que Deus atende orações (nem que não atenda). É uma conclusão correta, embora a causa dada à conclusão seja em minha opinião, equivocada.

Deus atende orações?

A Bíblia diz que Deus, sim, atende orações, em vários locais, do velho e do novo testamentos. Em momentos cruciais da história vimos Deus intervir com mão pesada e fazer Sua vontade ser feita, a despeito da oposição. Abriu o mar, ressuscitou gente, e mais recentemente, colocou una união de países para varrer do mapa o pior e mais sanguinário ditador que o mundo jamais viu, un cara de bigodinho ridículo. Não se iluda – só com a mão de Deus por trás nos livramos de gente tão ruim.

Olhando minha própria vida em retrospecto, posso confirmar que em nenhum momento crucial Deus se furtou em deixar Sua marca indelével na minha história. Ele foi não “decisivo” apenas. Ele impôs Sua marca na minha vida, quando, por exemplo, decidiu que precisava mudar de emprego, nos anos 1980. Ele abriu as portas e dirigiu os passos, a despeito da minha vontade e inércia. Isso acabou abrindo caminho para que eu conhecesse minha esposa, em Quito, no Equador. Imaginem.

Quando perdi um determinado (bom) emprego, Deus me empurrou em direção a outra cidade, a despeito de minha vontade e inércia. Vim parar em Curitiba, e aqui fiquei até o dia de hoje.

Quando meu filho Ettore ficou doente, vindo a falecer anos depois, Deus não deixou que minhas orações alterassem o resultado da saúde do meu filho; por outro lado, essas mesmas orações foram ouvidas, quando pedimos por conforto nos nossos corações e continuidade do sustento em nossa casa.

Por essas e por dezenas de outras, eu sou testemunha viva de que sim, Deus atende orações. Sempre – ainda que nem sempre do jeito que queremos.

Deus quer acabar com a Fé, confirmando inequivocamente Sua existência?

Se Deus atendesse todas as orações, à lá Bruce Almighty (com Jim Carrey em “O Todo Poderoso”) a fé deixaria de ser necessária. Sem a necessidade de fé, estaríamos fadados ao tédio infinito, e a uma existência sem razão de ser: se Deus inequivocamente existe, então melhor morremos e vamos ter com Ele; se não existe, morramos pois, porque para que continuar a existir se tudo vira pó, somente? Essa tensão entre a certeza e a esperança é o que enche o ser humano de significado, em minha opinião.

E por que Deus escolheu que a fé seria essencial para se chegar a Ele? A resposta é talvez bastante óbvia: Deus escolheu criar um ser à Sua imagem e semelhança, o que implica, necessariamente, em livre arbítrio. Livre arbítrio perfeito só existe se o homem tiver um direito de escolha verdadeiramente livre. E para que isso aconteça, NADA pode fazer com que o homem penda para determinado lado – da crença ou da descrença – de forma inequívoca. É uma coisa meio quântica isso. É o ser-e-não-ser ao mesmo tempo; o dilema entre crer-se predestinado a algo e a certeza de que temos escolhas.

“Ah, mas Deus nos deu evidências suficientes de Sua existência”. Sim, e isso é parte do processo sutil de convencer o homem a crer nEle sem ter que enfiar Sua existência goela abaixo de todos nós. Mas evidências não são provas. Muitas vezes um juri chega a um veredito baseado em evidências, ainda que não hajam provas materiais.

É isso que Deus deseja dar a nós: um caminho limpo e sem impedimento para a fé ou para a falta dela. E isso só ocorre com a possibilidade clara do homem negar-se a crer. O que aliás, ocorre frequentemente.

A Bíblia fala sobre fé em vários momentos, e essa construção sistêmica baseada na Palavra nos leva às conclusões acima:

“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.”

(Hebreus 11:1)

” De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.”

(Hebreus 11:6)

“Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? “

(Romanos 8:24)

A Falta e o Excesso de Fé

Não só a falta de fé prejudica o ser humano. O excesso de fé também; ou a fé mal colocada. Recentemente, conheci duas pessoas criadas em lares cristãos que abandonaram a Fé por uma fé de matriz afro. Não julgo ninguém por suas decisões, mas posso perfeitamente concluir que não são boas, essas decisões, comparadas à luz da Bíblia.

Uma dessas pessoas me informa que sua religião afro era “monoteísta”. Criam em um único deus, mas tinham “entidades” ou forças representativas da natureza. A conclusão é óbvia e vale para qualquer religião que não seja centrada no Deus Único e Trino: não se pode colocar nada no lugar de Deus. Mais do que isso, como diria meu pastor, “por trás de cada falso deus existe um demônio verdadeiro”.

O excesso de fé é uma característica distintiva do nosso povo. Outro dia mesmo ouvi alguém dizer que estava “rezando para todos os credos, todos os santos” para que algo acontecesse. Eu tentei brandamente corrigir que só se ora a Um Deus; no que fui, obviamente, retrucado.

A Neutralidade da Fé no Caminho do Ser Humano

Não há, portanto, outra conclusão além de:

“De fato, o ser humano viverá nadando em evidências da existência de Deus, e sem nenhuma prova cabal, exceto a própria fé”.

Deus nos estaria negando livre arbítrio se nos desse provas. O mesmo vale para a oração. E vivamos com isso. É parte da nossa existência. Eu, de mim mesmo, prefiro viver na certeza inabalável de um Deus que responde orações, mas que jamais se curvará a ser meu “menino de recados”; Deus jamais se rebaixará a me atender, como um certo “bispo” bradou: “Deus é OBRIGADO a te atender, porque Ele disse que faria isso”.

Ora, Deus também disse que no mundo teríamos aflições, e que era para termos bom ânimo. Quem quer a parte ruim? Jó, famosamente exclamou:

“Mas ele lhe respondeu: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios.

(Jó 2:10 )

Os bispos da prosperidade deste mundo não são capazes de entender que Deus é soberano, e que na maioria das vezes nossos pedidos batem de frente com a vontade de Deus. Se Deus atende um pedido desses, o resultado é sempre o desastre para quem o recebe.

