Argentina e a Revolta de Atlas

Semana passada, em uma viagem ao Chile, um amigo querido me lembrou do livro da filósofa russa/americana Ayn Rand chamado A revolta de Atlas. Gosto mais do título em ingles, Atlas Shrugged (algo como “Atlas deu de ombros” – sabe aquele gesto de “tô nem aí”)… significa que o Gigante que carrega o mundo nas costas, o tal Atlas, acabou se chateando com tudo e “deu de ombros”… como o mundo está nos ombros dele, imagino que o mundo deve ter caído “no chão” e se espatifado em milhões de pedaços.

Hoje, lendo a epopeia argentina de autodestruição econômica, me lembrei do tal livro, que comecei a reler (havia lido há muuuuitos anos atrás). Dando de cara com manchete da Gazeta do Povo –https://www.infomoney.com.br/economia/pacote-argentino-preve-400-bi-de-pesos-para-linha-de-credito-alem-de-bonus-a-trabalhadores/ – não tive como conter a sensação de que os Atlas argentinos acabaram dando de ombros para o seu país.

Mas antes preciso fazer uma breve resenha do livro Atlas Shrugged para deixar todo mundo na mesma página. Para facilitar, e para ilustrar a todos como o ChatGPT é esperto, recorri a ele. Em vez de gastar alguns minutos fazendo minha própria resenha, passo a descrever o que um simples questionamento como “qual é a mensagem central do livro Atlas Shrugged” retornou, na tal IA:

Em resumo, “A Revolta de Atlas” é uma obra que promove o individualismo, o capitalismo, a razão e a criatividade enquanto critica o coletivismo, o altruísmo extremo e a opressão do governo. É uma obra polêmica que gerou discussões intensas ao longo dos anos e continua a influenciar debates políticos e filosóficos.

Chat GPT para dummies… (eu)

“A Revolta de Atlas” (Atlas Shrugged) é um romance filosófico escrito por Ayn Rand e publicado em 1957. A mensagem central do livro pode ser resumida em várias ideias interconectadas:

  1. Individualismo e Capitalismo: O livro promove fortemente o individualismo e o capitalismo laissez-faire como sistemas morais e econômicos superiores. Ele defende a ideia de que os indivíduos têm o direito de buscar seus próprios interesses e que isso é fundamental para o progresso da sociedade.
  2. A importância da mente criativa: “A Revolta de Atlas” celebra os criadores, inovadores e empreendedores como motores da economia e da civilização. Ele argumenta que a produtividade e a criação de valor são lideradas por indivíduos talentosos e criativos.
  3. A crítica ao coletivismo e ao altruísmo excessivo: O livro critica severamente sistemas políticos e econômicos que sacrificam os indivíduos em nome do coletivo. Ele argumenta que a busca do bem comum não deve ser feita à custa da liberdade individual.
  4. A defesa da razão e da lógica: “A Revolta de Atlas” valoriza a razão como a principal ferramenta do ser humano para entender o mundo e tomar decisões racionais. Ele critica a irracionalidade e o coletivismo que muitas vezes surgem quando a razão é negligenciada.
  5. A resistência à opressão do governo: O livro narra a história de indivíduos talentosos e produtivos que decidem “desaparecer” em resposta à crescente opressão do governo e às políticas de redistribuição de riqueza. Eles se recusam a ser explorados e fogem para criar uma sociedade própria.
  6. Ética da autossuficiência: Ayn Rand enfatiza a importância da autossuficiência e da independência individual. Ela argumenta que as pessoas devem buscar seus próprios objetivos e não depender excessivamente do Estado ou de outras instituições.

No livro, um grupo de intelectuais resolve fazer uma “greve” e negar à humanidade sua produção. Os tais “Homens que pensam” resolvem que vá todo mundo se lascar. Não querem viver nas costas de quem produz? Então comecem a produzir… e o pau quebrou. O legal é a definição dada a essa situação, frente à postura dos grevistas: governo centralizador e “paizão” é tão, mas tão ruim, que ele quebra a economia e acaba caindo por seus próprios deméritos. Tudo o que se tem que fazer é deixar que façam o que fazem melhor – bobagem.

O que tem isso a ver com a Argentina? Tudo. A Argentina é o exemplo mais perfeito e acabado de como uma série de governos semi-ditatoriais, ou abertamente ditatoriais, que privilegiam “o social” em detrimento do indivíduo e suas escolhas individuais podem fazer para acabar com um país maravilhoso, fértil e de gente educada. Nada me parece mais próximo da fábula de Ayn Rand do que o Brasil de hoje, a Argentina de hoje (e de sempre), a Bolívia de hoje, o México de AMLO, e o Chile… opa… o Chile nem tanto.

Vindo de uma palestra sobre o Chile na semana passada, dada pelo meu ilustre colega de Praxity, Ignacio Gepp, percebi que ali a “guinada à esquerda” acabou não sendo o que pareceu ser. Parece que lá, Sebastián Piñera, que havia saído da presidência com 8% de aprovação (ou seja, um Temer da vida) volta à cena como a terceira opção em um novo pleito presidencial. Além disso, a tal nova constituição que parecia muito com uma colcha de retalhos de ideários de esquerda foi rejeitada menos de 1 ano depois da eleição do atual presidente, Boric, por nada menos que 62% da população – lá, diferentemente daqui, a população tem que aprovar a nova Carta Magna no voto.

Uma nova constituição está sendo elaborada, por um congresso menos à esquerda, e parece que incorporará alguns temas caros à sinistra, mas com manutenção do bom senso econômico que tem caracterizado o Chile há décadas, e que o coloca como o maior PIB per capita da América Latina já há algum tempo.

Síntese do babado todo: não adianta correr. Pode dar a economia à esquerda à vontade. É questão de tempo até quebrarem tudo, e devolverem em frangalhos ao povo. “Ah… mas e a China”… bom, a China é um exemplo de aprendizado confucionista: melhor ficamos com o poder político mas deixemos a quem entende a iniciativa privada. Não que eu creia que isso vai durar. Acho que não. Assim que a China se sentir “dona do mundo” ela retornará ao ideário de dominação também econômica, além de política, e o caos sobrevirá.

Deus nos ajude e dê vontade de não querer fazer greve de ideias… vontade dá.

