ONU versus ONU

brown concrete building under blue sky during daytime
Photo by Tomas Eidsvold on Unsplash

https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/coronavirus-pandemia-fome-alerta-agencia-da-onu/

A Gazeta do Povo de hoje repercute a matéria que já está na boca de muitos, por aí, e se refere à “guerra” entre a OMS e a PMA (Alimentos), por conta da crise do COVID-19. David Beasley, diretor do PMA – Programa de Mundial de Alimentos, da FAO, disse:

“Se não nos prepararmos e agirmos agora, para garantir o acesso, evitar déficits de financiamento e interrupções no comércio”, o resultado pode ser uma “catástrofe humanitária… em poucos meses”.


A ONU demonstra à ONU que a ONU está errada. A ONU do alimento mostra à ONU da saúde que há um erro grave de estratégia. Enquanto isso, na Bat-caverna chamada de Brasil, continuamos a brigar com o executivo por conta da simples “menção” a este fato…

Não que isso vá em nada ajudar aos contra e a favor de isolamento a pensarem “fora da caixinha”, como virou clichê, mas é importante dar elementos de julgamento para depois não vermos mudada, a golpes de tacape da imprensa mainstream, a narrativa em torno de “quem disse o que”, como fez recentemente João Dória, tomando posse, ou melhor, dando a posse a David Uip, e paternidade do uso de Hidroxicloroquina… Não que isso faça qualquer cócega na consciência de político, porque não ter consciência parece ser pré-condição para o sucesso na política, mas é preciso deixar registrada a linha da narrativa hoje, para que daqui há 12 meses alguém não assuma a paternidade da defesa da economia, vis-à-vis a pandemia, como certamente ocorrerá.

Quem viver (literalmente) para contar poderá revisitar o artigo (este e aquele) e comparar o que aqui e lá foi escrito com as palavras dos governadores, ora inclusive imbuídos, em boa maioria, de pichar “cartas abertas” e manifestos oportunistas, vergonhosos e contraproducentes.

Será que em Harvard acreditarão?

https://dash.harvard.edu/bitstream/handle/1/42638988/Social%20distancing%20strategies%20for%20curbing%20the%20COVID-19%20epidemic.pdf?sequence=1&isAllowed=y

Recebi o link acima de um amigo empresário que, como todo mundo com contas a pagar e sem um patrão-estado, está preocupado com o alongamento desta tranca imposta à população de forma indiscriminada, gostaria de transcrever abaixo, em tradução livro, um trecho do “paper” publicado pela Universidade de Harvard, cujo link pode ser facilmente acessado, acima, com acesso a todo o dito material. Depois, meus comentários:

“Para simulações com isolamento sazonal, o pico ressurgente pós-intervenção pode exceder o tamanho da epidemia irrestrita (Figura 2, Figura S5 [vide link acima]), tanto em termos do pico de prevalência quanto em termos de número total de infectados. O forte distanciamento social mantém uma alta proporção de indivíduos suscetíveis na população (grifo meu), levando a uma epidemia intensa quando R0 (N.T. “basic reproduction number”, ou número básico de reprodução) aumenta no final de outono e inverno. Nenhuma das intervenções pontuais foi eficaz na manutenção do prevalência de casos críticos abaixo da capacidade de cuidados intensivos.”


“O distanciamento social intermitente pode impedir que a capacidade de atendimento crítico seja excedida (Figura 3, Figura S6). Devido à história natural da infecção, há um atraso de aproximadamente 3 semanas entre o início do distanciamento social e o pico da demanda de cuidados críticos. Quando a transmissão é forçado sazonalmente, o distanciamento social no verão pode ser menos frequente do que quando R0 permanece constante em seu valor máximo de inverno durante o ano. O período de tempo entre medidas de distanciamento aumentam à medida que a epidemia continua, à medida que o acúmulo de imunidade a população retarda o ressurgimento da infecção. Sob as atuais capacidades de cuidados intensivos, no entanto, a duração geral da epidemia de SARS-CoV-2 pode ir até 2022, exigindo a adoção de medidas de distanciamento social entre 25% (no inverno R0 = 2 e sazonalidade, Figura S3A) e 70% (para o inverno R0 = 2,5 e sem sazonalidade, Figura S2C) desse período.”