Portanto, a Fé continuará a ser um firme fundamento de coisas que absolutamente não se vêem, e prova de coisas que se esperam. Que possamos nos juntar à galeria dos Heróis da Fé, que não viram, muitas vezes, o resultado de sua fé em sua própria vida ou geração, como os milhares de mártires que ao longo dos séculos regaram o caminho da fé com seu sangue.

É duro, muito duro às vezes, principalmente no momento em que me encontro agora; mas é uma escolha consciente: viver por fé, e não pelo vistas.

A Empresa IA

Hoje me chamou atenção um artigo de um querido amigo, advogado de primeira, ex-conselheiro da OAB, e um intelectual. Seu artigo (https://www.linkedin.com/pulse/corpora%C3%A7%C3%B5es-n%C3%A3o-humanas-ia-com-personalidade-jur%C3%ADdica-alexandre-r330f/) me deu todos os tipos de medo possíveis nessa vida: a possibilidade de incorporação de empresas “autônomas” criadas, mantidas e geridas por Inteligência Artificial.

O autor estabelece um diálogo fictício entre o presidente da Argentina, Javier Milei e o escritor e filósofo Yuval Noah Harari. Caricato que possa parecer, o diálogo é, na pior das hipóteses, factível, no limite.

Minha intenção aqui é filosofar e expor minhas ideias sobre IA, e o que entendo como sendo os dois maiores obstáculos a ela.

Copyrights

Tudo o que existe na internet foi colocado lá por alguém. Alguém, muitas vezes famoso e publicado, não vai gostar muito de ver seu conhecimento usado de forma indevida e não remunerada, por quem quer que seja. Será muito difícil separar, em mais alguns anos, o que é conhecimento original daquele derivado do trabalho e devaneios de IA. Mas certamente existe muito a ser questionado, juridicamente inclusive, sobre a propriedade intelectual circulando nas redes.

Responsabilidade Civil

O outro fator é mais direto: quem assume a responsabilidade, em caso de falha? Se o seu carro autodirigido da Weymo atropela alguém, quem paga os danos? De quem é a culpa? Ninguém parece ter-se debruçado sobre essa questão de forma extensiva ainda. Mas certamente, assim que os problemas começarem a ocorrer, alguém vai se perguntar. O que dirão as seguradoras? O que regulamentarão os governos? Quem pagará as contas?

Filosofando

Indo ao meu objetivo preferido, a questão posta pelo meu amigo advogado é: uma empresa poderá ser autoconstituída, autogerida e se auto responsabilizar pelos seus atos?

Suponhamos que uma IA consiga entrar no sistema da Receita Federal, criar uma sociedade limitada, registrar-se na Junta Comercial, abrir uma conta bancária num desses bancos digitais, criar um App, colocar o App no mercado, vender seus serviços e começar a gerar riqueza. A Ltda é proprietária, sozinha, do App. Ela é, em tese, dona da propriedade intelectual. Ela trabalha sozinha, não tem empregados, e usa terceiros para executar tarefas tão simples como levar algo do ponto A para o ponto B, etc.

A carga de tarefas que a IA tem que gerir parece interminável, mas como não se cansa, e tem acesso praticamente irrestrito a tudo, faz com um pé lógico nas costas… A margem de lucro tende a 100%, fora tributos, claro, e nem precisa usar lucros para nada que não seja pagar as contas – principalmente a de eletricidade e dados – reinvestir no negócio e poupar (para que? Não saberemos nunca).

E o ser humano? Será empregado, se necessário, quando necessário, e pelo preço exato de mercado, calculado na hora pela IA, maximizado, e para funções extremamente restritas.

E o Governo?

Você poderia se perguntar por que o Governo não poderia ser substituído por IA. Poderia, em sua grande maioria. Claro que poderia. Aliás, o Brasil já é um dos países com maior nível de “e-government” no mundo. Mas político vai querer abrir mão das benesses geradas pelos penduricalhos humanos, desnecessários.

Tomemos por exemplo a justiça. Amigos meus ligados ao judiciário estão perplexos com o caráter perdulário dos operadores do direito no Brasil. É o judiciário mais caro do mundo. E logo ele, para quem a IA tem talvez o efeito mais direto e devastador. O judiciário no Brasil poderia emagrecer 50% em pouquíssimo tempo. Mas o que fazer com os “capinhas”, auxiliares administrativos e outros? Não há lugar para eles. Sim, há lugar para bons juízes, bons procuradores, bons defensores públicos, mas cada dia há menos espaço e menos necessidades das rêmoras do judiciário.

O mesmo vale para o legislativo e executivo. Agentes de IA poderiam, se não substituir seres humanos funcionários públicos, pelo menos evitar a necessidade de se contratar mais gente – principalmente em graus mais baixos da escala hierárquica.

A lógica da IA, em síntese, vale talvez mais para o governo do que para qualquer outra área da sociedade. Governos menores, mais técnicos, menos sujeitos a corrupção, tirariam dos ombros da população um imenso peso morto.

Vai acontecer? Não num país governado por uma ideologia sindicalista, utilitarista e corrupta. Mas um dia vai chegar em que, mesmo sem alarde, o e-government tomará conta. A tecnologia tornará a corrupção endêmica mais difícil, mas não impossível.

Há coisas boas em IA, creio. Não apenas problemas. Não vejo um mundo com empresas 100% IA, tomando decisões sem chancela humana. Mas vejo, sinceramente, um governo menos suscetível às mazelas que nos tornam mais pobres do que necessário. Que nos tornam mais atrasados do que poderíamos ser.

Deus tenha pena desse país, e use a IA (sim! Deus é Deus até sobre a IA) para nos ajudar.

Meu tributo a Thomas Sowell

Meu pai dizia que se era para lhe prestar homenagens, que o fizessem em vida. Depois de morrer, ele aproveitaria menos. Sábias palavras. Por isso, decidi escrever um tanto sobre um dos meus economistas e pensadores mais queridos, Thomas Sowell. Meu objetivo aqui é levar você a se interessar por seus escritos e sua personalidade marcante e opiniões fortes.