Brasil do Sul – Fábula

E aconteceu, finalmente… o que tinha começado como uma proposição de defesa dos interesses dos estados do Sul do Brasil acabou se tornando, da noite pro dia, com adesão dos Comandos Militares do Sul e Sudeste, numa secessão que até o momento (escrevo em 2025) definitiva. O Natal se avizinha neste que será o primeiro, da nova nação. A ONU, após o reconhecimento de alguns países, como EUA, Japão e outros, acabou por render-se e, sem muita luta, o Brasil do Sul, ou simplesmente “Brasil” para muitos (pois dizem que aquilo lá em cima não é Brasil, é África subsaariana…)

Zema está no fim de um segundo e bem sucedido mandato… Tarcisio no fim do primeiro e a passos largos para reeleição. Ratinho não pode mais se candidatar, mas elege sucessor. Em SC, bom… SC sempre foi e será um lugar de “fascistas”, bem como o RS, como uma articulista de grande jornal disse há alguns anos (a tal fábula da família Heil, aqueles nazistas… hehe). O RJ finalmente cansou de eleger idiotas, e parte pra um mandato razoável, na percepção dos analistas políticos. O Centro Oeste é todo “fascista” como todo sabem, e o Agro reina absoluto. A população toda é contra o povo do “bem”, e não se conforma como as coisas andaram nos últimos anos. Ano que vem as eleições pareciam bem encaminhadas para um mandato de direita…

Parecia… pois que o STF cassou todos os candidatos viáveis e tornou uma guinada à direita improvável. Foi quando o impensável aconteceu. Movidos de uma sensação de serem desprezados, MG, PR, SC, ES, RJ, RS, MT, MS, GO e SP se rebelam, e com ajuda dos Comandos Regionais do Sul e Sudeste, interpelam os Supremos e declaram secessão… e assim como já falei. O Real do Sul é implantado, com a mesma cotação da véspera, ou seja, R$ 45,20 para cada dólar, e a inflação que já andava pelos 100% anualizada ainda permanece, mas agora, com recursos retidos e uma Receita Federal recomposta a duras penas, o Brasil do Sul tem superávit primário e total de mais de 15% do PIB. A inflação, segundo o novo presidente do novo Bacen, com sede na Av. Chile, no Rio de Janeiro, Campos Neto, parece que vai desabar, como informam 10 entre 10 “Faria Limers”.

Aliás, Campos Neto, cheio de olheiras e já com cabelos brancos abundantes, vem a público dizer que o novo país está disposto até a ajudar o Brazilistão a se reerguer, caso aceitem ajuda em condições adequadas.

O novo país está sendo governado por uma inédita junta de governadores de estado, que vão eleger um primeiro ministro provisório. O sistema de governo do Brasil do Sul será unicameral, com Deputados eleitos em uma assembleia que, de momento, conterá os mesmos representantes até então eleitos por esses estados, para evitar rupturas, e que quiserem vir para a nova assembleia que foi localizada temporariamente no complexo administrativo de Belo Horizonte, por oferecimento de Zema.

Zema, aliás, é um dos fortes candidatos a primeiro ministro dessa nova república parlamentar que se inicia, parece, auspiciosamente. É fato que há um engajamento da grande imprensa, lotada de grana do antigo regime, contra a secessão, apoiada por 90% dos habitantes desses estados, digamos, “cindidos”, e por incríveis 40% dos habitantes do Brasil do Norte. Esses, parecem apoiar o Brasil do Sul porque estão sofrendo arbítrios, abusos e absurdos por parte do antigo regime, e parecem crer que somente o Brasil do Sul os pode salvar, uma vez reconstituído. Acho difícil ser verdade, mas vá lá…

Em suma, Capital no Rio, como sempre foi, legislativo em BH, mais central, judiciário em SP, onde ocorrem as litigâncias… O mais interessante é que pelo menos não se começou errando na constituição da Suprema Corte. Velhos juristas, gente de peso, e grandes juízes, foram convidados para compor os 11 cidadãos supremos que nos garantirão a constituição. Aliás, a constituição adotada foi provisoriamente a mesma. A SCBS – Suprema Corte do Brasil do Sul, jurou apenas e tão somente garantir o que está ali, até que seja decidido se uma nova constituição será necessária, exceto nas alterações que modificam o tipo de governo (parlamentar unicameral, com voto distrital).

As reações dos caciques do Antigo Regime foram terríveis, e solenemente ignoradas. Não contando com o grosso das Forças Armadas para apoia-los, pois que uma guerra fraticida não seria de interesse de ninguém, ficou só o discurso. Aliás, sem os cérebros de comando das FFAA, tendo as principais escolas de formação de lideranças no Brasil do Sul, o Brasil do Norte acabou ficando meio acéfalo em termos militares. A inteligência também foi reagrupada de dentro das FFAA, que vai recriar uma forte força. A Polícia Federal também sofreu um processo parecido, com um rompimento relativo e centralização das atividades em MG. O povo do antigo regime já chama de “Polícia Mineira”, como pejorativo, claro…

As notícias de Brasília, capital (ainda) do antigo regime, são conflitantes, desde que as transmissões de TV e a internet foram temporariamente seccionadas. O fato em si é noticiado de forma bastante diferente no Norte e no Sul. Como o Sul tem mais laços com Europa e EUA, a informação de “baixo” acaba sendo mais ouvida do que a de “cima”. Algumas agências, como EFE e El País, da Espanha, dão cobertura desmesuradamente maior ao Norte e são amplamente contra o ocorrido.

Aliás, mesmo no Sul, ninguém diz que gostou do que aconteceu. Todos amavam ver a Seleção jogar, assistir o verde-amarelo em Olimpíadas, o Galo da Madrugada, as Micaretas e o Boi-Bumbá. Como fomos em relação a Portugal, porém, agora somos como uma nação, separada por seu idioma. Não o português, mas o idioma dos interesses – conhecidos e escondidos.

Para além do que ocorreu, o que parece que vai ocorrer é algo sério e que precisa ser pensado: ninguém no Sul quer a morte dos ex-patrícios do Norte. Os políticos do antigo regime começam a ver que esticaram a corda demais, e que seu “Pudê” desproporcional em relação à sua representatividade acabou se tornando um estorvo desnecessário e inadequado ao resto do país – e até para sua própria população.

Deu no que deu. Corda rompida, pelo menos podemos nos regozijar que, a exemplo do Ipiranga, o pau não quebrou e não rolou (muito) sangue. Aliás, o sangue parou de pingar um pouco nas favelas do Sul, desde que acabaram-se os diálogos cabulosos com o governo daqui. Nada de perfeição, vejam bem, mas voltou à tona uma noção de total intolerância com o crime.

Estranhamente, nenhum LGBTQIA+, nenhuma feminista, nenhum esquerdista, foi morto em praça pública. Dizem que a parada gay de 2025 está garantida, bem como a marcha pra Jesus. Em síntese, nadica de nada mudou no Sul. Aliás, o influxo de refugiados colombianos e venezuelanos continua, desta vez direto via Paraguai até MS, e para o Sudeste e Sul. Pro Norte, parece que parou um pouco.

A Amazônia este patrimônio fantástico, foi solenemente ignorada no cisma. Afinal, quem é que se beneficiava dela, do jeito que a coisa estava? Só madeireiro e garimpeiro ilegal. Demonstrando seu compromisso com a preservação da mata, contudo, o novo governo já anunciou um fundo para apoiar a preservação de lá. Em princípio R$ 1 bilhão serão devotados a esta tarefa, se o governo do Norte aceitar. Especialistas acham difícil, num primeiro momento, mas parece que a coisa pode ir pra frente, quando a realidade econômica se impuser.

