Frederick Douglass, Capital e “Black Lives Matter”

O Capital é um bicho esquisito, amorfo, apátrida, fluido, desconfiado, medroso… um monte de adjetivos podem ser aplicados ao Capital. Burro, o Capital não é. Se for, dura pouco e vira zero, ou dívida (menos que zero).

O nível de problematização social quanto à raça atinge níveis “nunca d`antes navegados”. Nos EUA, a morte de uma pessoa de cor por um policial negro gerou uma série de protestos, matando mais gente negra, branca, azul e amarela, a torto e a direito, gerando um monte de prejuízo material e histórico (quebra de estátuas, etc). Estamos sendo submetidos a uma tentativa cada vez mais escrachada de divisão social. Um cisma que não levará a nada produtivo. Só tristeza, morte, destruição, ódio.

A manchete acima traz um exemplo de hoje mesmo sobre essa problematização. “Brasil nunca teve fundos para projetos liderados por negros“. Em primeiro lugar, queria entender se a autora tem algum tipo de bola de cristal, ou supercomputador fantástico pra “cravar” a frase acima. Mais do que isso, por que o Capital, esquivo como é, faria uma decisão com base ese submeteria a ser usado com base numa orientação, seja sexual, religiosa, ou outra qualquer?

Existem fundos dedicados a determinados investimentos. Há fundos dedicados a empresas da nova economia, a “economia limpa”, a fintechs, entre outras áreas. Há fundos que restringem suas aplicações em empresas que não se comprometam com o combate à escravidão, ou ao uso de imigrantes ilegais, e por aí vai. O grande capital, no entanto, busca retorno; só isso. Parece, e é, bastante egoísta. O Capital é egoísta; o capitalista, o empresário, é egoísta. Dizia Adam Smith, abaixo:

Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do...

Os justiceiros sociais se arrepiam ao pensar no que está escrito acima. A URSS faliu justamente porque todo mundo cuidava do seu interesse, e ninguém cuidava do interesse do país. “Gente horrível”!… não necessariamente. A ideia da “farinha pouca, meu pirão primeiro” é a expressão da imperfeição humana, e do uso que temos que fazer dela para manter a ordem.

Se formos subordinar as necessidades de geração de riqueza à cor das pessoas, se dermos quotas para essa ou aquela cor ou gênero, ou religião, estaremos criando um artificialismo que cedo ou tarde vai estourar na minha cara. Eu não quero saber se o médico é cubano ou adventista, gay ou negro. Quero que ele resolva o problema da minha saúde, ora bolas!

Da mesma forma, ninguém vai despejar dinheiro em um projeto porque tem um branquelo comandando, se o tal branquelo não tiver massa cinzenta e força de vontade. É o resultado que conta. Ah, não há fundos para essa ou aquela “raça”? (raça mesmo, só a humana…), então é porque há melhorias e serem feitas até que algo venha a acontecer.

Quebraram uma estátua de Frederick Douglass nos EUA esse fim de semana. Douglass, um símbolo do processo de libertação dos escravos naquele país; Douglass, o autor da célebre frase “Eu me uniria com qualquer um para fazer o certo e com ninguém para fazer o mal“. Um cara que deveria ter mais estátuas nos EUA e no mundo todo; oposto exato ao “nosso” Zumbi, que era escravocrata, um homem do seu tempo, cuja obra extravasa os tempos, e só não chegou ainda aos caras da Antifa, que sob pretexto de “combater o fascismo”, o exalta através dessas ações.

Há capital para empresas tocadas, e bem tocadas, por negros, hispânicos, orientais, indígenas (! vai dar zebra esse termo), etc. Muitos eu conheço e admiro pessoalmente. Não estou nem aí pra cor do indivíduo. Não me uniria jamais ao coro dos que lançam, aqui e acolá, sementes de divisão e ódio, ou seja, eu também me uniria com qualquer um para fazer o certo e de nenhuma forma, com ninguém para fazer o mal.

