Confiança


Episódios recentes ligados a fraudes no INSS, entre outras coisas, nos remetem à formação da Sociedade moderna, e como isso pode ser diretamente ligado ao conservadorismo, não como coisa poeirenta e reacionária, mas diretamente às leis fundamentais do comportamento.

Uma dessas leis parece ser a da Confiança.

Jordan Peterson, psicólogo e escritor canadense, falou algo outro dia, em um de seus podcasts, e que me deixou pensando mais de um dia inteiro sobre o conceito:

“A única verdadeira riqueza natural de um povo é a Confiança”

Jordan B Peterson em um de seus podcasts…

Só Confiança

No fundo, e na raça, trata-se de entender que não importa quanto ouro, prata, terras raras ou mesmo tecnologia e avanços científicos um povo possua, nem mesmo o grau de escolaridade de sua população. Um povo será pobre sem confiança.

O capeta (desculpem usar o termo mais chulo possível sobre o “ser” – se algo pior existir, me avisem que uso) quer, de fato, solapar a confiança entre uma e outra pessoa. E faz isso da forma mais básica possível: pela traição social.

Uma sociedade sem confiança é uma sociedade que trai. É uma sociedade cujo simples ato de ir e vir se torna um desafio. O ato de pagar impostos, uma ofensa pessoal (devido ao uso, ou mau uso). O ato de ir à igreja uma coisa horrenda (pois há sempre os falsos mestres). O ato de se juntar em família, uma tortura (pois antes do amor entre seus membros, há o dissenso sobre qualquer tema.

Enfim, uma sociedade que se canibaliza, que se auto inflige machucados e enfermidades, é uma sociedade fadada ao fracasso.

Nem Japão nem Brasil

O Brasil é saudado como um dos países com maiores riquezas naturais do mundo. O Japão é tratado como exemplo de superação e cuja falta de recursos minerais e área agricultável jamais estiveram entre si e o progresso de seus cidadãos.

Pela ótica de Jordan Peterson, nem o Brasil é pobre porque tem recursos e os usa mal ou o Japão porque não os tem e usa o que tem de forma adequada. O que diferencia a sociedade japonesa da nossa é outra coisa: confiança.

A confiança de deixar a bicicleta na rua sem ser roubada; de poder contar que o pedreiro fará o serviço para o qual foi contratado; a confiança de saber que o professor de matemática de seus filhos estará ensinando matemática e não qualquer outro “conhecimento” que não seja aquele cujo currículo a sociedade aprova e aplica.

Brasil e Japão não são diferentes sequer pelo grau de educação de seus povos. Talvez, sim, porque na raiz do processo educacional de boa qualidade esteja “ela” mesma, a confiança. Afinal, o conceito aqui é o de que não há nada decente que seja construído numa sociedade que não o tenha por base a confiança.

Confiança como Capital Social


Por Confiança Social quero dizer a expectativa de que as pessoas agirão de maneira honesta, previsível e cooperativa. Como dissemos, o pedreiro (esse ser que, quando se encontra um bom, devemos tratar com máximo respeito, apenas por fazer seu trabalho), quando nos inspira um mínimo de confiança, facilita acordos, contratos, inovação e cooperação. Obviamente isso reduz custos de “transação social” e estimula aprosperidade.

Sem confiança, tudo precisa de verificação constante, mecanismos legais caros e a sociedade fica travada em desconfiança — dificultando o progresso da sociedade.

Base em Economia e Sociologia

Essa visão de Jordan Peterson conversa bem com estudos de economia institucional (como Francis Fukuyama em “Trust”). Fukuyama, o mesmo do malfadado “Fim da História” nos mostra que sociedades com alta confiança (“capital social”) atingem maior desenvolvimento, de forma mais barata e rápida.

Países mais corruptos ou violentos, como é o nosso caso, têm baixo grau de confiança social. Mesmo com recursos naturais abundantes, não conseguem paz e prosperidade social. O Rio de Janeiro continua lindo. É um fato. Mas quem é que se sente em paz, realizado ou plenamente seguro no Rio? Eu sou de lá, amo o lugar, mas não voltaria a morar lá, se puder evitar.

Fundamentos Psicológicos e Filosóficos

Jordan Peterson enfatiza que a confiança permite algumas dinâmicas sociais e econômicas:

  • Inovação e risco: Pessoas só inovam se confiam que não serão injustamente prejudicadas. Um sistema de patentes adequado, proteção à propriedade privada e incentivos à inovação, como simplificação e barateamento do processo burocrático, tornam a inovação algo mais comum, e o risco associado a inovar mais compensador.
  • Sistema judicial: Só funciona se todos acreditam que será justo. Aqui no Brasil, esta base de confiança tem sido constantemente solapada. A Constituição, criada para ser uma âncora que nos dê um ponto fixo que nos permita, a todos, sem exceção, termos nossos atos comparados e justamente “julgados” deixa de existir a cada dia. O que ontem era de um jeito, hoje, sem consenso, sem voto, sem pé nem cabeça, deixa de sê-lo. A tristeza da população sobre isso só aumenta a desconfiança. E isso tem resultados funestos, a curto e longo prazos.
  • Mercado: Só há um mercado funcionando eficientemente se a palavra dos participantes vale. Contratos devem e precisam ser honrados. A vontade das partes não pode ser mudada por desejos individuais de julgadores, exceto se a lei diz algo em contrário. Ricos e pobres devem ser iguais, de fato, no cumprimento de contratos. Quanto mais livre um mercado, mais eficiente e mais barato ele é, e o benefício é da sociedade.

Isso também está relacionado à honestidade individual: quanto mais as pessoas agem com integridade no cotidiano, maior a confiança geral. E onde se formam os conceitos de confiança e honestidade? Você já tomou um tabefe no traseiro porque falou uma mentira, roubou algo ou deixou de cumprir uma ordem dos pais? Eu já, dezenas, talvez centenas de vezes.

O conceito bíblico de:

“Ensina a criança no caminho que deve andar, e mesmo quando for velha não se desviará dele” (Provérbios 22:6)

Implica na criação e manutenção de uma forma de ver o mundo baseada nos valores de seus pais. Hoje, a sociedade está sendo roubada desta possibilidade de transmissão de conhecimentos e valores. Medidas estatais visando transformar os filhos da sociedade em “adotivos” do estado estão sendo propostas. Como toda idiotice, uma hora alcança o sucesso numa sociedade desconfiada e dividida.

A confiança é tudo o que precisamos construir, em uma sociedade como a nossa, na qual é mercadoria escassa. Como? Claro que começa em nós, oferecer confiança.

Eu me proponho a oferecer confiança a quem se relacionar comigo. Não perfeição, não bom mocismo, não uma cara agradável. Confiança. Afinal, como diz o Sermão do Monte:

Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não, porque o que passa disso é de procedência maligna.

(Mateus 5:37)

Aliás, a grande mudança, a grande revolução introduzida pelo cristianismo no mundo foi, claramente, a confiança social. Ao dizer que sim é sim, não é não, roubar é ruim, e demonstrar inequivocamente que eu trabalho ativamente para o bem do outro, eu aos poucos introduzo um conceito que é ao mesmo tempo alienígena ao homem comum, como extremamente poderoso.

Ao fazer, vez após vez, exatamente o que Cristo ensinou nos evangelhos, eu acabo de fato “amontoando brasas de fogo” sobre a cabeça da sociedade (a sociedade passa a ficar meio que “vermelha de vergonha” por suas atitudes menores).

Façamos o bem a todos, entreguemos confiança à sociedade, e ela acabará (talvez não na nossa geração, mas com toda certeza) por gerar uma sociedade melhor.

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