Aguardamos novidades no front diplomático, após o reconhecimento dos EUA e Europa. China parece ainda inamovível. Taiwan, of course, reconheceu o Sul como país. Os tais especialistas dizem que a realidade se imporá rapidamente. Até porque os contratos de aquisição de soja, milho, etc, continuam a ocorrer, via Dubai, enquanto durar o rompimento diplomático de Pequim com o Rio

Cenas dos próximos capítulos devem ser menos excitantes.

P.S. – Isso é uma brincadeira, ficção. Que os desavisados não se enganem. Eu NÃO acho que o Brasil deva se dividir. Nunquinha! Mas acho que pode acabar acontecendo um cisma estadual, sem sair debaixo do mesmo guarda-chuva, caso políticos desproporcionalmente influentes, como Renan Calheiros, Sarney, Lira e um bando de peçonhentos continue a mandar e desmandar em Brasília, sem pensar um momentinho no país.

El Salvador e nós

Conheci este pequeno país da América Central no final dos anos 80, quando andava pelo mundo como auditor interno de uma multinacional. Era pequeno, acanhado, e se destacava dos vizinhos por ser mais conflagrado, exceção feita à vizinha Nicarágua, sempre às voltas com revoltas (sem trocadilho intencional). Tinha um amigo lá, Julio Gomez, que era o CEO da empresa no local, gente fina, que nos levava pra conhecer San Salvador e arredores. Tendo passado bons meses na vizinha Guatemala, de vez em quando mudava de ares lá. San Salvador é bonitinha, com bonitos monumentos, mas nada de mais.

Confesso que não gostava, pelo calor, pela falta de infraestrutura e pela insegurança, que já existia desde lá de trás. Chamava a atenção a hiperinflação, que aliás, assolava toda região exceto a Guatemala, com seu Quetzal então estável, e a Costa Rica, ilha de prosperidade, democracia e civilidade da região, com sua moeda também estável.

Hoje, o país vive uma “ditadura do bem”, sob o presidente Nayib Bukele, que promoveu um encarceramento em massa, julgamentos em massa, no melhor estilo Xandão do STF, por aqui. O cara equilibrou a economia (bom, ter Dólar como moeda, além do estranho caso do Bitcoin, torna o trabalho mais fácil) e reduziu a criminalidade a níveis inéditos no país. O povo aplaude, e, com quase unanimidade de aprovação, Bukele segue firme para um terceiro – e inconstitucional – mandato.

Justificativas para a Ditadura

Obviamente não há justificativa para qualquer ditadura. Nem de esquerda nem de direita, centro, alto, baixo, etc. Bukele é tão ditador quanto Daniel Ortega na vizinha Nicarágua. Tão somente que, convenhamos, trabalha mais para o povo do que para si próprio e seu regime.

O que constitui uma ditadura não são suas intenções, boas ou más, mas a concentração de poder em poucas mãos e sua baixa tendência de transmitir este poder, exceto – e talvez, vide Perón – pela morte. Os gregos, em momentos de crise, deixavam a democracia de lado e elegiam um “Déspota Esclarecido” como ditador. Pegavam um sujeito bom, de princípios e capacidade, digamos, um Péricles da vida, e deixavam o cara trabalhar até que o perigo interno ou externo tivesse passado. Esperava-se que, ao fim desse processo, o tal cidadão devolvesse o poder ao povo.

Isso acontecia na República Romana. O nome lá era “Imperium”. O general ou senador recebia um “Império”, que era uma determinada missão, e, dentro dessa, tinha liberdade de ação. Tinha que “entregar seu império” de volta ao SPQR – Senado e Povo de Roma. A coisa vinha bem, até que uns mais atirados, como Júlio Cesar (antes dele, Sila, Cina e Catilina tinham tentado também) tomou conta do poder e não devolveu o Imperium. Não se denominou imperador, o que só foi feito por seu sucessor e sobrinho, Augusto, mas reinou de qualquer forma.

Esse é o problema da ditadura. O poder é agradável a quem exerce, e demanda uma grande virtude a sua entrega voluntária. Mas nada do que escrevi acima é justificativa para ditador algum. Nem situação difícil, nem guerra, nem nada justifica isso.

Mas Explicações, há…

Se não há justificativas, há explicações, e boas. O povo salvadorenho devia andar cansado de roubos, gangues de rua, narcotráfico, etc. A coisa passou tanto do limite que Bukele assumiu o poder e mandou bala, literalmente, nas dezenas de gangues e cartéis que mandavam no país. E teve sucesso. O povão, claro, adorou, pois é mais fácil viver sem correr o risco de tomar um tiro de qualquer um na rua, nem ter que “pagar” por segurança privada dos próprios meliantes.

“Qualquer sociedade que renuncie um pouco da sua liberdade para ter um pouco mais de segurança, não merece nem uma, nem outra, e acabará por perder ambas.”

Benjamin Franklin

Ben Franklin, que não era nem um pouco bobo, definiu acima o que acontece com um povo que deixa de lado a sua luta por liberdade pela tranquilidade da paz nas ruas. Acaba sem nada. Os alemães, sob Hitler, fizeram uma escolha parecida – apenas que a “paz” desejada era a financeira – Hitler os livrara da hiperinflação, e os resgatara a dignidade perdida sob o Tratado de Versalhes. Acabaram perdendo tudo, inclusive, muitos, a vida.

Bolsonaro foi uma figura que despontou da mesma forma: como resposta às insatisfações com a corrupção, com o desemprego, com a imbecilidade governamental sob Dilma, etc. Um fenômeno de massas, não acredito que tivesse perdido as eleições sem o apoio do STF e TSE (“Derrotamos o Bolsonarismo“, como bradou Barroso). Tampouco acredito que Bolsonaro tivesse se tornado um ditador. Não tem nem apoio e, creio, nem o desejo disso. De fato creio que, com todos os seus erros, incongruências e verborragia, foi um cara determinado a fazer coisas boas pelo país. No entanto, o “consórcio” o derrotou. E estamos aí, governado por um mentiroso, descondenado e candidato a ditador (mesmo morto, talvez se torne o nosso Perón, com consequências parecidas).

Que fica entre a democracia e a ditadura, quando a sociedade escolhe proteger-se, à custa da liberdade, é, tão somente, a qualidade moral do “Imperator”. Bukele pode tanto ter mais um mandato – como teve Roosevelt durante a 2a. guerra – como pode tentar perpetuar-se através de uma “democracia relativa”, com reeleições sem limite, e endurecimento de um regime. A sociedade salvadorenha, ao escolher tão somente a segurança, pode estar neste caminho. E somente a qualidade moral de Bukele, ou umas quantas balas, os livrará da ditadura.

Brasil é El Salvador?