Viva Frederick Douglass, e vai catar capital da forma correta, sem preconceitos!

O Véio da Havan

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,dono-da-havan-e-alvo-da-receita-por-sonegacao-de-r-2-5-mi,70003331993

O cara tem basicamente a minha idade, 55 ou coisa que o valha, mas é o “Véio da Havan”. Criou uma rede de lojas que crescia vertiginosamente até a tragédia da Covid-19. Catarinense, acostumado com um estado em razoável boa situação, com um IDH alto, o cara prosperou onde outros fracassaram. Tem o que todo empresário brasileiro tem – ativos, passivos, dívidas, e algumas encrencas com a Receita Federal.

Impossível não ter encrenca com a Receita. Qualquer empresário digno do nome, pagador de impostos e empregador, tem pelo menos algum fiscal da Receita batendo na porta, multando, certo, e errado. A Receita Federal do Brasil é um órgão que perdeu o rumo há anos. Como me disse certa vez um renomado advogado tributarista, e ex-membro do CARF (Conselho que julga ações administrativas na esfera da RFB), “o conceito de justiça tributária no Brasil foi jogado no lixo em 2002”. O objetivo passou a ser arrecadar, nem que para isso seja quase obrigatório distorcer o que diz a legislação.

O exemplo mais recente disso, julgado pelo STF é o “bis in idem” gerado pela inclusão do ICMS na base de cálculo de dois impostos, PIS e Cofins, o que gerou uma receita indevida imensa para o Fisco Federal, ou confisco sem tamanho. Se alguém olhar o tamanho da dívida ativa da Receita vai ver lá um monte de grana “que os malditos empresários devem ao país”, e vai sair batendo boca com qualquer um sobre o assunto, julgando quem quer que se lhe oponha de “fascista” e defensor de empresário ladrão… é da política de esquerda, faz parte do jogo de palavras, mas NÃO é verdade. Tem empresário ladrão, como em todo lugar, mas a maioria do empresariado muitas vezes nem sabe como pagar o imposto, por falta de clareza. Não é incomum “brigas” entre fiscais de diversos níveis, federal, estadual e municipal, pra saber quem tem o direito de cobrar. Isso gera às vezes duas multas sobre o mesmo assunto. E o empresário que se vire para se defender.

O caso agora é que o Véio da Havan, o empresário Luciano Hang, apelidado de “Zé Carioca” por um grande veículo de imprensa, entre outros epítetos, que ele jocosamente absorve e os torna a seu favor, foi quase que “acusado” pelo Estadão de hoje de estar sendo “sonegador”. Obviamente que mais de 50% dos comentários foram do naipe de “Pegaram o Zé Carioca de novo? Não é à toa que vive lambendo as botas do Bolsonero. Vai cair o Secretário da Receita.” e também “O gnomo sonegador é personificação do empresário que apoia o governo genocida.“.

Não estou aqui fazendo defesa de Luciano Hang, que deve ter advogados muito bons. Nem estou defendendo o empresariado de uma forma geral. Tampouco estou dizendo que a Receita Federal não cumpre o seu papel. Estou dizendo que a Receita Federal, com sua postura arrogante e “legisladora” em cima de temas que não lhe competem, criou no contribuinte a necessidade de “se defender” do fisco. Uns fazem isso de forma grotesca, sonegando simplesmente. Outros interpretam a legislação por meio de pareceres jurídicos e vão às vias de fato (juridicamente) caso autuadas pelo Fisco. É seu direito.

O que chama a atenção é gente que demoniza alguém sem qualquer base legal para faze-lo. Mas mais do que isso, um veículo de comunicação de massa que lança uma matéria dessas, cria um enorme ruído na cabeça da população (não me estranharia se os dois criadores dos posts em itálico acima sejam totalmente leigos em termos de tributos e com objetivo claro de associar o empresário ao ladrão, sem direito a sursis…). Isso pra não falar do “governo genocida”, coisa que encontra tanto eco na realidade quanto nos dois neurônios semi-mortos da Dilma.

