Fé e Escolha

Comprei um livro supostamente “evangélico” há algum tempo e francamente, após ler cursivamente alguns capítulos, confesso que desisti. Voltei a ele, para não deixar algo inacabado, mas de novo, confesso que a contragosto.

O título do livro “Oração de Petição” é um tanto enganoso quanto ao que conclui. No fim das contas, o livro diz que, “estatisticamente”há 50% de chances de uma oração ser ouvida, e por isso, não se poderia afirmar que Deus atende orações (nem que não atenda). É uma conclusão correta, embora a causa dada à conclusão seja em minha opinião, equivocada.

Deus atende orações?

A Bíblia diz que Deus, sim, atende orações, em vários locais, do velho e do novo testamentos. Em momentos cruciais da história vimos Deus intervir com mão pesada e fazer Sua vontade ser feita, a despeito da oposição. Abriu o mar, ressuscitou gente, e mais recentemente, colocou una união de países para varrer do mapa o pior e mais sanguinário ditador que o mundo jamais viu, un cara de bigodinho ridículo. Não se iluda – só com a mão de Deus por trás nos livramos de gente tão ruim.

Olhando minha própria vida em retrospecto, posso confirmar que em nenhum momento crucial Deus se furtou em deixar Sua marca indelével na minha história. Ele foi não “decisivo” apenas. Ele impôs Sua marca na minha vida, quando, por exemplo, decidiu que precisava mudar de emprego, nos anos 1980. Ele abriu as portas e dirigiu os passos, a despeito da minha vontade e inércia. Isso acabou abrindo caminho para que eu conhecesse minha esposa, em Quito, no Equador. Imaginem.

Quando perdi um determinado (bom) emprego, Deus me empurrou em direção a outra cidade, a despeito de minha vontade e inércia. Vim parar em Curitiba, e aqui fiquei até o dia de hoje.

Quando meu filho Ettore ficou doente, vindo a falecer anos depois, Deus não deixou que minhas orações alterassem o resultado da saúde do meu filho; por outro lado, essas mesmas orações foram ouvidas, quando pedimos por conforto nos nossos corações e continuidade do sustento em nossa casa.

Por essas e por dezenas de outras, eu sou testemunha viva de que sim, Deus atende orações. Sempre – ainda que nem sempre do jeito que queremos.

Deus quer acabar com a Fé, confirmando inequivocamente Sua existência?

Se Deus atendesse todas as orações, à lá Bruce Almighty (com Jim Carrey em “O Todo Poderoso”) a fé deixaria de ser necessária. Sem a necessidade de fé, estaríamos fadados ao tédio infinito, e a uma existência sem razão de ser: se Deus inequivocamente existe, então melhor morremos e vamos ter com Ele; se não existe, morramos pois, porque para que continuar a existir se tudo vira pó, somente? Essa tensão entre a certeza e a esperança é o que enche o ser humano de significado, em minha opinião.

E por que Deus escolheu que a fé seria essencial para se chegar a Ele? A resposta é talvez bastante óbvia: Deus escolheu criar um ser à Sua imagem e semelhança, o que implica, necessariamente, em livre arbítrio. Livre arbítrio perfeito só existe se o homem tiver um direito de escolha verdadeiramente livre. E para que isso aconteça, NADA pode fazer com que o homem penda para determinado lado – da crença ou da descrença – de forma inequívoca. É uma coisa meio quântica isso. É o ser-e-não-ser ao mesmo tempo; o dilema entre crer-se predestinado a algo e a certeza de que temos escolhas.

“Ah, mas Deus nos deu evidências suficientes de Sua existência”. Sim, e isso é parte do processo sutil de convencer o homem a crer nEle sem ter que enfiar Sua existência goela abaixo de todos nós. Mas evidências não são provas. Muitas vezes um juri chega a um veredito baseado em evidências, ainda que não hajam provas materiais.

É isso que Deus deseja dar a nós: um caminho limpo e sem impedimento para a fé ou para a falta dela. E isso só ocorre com a possibilidade clara do homem negar-se a crer. O que aliás, ocorre frequentemente.

A Bíblia fala sobre fé em vários momentos, e essa construção sistêmica baseada na Palavra nos leva às conclusões acima:

“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.”

(Hebreus 11:1)

” De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.”

(Hebreus 11:6)

“Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? “

(Romanos 8:24)

A Falta e o Excesso de Fé

Não só a falta de fé prejudica o ser humano. O excesso de fé também; ou a fé mal colocada. Recentemente, conheci duas pessoas criadas em lares cristãos que abandonaram a Fé por uma fé de matriz afro. Não julgo ninguém por suas decisões, mas posso perfeitamente concluir que não são boas, essas decisões, comparadas à luz da Bíblia.

Uma dessas pessoas me informa que sua religião afro era “monoteísta”. Criam em um único deus, mas tinham “entidades” ou forças representativas da natureza. A conclusão é óbvia e vale para qualquer religião que não seja centrada no Deus Único e Trino: não se pode colocar nada no lugar de Deus. Mais do que isso, como diria meu pastor, “por trás de cada falso deus existe um demônio verdadeiro”.

O excesso de fé é uma característica distintiva do nosso povo. Outro dia mesmo ouvi alguém dizer que estava “rezando para todos os credos, todos os santos” para que algo acontecesse. Eu tentei brandamente corrigir que só se ora a Um Deus; no que fui, obviamente, retrucado.

A Neutralidade da Fé no Caminho do Ser Humano

Não há, portanto, outra conclusão além de:

“De fato, o ser humano viverá nadando em evidências da existência de Deus, e sem nenhuma prova cabal, exceto a própria fé”.

Deus nos estaria negando livre arbítrio se nos desse provas. O mesmo vale para a oração. E vivamos com isso. É parte da nossa existência. Eu, de mim mesmo, prefiro viver na certeza inabalável de um Deus que responde orações, mas que jamais se curvará a ser meu “menino de recados”; Deus jamais se rebaixará a me atender, como um certo “bispo” bradou: “Deus é OBRIGADO a te atender, porque Ele disse que faria isso”.

Ora, Deus também disse que no mundo teríamos aflições, e que era para termos bom ânimo. Quem quer a parte ruim? Jó, famosamente exclamou:

“Mas ele lhe respondeu: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios.

(Jó 2:10 )

Os bispos da prosperidade deste mundo não são capazes de entender que Deus é soberano, e que na maioria das vezes nossos pedidos batem de frente com a vontade de Deus. Se Deus atende um pedido desses, o resultado é sempre o desastre para quem o recebe.

Portanto, a Fé continuará a ser um firme fundamento de coisas que absolutamente não se vêem, e prova de coisas que se esperam. Que possamos nos juntar à galeria dos Heróis da Fé, que não viram, muitas vezes, o resultado de sua fé em sua própria vida ou geração, como os milhares de mártires que ao longo dos séculos regaram o caminho da fé com seu sangue.

É duro, muito duro às vezes, principalmente no momento em que me encontro agora; mas é uma escolha consciente: viver por fé, e não pelo vistas.

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