E agora? O que pensar? O estudo continua:

“Um único período de distanciamento social não será suficiente para impedir que as capacidades de cuidados críticos sejam ultrapassadas pela epidemia de COVID-19, porque, sob qualquer cenário considerado ela deixa boa parte da população suscetível que um ressurgimento de transmissão após o final do período levará a um número de contágios que excederá essa capacidade. Esse ressurgimento pode ser especialmente intenso se coincidir com um aumento de inverno no R0. O distanciamento social intermitente pode manter a ocorrência de casos críticos de COVID-19 dentro das capacidades atuais do sistema. Essa estratégia, porém, pode prolongar duração total da epidemia até 2022. O aumento da capacidade de cuidados intensivos reduz substancialmente a duração geral da epidemia, garantindo cuidados adequados para quem estiver gravemente doente.”

Em síntese, a brilhante conclusão a que Harvard chegou, com método científico e uso de equações diferenciais, nos leva a concluir exatamente o que boa parte da população intuitivamente crê: que confinar indefinidamente, sem haver vacina, é contraproducente.

Além disso, o estudo coloca um peso enorme no clima, sobre as decisões. Como já disse em outro post, o hemisfério sul está em exata contraposição ao norte, onde esses estudos estão sendo feitos, e onde as “medidas que deram certo” (ou errado) foram tomadas primeiro. Em nossa sanha de não pensar por conta própria e não interpretar resultados antes de sair agindo igual doidos, esquecemos que rumamos para o INVERNO, e estávamos em pleno verão quando essa folia começou. Ou seja, fizemos o contrário do que Harvard preconiza, e que o demonizado presidente justamente dizia que éramos para fazer.

No mais, se alguém quiser brigar comigo, não o faça. Brigue com o estudo aí em cima.

O frágil equilíbrio econômico

boy holding stock pot
Photo by Muhammad Muzamil on Unsplash

Uma economia pujante é como uma vaca premiada. Ela dá muito leite, é bonita e dá retorno ao dono. Mas geralmente é um animal frágil. Qualquer economia, mesmo se ligeiramente maltratada, tende a murchar e morrer.

A vida econômica é como o sistema sanguíneo – um sistema de vasos comunicantes infinitos, cujo vai-vem de “nutrientes” que mantêm a vida. Qualquer interrupção nesse sistema provoca confusão, doenças e males que levam até facilmente à morte.

Independentemente de se você é contra ou a favor de restrições às movimentações de pessoas, #fiqueemcasa ou #obrasilnaopodeparar, o que escrevo aqui nada tem a ver com seu ponto de vista. É uma constatação às vezes difícil de engolir.

A história demonstra que a supressão de fluxos comerciais ou da circulação de bens e serviços, mesmo por curto período, sempre gerou catástrofes. Apenas para citar algumas:

  • O “grande salto adiante” (China, 1958-60) foi a tentativa chinesa, no início da dominação comunista, de criar uma indústria de base e uma agricultura de bases centralizadas. O planejamento feito em Pequim, por burocratas, deu tão errado que causou a morte de mais de 100 milhões de pessoas, de fome – produtos ruins e caros chegavam a uma população empobrecida;
  • O “Gosplan” (abreviação de Comitê Estatal de Planejamento) instituiu na União Soviética, os planos quinquenais, entre 1921 até a derrocada final do regime, em 1991. O sistema de planejamento quebrou a espinha dorsal da produção e levou a Rússia ao caos econômico e à sua ruína. Isso pra não falar o Holomodor, uma chacina de camponeses impedidos de produzir, que gerou quebras de safras e efeitos em cascata de fome e destruição;
  • Os planos de safra em Cuba – A criação do Ministério do Açúcar define bem o nível de dirigismo dessa economia, e por que a economia cubana dependeu tão profundamente da URSS. Ainda hoje os efeitos das quebras de racionalidade nas transações vindas daí cobram um preço no baixo crescimento da economia cubana (a despeito da propaganda em contrário e das estatísticas “oficiais”).