O Véio da Havan não está sozinho. Tem muito “véio” da empresa A, B e C sendo demonizados há décadas por uma corja de idiota cuja única conquista na vida tenha sido a de se filiar a determinado partido, ser amigo do deputado A, senador B, ou líder sindical L… Esses “Véios” de tantas Havans Brasil afora estão neste momento lutando desesperadamente pra não demitir (demissão custa financeiramente, mas muito mais em termos de capital intelectual investido, re-treinamento, etc).

Que muitos Véios da Havan tenham muitos problemas mais com o Fisco, pois é sinal, pelo menos, de que estão tentando fazer algo, e pelo menos criaram uma base de cálculo de tributos que permita ao Estado tentar se apropriar de parte dela (ou seja, criaram alguma riqueza).

Deus proteja os “Véios” empregadores deste país…

Limites Constitucionais

Constituição Federal: muito falada, pouco conhecida

Li outro dia um post de um advogado, que me parece bem interessante. Não concordo com tudo o que está ali, mas no que tange a alguns aspectos constitucionais, sou forçado a concordar.

Direito de Ir e Vir

A Constituição preconiza a “liberdade de ir e vir” (artigo 5º, XV, da CF). Já o artigo 5º, II, da mesma Constituição diz que existem as “obrigações de fazer ou deixar de fazer determinado comportamento “somente em virtude da Lei”. Grandes conquistas. Como não sou advogado, mas contador e perito em causas judiciais aqui e ali, tenho que ir buscar conselho em quem entende (neste caso https://www.conjur.com.br/2020-abr-12/ricardo-marques-covid-19-nao-direitos#sdfootnote1sym).

O autor deste artigo é enfático em dizer que:

Chamou a minha atenção o fato de o presidente da República Jair Messias Bolsonaro, nessa sexta-feira da paixão, passear pelas ruas da capital federal, sendo massivamente criticado pela imprensa, que o classificou como delinquente social e irresponsável[2], diante das regras de governadores de estados que limitam a liberdade das pessoas e a atividade econômica. Mas, apesar da crítica ferrenha, outro fato despertou a minha atenção a frase do presidente: “Ninguém vai cercear meu direito de ir e vir”.“sua frase e, mais do que ela, seu direito, sob o ponto de vista jurídico’… ‘se ampara na tradição jurídica secular, da Carta Magna de João Sem Terra, às Revoluções Francesa e Americana.”

E aí? Que direito têm então, sem quebrar a Constituição, governadores e prefeitos de mandar fechar uma loja, prender o dono, mandar todo mundo ficar em casa sem exceção?

Ah, mas a Lei da Quarentena não prevê isso? Não. Prevê o isolamento somente de quem estiver contagiado (pessoas, bagagens, cargas, etc). “Ah…” – dirá você – “mas como é que vamos saber quem está contagiado ou não?”. Você pode argumentar que deveria haver medida mais dura na Lei. Existe, mas obviamente os políticos e o STF jamais daria essa moleza ao Bolsonaro – afinal, Estado de Sítio e Estado de Calamidade Pública, com o aumento de poderes presidenciais e dos militares, o que não interessa a ninguém do establishment político-jurídico (e aqui, sem crítica a esses poderes, e também sem preferência pelo executivo).

De quem são os espaços públicos?

A questão mais direta aqui lida com a “praia”. Esta é federal, faixa de marinha, sendo impossível, inclusive, construir nela sem expressa autorização. No Brasil, ao contrário de muitos países, não existe “praia particular”, exceto se por alguma “sorte” do dono do local, um acidente geográfico impeça a entrada normal de pessoas – mesmo assim tem que haver uma “servidão” (passagem).

Como é que se arvoram em prender gente na praia os governadores de alguns estados?