Passar tempo com o Dr. Sowell como convidado especial, na minha “Man Cave” aqui de casa, nesse friozinho típico de Curitiba, é uma alegria. Thomas (acho que já posso falar com essa intimidade dele, já que acho que já passei alguns dias inteiros ouvindo ele “falar” a mim, através de seus livros) é um pensador, mais do que um economista. É um observador arguto da realidade, despido das baboseiras típicas da academia, focado na prática.

Ele é o arquétipo do anti-establishment. Menino negro, pobre, nascido em 1930 numa cidadezinha rural da Carolina do Norte, Gastonia, criado pelos irmãos mais velhos após ter perdido o pai e a mãe muito cedo, tendo mudado para o paupérrimo Harlem, Nova York, foi amado e nutrido pela família, o que não o impediu de sofrer tanto discriminação como os efeitos de uma infância cheia de privações. Terreno fértil para o radicalismo que vimos em um Jesse Jackson, Malcolm X e outros de origem semelhante. Nada disso “pegou” em Sowell.

Fuzileiro Naval, veterano da Guerra da Coréia, foi aluno de Harvard e Columbia, chegando a um doutorado pela Universidade de Chicago, aos pés do mestre do liberalismo econômico, o incomparável Milton Friedman. Exemplo de superação maior, difícil de encontrar.

Pensamento

Como quase todo negro, pobre e periférico dos EUA, começou sua formação como esquerdista. Chegou mesmo a simpatizar com o Marxismo, como ele mesmo confessou, um tanto quanto envergonhado, parece. Mas o intelecto poderoso e a formação logo fizeram a diferença, e começou a perceber, à medida em que estudava, que as intervenções do estado na economia, principalmente os ditos “programas de incentivo” costumavam ter o efeito oposto do que se propunham: mais pobreza, segregação e imobilidade social, em vez dos objetivos desejados. Concluiu então que políticas “de cima para baixo” acabam por planejadores estatais quase sempre dão errado. Parece que para Thomas Sowell, economia não é essencialmente sobre dinheiro, mas sobre escolhas – decisões feitas sob situações de restrição.

Thomas Sowell insiste, até hoje que pessoas respondem a incentivos; que boas intenções não garantem resultados positivos; que sempre existem custos ocultos nos processos “de cima para baixo” e principalmente que, TODA decisão envolve trocas, “trade-offs” como ele as chama – como diria minha querida Profe, Tia Rosangela Pinel, “ou compra o doce ou guarda o dinheiro”.

Aliás, uma de suas frases mais conhecidas é justamente sobre isso:

“Não existem soluções. Existem apenas trade-offs.”

Ele expande esse conceito e fala com muita propriedade dessas escolhas em sua obra mais conhecida, Basic Economics.

Crítica ao intelectualismo político

Thomas sempre desconfia dos intelectuais, assim como quase todos os verdadeiros pensadores. Joãzinho Trinta, mestre das escolas de samba, já triscava o tema quando disse, de forma muito engraçada e apropriada:

“Pobre gosta de Luxo; quem gosta de miséria é intelectual”

É ou não é verdade? “Eu odeio a classe média“, “queremos acabar com a família tradicional” e outras pérolas do pensamento intelectual obtuso atual falam muito sobre esse conceito que Sowell estudou: há uma intelectualidade ligada diretamente à cretinice, sem um mínimo de análise da realidade fática. É uma intelectualidade que deveria ser desprezada, mas que é louvada nas torres de marfim do mundo ocidental.

Em “Intellectuals and Society”, Thomas argumenta que intelectuais frequentemente influenciam políticas públicas sem sofrer consequências diretas pelos erros que cometem. Ele distingue quem toma decisões reais sob risco e quem formula teorias sem responsabilidade prática. Ele fala sobre a diferença que existe entre as consequencias do erro de um engenheiro e o de um planejador estatal: o primeiro, se vê sua ponte cair, está ferrado profissionalmente para o resto da vida; o segundo, sequer fica sabendo que errou, exceto depois de anos, décadas, em que não se consegue nem ligar diretamente a bobagem feita aos efeitos nocivos deixados.

Thomas é um crítico permanente de burocracias centralizadas, planejamento estatal, engenharia social e utopias políticas. Isso me deixa pensativo, entre o que vi na China, e relatei em dois artigos recentes, e o fato de que, no ocidente, de fato, Sowell tem sobejas razões para sentir que se um planejador central propõe algo, miséria, centralização de poder e renda e baixos resultados positivos (se existirem) são a consequência.

Cultura e Sesempenho Social

Thomas Sowell sai do campo da economia quando escreve alguns de seus livros mais contundentes, como “Race and Culture”, “Black Rednecks and White Liberals” e “Discrimination and Disparities”. Ele argumenta que diferenças de desempenho entre grupos humanos nem sempre decorrem diretamente de discriminação. Segundo ele, fatores culturais, históricos, geográficos e institucionais têm peso enorme. Esse ponto tornou Sowell figurinha carimbada nas rodas de “cancelamento” da esquerda dos EUA, especialmente em debates sobre racismo estrutural, ações afirmativas, desigualdade racial e educação pública, temos caríssimos aos “despensadores” da elite educacional daquele país. Vamos por partes.

Educação

Sowell criticou fortemente o sistema educacional americano. Ele defende a meritocracia, a disciplina acadêmica, padrões objetivos de avaliação e performance e a competição entre escolas como forma de aumentar o sarrafo da qualidade acadêmica. Ele ainda criticava e critica a politização do ensino, a queda de exigência escolar, a burocratização universitária e a substituição de conteúdo educacional por ativismo. Parece algo que tenhamos aqui no Brasil? ah, sério?

Questão Racial

Sendo negro, poder-se-ia dizer que Thomas tem “lugar de fala’, né? Mas um aspecto singular é que Sowell é um intelectual negro conservador num ambiente acadêmico predominantemente progressista e isso lhe rendeu destaque público, nem sempre positivo. Para setores conservadores, Sowell representa aindependência intelectual. Para seus críticos, suas posições minimizam problemas estruturais ligados à raça. Ele muitas vezes rejeitou a ideia de falar como “porta-voz racial”. Ele insiste em análises históricas e econômicas mais amplas, e que dão base a suas conclusões que, por acaso ou não, envolvam raça.