Esses artificialismos econômicos não ocorrem só em países socialistas. Entendo que a OPEP é uma forma artificial de controle de preços que quebrou cadeias produtivas no mundo e gerou duas crises (choques do petróleo) de grandes proporções. Qualquer cartel é um artificialismo que gera pobreza. A política dos “campeões nacionais” de triste e recente memória no Brasil é outro exemplo trágico.

Independentemente de sua preferência durante esta crise da COVID-19, e independentemente do seu nível de hipocondria (que eu creio que direciona mais as ações e opiniões do que outros fatores), a economia continua sendo uma “vaca premiada”, que adoece por qualquer coisa e corre risco de morrer. As recentes intervenções na economia, começando pelos PNDs no Brasil (Planos nacionais de desenvolvimento), ainda nos governos militares, passando pelos planos de estabilização econômica, foram coroados nos anos Lula/Dilma pela intervenção maciça na economia, que nos levou a uma recessão que encolheu o PIB em mais de 10% em 2 anos, o que pode dar “2 Covids”.

Assim, dada a fragilidade das trocas econômicas, das cadeias de produção, dos fluxos de dinheiro em circulação (e em poder de quem precisa, a população de mais baixa renda, não empregados do governo), precisamos desesperadamente de deixar a economia fluir TANTO QUANTO possível. Claro, com todo cuidado, com prevenção e isolamento social (3 metros ou 30 Km dá no mesmo) deve ser tomado. Tem que ser absolutamente rígido nisso. No entanto, já vemos começar o esgarçamento do tecido econômico aqui e acolá.

Para se ter uma ideia do tamanho do problema econômico, os zilhões gastos até agora pelo Governo para tentar minimamente remediar a situação dos mais fragilizados não vai dar pra resolver a vida nacional por mais do que algumas semanas. E isso ocorrerá à custa de um aumento brutal no déficit público. O tamanho da economia é desproporcional à capacidade do governo – qualquer governo – em suprir a diferença gerada pela quebra de cadeias econômicas inteiras.

Por enquanto estamos rumando para dois tipos de caos – de saúde e econômico. Resta saber qual matará mais. Aposto no econômico (com tristeza por ambos)…

Liberdade é liberdade financeira

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Photo by Kristina V on Unsplash

Há anos, quando eu tinha uns 17 anos, meu tio Roberto, irmão da minha mãe, e o sogro dele, Frank, me deram uma carona, de carro, de minha cidade natal, Cordeiro, para o Rio de Janeiro, onde eu recomeçaria a estudar e começaria a trabalhar de balconista na farmário Biscaya, do meu outro tio, Aluízio.

No meio do caminho, paramos para comer um pastel num local chamado Cachoeiras de Macacu, e lá ouvi um conselho que não esqueci nunca, e que, na minha opinião, deveria ser a mola mestra da vida profissional, financeira e pessoal de qualquer pessoa – e, penso eu, de países também – “Sobrinho, liberdade é liberdade financeira. Só existe essa liberdade e todas as outras estão subordinadas a esta”.

Eu estava naquele período da vida em que o adolescente briga com os pais por qualquer coisa, e isso irritava tanto a mim (que não sabia se queria cursar a faculdade de física que havia passado, para UFRJ) e meus pais (que francamente deviam estar felicíssimos de se livrar de uma mala sem alça resmungão).

Uma vez que comecei a ganhar meu meio salário mínimo por mês e morar num quarto alugado no conjunto residencial do IAPI da Penha, no Rio, comecei a dar mais valor ao que vinha às minhas mãos. Apesar de não ter me tornado um mão-de-vaca, na prática eu conseguia já vislumbrar a verdade do que me tinha sido dito – só tendo liberdade financeira podemos saborear as outras liberdades. Obviamente que estamos falando de uma sociedade livre e na qual podemos ter propriedade privada. Senão, não funciona…

O tempo passa, o tempo voa… já não há mais poupança Bamerindus, mas a vida, apesar de tantos problemas, e até mesmo uma tragédia familiar de grandes proporções, a vida continua boa. Aliás, com Deus, a vida é sempre boa, acho eu. Uma coisa não mudou – cada vez menos as pessoa se preocupam, de fato, com a liberdade econômica. Um amigo meu chama isso de “F#!ck you Money” – aquele dinheiro que dá a você o direito de mandar alguém para aquele lugar sem o medo patológico de consequências sobre sua vida cotidiana.