Esse papo é sempre assim – aqui é diferente. Ouvi isso na Venezuela no final dos anos 90, ouvi isso na Argentina, quando das reeleições Kirchneristas, e continuo ouvindo isso aqui. Brasil não é El Salvador. Nossas instituições são melhores – ainda, e creio que mais cedo ou mais tarde a Lei vai voltar a imperar sobre o STF atual. Digo a Lei, porque o STF, que parece ter a obrigação de faze-las cumprir, cada vez mais decide tanto fazer as leis como executar os serviços requeridos dela (como na recente decisão de mandar o governo dar barraca a morador de rua).

Brasil não é El Salvador, nem EUA. Brasil não é sequer Chile. Nossas instituições estão sim, ameaçadas, não pelo acuado Bolsonaro (nunca estiveram) mas pelo poder judiciário, sob olhares complacentes dos chefes do legislativo, e sob a batuta escondida dos atuais donos do executivo.

El Salvador está melhor. Isso, na cabeça de alguns, manda um recado de que a “direita é melhor ditadora do que a esquerda”. Bom, a direita é melhor que a esquerda em quase tudo, visto que a esquerda começa a termina por uma visão míope, burra e simplista da vida. Mas ditadura não é bom de lado algum, como já disse. Convivamos com ela, se tivermos que conviver. Para isso existe a instituição do Estado de Sítio, Estado de Guerra. Mas não a desejemos.

Ateísmo é Religião?

Como sempre, leitor de Quillette que sou, me esbarro com textos fantásticos, aos quais o leitor médio não tem acesso, e que são muito, muito bons. Hoje me deparei com um artigo que inspira este escrito, e fala ao meu coração de apologeta cristão: o chamado “Novo Ateísmo” de meados dos anos 80, até os dias de hoje.

Fomos levados a aceitar uma “nova normalidade” que é a de que a religião pode (e deve) ser criticada. No fundo, foi um ponto positivo do movimento. Afinal:

“Uma fé que não pode ser questionada não é uma fé digna de ser vivida”

Citação de um querido amigo, aludindo ao pastor chamado Glênio Paranaguá.

Pois assim deve ser: se você não tem liberdade para escolher – garantida desde a colocação da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, no centro do Jardim do Éden – você não é livre, em nada. Escolhas são, para o bem ou para o mal, desejáveis. O texto cita o autor Konstantin Kisin, antes apaixonado pelo Novo Ateísmo, o que nos dá uma sensação do que transpirou depois:

“Os novos ateístas eram empolgantes porque estavam dizendo algo novo, desafiando o dogma de sua época e falando a verdade ao poder. Insatisfeitos em provar que a religião não era verdadeira, eles se aventuraram mais longe, tentando provar que a religião era, no máximo, desnecessária e, mais provavelmente, prejudicial. Com esse objetivo, Dawkins escreveu “Deus, um Delírio” em 2006, e Hitchens lançou “Deus não é Grande” no ano seguinte. O argumento não se limitava mais a encorajar as pessoas religiosas a se acalmarem e nos deixarem em paz; agora, a ideia crescente era que a religião era intrinsecamente errada e prejudicial. Foi por volta desse ponto que comecei a perder minha fé no ateísmo.”

https://quillette.com/2023/07/24/new-atheism-and-the-demand-for-dogma/ – a tradução é cortesia do amigo ChatGPT – o texto é meu mesmo, inclusive os erros…

Empolgantes e Combativos

Pois bem, ficou claro ao longo do tempo que o Novo Ateísmo não era simplesmente uma forma de nos “libertar do crime da heresia”, mas nos fazer odiar a religião pela religião ser o que é – algo intrinsecamente dogmático.

A pergunta fundamental é – os Novos Ateístas se referiam a QUALQUER religião? Com o tempo fica claro que não. A única religião que, de fato, foi alvo dos ateístas somos nós – judeus e cristãos ocidentais. Mesmo os muçulmanos tiveram as críticas reduzidas a generalidades, nunca apontando o dedo – obviamente sabemos que a razão está fundada no medo de represália – não na concordância. Outras religiões, como budismo e brahmanismo sempre foram toleradas como “semi-científicas”.

No fundo, se você apenas “não acredita que algo existe”, não fica lutando contra esta coisa. Por exemplo, eu não creio que ETs existam, ou mais precisamente, que haja alguma possibilidade de contato imediato (ou não) com eles. No entanto, eu não faço campanha contra os ETs, nem digo que “os ETs estão mortos”, ou “os ETs não são grandes”. Eu simplesmente sigo com minha vida e ponto.

Mas não com Deus. Ah… um Deus todo poderoso, um Deus criador, que deixou evidências em todo lado, de uma simples molécula de DNA até às constantes físicas precisamente alinhadas, não. Esse Deus não pode apenas ser ignorado. Ele precisa ser combatido. A razão alegada é a de que a religião era perniciosa. Não apenas desnecessária, mas danosa, como uma droga, que precisa ser combatida. A religião, o “ópio do povo” precisa ser – no limite – tornada ilegal.

É isso, na prática, que os atuais ativismos querem: de uma forma ou de outra, criminalizar quem pensa diferente. Estamos diante de um Novo Ateísmo redivivo, ou um “Novíssimo Ateísmo” travestido de bondade social. Estamos diante da escolha entre pensar e falar o que pensa, e sofrer as consequências, e calar, nos acovardar e deixar que os iluminados minoritários, de microfone e caixa de som altos, não ditem o que podemos ou não fazer.

O artigo segue falando de críticas que cabem, de fato, a alguns atos patrocinados por “religiosos”

Claro, a liberdade de expressão em sociedades liberais depende, em última instância, de proteções legais e físicas oferecidas pelo Estado. Quando teocratas homicidas, portando armas automáticas, atacam os escritórios do Charlie Hebdo ou um seguidor do Aiatolá Khomeini sobe ao palco e repetidamente esfaqueia Salman Rushdie, o confronto com a violência religiosa não é mais uma questão de ideias, mas sim de aplicação da lei. O argumento de Kisin lembra a posição adotada por reacionários britânicos que se queixaram da proteção financiada pelo contribuinte que Rushdie recebeu depois que Khomeini emitiu sua fatwa em 1989 – uma reclamação servil que Kisin entende bem, pois já a criticou antes. A segunda frase de Kisin sugere que os ataques dos Novos Ateístas ao cristianismo aumentaram de alguma forma a ameaça representada pelo radicalismo islâmico, mas, como observado, os Novos Ateístas como Hitchens e Harris foram igualmente críticos em relação ao Islã, se não mais.

Idem anterior

Pois é. Seja uma Cruzada (aqui, um parágrafo: Cruzadas foram guerras PROTETIVAS contra um Islã invasor do Ocidente, não importa o que o seu professor de História tenha te ensinado no 2o. Grau) ou uma Fatwah, a questão é de crime, ou simples emissão de opinião. Apenas duvido da última afirmação do articulista – os Novos Ateístas não foram mais críticos ao Islã do que jamais foram com os cristãos e judeus. Ao contrário, eles repetidamente se esquivaram de clareza ao condenar, por exemplo, o caso do Charlie Hebdo, exceto quando provocados, creio eu.

É ou não Religião?