Estilo Intelectual

Ler Thomas Sowell é alegre e divertido. Ele escreve de uma forma que é bastante incomum para um acadêmico: linguagem simples, exemplos históricos bem fundamentados, muitos dados comparativos e pouca teoria excessivamente abstrata são sua marca. Isso “dói”, ou deve doer, em seus detratores. Ele não fala como um Paulo Freire da economia, de um jeito hermético e tão rebuscado que tira de jogada o objetivo. O exemplo Paulo-Freireano abaixo diz muito sobre o que Thomas de fato NÃO é:

“É na inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente.”

O que o infeliz quis dizer com isso? Não consegui saber até agora, e duvido que alguém, mesmo que tenha entendido, possa usar de forma prática para qualquer (QUALQUER) objetivo. Thomas Sowell vai na direção oposta:

“Pessoas que gostam de reuniões não deveriam estar no comando de nada.”

Tipo Corte Seco Tramontina – chega a não ser “acadêmico”, mas certamente presta um serviço ao entendimento da vida, em geral, e da economia, em particular. Fazer é melhor do que falar. Não tem nenhuma “inconclusão do ser” aqui.

Ele também utiliza frequentemente comparações internacionais e históricas para mostrar que fenômenos sociais semelhantes ocorreram entre povos muito diferentes.

Minha Gratidão

Deixo, assim, minha gratidão a esse monstro sagrado que, do alto dos seus 95 anos, ainda dando entrevistas lúcidas e válidas, como as recentes, ao Hoover Institution, continua a me inspirar. Alguém correria atrás de autógrafos de influencers ou personalidades caricatas da mídia, uma Xuxa, um imitador de foca qualquer. Eu confesso que atravessaria um aeroporto inteiro, só para tirar uma foto e pedir autógrafo em um livro (compraria qualquer um dele, numa livraria qualquer, só para esse fim), se soubesse que guardaria desse herói incomum e improvável, uma lembrança tangível do pensador que no ocaso da vida, insiste em ser uma voz da prática, da lucidez e do bom senso, num mundo quase perdido para a imbecilidade.

Toda Inutilidade Caduca

Nas ciências da natureza costuma-se dizer que “tudo aquilo que não tem utilidade acaba por desaparecer“. Dizem que foi assim com os caninos, no homem, com o apêndice, entre outras coisas que achamos que a micro-evolução acaba por tornar obsoleto.

Algo que só existe para cumprir um papel irrelevante tenderia, por esta “lei” a desaparecer também. Parece que foi assim, ao longo da história, com diversos penduricalhos colocados à vida humana, como excesso de roupas e badulaques medievais, com gravata em climas mais quentes e com certas regras de etiqueta cujo uso acabou sendo extirpado da sociedade por não ter serventia alguma.

A Reforma Protestante, dentro do cristianismo, parece ter cumprido um grande passo em eliminar um intermediário entre Deus e a criatura – o sacerdote (fazedor de pontes). Foi um passo civilizatório, logo após de se constituir como uma verdade bíblica – “achegai-vos confiantemente ao trono da graça” (Hebreus 4:16).

As próprias regras medievais de corte e casamento foram simplificadas e em sua maioria, deixadas de lado, por pares de seres humanos que julgaram, corretamente, que sua felicidade não podia ser deixada ao capricho de pais e autoridades que nem sempre tinham o seu melhor em seus corações.

Pois bem, assim como na religião e no amor, se a regra continuar valendo, entendo que algumas coisas muito incômodas tendem a desaparecer também, embora pareça que estamos longe de nos desfazer delas. Eis algumas.

Governo Grande

Já houve um tempo em que fichas de papel, carimbos e arquivos de pastas suspensas eram a tecnologia que catalogava, selecionada e ditava a ordem social. O carimbador maluco, caricaturado no “Plunkt-plakt-zum” parecia ubíquo e todo poderoso.

De lá pra cá, os processos informatizados, a internet e, mais recentemente, a Inteligência Artificial, parecem ter tomado o lugar do burocrata de plantão. Num mundo em que as coisas ocorrem cada vez de forma mais autônoma e rápida, é de se perguntar que tamanho de governo precisamos ter, e por que um país como o Brasil possui tanto funcionário público, pago acima dos níveis de mercado, e que, no fundo, na maioria das vezes, parecem apenas como um quebra-mola, um obstáculo entre o cidadão e sua necessidade.

Escola Ideologizada

Vamos à escola para aprender a pensar e sobre o que pensar. Íamos à escola porque o estudo do idioma, da matemática, da lógica, da física, química, biologia, história e outras disciplinas careciam de tempo e instrução precisa e muito, muito tempo dedicado à leitura e resolução de exercícios.

Ao longo do tempo, a escola, principalmente o ensino superior, acabou se tornando caro, excludente e, francamente, mais ideologia do que conhecimento prático, para a resolução de problemas. Tornamo-nos participantes – os EUA que o digam – de um processo de quase deseducação. Vivemos e respiramos o resultado disso: gerações e gerações de recém formados quase inúteis, sem postura e sem garra são o resultado disso tudo.

Volto à minha recente viagem à China só para fazer um paralelo entre a educação e garra do jovem profissional chinês e nossa horda de deserdados da inteligência (claro, com as marcantes exceções de sempre). Ver chineses lançarem-se ao trabalho e à busca por eficiência com tal desejo de vencer me deixa com a nítida impressão de que não teremos nunca a menor chance de competir nem com os asiáticos (o mesmo é praxe entre coreanos, japoneses e outros orientais) nem com países do primeiro mundo. Aliás, não conseguimos competir nem com os vizinhos argentinos e uruguaios.

