
Passei as últimas duas semanas em uma extensa e cansativa viagem ao outro lado do mundo. Shenzen, Shangai e Beijing, além de rápida passagem por Hong Kong, me deixaram pensativo sobre este país estranho (para nós), e fascinante.
Não foi minha primeira viagem para lá, mas poderia se dizer que sim. O país que encontrei em 2026 nada tem a ver com as versões de 1999 ou 2008. Não restou nada do smog (fumaça) nas cidades, do barulho do trânsito ou das cusparadas no chão que tanto davam nojo e irritavam. Ainda restam as cotoveladas (para ganhar espaço) e o relativo desrespeito pela fila. Cidades mais silenciosas, povo mais cordato, limpeza geral igual à Suíça, e, mais do que nada, muito, muito consumismo.
Surpresas Positivas
Não só a limpeza e silêncio gerado pelas scooters e carros elétricos, hoje a grande maioria da frota do país, fui surpreendido por um capitalismo que coloca muitos dos países ocidentais no chinelo. Barganhas ferozes entre compradores e vendedores, turismo interno intenso, um shopping mais bonito, maior e mais opulento que o outro, em quantidades novaiorquinas, entre outros indicadores de opulência e status de potência internacional.
Rodovias e ferrovias impecáveis, canteiros de plantas para onde se olha, e muita marca ocidental. Isso por si só nos levaria a pensar em um país quase que ocidentalizado, e que haveria rejeitado princípios do comunismo clássico. Não vou tão longe em dizer isso. No entanto vou citar quase que textualmente o que me disse um morador de lá (não cidadão chinês, mas que lá vive há anos): “A China deu a seu cidadão médio um padrão de vida mais alto do que em qualquer ponto de sua história. Será muito difícil retirar este padrão, ou baixá-lo, sem uma grande comoção social”. Se isso for verdade, se traduzirá em uma tendência a um capitalismo continuado, ainda que centralmente dirigido.
Surpreende mais ainda um Tributo sobre o Consumo de 9% (apenas) comparado com os 28% ou mais que nos será imposto quando da implementação total do novo sistema de IVA dual no Brasil. Ou seja, mesmo a China, teoricamente comunista, tem menos carga tributária sobre o cidadão do que o Brasil, teoricamente republicano.
Surpresas Sociais
Em nossa estada ali, fomos ciceroneados por muitos jovens profissionais, extremamente informados e interessados no ocidente. Mas com um orgulho de seu país que não condiz com uma situação tão repressiva quanto se poderia imaginar. Obviamente que se alguém corre algum risco social, vai se manter dentro de uma linha de conduta mais pró-governo, mas não posso afirmar que isso foi o que aconteceu.
Chamou a minha atenção o profissionalismo e interesse no futuro desses jovens. Aliás, o inglês deles e o conhecimento geral também são atrativos à parte. O contraste com um país como o nosso, em que a juventude está sendo alienada pela seu próprio processo educacional é gritante. O chinês médio parece estar agindo e trabalhando como nossos Baby Boomers. Duro e com um senso de missão que hoje parece que perdemos. Parecem ser pessoas mais pensativas e resilientes, mais dados a sacrifícios por uma carreira e futuro, mais senso de família, menos droga, menos desperdício de tempo.
A Quarta Estrela da Bandeira
Juro que regressei com um conflito entre o que vi e o que se relata aqui no ocidente. Passei a revisar, e continuo revisando, o que realmente se passa no nível de governo de lá. Creio que é claro que são controlados centralmente, e que hoje o comunismo está muito mais no nível do controle social do que econômico – coisa que até o Brasil poderia aprender – se imiscuir menos na atividade econômica e tributar menos, deixando o povo mais livre para empreender.
A bandeira chinesa possui uma estrela grande – o Partido Comunista Chines, ou, de resto, a própria China, e 4 estrelas menores, diz-se que representando o campesinato, os trabalhadores urbanos, a Burguesia urbana e a Burguesia nacional (não ligada ao “imperialismo internacional”). Deng Xiaoping, o arquiteto do atual desenvolvimento chinês, deu ênfase justamente à burguesia, considerando que sem ela, não há comunismo possível. Certo, sempre há que se ter quem espoliar, para poder manter o poder.
Então o comunismo deu certo na China? Duvido que se possa dizer isso. Mais certo seria dizer que o capitalismo permitiu a existência de um regime de planificação central. O que dá certo são regras claras (o que, a despeito de algum nível de desrespeito pelos direitos humanos, conforme nós o entendemos no ocidente, a China possui), o que dá certo é a certeza de que o cometimento de atos lesivos ao interesse coletivo serão punidos, sem direito à politicalha.
O que deu certo na China, desde que Xi Jinping ascendeu ao poder foi uma mistura de rigor contra a corrupção, foco na educação e liberdade para empreender.
Como é que existe propriedade privada num estado comunista? Pelo que ouvi e pude constatar, a China permite que áreas rurais sejam de propriedade privada. A razão para isso é para tentar trazer os trabalhadores de volta ao campo. A propriedade urbana, em tese, é do Estado. O estado não te “vende”, mas te permite usar por um período de 70 anos, renováveis (creio). Além disso, pode-se comprar e vender esses direitos a valores de mercado, renovando o período de posse. Ou seja, para a maioria dos seres humanos, isso é, na prática “possuir”. Somos “donos” de que, mesmo no ocidente? De nada, diria eu, exceto o direito de posse e de vender o ativo. Essa é toda a diferença? Não sei, mas continuo a estudar o assunto.
Não pretendo me tornar um Cinófilo, em nenhum dos dois sentidos – estudioso da China, nem grande amigo. Porém, dissipei alguns temores, e criei outros. O principal deles é que, a continuar a tendência, teremos uma “Idiocracia” cada vez mais no ocidente, com um nível de corrupção política indizível, e cidadãos deseducados, contra uma China bem gerida e com cidadãos pensantes.
Alea Jacta Est, ocidente.