Eu creio que é religião sim. O fato é que a modernidade, ao tentar acabar com a religião na sociedade, não resolveu o problema mais íntimo do ser humano: sua necessidade de CRER em algo. isso não morreu, nem morrerá jamais.

Como os cubanos ou soviéticos de então precisaram criar as “reuniões” de domingo de manhã, como forma de sincretizar sua “nova religião comunista” de forma bem semelhante a que os cristãos primitivos fizeram com o Samhain, por exemplo, transformando-o em “Natal”.

“No comparte una reunión, más le gusta la canción”

Trecho da canção El breve espacio en que no estás, de Pablo Milanés

O cubano realmente “religioso”, vai à sua “missa” de domingo: a “Reunión”. Pablo Milanés reclama da amada, que não compartilhava uma reunião (dominical, aparentemente) mas gostava das “Canciones de Protesta” do autor (protestar contra que, em um país já dominado, está acima da minha capacidade de entendimento).

Pablo Milanés é um bobão talentosíssimo, na minha opinião humilde, assim como o é Chico Buarque (também na minha opinião). Talento desperdiçado com ideologia boba, sem fim. Mas cá entre nós, fazem um excelente trabalho de dar uma forma linda à uma ideologia pavorosa. E no caso, Pablo faz um trabalho de nos explicar parte desse processo de substituição da religião “ópio do povo” pela religião “do estado opressor”.

E nós?

Bom, nós sofremos. Tanto espiritualmente como fisicamente. No mundo, nenhuma outra religião é mais vilipendiada e perseguida como o cristianismo. Ninguém pode ser cristão e determinados locais sem correr risco de vida. Na Mauritânia, neste momento, está em todas as mídias a prisão de uma pessoa por ter-se tornado cristã. Assim, de pronto. Entram em sua casa e te levam por este “crime”. É um caso de religião a serviço da obscuridade. Nisso, o Novo Ateísmo está certo em condenar a “religião”, como estão certos os cristãos, judeus e outros que sejam “libertários” no sentido da liberdade, mesmo, de consciência, religião e expressão.

No mais, nós, cristãos, continuaremos a ser mais e mais ofendidos em nossas crenças, e cada vez mais martirizados. Isso tá previsto e escrito no “Livrão”. Deus nos ajude a fazermos com que o máximo de pessoas esteja no lado certo desse martírio – o lado de quem o sofre.

Perseguição “Científica”

Dei de cara, no site Quillette (que eu gosto muito) com uma história escabrosa de um astrônomo chamado Geoff Marcy, um dos “pais” da descoberta de exoplanetas (planetas fora do nosso sistema solar) que só recentemente (1995 vimos o primeiro) pudemos conhecer, através dos novos telescópios colocados diretamente no espaço e o famoso Keck Observatory em Mauna Kea, no Havaí.

Outros dois astrônomos receberam por essas mesmas descobertas o Prêmio Shaw, astrofísico suíço Michel Mayor e o astrônomo suíço Didier Queloz. Geoff Marcy não recebeu coisa alguma, a despeito de ter descoberto 70 dos 100 primeiros exoplanetas.

A razão foi que houve uma “investigação” no Campus da Universidade da California, Berkeley, sobre “má conduta sexual”. Nada foi nem provado nem ninguém o denunciou. Nada. Apenas que (parece) o cara era gente boa, distribuía abraços e beijos nos estudantes, e trabalhava por uma participação mais ativa de mulheres na pesquisa científica, tendo sido orientador de doutorado de várias mulheres, que depois viram suas carreiras deslancharem.

Alguém pegou a história, e de “leve suspeita” (nem isso parece ser correto) o cara foi pintado como “Agressor Sexual”, e seus artigos foram retirados de publicações de prestígio, não somente pelos editores, mas vetado pelos próprios colegas, que não queriam “se ver associados” com uma criatura dessa estirpe.

O que é Ciência

Não sou acadêmico nem gosto muito da academia, por conta do jeitão de sabe-tudo e o baixo aproveitamento no mundo real, de quase tudo o que se produz ali. Não disputo sua validade e necessidade. Aliás, ao contrário, creio que a academia é vital para o desenvolvimento do conhecimento humano, no mundo todo. Apenas aqui, no Brasil, a academia é uma coisa meio inservível para a economia real e para a vida dos cidadãos.

Richard Feynman, o grande físico e ganhador do Nobel, viveu no Brasil e ensinou na UFRJ por algum tempo. Fascinado pelo Brasil, chegou a aprender a tocar tamborim pra sair em Escolas de Samba. Era um aficionado por nós e nossa cultura. Sobre nossa ciência, mais precisamente sobre a física, ele falou uma frase NADA agradável de se ouvir:

O principal propósito da minha apresentação é provar aos senhores que não se está ensinando ciência alguma no Brasil!”

Richard Feynman, entre 1951 e 1952, em palestra no Brasil

A razão para isso foi que, como dito por ele, os brasileiros sabiam muito “sobre” física, e nada “de física”. Sabiam repetir conceitos e equações, mas não “pensavam” sobre física.

Tendo estudado física, confesso que fiz o mesmo, na mesma UFRJ. Sabia sobre física mas nunca soube de física mesmo. Sabia e sei ainda alguns conceitos, mas me faltava massa cinzenta pra ser um físico. Deixei física de lado e fui me dedicar a algo, digamos, mais dentro das minhas capacidades.

Se em 1951-52 já pouco ensinávamos de ciência, se não faz mais educação formal como antigamente, imaginemos hoje, o que há. Algumas coisas melhoraram, outras pioraram. Uma das razões desse artigo é justamente eu tentar fazer sentido de coisas que a academia faz de errado e que não é ciência. Sabemos hoje que os tais “Wokes” tomaram conta da academia, aqui e no exterior, e como tal, pessoas como Geoff Marcy estão sendo “expelidos” da vida científica mundial sem direito a defesa ou voz. Perdendo “voz científica”, ou seja, o que eles sabem e discutem não tem importância para alguns. O que alegadamente fazem é o que conta (se é verdade ou não, parece pouco importar).

Eu Faço Ciência, mesmo que me comporte Mal?

Não vou nunca achar que erro é algo bom. Erro é erro, pecado é pecado, crime é crime. Pura e simplesmente temos que ter o mais alto padrão moral em qualquer instituição humana – desde a família até a cátedra.

O que não podemos fazer é entender que alguém por ser imoral, por exemplo, é burro ou não sabe fazer ciência. Os avanços de Albert Einstein sobre suas aluninhas eram legendários. Ninguém desculparia Einstein por isso. Ninguém quer jogar a Teoria da Relatividade Restrita no lixo em função das indiscrições do gênio.

“Ah, então se é gênio está desculpado de abuso sexual?” Claro que não. Apenas que a má conduta pessoal não desfaz uma equação tão simples como magistral, como E=MC². Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como diria Mestre Didi, o da Folha Seca.

E o caso Marcy?