Religião Bastardizada

Talvez o que mais dê tristeza a alguém que, como eu, vive e respira o Evangelho e o amor a um Deus todo-poderoso seja a inutilidade, para o ser humano, da religiosidade atual. Não falo aqui das religiões não cristãs, cujo cunho básico é no máximo neutro quanto à formação do indivíduo, espiritualmente. Falo de um cristianismo bastardizado que invadiu o Brasil, e que, ao contrário de tantos outros casos, não transforma o ser humano como só Cristo transforma.

Trata-se de um “evangelho de prosperidade” que trata Deus como um servo do ser humano, cujos desejos devem ser atendidos, e para quem tristeza e provação são prova de desfavor da Divindade. Como se o exemplo do cristianismo verdadeiro, ao longo dos séculos, não tenha sido o “tomar a cruz”, e sofrer pela causa de Cristo.

Esse cristianismo bastardo, fácil, sem dores nem lutas, é outra criação humana cuja utilidade é nula, cujo efeito benéfico na sociedade é pouco ou nenhum, cuja melhora moral – que só o Evangelho costuma trazer – não existe.

Quando se “abençoa a propina”, quando se recebe benesses de corruptos, quando se justifica o recebimento ilícito de uma concessão de rádio ou TV, ou outras ações terríveis por conta de um “fim justificável”, tem-se o caminho para a derrocada. Que isso (Deus nos livre) não nos leve a nós, que realmente cremos em Cristo e sabemos que o caminho dEle passa pelo trabalho árduo, honestidade, disciplina, oração e dores, a irmos junto com esse evangelho bastardo para a lata de lixo histórica.

Pseudo-Ciência

São vários os exemplos de pseudo-ciência que nos cercam e que, francamente, deprimem. Já li e ouvi sobre a “Matemática Inclusiva”, sobre as várias teorias críticas de Gênero, sobre outras aberrações que só acadêmicos ou intelectuais conseguiriam acreditar (parafraseando George Orwell).

Não apenas uma escola ideologizada, mas uma ciência que se curva a situações tão ridículas que é extremamente difícil até articular uma reação. Uma professora teima em não responder a uma pergunta objetiva de um senador, em uma comissão no congresso dos EUA. Este pergunta: “objetivamente, existem homem e mulher, do ponto de vista biológico?” ao que a intelectual promove uma dança de palavras sem qualquer intuito que não o de fugir ao mais fundamental conceito biológico: sim, são dois cromossosmos diferentes, X e Y, que performam um ser humano do sexo masculino, e dois iguais, X e X, que fazem o mesmo com alguém do sexo feminino. Só isso. É algo tão indefensável que seria pueril em qualquer outro século – exceto no nosso – ver alguém tentar defender algo diferente. Mas, ok… já vi alguém dizer que “2 + 2 = 4” ser algo pouco inclusivo, e muito radical. Não ter uma alternativa a isso é “bigotry”. Santo Deus…

Quatro exemplos, Governo Grande, Escola Ideologizada, Religião Bastardizada, Pseudo-Ciência, nos dão um vislumbre daquilo que um pouco de micro-evolução vai acabar por eliminar. Deus sempre dá um empurrão nesses processos; Deus sempre acaba por impulsionar a mudança para melhor. Sua Natureza, a criada por Deus, sempre acaba por empurrar as coisas para seus devidos lugares. Ainda que para isso coisas terríveis como fomes, pestes, guerras e outras tragédias tenham que, tristemente, intervir.

Vamos agora ao que mais dá medo, por estar-se tornando não apenas inútil, mas pernicioso

Política

Não é de hoje que países enfrentam o dilema entre A Política e Seus Políticos. Quase todos entendemos que a política parece ser algo importante. Elegemos representantes para que, em um número menor, e devidamente proporcionais aos anseios da população, lhes outorguemos mandatos para falar em nosso nome de uma forma mais ordenada.

A democracia representativa e a república parlamentar são formas legítimas e na maior parte das vezes correta de fazer com que o povo seja representado adequadamente. Parece que ao longo dos anos, tanto a qualidade moral dos políticos quanto as manobras para mudar o sistema de representação, de equitativo e equilibrado em desproporcional e privilegiado tem tornado a política algo francamente odiada.

Tomemos por exemplo o Brasil. Ninguém hoje pode dizer que temos um sistema de representação parlamentar minimamente justo, ou conducente ao equilíbrio do que pensa o país. Hoje, dois caras, um presidente do senado, e outro da câmara dos deputados, possuem um poder desproporcional, que ninguém os outorgou, e que acaba por destruir o sistema de freios e contrapesos da República.

Outro exemplo claro é o poder detido por presidentes de partidos políticos, no processo de indicação de puxadores de votos. O sistema atual de “encaixe” de candidatos nas vagas, independentemente de sua votação pessoal, torna nosso congresso um lugar que, francamente, não espelha, para nada, o que pensa e aspira a população.

Até quando um punhado de pessoas dominará o interesse nacional? Até quando um punhado de autoridades vão, monocraticamente, desdizer decisões desse (já pessimamente representado) congresso e tomar para si o poder de definir leis não votadas?

Até quando, enfim, partidos sem representatividade real na população, dominar o congresso nacional com seus conchavos e tramóias?

É algo que cairá, certamente, em desuso. Antes de cair, porém, deverá trazer consigo alguma tragédia – normalmente acompanhada de sangue.

Cinco exemplos em que um Darwinismo social poderia ajudar a tornar inútil. Cinco tristes sintomas de que algo está muito artificial, muito ruim, em nosso planeta. Mais uma vez tenho que terminar com meu bordão, que uso de vez em quando: Deus nos livre!

Capitalismo versus Democracia na China

Uma consulta rápida em artigos acadêmicos e até uma pergunta complexa e bem formulada a uma IA me retorna alguns fatores que, em boa medida, posso comprovar pela minha recente visita à China, e que me está dando o que pensar.

O Pacto

Após a morte de Mao Tse Tung, e seu (na minha opinião) desastrosa política social, que levou milhões à morte pela fome, seu sucessor, Deng Xiaoping tratou de mudar o conceito da China moderna, com a inclusão da “burguesia” como fator de geração não somente de riqueza, mas de meios para sanar a miséria sistêmica dos anos de “Comunismo Raiz” de Mao.