Qual é a questão

Não se trata de ser contra o isolamento, ou ser contra o lockdown. Nada disso. Trata-se apenas e tão somente de saber que limites existem. A questão fundamental é que evitar lockdown é apenas uma forma de manter a constituição, enquanto esta não for mudada. Infelizmente estamos fazendo, todos, parte de um grande experimento social, que pode até não “visar” eliminar liberdades, mas certamente dão a pista de como a sociedade vai responder em caso de uma ameaça real às liberdades individuais.

A Suécia disse algo mais ou menos parecido, para justificar o fato de que não iria colocar todo mundo trancado em casa, preferindo apelar para o bom senso da população, o que funcionou, em boa medida. E mesmo que tiver funcionado em escala menor do que em outros países, pelo menos não serviu pra criar uma determinada ruptura constitucional. Bom, cada país com suas leis, e em alguns casos, como nos EUA, é possível, por haver uma constituição mais enxuta e mais poder ao executivo.

Em suma, acima apenas dois problemas para os quais a mídia não deu nenhuma atenção, e que, gostemos ou não, tornam a posição do executivo mais entendível. Ao delegar aos estados, de forma monocrática, a responsabilidade pelas medidas de combate ao COVID-19, o STF criou ainda mais complicação jurídica numa seara já nebulosa. Ao tomarem as medidas que estão tomando, os governadores e prefeitos estão sendo frontalmente contrários à constituição. Se as medidas são boas e apropriadas ou não, não vem ao caso aqui (até acho que em boa medida o são).

Um STF minimamente alinhado com a Constituição teria dado indicações mais claras e ajudado a resolver um problema de segurança jurídica. Bolsonaro estará certo se sair pela tangente dizendo que “a responsabilidade foi assumida pelos governadores”…

O frágil equilíbrio econômico

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Photo by Muhammad Muzamil on Unsplash

Uma economia pujante é como uma vaca premiada. Ela dá muito leite, é bonita e dá retorno ao dono. Mas geralmente é um animal frágil. Qualquer economia, mesmo se ligeiramente maltratada, tende a murchar e morrer.

A vida econômica é como o sistema sanguíneo – um sistema de vasos comunicantes infinitos, cujo vai-vem de “nutrientes” que mantêm a vida. Qualquer interrupção nesse sistema provoca confusão, doenças e males que levam até facilmente à morte.

Independentemente de se você é contra ou a favor de restrições às movimentações de pessoas, #fiqueemcasa ou #obrasilnaopodeparar, o que escrevo aqui nada tem a ver com seu ponto de vista. É uma constatação às vezes difícil de engolir.

A história demonstra que a supressão de fluxos comerciais ou da circulação de bens e serviços, mesmo por curto período, sempre gerou catástrofes. Apenas para citar algumas:

  • O “grande salto adiante” (China, 1958-60) foi a tentativa chinesa, no início da dominação comunista, de criar uma indústria de base e uma agricultura de bases centralizadas. O planejamento feito em Pequim, por burocratas, deu tão errado que causou a morte de mais de 100 milhões de pessoas, de fome – produtos ruins e caros chegavam a uma população empobrecida;
  • O “Gosplan” (abreviação de Comitê Estatal de Planejamento) instituiu na União Soviética, os planos quinquenais, entre 1921 até a derrocada final do regime, em 1991. O sistema de planejamento quebrou a espinha dorsal da produção e levou a Rússia ao caos econômico e à sua ruína. Isso pra não falar o Holomodor, uma chacina de camponeses impedidos de produzir, que gerou quebras de safras e efeitos em cascata de fome e destruição;
  • Os planos de safra em Cuba – A criação do Ministério do Açúcar define bem o nível de dirigismo dessa economia, e por que a economia cubana dependeu tão profundamente da URSS. Ainda hoje os efeitos das quebras de racionalidade nas transações vindas daí cobram um preço no baixo crescimento da economia cubana (a despeito da propaganda em contrário e das estatísticas “oficiais”).