Tudo isso pra falar do ranking de liberdade econômica da Heritage Foundation, cuja edição de 2020 coloca o Brasil um pouquinho melhor que em 2019, mas ainda assim um pais “majoritariamente não livre”. A razão principal disso é nosso déficit público crescente. Até 2008 a coisa vinha bem, com o preço das commodities lá em cima, pré-sal, etc. Aí o país decide se tornar “o trapezista que acha que sabe voar”, e esquece que tem que pegar no próximo trapézio, senão se esborracha, pois que na vida não há rede de proteção…

Chegamos a 2016 numa situação lastimável nas contas públicas, e com um Estado de tal maneira inchada, que governo algum pode fazer nada, dado que o orçamento está 95% carimbado… chegamos no fundo do poço da falta de liberdade financeira, e tal como euzinho, com 17 anos, o país deu um basta em determinadas coisas (ligadas ao ciclismo, creio…) e começou, timidamente, a sair do fundo do poço.

Aí vem essa coisa de Covid. Isso é tipo praga do século, e não há como resolver isso sem medidas emergenciais. Apenas que, num país onde a liberdade financeira é pequena, e as reservas financeiras parcas, a solução custará mais caro.

A China, de onde o tal virus veio, e que diz tê-lo controlado, com sua economia mais livre do que a nossa, a despeito da liberdade de opinião e pensamento “zero”, tenderá a sair disso melhor do que nós, teoricamente ocidentais.

Submersos num lodaçal burocrático, ficamos à mercê de uma corja de político que está sempre em busca do próximo mandato, em busca da próxima eleição e de seu próximo cargo. Alguns dias atrás o presidente havia editado uma Medida Provisória com a possibilidade de redução de carga de trabalho e salários proporcional, para os tempos bicudos de Covid. A gritaria foi geral, e (como quase tudo o que se fala hoje) quase derruba o tal presidente.

Ontem, a Medida Provisória 936 faz exatamente isso. Ainda estou estudando os efeitos, mas parece que podemos reduzir até 70% dos salários e carga horária do pessoal, com compromisso de não demissão, com o Governo complementando parte das perdas de cada empregado.

E a tal liberdade econômica? Bom, o país vai endividar ainda mais as próximas gerações, em algo parecido com 5% do PIB, só este ano, mas se Deus quiser, sairemos dessa menos ensanguentados do que poderíamos estar. A raiz do problema está justamente na quase impossibilidade de tomar qualquer medida, dentro de uma empresa, sem que alguém, algum “avatar” nos diga que podemos.

Está todo mundo pasmo com o aumento do número de pedidos de seguro desemprego nos EUA. E por que o desemprego sobe tão forte e tão rápido lá? Porque demitir não custa, como aqui e na Europa. As empresas conseguem se manter vivas, minimamente. Os liberais-progressistas dirão “anátema”! Claro, é sempre mais fácil pensar no ser individual do que no coletivo. É mais doído e mais fácil empatizar com o Sr. João, que perdeu o emprego e tem 4 filhos, do que entender que, contrário-senso, a economia americana também será a primeira a se recuperar, e voltar a gerar empregos. Justamente pela facilidade e liberdade financeira.

Pra terminar, uma reflexão: se tivéssemos hoje mais liberdade econômica nacional, máquina pública menos inchada, menos arrasto aerodinâmico de salários altos e toneladas de aposentados públicos, estaríamos certamente livres para tomar decisões ainda mais generosas no sentido de preservar a vida e o emprego dos cidadãos, e a vida e continuidade das empresas. É certamente mais fácil tomar decisões quando se tem liberdade… financeira também…