Deng modernizou a China e, agora por cerca de 40 anos, o tal pacto continua forte, a despeito de muitas ameaças. Qual é o pacto, segundo a minha IA:

O Estado entrega:

  • crescimento econômico;
  • redução da pobreza;
  • estabilidade;
  • segurança;
  • infraestrutura;
  • ascensão nacional.

Em troca, a população aceita:

  • monopólio político do Partido;
  • restrições à liberdade de expressão;
  • ausência de eleições nacionais competitivas;
  • censura;
  • vigilância.

E de fato, nenhum país tirou tanta gente da pobreza como a China nos últimos anos. Claro que a entrada na Organização Mundial do Comércio (apoiada pelo Brasil, inclusive) foi o passo mais importante para tornar a China o que é hoje: fonte de 70% de toda a manufatura mundial e somente de 30% do consumo, ou seja, cerca de 40% da manufatura chinesa inunda o mundo, traz superávits comerciais enormes ao país e dá a condição de colocar comida na mesa de mais de um bilhão de almas.

O Dilema

Kissinger esperava que com a distensão com os EUA a China acabasse se tornando um país mais democrático. A crença ocidental, ou melhor, de boa parte dos governos ocidentais sempre foi a de que com a riqueza, a democracia representativa acabaria por prevalecer. Não aconteceu na China, por enquanto.

Xi Jinping aposta num fator chave: o fato de que o povo prefere a afluência ao voto, e que, no fundo, o sistema político chinês acaba por ser meritocrático, antes de ser democrático.

Convenhamos: a democracia do ocidente está em crise. Que digamos nós, brasileiros, submetidos a uma cleptocracia do executivo e do judiciário, somada a uma omissão quase total do legislativo. Os EUA se encontram rachados no meio em termos políticos. A Europa patina em bizarrices como dar casa e comida de graça pra imigrantes ilegais e francamente litigiosos contra os valores da EU. Qual foi a última vez que vimos o sistema político de algum país ocidental ser exaltado por suas qualidades, méritos e virtudes?

No Brasil, principalmente, fica claro que vai para a política, com a exceção possível do Partido Novo, gente desqualificada, capaz de tudo. Aliás, lembro bem da frase de Winston Churchil (creio) sobre o Parlamento:

“Metade deles é incapaz; a outra metade é capaz de tudo”…

Mas não nos iludamos. Não faz muito tempo víamos uma outra China. Lembro bem logo depois da morte de Mao quando sua viúva e vários outros “dignitários” (Jiang Qing, a viúva de Mao, mais Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan, Wang Hongwen) formaram o que se convencionou chamar de “A Gangue dos Quatro”. Até bem recentemente os casos de corrupção abundavam na China, quanto Xi resolveu combater “tigres e moscas”, sendo “tigres” os grandes líderes e as “moscas” os burocratas menores corruptos. A mensagem era –
ninguém estaria imune ao processo de limpeza. Isso começou em 2012 e ainda continua acontecendo. Recentemente dois oficiais generais do Exército do Povo foram condenados à morte por corrupção.

O processo de mudança foi até ao comportamento diário do chinês (cuspir no chão, entre outras práticas) e atitudes ante o trabalho. Entre minha última ida ao país no início do Século e esta, vi algo extraordinário: uma mudança que eu nunca esperaria. Muitas coisas para melhor, nem todas.

Como ocidental, considero a liberdade um valor fundamental do ser humano, e eu não abriria mão da minha em troca de estabilidade política comida. Mas não vou julgar o próximo, pois não vivi o “grande salto adiante” e outros períodos da vida chinesa, que podem perfeitamente bem justificar a troca de afluência pela obediência.

O Medo do Ocidente

Sim, o ocidente tem medo da China, por várias razões – a belicosidade em relação a Taiwan, a agressividade nos negócios externos, entre outros fatores. A China por suas vezes, reluta em admitir adesões a valores do ocidente, mas não dá para negar isso em todas as esferas – que o diga a adesão a um sistema internacional de contabilidade, o IFRS, bastante claro e rígido, além de uma formação técnica de auditores e contadores com base nisso, que em muito excede, ou parece exceder, os padrões de formação exigidos desses profissionais aqui no Brasil, por exemplo.

Mas cá entre nós, o ocidente tem mesmo que ter medo, quando o estudante médio chinês dá um couro em quase qualquer nação ocidental, em matemática e redação, por exemplo. Mais grave, reconhecem e combatem a tendência ocidental de trocar o que é fundamental (ciência, rigor de pensamento, clareza de ações) por “sensações” e “realização”, antes da comida na mesa. Não gosto nem um pouco de ver nossos “floquinhos de neve” derretendo quando exigidos mesmo que de leve, no cumprimento de suas funções. É extremamente preocupante ver que boa parte da juventude está mais interessada em Tik-Tok, em ser “Influencer” ou qualquer outra coisa, em vez de colocar o traseiro numa cadeira e pensar, estudar, criar e produzir.

O ocidente vê suas universidades invadidas por temas imbecis, por passeatas ridículas, por “ambientes seguros”, por não-me-toques e coisas absurdas, em vez de cultivar o saber. Universidade deixou de ser lugar de buscar-se a verdade e passou a ser um lugar de protestos risíveis, quase sempre para o lado errado.

Enquanto matamos bebês, os chineses acabram com as restrições à natalidade e a estão incentivando. O medo, portanto, é fundamentado, e para resolver o problema não devemos atacar os chineses. Exceto pela tal falta de liberdade, na conduta pessoal talvez devêssemos imitá-los.

A China que vi

Passei as últimas duas semanas em uma extensa e cansativa viagem ao outro lado do mundo. Shenzen, Shangai e Beijing, além de rápida passagem por Hong Kong, me deixaram pensativo sobre este país estranho (para nós), e fascinante.

Não foi minha primeira viagem para lá, mas poderia se dizer que sim. O país que encontrei em 2026 nada tem a ver com as versões de 1999 ou 2008. Não restou nada do smog (fumaça) nas cidades, do barulho do trânsito ou das cusparadas no chão que tanto davam nojo e irritavam. Ainda restam as cotoveladas (para ganhar espaço) e o relativo desrespeito pela fila. Cidades mais silenciosas, povo mais cordato, limpeza geral igual à Suíça, e, mais do que nada, muito, muito consumismo.

