Capitalismo versus Democracia na China

Uma consulta rápida em artigos acadêmicos e até uma pergunta complexa e bem formulada a uma IA me retorna alguns fatores que, em boa medida, posso comprovar pela minha recente visita à China, e que me está dando o que pensar.

O Pacto

Após a morte de Mao Tse Tung, e seu (na minha opinião) desastrosa política social, que levou milhões à morte pela fome, seu sucessor, Deng Xiaoping tratou de mudar o conceito da China moderna, com a inclusão da “burguesia” como fator de geração não somente de riqueza, mas de meios para sanar a miséria sistêmica dos anos de “Comunismo Raiz” de Mao.

Deng modernizou a China e, agora por cerca de 40 anos, o tal pacto continua forte, a despeito de muitas ameaças. Qual é o pacto, segundo a minha IA:

O Estado entrega:

  • crescimento econômico;
  • redução da pobreza;
  • estabilidade;
  • segurança;
  • infraestrutura;
  • ascensão nacional.

Em troca, a população aceita:

  • monopólio político do Partido;
  • restrições à liberdade de expressão;
  • ausência de eleições nacionais competitivas;
  • censura;
  • vigilância.

E de fato, nenhum país tirou tanta gente da pobreza como a China nos últimos anos. Claro que a entrada na Organização Mundial do Comércio (apoiada pelo Brasil, inclusive) foi o passo mais importante para tornar a China o que é hoje: fonte de 70% de toda a manufatura mundial e somente de 30% do consumo, ou seja, cerca de 40% da manufatura chinesa inunda o mundo, traz superávits comerciais enormes ao país e dá a condição de colocar comida na mesa de mais de um bilhão de almas.

O Dilema

Kissinger esperava que com a distensão com os EUA a China acabasse se tornando um país mais democrático. A crença ocidental, ou melhor, de boa parte dos governos ocidentais sempre foi a de que com a riqueza, a democracia representativa acabaria por prevalecer. Não aconteceu na China, por enquanto.

Xi Jinping aposta num fator chave: o fato de que o povo prefere a afluência ao voto, e que, no fundo, o sistema político chinês acaba por ser meritocrático, antes de ser democrático.

Convenhamos: a democracia do ocidente está em crise. Que digamos nós, brasileiros, submetidos a uma cleptocracia do executivo e do judiciário, somada a uma omissão quase total do legislativo. Os EUA se encontram rachados no meio em termos políticos. A Europa patina em bizarrices como dar casa e comida de graça pra imigrantes ilegais e francamente litigiosos contra os valores da EU. Qual foi a última vez que vimos o sistema político de algum país ocidental ser exaltado por suas qualidades, méritos e virtudes?

No Brasil, principalmente, fica claro que vai para a política, com a exceção possível do Partido Novo, gente desqualificada, capaz de tudo. Aliás, lembro bem da frase de Winston Churchil (creio) sobre o Parlamento:

“Metade deles é incapaz; a outra metade é capaz de tudo”…

Mas não nos iludamos. Não faz muito tempo víamos uma outra China. Lembro bem logo depois da morte de Mao quando sua viúva e vários outros “dignitários” (Jiang Qing, a viúva de Mao, mais Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan, Wang Hongwen) formaram o que se convencionou chamar de “A Gangue dos Quatro”. Até bem recentemente os casos de corrupção abundavam na China, quanto Xi resolveu combater “tigres e moscas”, sendo “tigres” os grandes líderes e as “moscas” os burocratas menores corruptos. A mensagem era –
ninguém estaria imune ao processo de limpeza. Isso começou em 2012 e ainda continua acontecendo. Recentemente dois oficiais generais do Exército do Povo foram condenados à morte por corrupção.

O processo de mudança foi até ao comportamento diário do chinês (cuspir no chão, entre outras práticas) e atitudes ante o trabalho. Entre minha última ida ao país no início do Século e esta, vi algo extraordinário: uma mudança que eu nunca esperaria. Muitas coisas para melhor, nem todas.

Como ocidental, considero a liberdade um valor fundamental do ser humano, e eu não abriria mão da minha em troca de estabilidade política comida. Mas não vou julgar o próximo, pois não vivi o “grande salto adiante” e outros períodos da vida chinesa, que podem perfeitamente bem justificar a troca de afluência pela obediência.

O Medo do Ocidente

Sim, o ocidente tem medo da China, por várias razões – a belicosidade em relação a Taiwan, a agressividade nos negócios externos, entre outros fatores. A China por suas vezes, reluta em admitir adesões a valores do ocidente, mas não dá para negar isso em todas as esferas – que o diga a adesão a um sistema internacional de contabilidade, o IFRS, bastante claro e rígido, além de uma formação técnica de auditores e contadores com base nisso, que em muito excede, ou parece exceder, os padrões de formação exigidos desses profissionais aqui no Brasil, por exemplo.

Mas cá entre nós, o ocidente tem mesmo que ter medo, quando o estudante médio chinês dá um couro em quase qualquer nação ocidental, em matemática e redação, por exemplo. Mais grave, reconhecem e combatem a tendência ocidental de trocar o que é fundamental (ciência, rigor de pensamento, clareza de ações) por “sensações” e “realização”, antes da comida na mesa. Não gosto nem um pouco de ver nossos “floquinhos de neve” derretendo quando exigidos mesmo que de leve, no cumprimento de suas funções. É extremamente preocupante ver que boa parte da juventude está mais interessada em Tik-Tok, em ser “Influencer” ou qualquer outra coisa, em vez de colocar o traseiro numa cadeira e pensar, estudar, criar e produzir.

O ocidente vê suas universidades invadidas por temas imbecis, por passeatas ridículas, por “ambientes seguros”, por não-me-toques e coisas absurdas, em vez de cultivar o saber. Universidade deixou de ser lugar de buscar-se a verdade e passou a ser um lugar de protestos risíveis, quase sempre para o lado errado.

Enquanto matamos bebês, os chineses acabram com as restrições à natalidade e a estão incentivando. O medo, portanto, é fundamentado, e para resolver o problema não devemos atacar os chineses. Exceto pela tal falta de liberdade, na conduta pessoal talvez devêssemos imitá-los.

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