O problema principal com o caso Marcy não é nada remotamente parecido com as escapadas de Einstein. O cara, aparentemente, deixou a Universidade da Califórnia muito triste por ter sido acusado justamente por fazer algo que a sociedade deveria aplaudir: tentar ser sociável e tentar incluir mulheres num mundo ainda altamente masculino, que é o da física superior.

Marcy não fez nada digno de reprovação e foi vítima de cancelamento, ao que tudo indica. Ainda que tivesse sido julgado e condenado, suas descobertas ainda teriam validade científica. O problema (que cansaço!) de hoje é que se joga o bebê fora junto com a água suja do banho, como dizia Joelmir Betting.

Mas mais do que isso, os “sentimentos” e “impressões” pessoais passaram a invadir até uma catedral santíssima, como é a matemática. Não se discute com equação. Não se discute com o Efeito Doppler. Se as conclusões estão corretas, usa-se seu resultado e a ciência vai progredindo, até melhor juízo.

Pois bem, se o Reino da Matemática e da Física foram vilipendiados, o que dizer do Reino da Psicologia, da Sociologia e outras ciências cuja “prova material” e “repetitividade” sob experimentação são, digamos, mais variáveis?

Liberdade Acadêmica

“Como eu me sinto” diante da conclusão de que alguém, sabe-se lá por que razão, não gosta de sua orientação sexual homo afetiva? Se a pessoa não quer, não gosta e não aceita ser levada a acreditar na Teoria da Evolução, mas acha que alguém desenhou a vida na terra? Posso aventar a possibilidade de que as ditosas vacinas causem algum tipo de mal? Posso ser, por isso, execrado do ambiente acadêmico, por ter uma opinião discrepante, mesmo que possa estar errada?

Uma das amarras mais importantes da pesquisa científica reside num “tenet” que é mais ou menos assim: Uma teoria PRECISA ser “Falsificável” (https://en.wikipedia.org/wiki/Falsifiability). Em poucas palavras, qualquer teoria ou hipótese é falsificável (ou refutável) se puder ser contradita, logicamente, por um teste empírico. Se eu fizer um teste que contradiz a teoria, logicamente ela é refutável.

Como é que eu refuto uma teoria, se estou impedido de fazê-lo, por uma razão que não é puramente científica, mas baseada na interpretação de alguém sobre o que é e o que não é “aceitável”? Estou impedido de usar a lógica, a biologia ou a química para provar que a Teoria da Evolução não funciona, já que ela é “aceita” ou “politicamente correta”?

A ciência deixará de fazer perguntas difíceis, porque a resposta passa por descontruir alguma preferência de um grupo?

Fica a pergunta: estamos fazendo ALGUMA ciência neste mundo, de alguns anos para cá, ou simplesmente tentando acomodar resultados às tendências (na minha opinião, muitas vezes diabólicas) de alguns grupos?

A nova Moda

Toda vez que um artigo num jornal qualquer chama minha atenção, me dedico a comentar, com meu olhar específico, e tecer considerações que podem ser de ajuda pra alguém (além de mim mesmo, obviamente – já deixei claro aqui que escrevo em primeiro lugar pra mim mesmo). O de hoje é baseado no excelente artigo que estimulo todos a ler: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/por-que-as-consultorias-em-diversidade-estao-tomando-conta-das-empresas/

Hoje, o assunto da vez foram as consultorias DEI – Diversity, Equity, Inclusion (Diversidade, Equidade, Inclusão). É, ou parece ser, um apêndice da queridinha de uns meses atrás, ESG – Environmental and Social Governance (Governança Ambiental e Social). Digo queridinha, porque uma moda é uma moda. Pode pegar ou não. Eu ainda me lembro da era da “Reengenharia”, e tantas outras modas que nos acometeram ao longo das décadas.

Se antes a moda era fulcrada na necessidade de então – crescimento com queda de custos e preços ao consumidor, melhoria de processos, etc – hoje ela é baseada em uma necessidade que parece nada ter a ver com a vida empresarial em si, mas que representa uma agenda de parte da sociedade.

Não há nada errado em impulsionar agendas, e essa tensão, desde que democrática, faz a sociedade, e o mercado, progredirem. O problema está justamente no caráter “democrático” de determinadas demandas. O artigo cita como exemplo a capitulação aparente da cúpula da rede de fast-food Chick-Fil-A, criada por evangélicos, que não abre aos domingos, e cresce vertiginosamente. Até 2014, impulsionada por seu criador, Samuel Truett Cathy, a rede mantinha um padrão rigoroso em seu caráter cristão. Nada errado, tudo certo, não há ninguém lá que pareça se sentir mal ao trabalhar para eles. Ocorre que pressões de grupos ideológicos aparentemente fizeram com que fosse criada uma dessas diretorias de DEI, dentro da Empresa, o que parece ser um retrocesso no caráter cristão da Empresa. Não necessariamente. É perfeitamente possível, creio eu, que uma diretoria de diversidade, equidade e inclusão, apoie de verdade esses ideais, dando voz, por exemplo, a minorias atingidas, e a maiorias, que muitas vezes são discriminadas e marginalizadas a ponto de parecerem-se muito com as tais minorias oprimidas.

E o que a sociedade faz com as modas? Bom, no momento em que os negócios vão bem, parece que a moda cabe no orçamento e sempre se encontra uma forma de acomodar o gasto. Entendo, porém, que dificilmente uma diretoria vai manter seus quadros ESG e DEI em detrimento, por exemplo, de seus engenheiros, analistas de TI, operadores de empilhadeira entre outros profissionais que cumprem, na ponta, a necessidade de facto, das corporações.

Há áreas dentro do mundo de consultoria que não existiriam se não fosse pela necessidade legal. Como exemplo, as recentes “conquistas” legais de segurança da informação, ou mesmo as não tão recentes exigências de auditorias em vários segmentos.

Cada um com seu “Cadaqual“, como eu diria proseando furado. Vivo de uma dessas exigências legais – embora ache que o mercado já deveria ter aprendido que: se COM auditoria já é difícil, SEM ela, o problema é certo. Mas aqui, puxo brasa pra minha sardinha, obviamente.

O que parece não ser democrático aqui, a despeito de não haver regulação para tal, é que as empresas se sentem impelidas a criar essas diretorias e gastar uma grana em consultorias DEI e ESG por conta não de valores intrínsecos às organizações, ou mesmo por detectarem necessidades estratégicas para tal, mas por “ameaças de cancelamento” ou o que eu costumo chamar de “extorsão mediante sequestro de “. Não é democrático, por exemplo, um veículo de mídia social “cancelar” alguém, como faz dia-sim-outro-também o (in)famoso(e) Sleeping Giants. Aliás, o nome está incorreto. Nem Giants, muito menos Sleeping. Roaring Midgets seria um nome mais adequado.

Eu, de minha parte, quero crer que a futura escassez de capital que se avizinha, e que já dá mostras claras nas taxas de juros dos principais bancos centrais, levará as coisas para o limite do que realmente é necessário. Identificará, da mesma forma, o que é supérfluo. As diretorias DEI e ESG não vão acabar em todas as empresas, mas certamente restarão naquelas para quem seu trabalho é considerado essencial e valoroso.