Esses artificialismos econômicos não ocorrem só em países socialistas. Entendo que a OPEP é uma forma artificial de controle de preços que quebrou cadeias produtivas no mundo e gerou duas crises (choques do petróleo) de grandes proporções. Qualquer cartel é um artificialismo que gera pobreza. A política dos “campeões nacionais” de triste e recente memória no Brasil é outro exemplo trágico.

Independentemente de sua preferência durante esta crise da COVID-19, e independentemente do seu nível de hipocondria (que eu creio que direciona mais as ações e opiniões do que outros fatores), a economia continua sendo uma “vaca premiada”, que adoece por qualquer coisa e corre risco de morrer. As recentes intervenções na economia, começando pelos PNDs no Brasil (Planos nacionais de desenvolvimento), ainda nos governos militares, passando pelos planos de estabilização econômica, foram coroados nos anos Lula/Dilma pela intervenção maciça na economia, que nos levou a uma recessão que encolheu o PIB em mais de 10% em 2 anos, o que pode dar “2 Covids”.

Assim, dada a fragilidade das trocas econômicas, das cadeias de produção, dos fluxos de dinheiro em circulação (e em poder de quem precisa, a população de mais baixa renda, não empregados do governo), precisamos desesperadamente de deixar a economia fluir TANTO QUANTO possível. Claro, com todo cuidado, com prevenção e isolamento social (3 metros ou 30 Km dá no mesmo) deve ser tomado. Tem que ser absolutamente rígido nisso. No entanto, já vemos começar o esgarçamento do tecido econômico aqui e acolá.

Para se ter uma ideia do tamanho do problema econômico, os zilhões gastos até agora pelo Governo para tentar minimamente remediar a situação dos mais fragilizados não vai dar pra resolver a vida nacional por mais do que algumas semanas. E isso ocorrerá à custa de um aumento brutal no déficit público. O tamanho da economia é desproporcional à capacidade do governo – qualquer governo – em suprir a diferença gerada pela quebra de cadeias econômicas inteiras.

Por enquanto estamos rumando para dois tipos de caos – de saúde e econômico. Resta saber qual matará mais. Aposto no econômico (com tristeza por ambos)…

Liberdade é liberdade financeira

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Photo by Kristina V on Unsplash

Há anos, quando eu tinha uns 17 anos, meu tio Roberto, irmão da minha mãe, e o sogro dele, Frank, me deram uma carona, de carro, de minha cidade natal, Cordeiro, para o Rio de Janeiro, onde eu recomeçaria a estudar e começaria a trabalhar de balconista na farmário Biscaya, do meu outro tio, Aluízio.

No meio do caminho, paramos para comer um pastel num local chamado Cachoeiras de Macacu, e lá ouvi um conselho que não esqueci nunca, e que, na minha opinião, deveria ser a mola mestra da vida profissional, financeira e pessoal de qualquer pessoa – e, penso eu, de países também – “Sobrinho, liberdade é liberdade financeira. Só existe essa liberdade e todas as outras estão subordinadas a esta”.

Eu estava naquele período da vida em que o adolescente briga com os pais por qualquer coisa, e isso irritava tanto a mim (que não sabia se queria cursar a faculdade de física que havia passado, para UFRJ) e meus pais (que francamente deviam estar felicíssimos de se livrar de uma mala sem alça resmungão).