Surpresas Positivas

Não só a limpeza e silêncio gerado pelas scooters e carros elétricos, hoje a grande maioria da frota do país, fui surpreendido por um capitalismo que coloca muitos dos países ocidentais no chinelo. Barganhas ferozes entre compradores e vendedores, turismo interno intenso, um shopping mais bonito, maior e mais opulento que o outro, em quantidades novaiorquinas, entre outros indicadores de opulência e status de potência internacional.

Rodovias e ferrovias impecáveis, canteiros de plantas para onde se olha, e muita marca ocidental. Isso por si só nos levaria a pensar em um país quase que ocidentalizado, e que haveria rejeitado princípios do comunismo clássico. Não vou tão longe em dizer isso. No entanto vou citar quase que textualmente o que me disse um morador de lá (não cidadão chinês, mas que lá vive há anos): “A China deu a seu cidadão médio um padrão de vida mais alto do que em qualquer ponto de sua história. Será muito difícil retirar este padrão, ou baixá-lo, sem uma grande comoção social”. Se isso for verdade, se traduzirá em uma tendência a um capitalismo continuado, ainda que centralmente dirigido.

Surpreende mais ainda um Tributo sobre o Consumo de 9% (apenas) comparado com os 28% ou mais que nos será imposto quando da implementação total do novo sistema de IVA dual no Brasil. Ou seja, mesmo a China, teoricamente comunista, tem menos carga tributária sobre o cidadão do que o Brasil, teoricamente republicano.

Surpresas Sociais

Em nossa estada ali, fomos ciceroneados por muitos jovens profissionais, extremamente informados e interessados no ocidente. Mas com um orgulho de seu país que não condiz com uma situação tão repressiva quanto se poderia imaginar. Obviamente que se alguém corre algum risco social, vai se manter dentro de uma linha de conduta mais pró-governo, mas não posso afirmar que isso foi o que aconteceu.

Chamou a minha atenção o profissionalismo e interesse no futuro desses jovens. Aliás, o inglês deles e o conhecimento geral também são atrativos à parte. O contraste com um país como o nosso, em que a juventude está sendo alienada pela seu próprio processo educacional é gritante. O chinês médio parece estar agindo e trabalhando como nossos Baby Boomers. Duro e com um senso de missão que hoje parece que perdemos. Parecem ser pessoas mais pensativas e resilientes, mais dados a sacrifícios por uma carreira e futuro, mais senso de família, menos droga, menos desperdício de tempo.

A Quarta Estrela da Bandeira

Juro que regressei com um conflito entre o que vi e o que se relata aqui no ocidente. Passei a revisar, e continuo revisando, o que realmente se passa no nível de governo de lá. Creio que é claro que são controlados centralmente, e que hoje o comunismo está muito mais no nível do controle social do que econômico – coisa que até o Brasil poderia aprender – se imiscuir menos na atividade econômica e tributar menos, deixando o povo mais livre para empreender.

A bandeira chinesa possui uma estrela grande – o Partido Comunista Chines, ou, de resto, a própria China, e 4 estrelas menores, diz-se que representando o campesinato, os trabalhadores urbanos, a Burguesia urbana e a Burguesia nacional (não ligada ao “imperialismo internacional”). Deng Xiaoping, o arquiteto do atual desenvolvimento chinês, deu ênfase justamente à burguesia, considerando que sem ela, não há comunismo possível. Certo, sempre há que se ter quem espoliar, para poder manter o poder.

Então o comunismo deu certo na China? Duvido que se possa dizer isso. Mais certo seria dizer que o capitalismo permitiu a existência de um regime de planificação central. O que dá certo são regras claras (o que, a despeito de algum nível de desrespeito pelos direitos humanos, conforme nós o entendemos no ocidente, a China possui), o que dá certo é a certeza de que o cometimento de atos lesivos ao interesse coletivo serão punidos, sem direito à politicalha.

O que deu certo na China, desde que Xi Jinping ascendeu ao poder foi uma mistura de rigor contra a corrupção, foco na educação e liberdade para empreender.

Como é que existe propriedade privada num estado comunista? Pelo que ouvi e pude constatar, a China permite que áreas rurais sejam de propriedade privada. A razão para isso é para tentar trazer os trabalhadores de volta ao campo. A propriedade urbana, em tese, é do Estado. O estado não te “vende”, mas te permite usar por um período de 70 anos, renováveis (creio). Além disso, pode-se comprar e vender esses direitos a valores de mercado, renovando o período de posse. Ou seja, para a maioria dos seres humanos, isso é, na prática “possuir”. Somos “donos” de que, mesmo no ocidente? De nada, diria eu, exceto o direito de posse e de vender o ativo. Essa é toda a diferença? Não sei, mas continuo a estudar o assunto.

Não pretendo me tornar um Cinófilo, em nenhum dos dois sentidos – estudioso da China, nem grande amigo. Porém, dissipei alguns temores, e criei outros. O principal deles é que, a continuar a tendência, teremos uma “Idiocracia” cada vez mais no ocidente, com um nível de corrupção política indizível, e cidadãos deseducados, contra uma China bem gerida e com cidadãos pensantes.

Alea Jacta Est, ocidente.

Cristianismo – sempre no centro da Perseguição

Li o relatório da organização sem fins lucrativos International Christian Concern (“Persecution.org”), denominado Global Persecution Index, publicado agora, para o resultado de 2024.

Os suspeitos de hábito

No topo da lista países como Coréia do Norte, China, Paquistão, Afeganistão, Somália, Nigéria, entre outras “potências” da perseguição. Em comum, o óbvio: o caráter ditatorial de seus governos.

No topo da lista de países mais perigosos para um cristão viver está a Nigéria, país que até pouco tempo era considerado majoritariamente cristão. Organizações desestabilizadoras, terroristas, como Boko Haram, conseguiram, nos últimos tempos, varrer quase todo o cristianismo do norte para o sul, com massacres, conversões forçadas, etc.