De novo, NADA contra qualquer moda, nada contra DEI ou ESG. Apenas me dou conta de que pouco há (como o artigo deixa claro) de democrático e de realmente inclusivo nas iniciativas até aqui desenvolvidas.

A escassez mostrará a verdade da frase que enaltece a simplicidade que deve permear qualquer modelo organizacional:

Tudo deve ser o mais Simples possível, porém não mais simples.

Atribuído a Albert Einstein

O Brasil amanhece menos justo

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Ontem de noite, depois da ridícula decisão do TSE de cassar o mandato do Dep. Deltan Dallagnol, me vi numa espécie de depressão, incapaz que sou tanto de entender qualquer senso de justiça nisso, quanto de compreender como é que um país descamba tão rapidamente para um autoritarismo judiciário-executivo em cinco meses apenas, de forma tão drástica e maléfica.

Aos meus amigos (e parentes) que fizeram “L” e votaram no “Glorioso” Nine-Fingers, confesso que tenho dificuldade em entendê-los. E cada vez mais dificuldade ainda de perdoá-los, pela irracionalidade e inconsequência – comigo, com o país, e com seus próprios descendentes.

Ontem, depois da decisão do TSE, que não tem nem base fática nem jurídica alguma, li e ouvi algumas pérolas, exaradas das bocas mais sujas e covardes do país.

O Ministro da “Justiça” tem a ousadia e o escárnio de usar, para além da maldade óbvia de quem ocupa um cargo público e deveria servir ao público, de um verso bíblico – alusão clara à fé do deputado cassado:

É… está em Mateus 5:6 mesmo. No Sermão do Monte. Mas não se iluda, Dino. Lá também está escrito:

“…bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.”

Mat. 5:11

“Se, pelo nome de Cristo, sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória de Deus. “

1Pe 4:14

Dallagnol é um servo de Deus. Sei disso, conheço isso. Conquistou uma vitória importante para a justiça brasileira e demonstrou à população que a justiça sempre prevalece.

Não se iluda, Ministros, não se iludam, Ministros. Satanás também ousou usar a bíblia para tentar e chantagear o próprio Filho de Deus. Não conseguiu. Parecia ter conseguido, quando, na Cruz, Ele foi morto.

Ocorre que a vitória final é sempre do Bem, sempre de Deus. Não tenho dúvida de que esse jogo pode demorar, mas no final, os verdadeiros “fichas sujas” (como ousou chamar Dallagnol o “magnífico” Renan Calheiros) serão extirpados da vida nacional.

Costumo dizer que diante de cada um de nós existe um muro, chamado Morte. Ninguém sabe a quantos quilômetros, metros ou centímetros está o Muro. O fato é que, ao bater no Muro, a vida aqui acaba, e todos, sem exceção, vamos dar contas a quem ousamos vituperar usando as próprias Escrituras para tripudiar do outro. O Ministro e todos os Ministros, todos os Nine e os Zé deste mundo baterão no Muro. Aqui poder-se-á chorar por alguns deles – até ladrão tem amigo – mas lá, onde não há mais tempo nem ilegalidades, nem Ministros Amigos, o papo é outro. Eu, se fosse esses senhores, pensaria um pouco nisso. Viver com a certeza de que tudo acaba (parece que essa gente se acha eterna) é um bom antídoto contra atitudes insolentes e más, como temos visto.

A escalada autoritária no Brasil está apenas começando. Não tenho dúvidas de que a máxima marxista, de que o comunismo é “inevitável” é verdadeira, em determinada medida. A Bíblia diz que o “mundo jaz no maligno” (I João 5:19).

Como cristão espero que essa gente tenha um verdadeiro encontro com Deus, entenda sua pequenez e maldade, e se arrependa de sua multidão de pecados. Esperança nisso? Tenho pouca. Mas não me custa orar para que, se não se arrependerem, pelo menos sejam cerceados em suas malvadezas e deixem uma nação linda, inteira, viver em paz.

Da Suécia, com Amor

Eu escrevi em um post de 2020 (Limites da Democracia) o seguinte:

Não se trata de ser contra o isolamento, ou ser contra o lockdown. Nada disso. Trata-se apenas e tão somente de saber que limites existem. A questão fundamental é que evitar lockdown é apenas uma forma de manter a constituição, enquanto esta não for mudada. Infelizmente estamos fazendo, todos, parte de um grande experimento social, que pode até não “visar” eliminar liberdades, mas certamente dão a pista de como a sociedade vai responder em caso de uma ameaça real às liberdades individuais.

A Suécia disse algo mais ou menos parecido, para justificar o fato de que não iria colocar todo mundo trancado em casa, preferindo apelar para o bom senso da população, o que funcionou, em boa medida. E mesmo que tiver funcionado em escala menor do que em outros países, pelo menos não serviu pra criar uma determinada ruptura constitucional. Bom, cada país com suas leis, e em alguns casos, como nos EUA, é possível, por haver uma constituição mais enxuta e mais poder ao executivo.

Eu mesmo, durante a Covid

Eu escrevi isso aí baseado num papo com um amigo sueco, na época do início das discussões sobre lockdown ou não lockdown. Ele, para minha surpresa, disse que não iam fazer NADA. Iam seguir as regras sanitárias, lavar as mãos, manter distância, e mais nada.

A Suécia virou imediatamente um pária internacional. A Suécia não é conhecida por ser um país desorganizado, corrupto ou irrazoável. Uma atitude proposta aqui, por Bolsonaro e seu governo, gerou uma reação ainda mais drástica. Houve até uma CPI, um tanto midiática, que deu em absolutamente nada, a não ser palanque. De fato, as atitudes de Bolsonaro durante a Covid, como noticiadas na imprensa, foram (minha opinião) a principal razão dele ter perdido as eleições para (of all people) um ex-detento, condenado.

Bolsonaro tem uma boca maior do que o cérebro, e isso é fato. Mas o “fato”, de fato, é que hoje fica demonstrado, a cada dia, que ele tinha razão, pelo menos ao evitar ações perversas, como lockdowns, e cerceamento da liberdade de ir e vir.

Detesto ter Razão

Eu costumo ter razão, e às vezes não admito com muita facilidade o fato de frequentemente não ter razão. Estar errado, claramente. Mas o fato é que eu detesto, recentemente, ter razão, pelo fato de que a verdade dos fatos está se tornando difícil de analisar.

Hoje, a Gazeta do Povo refletiu uma matéria do New York Times em que eles “relutantemente admitem” que a Suécia pudesse ter razão em ter tratado o Lockdown e medidas semelhantes como quebras de liberdade, e francamente desnecessárias (https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/new-york-times-admite-com-relutancia-que-suecia-acertou-na-pandemia/?ref=busca).