Uma vez que comecei a ganhar meu meio salário mínimo por mês e morar num quarto alugado no conjunto residencial do IAPI da Penha, no Rio, comecei a dar mais valor ao que vinha às minhas mãos. Apesar de não ter me tornado um mão-de-vaca, na prática eu conseguia já vislumbrar a verdade do que me tinha sido dito – só tendo liberdade financeira podemos saborear as outras liberdades. Obviamente que estamos falando de uma sociedade livre e na qual podemos ter propriedade privada. Senão, não funciona…

O tempo passa, o tempo voa… já não há mais poupança Bamerindus, mas a vida, apesar de tantos problemas, e até mesmo uma tragédia familiar de grandes proporções, a vida continua boa. Aliás, com Deus, a vida é sempre boa, acho eu. Uma coisa não mudou – cada vez menos as pessoa se preocupam, de fato, com a liberdade econômica. Um amigo meu chama isso de “F#!ck you Money” – aquele dinheiro que dá a você o direito de mandar alguém para aquele lugar sem o medo patológico de consequências sobre sua vida cotidiana.

Tudo isso pra falar do ranking de liberdade econômica da Heritage Foundation, cuja edição de 2020 coloca o Brasil um pouquinho melhor que em 2019, mas ainda assim um pais “majoritariamente não livre”. A razão principal disso é nosso déficit público crescente. Até 2008 a coisa vinha bem, com o preço das commodities lá em cima, pré-sal, etc. Aí o país decide se tornar “o trapezista que acha que sabe voar”, e esquece que tem que pegar no próximo trapézio, senão se esborracha, pois que na vida não há rede de proteção…

Chegamos a 2016 numa situação lastimável nas contas públicas, e com um Estado de tal maneira inchada, que governo algum pode fazer nada, dado que o orçamento está 95% carimbado… chegamos no fundo do poço da falta de liberdade financeira, e tal como euzinho, com 17 anos, o país deu um basta em determinadas coisas (ligadas ao ciclismo, creio…) e começou, timidamente, a sair do fundo do poço.

Aí vem essa coisa de Covid. Isso é tipo praga do século, e não há como resolver isso sem medidas emergenciais. Apenas que, num país onde a liberdade financeira é pequena, e as reservas financeiras parcas, a solução custará mais caro.

A China, de onde o tal virus veio, e que diz tê-lo controlado, com sua economia mais livre do que a nossa, a despeito da liberdade de opinião e pensamento “zero”, tenderá a sair disso melhor do que nós, teoricamente ocidentais.

Submersos num lodaçal burocrático, ficamos à mercê de uma corja de político que está sempre em busca do próximo mandato, em busca da próxima eleição e de seu próximo cargo. Alguns dias atrás o presidente havia editado uma Medida Provisória com a possibilidade de redução de carga de trabalho e salários proporcional, para os tempos bicudos de Covid. A gritaria foi geral, e (como quase tudo o que se fala hoje) quase derruba o tal presidente.

Ontem, a Medida Provisória 936 faz exatamente isso. Ainda estou estudando os efeitos, mas parece que podemos reduzir até 70% dos salários e carga horária do pessoal, com compromisso de não demissão, com o Governo complementando parte das perdas de cada empregado.

E a tal liberdade econômica? Bom, o país vai endividar ainda mais as próximas gerações, em algo parecido com 5% do PIB, só este ano, mas se Deus quiser, sairemos dessa menos ensanguentados do que poderíamos estar. A raiz do problema está justamente na quase impossibilidade de tomar qualquer medida, dentro de uma empresa, sem que alguém, algum “avatar” nos diga que podemos.

Está todo mundo pasmo com o aumento do número de pedidos de seguro desemprego nos EUA. E por que o desemprego sobe tão forte e tão rápido lá? Porque demitir não custa, como aqui e na Europa. As empresas conseguem se manter vivas, minimamente. Os liberais-progressistas dirão “anátema”! Claro, é sempre mais fácil pensar no ser individual do que no coletivo. É mais doído e mais fácil empatizar com o Sr. João, que perdeu o emprego e tem 4 filhos, do que entender que, contrário-senso, a economia americana também será a primeira a se recuperar, e voltar a gerar empregos. Justamente pela facilidade e liberdade financeira.

