
Meu pai dizia que se era para lhe prestar homenagens, que o fizessem em vida. Depois de morrer, ele aproveitaria menos. Sábias palavras. Por isso, decidi escrever um tanto sobre um dos meus economistas e pensadores mais queridos, Thomas Sowell. Meu objetivo aqui é levar você a se interessar por seus escritos e sua personalidade marcante e opiniões fortes.
Passar tempo com o Dr. Sowell como convidado especial, na minha “Man Cave” aqui de casa, nesse friozinho típico de Curitiba, é uma alegria. Thomas (acho que já posso falar com essa intimidade dele, já que acho que já passei alguns dias inteiros ouvindo ele “falar” a mim, através de seus livros) é um pensador, mais do que um economista. É um observador arguto da realidade, despido das baboseiras típicas da academia, focado na prática.
Ele é o arquétipo do anti-establishment. Menino negro, pobre, nascido em 1930 numa cidadezinha rural da Carolina do Norte, Gastonia, criado pelos irmãos mais velhos após ter perdido o pai e a mãe muito cedo, tendo mudado para o paupérrimo Harlem, Nova York, foi amado e nutrido pela família, o que não o impediu de sofrer tanto discriminação como os efeitos de uma infância cheia de privações. Terreno fértil para o radicalismo que vimos em um Jesse Jackson, Malcolm X e outros de origem semelhante. Nada disso “pegou” em Sowell.
Fuzileiro Naval, veterano da Guerra da Coréia, foi aluno de Harvard e Columbia, chegando a um doutorado pela Universidade de Chicago, aos pés do mestre do liberalismo econômico, o incomparável Milton Friedman. Exemplo de superação maior, difícil de encontrar.
Pensamento
Como quase todo negro, pobre e periférico dos EUA, começou sua formação como esquerdista. Chegou mesmo a simpatizar com o Marxismo, como ele mesmo confessou, um tanto quanto envergonhado, parece. Mas o intelecto poderoso e a formação logo fizeram a diferença, e começou a perceber, à medida em que estudava, que as intervenções do estado na economia, principalmente os ditos “programas de incentivo” costumavam ter o efeito oposto do que se propunham: mais pobreza, segregação e imobilidade social, em vez dos objetivos desejados. Concluiu então que políticas “de cima para baixo” acabam por planejadores estatais quase sempre dão errado. Parece que para Thomas Sowell, economia não é essencialmente sobre dinheiro, mas sobre escolhas – decisões feitas sob situações de restrição.
Thomas Sowell insiste, até hoje que pessoas respondem a incentivos; que boas intenções não garantem resultados positivos; que sempre existem custos ocultos nos processos “de cima para baixo” e principalmente que, TODA decisão envolve trocas, “trade-offs” como ele as chama – como diria minha querida Profe, Tia Rosangela Pinel, “ou compra o doce ou guarda o dinheiro”.
Aliás, uma de suas frases mais conhecidas é justamente sobre isso:
“Não existem soluções. Existem apenas trade-offs.”
Ele expande esse conceito e fala com muita propriedade dessas escolhas em sua obra mais conhecida, Basic Economics.
Crítica ao intelectualismo político
Thomas sempre desconfia dos intelectuais, assim como quase todos os verdadeiros pensadores. Joãzinho Trinta, mestre das escolas de samba, já triscava o tema quando disse, de forma muito engraçada e apropriada:
“Pobre gosta de Luxo; quem gosta de miséria é intelectual”
É ou não é verdade? “Eu odeio a classe média“, “queremos acabar com a família tradicional” e outras pérolas do pensamento intelectual obtuso atual falam muito sobre esse conceito que Sowell estudou: há uma intelectualidade ligada diretamente à cretinice, sem um mínimo de análise da realidade fática. É uma intelectualidade que deveria ser desprezada, mas que é louvada nas torres de marfim do mundo ocidental.
Em “Intellectuals and Society”, Thomas argumenta que intelectuais frequentemente influenciam políticas públicas sem sofrer consequências diretas pelos erros que cometem. Ele distingue quem toma decisões reais sob risco e quem formula teorias sem responsabilidade prática. Ele fala sobre a diferença que existe entre as consequencias do erro de um engenheiro e o de um planejador estatal: o primeiro, se vê sua ponte cair, está ferrado profissionalmente para o resto da vida; o segundo, sequer fica sabendo que errou, exceto depois de anos, décadas, em que não se consegue nem ligar diretamente a bobagem feita aos efeitos nocivos deixados.