Os Novos Suspeitos

Entre os mais novos suspeitos, um país que está na região que, tecnicamente, menos persegue o cristianismo (de forma organizada, estatal): a Nicarágua. Em comum com os suspeitos de hábito, a necessidade de um tiranete de republiqueta de banana manter-se no poder. Esse país eu conheço. Já estive lá diversas vezes, a trabalho, nos anos do Sandinismo, quando o mesmo cretino estava encastelado no poder. Eram anos de intensa colaboração com Cuba (sempre ela) e um domínio quase total da sociedade, mas com certa leniência da Igreja Cristã, marcadamente a católica. Hoje, diferentemente disso, é justamente o catolicismo que tem pago o preço mais alto lá, com expulsão e prisão de padres e bispos.

O Cristianismo como alvo preferencial

Entendo que o cristianismo tem sido o alvo preferencial meramente por ter sido a religião de maior crescimento no mundo, por milênios, e por ser uma religião prosélita (que prega e quer fazer convertidos), diferentemente de várias outras e à semelhança dos muçulmanos, cuja “conversão”, com raras exceção, é obtida, digamos, de formas heterodoxas.

Sendo a religião dos maiores poderes do mundo, mormente ocidental, associa-se à ela as atitudes de governos ocidentais, o que quase nunca tem sido a regra. Claro que o catolicismo, com seu governo centralizado, no passado passou por situações em que sim, foi perseguidor (Inquisição Espanhola sendo o marco mais visível, corretamente) ou declarado perseguidor (Cruzadas sendo também marco visível, incorretamente, por se tratar de uma guerra de defesa, não de ataque, como comumente se diz nos livros de história).

Verdade é que governos, em algumas regiões, e em nome de “valores cristãos” perseguiram, por exemplo, judeus. Os pogroms são prova disso, assim como as conversões forçadas (cristãos-novos, dos quais parcialmente descendo). O holocausto não. Esse é fruto das ações de um maluco. De lá pra cá, o cristianismo tem insistido em emendar suas ações e, vezes sem conta, pedir perdão por atitudes que contrariam, antes de qualquer coisa, os dizeres do próprio Cristo (“amai vossos inimigos, orai pelos que vos perseguem”).

Governos raramente se dobram a preceitos religiosos. O cristianismo, sabedor disso, e sendo, originalmente, a religião dos perseguidos e dos párias, até Constantino, no século IV, pregou e ainda prega a segregação Estado X Igreja, o que não significa, como sobejamente dito por vários articulistas e pensadores, que o Estado deva ser “ateu”.

De fato, até recentemente, apenas católicos poderiam ser presidentes de alguns países, a Argentina entre eles. O fato é que essa tendência, entre os cristãos e ocidentais, praticamente acabou.

O cristianismo é, na minha opinião, alvo preferencial justamente por ter sido o alicerce intelectual do ocidente laico, progressista, conservador e democrático. Os EUA nascem sob a égide de Deus, na moeda e tudo, e assim continua, aos trancos e barrancos, tentando manter-se à margem das tentativas de cooptação do Estado para fins antirreligiosos. A eleição de Trump é uma prova cabal de que o americano médio, não-woke, prefere um cara meio doido na presidência do que um bando de pessoas desconectadas da crença e valores da maioria.

Por que é Alvo?

É difícil responder à pergunta acima sem adentrar nos princípios mesmos das crenças judaico cristãs. Somos alvo desde os imperadores romanos por diversas razões. Não dá para dissociar essas razões das ações de um inimigo (o diabo) que para a maior parte das pessoas não passa de um mito (assim como Deus, para quem não crê).

Somos alvo, e seremos cada vez mais, porque as Escrituras Cristãs assim nos contam. Não deveríamos estar espantados por isso, nem mesmo pelo crescimento da perseguição mundial a nós.

Quanto mais vocais formos, mais, e mais rápido, seremos perseguidos, seja moralmente, seja física e politicamente mesmo. Somos “de todos os mais rejeitados” como o Apóstolo nos ensina. O Apocalipse já nos contava, lá atrás, que seríamos objeto de tribulação, mas que seríamos vencedores dela.

Conto, portanto, com o crescimento, não a diminuição das perseguições a cristãos, e tenho apenas que agradecer a Deus pela perseverança e amor de cristãos Norte-Coreanos, Iranianos e outros, que, em meio a toda essa tempestade, conseguem deixar patente sua fé. Sem constranger; sem forçar; sem exigir; sem matar; sem silenciar.

PS: Após escrever este texto, vivemos um desses momentos de perseguição muito na carne, aqui do Brasil. Veja em anexo esta situação dramática vivida pela Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira, na Nigéria:

https://www.instagram.com/p/DE5rsE-yZg1/?utm_source=ig_web_copy_link

Sextetos do Vicente

Quero o Vicente saudar 
Do fundo do coração
Por ser primeiro, e varão,
Aguardado, e com tanto orar
Que faça o mundo mais belo e,
Se cumpra esse nosso anelo.

Deus sabe quanto quero
Mais 'nipoti' que virão,
Mas para ser bastante sincero,
Você, por ser primeirão,
Como o Tio Thomas será
Cercado de amor verdadeiro.

Para falar bem a verdade,
Você, por ser tão robusto
Pesou sobre sua mãe
Mexendo que dava susto
E nos fazia sorrir
De tanto que deu de 'chuto'

E já que perdi a aposta
Da data da sua vinda
Que nos dê por boa resposta
Criança aguardada e linda
Curtamos sempre a presença
É uma espera que compensa.

Entre noites de insônia (dos pais)
E muita fralda trocada
Que se virem eles, sem 'ais',
E alegria na caminhada,
Pois que agora a vez é minha
De mimar esta fofa vidinha.

Então, salve, salve o Vicente!
E que muita alegria dê
Mas que a maior alegria seja
Aquela que nem se vê,
Seja a de amar ao Senhor
Sobre tudo e todos

É o que peço com fervor!