Pra terminar, uma reflexão: se tivéssemos hoje mais liberdade econômica nacional, máquina pública menos inchada, menos arrasto aerodinâmico de salários altos e toneladas de aposentados públicos, estaríamos certamente livres para tomar decisões ainda mais generosas no sentido de preservar a vida e o emprego dos cidadãos, e a vida e continuidade das empresas. É certamente mais fácil tomar decisões quando se tem liberdade… financeira também…

Criptomoedas e seus fantasmas

O advento do Blockchain e de Criptografias considerada invioláveis possibilitou a possibilidade de emissão de “ativos” que hoje conhecemos popularmente como cripto moedas. Essa começaram lá pelos anos 2009 (BitCoin) e hoje surge uma nova a cada poucos meses. O BitCoin é um caso emblemático, e que fica mais curioso ainda pela quantidade de interesse que despertou e pelo aumento de valor – claro, é um “ativo”, e o nome “moeda” é apenas uma analogia, pela liquidez e manutenção do valor. Poderia se chamar “Cripto-Ouro” na boa e manter o mesmo significado.

Na minha opinião o crescimento do valor do BitCoin tem três marcos importantes: a)as novas regras de transparência para paraísos fiscais (2009, com a França, e depois com a UE, expandindo até as regras hoje existentes, que envolvem até a reticente Suíça),; b)a ascensão da grande corrupção internacional, na Rússia, Venezuela, e no Brasil, como “vice-líder” mundial, com seus petrolões, mensalões, etc; c)o narcotráfico, pressionado pelo rebaixamento dos “muros” dos paraísos fiscais, aqui mencionados.
A subida foi grande, as quedas têm sido vertiginosas, mas estranhamente nada ligado à segurança dos protocolos de criptografia ou à tecnologia BlockChain mesma.

Mas a razão do escrito aqui é outra: tenho a ligeira impressão de que o “piso” de preço das principais cripto moedas vai aumentar, de pouco a pouco, mas sempre gerando um nível basal cada vez mais alto. E a razão pode parecer cômica e prosaica, e peço a quem ler para me ajudar a clarear as ideias, caso eu esteja vendo fantasmas:

  • Cada vez que um traficante morre, corre o risco de levar consigo a senha ou chave de acesso a um caminhão de BitCoins em alguma conta, em lugar incerto e não sabido…
  • Cada guri que é pego com a mão na massa, sequestrando dados na web em troca de BitCoin, corre o risco de perder o acesso ao dinheiro “fabricado”…
  • Cada político corrupto enviado pra cadeia, ou traído pelos comparsas corre o risco de deixar a grana do partido pra lá, em detrimento dos agora inimigos…
  • Cada novo rico chinês fuzilado pelo partido por alguma razão qualquer vai deixar entesourada uma grana preta…

E por aí vai… Dia desses li em algum blog tecnológico uma situação em que alguém recebeu uma senha de sua conta em BitCoin e perdeu, ou esqueceu de onde pôs, bem ao estilo de um episódio antigo do The Big Bang Theory… hilário se não fosse trágico (para o perdedor). Mas o fato é que sem a senha, não há sequer a quem recorrer. Voltamos aos tempos em que o sujeito ganhava um saco de moedas de ouro, enterrava em alguma árvore e se esquecesse, já era – com a diferença de que no caso atual nem a chance de alguém achar e usar existe.

Pois bem… Imaginando que haverá uma quantidade crescente de cripto moedas “perdidas”, e que essas tenham um valor médio, base, de digamos US$ 2,000, mesmo que o mundo acabe e que a confiança de todos nas cripto moedas evapore, a cotação se manterá no mínimo dentro da média ponderada entre o total “perdido” e o total das criptos em circulação, com ou sem algum valor. Ou seja, o tempo se encarregará em que haja uma quantidade crescente e grande de “tesouros de pirata” perdidos em ilhas digitais escondidas e inalcançáveis.

Por Wesley Montechiari Figueira