Thomas é um crítico permanente de burocracias centralizadas, planejamento estatal, engenharia social e utopias políticas. Isso me deixa pensativo, entre o que vi na China, e relatei em dois artigos recentes, e o fato de que, no ocidente, de fato, Sowell tem sobejas razões para sentir que se um planejador central propõe algo, miséria, centralização de poder e renda e baixos resultados positivos (se existirem) são a consequência.
Cultura e Sesempenho Social
Thomas Sowell sai do campo da economia quando escreve alguns de seus livros mais contundentes, como “Race and Culture”, “Black Rednecks and White Liberals” e “Discrimination and Disparities”. Ele argumenta que diferenças de desempenho entre grupos humanos nem sempre decorrem diretamente de discriminação. Segundo ele, fatores culturais, históricos, geográficos e institucionais têm peso enorme. Esse ponto tornou Sowell figurinha carimbada nas rodas de “cancelamento” da esquerda dos EUA, especialmente em debates sobre racismo estrutural, ações afirmativas, desigualdade racial e educação pública, temos caríssimos aos “despensadores” da elite educacional daquele país. Vamos por partes.
Educação
Sowell criticou fortemente o sistema educacional americano. Ele defende a meritocracia, a disciplina acadêmica, padrões objetivos de avaliação e performance e a competição entre escolas como forma de aumentar o sarrafo da qualidade acadêmica. Ele ainda criticava e critica a politização do ensino, a queda de exigência escolar, a burocratização universitária e a substituição de conteúdo educacional por ativismo. Parece algo que tenhamos aqui no Brasil? ah, sério?
Questão Racial
Sendo negro, poder-se-ia dizer que Thomas tem “lugar de fala’, né? Mas um aspecto singular é que Sowell é um intelectual negro conservador num ambiente acadêmico predominantemente progressista e isso lhe rendeu destaque público, nem sempre positivo. Para setores conservadores, Sowell representa aindependência intelectual. Para seus críticos, suas posições minimizam problemas estruturais ligados à raça. Ele muitas vezes rejeitou a ideia de falar como “porta-voz racial”. Ele insiste em análises históricas e econômicas mais amplas, e que dão base a suas conclusões que, por acaso ou não, envolvam raça.
Estilo Intelectual
Ler Thomas Sowell é alegre e divertido. Ele escreve de uma forma que é bastante incomum para um acadêmico: linguagem simples, exemplos históricos bem fundamentados, muitos dados comparativos e pouca teoria excessivamente abstrata são sua marca. Isso “dói”, ou deve doer, em seus detratores. Ele não fala como um Paulo Freire da economia, de um jeito hermético e tão rebuscado que tira de jogada o objetivo. O exemplo Paulo-Freireano abaixo diz muito sobre o que Thomas de fato NÃO é:
“É na inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente.”
O que o infeliz quis dizer com isso? Não consegui saber até agora, e duvido que alguém, mesmo que tenha entendido, possa usar de forma prática para qualquer (QUALQUER) objetivo. Thomas Sowell vai na direção oposta:
“Pessoas que gostam de reuniões não deveriam estar no comando de nada.”
Tipo Corte Seco Tramontina – chega a não ser “acadêmico”, mas certamente presta um serviço ao entendimento da vida, em geral, e da economia, em particular. Fazer é melhor do que falar. Não tem nenhuma “inconclusão do ser” aqui.
Ele também utiliza frequentemente comparações internacionais e históricas para mostrar que fenômenos sociais semelhantes ocorreram entre povos muito diferentes.
Minha Gratidão
Deixo, assim, minha gratidão a esse monstro sagrado que, do alto dos seus 95 anos, ainda dando entrevistas lúcidas e válidas, como as recentes, ao Hoover Institution, continua a me inspirar. Alguém correria atrás de autógrafos de influencers ou personalidades caricatas da mídia, uma Xuxa, um imitador de foca qualquer. Eu confesso que atravessaria um aeroporto inteiro, só para tirar uma foto e pedir autógrafo em um livro (compraria qualquer um dele, numa livraria qualquer, só para esse fim), se soubesse que guardaria desse herói incomum e improvável, uma lembrança tangível do pensador que no ocaso da vida, insiste em ser uma voz da prática, da lucidez e do bom senso, num mundo quase perdido para a imbecilidade.