No texto original do NYT vem um quadro bastante representativo do “excesso de mortes” totais por país da União Europeia, que elucida a charada:

Excesso de mortes durante o período da Covid-19

Da forma como acima vemos, talvez fique claro para o respeitável público que não houve nem negacionismo nem terraplanismo por parte da Suécia, mas bom senso e disciplina nacional, imbuída nos valores da sociedade daquele país.

Pois bem, e aqui? Talvez precisemos de uma CPI da CPI da Covid, para tentar colocar em perspectiva o mal terrível que uns poucos senadores, cujo cálculo político excede sempre os interesses nacionais, fizeram a todos nós.

Somos um país de TOLOS mesmo. Damos ouvidos ao que se nos é dito sem crítica alguma.

Como disse, ODEIO ter razão, principalmente quanto isso implica em que um erro absurdo foi cometido, e quem poderia fazer algo pra evitar, cruzou os braços por razões políticas

O gráfico acima poderia seus dizeres no eixo x substituído por “qualidade dos políticos”. Ia dar quase na mesma, com honrosas exceções.

Da próxima vez que nosso atolado julgamento nos dizer que “O Bolsonaro é que criou a necessidade do consórcio de mídia”, ou que o governo foi “terraplanista”, sem refletir, vamos tentar separar o histrionismo e boca-aberta do ex-presidente dos ATOS de governo que culminaram com a passagem do Brasil praticamente incólume, economicamente, de uma crise medonha que se abateu sobre o mundo todo.

Brincando com Fogo

Estamos vendo desfilar diante de nós um cortejo que só pode acabar sendo fúnebre. Trata-se da forma como as empresas brasileiras investem em prevenção e controles. Aqui, vou me fixar em controles sobre integridade de dados. E não falo de LGPD, que está sendo implementado de acordo com as regras exigidas da Lei, e nada mais. Como sempre, no Brasil, cumpre-se a Lei, sem pensar se isso é ou não suficiente para resolver o problema que a Lei tenta endereçar.

Faço um paralelo com a Carta de Paulo aos Romanos. Recentemente, dando aula de Escola Dominical na minha Igreja, tracei um paralelo entre Romanos e uma lei recente, que custou a “pegar”, e que francamente não sei se “pegou” no tranco ou por conscientização: a determinação do uso do cinto de segurança.

 “… e o mandamento que era para vida, achei eu que me era para morte… …Assim, a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom.

Romanos 7:10 e 12

Criei então a Parábola do Cinto de Segurança. Antes de haver a decisão do Contran, usava-se cinto se a gente queria, e se um guarda nos parava, não nos multava por isso, porque:

“…porque onde não há lei também não há transgressão.”

Romanos 4:15 

O espírito da Lei, porém, não é o de te obrigar a fazer algo, mas tentar salvar sua vida, te fazer viver bem. A gente deveria usar Cinto de Segurança por consciência de que é bom para nós e salva vidas, independentemente de corrermos o risco de tomar uma multa ou não. O brasileiro, porém, cumpre Lei se Lei há, na marra, e quando obrigado. Se pudesse, não cumpriria nem a Lei da Gravidade, que (graças a Deus) tem consequência trágicas, caso desrespeitada, pra todo mundo, até pra Ministros do Supremo.

LGPD deveria ser algo que foi iniciado pela sociedade. Auditoria (interna, independente) deveria ser um desejo da administração da Empresa. Coisas que seriam boas em si mesmas, e que, no final, custam, mas preservam.

O caso aqui, porém, é de ataques externos ou internos aos dados e sistemas de uma Companhia. O caso mais recente e emblemático, porque repetido, é do Fleury. Essa grande empresa teve seus dados “hackeados” duas vezes em dois anos. Não vou aqui julgar se foi inépcia, se foi por desleixo, nada disso. Quero crer (e creio) que os profissionais de lá fizeram todo o possível para evitar que um ataque ocorresse de novo, mas ocorreu.

O que dá medo, no Brasil, e me faz ver um funeral atrás do outro, é a mania de economizar com coisa séria, vital. É uma barbaridade o que se gasta em empresas com “apêndices” de menor importância, e o desprezo com se se trata, às vezes, funções fundamentais, como por exemplo, vazamento de informações públicas a terceiros. E aqui não se tata apenas de ataques hackers, muitas vezes concertados desde fora, com uso de ferramentas ultrassofisticadas. Falo de falta de cuidado interno com dados, de gente que escapa pela porta da frente com um pen drive lotado de coisas que obteve indevidamente, e usará indevidamente.

A Nova Apólice de Incêndio

Nos tempos mais analógicos, a grande preocupação de segurança eram os incêndios. Apólices grandes protegiam empresas da eventualidade de que o fogo destruísse suas instalações e as deixasse sem receitas, e portanto, à beira de um colapso financeiro. Esta ainda é uma preocupação, principalmente de empresas de capital intensivo, fundamentalmente indústria e comércio.

Ocorre que num mundo em que algumas empresas só existem virtualmente (sou Conselheiro  de mais de uma), A nova apólice de incêndio deveria se chamar “Data Damage” ou “Riscos Cibernéticos”. Essas modalidades sequer existem, popularmente, no Brasil.

As seguradoras tomam todos os cuidados ao emitir uma apólice de incêndio, examinando cuidadosamente os ativos segurados, evitando entrar numa “furada”.

Creio que a mesma coisa ocorreria com os seguros da era da informação, como Cyber-Risks e Riscos de Vazamento de Dados. A seguradora teria grande cuidado em analisar se a segurada cumpre padrões mínimos de combate aos “incêndios de dados”, como exigem Brigadas de Incêndio, entre outros mecanismos, no caso do fogo literal.

O Cortejo Continuará?

A pergunta que fica é até que ponto o cortejo fúnebre, do qual muitas empresas participam como defuntas, sem saber, vai continuar, ou se o brasileiro começará a fazer as coisas por princípios, e não por imposição.

Eu preciso que a CVM me exija auditoria? Preciso que a Lei 11.638/2007 exija? Ou será que eu acho que sou grandinho suficiente para entender que a auditoria independente (em que pese maus exemplos recentes, que francamente espero que sejam esclarecidos)? Quantas Americanas, Wirecards, NMC Health ou Luckin Coffee da vida ainda ocorrerão para servir de exemplo aos mais altos escalões das empresas brasileiras?

Especificamente sobre “incêndios digitais”, quantos Fleurys (2021 e 2023), Magazines Luizas (2020), Ois (2019), Banrisuls (2018), JBSs (2017) ainda terão que acontecer?

Os ransomware (vírus que bloqueiam acesso das empresas a dados) são muitos, e suas origens são as mais diversas. Alguns se arriscam a dizer que até alguns governos totalitários os usam pra arranjar uma grana para ajudar o regime. Ryuk, talvez o mais lucrativo (para seus “usuários”), REvil/Sodinokibi (o da JBS), DarkSide (da Colonial Pipeline – quase matou a costa oeste dos EUA por falta de combustível), Maze (“especialista” em órgãos de governo) e Conti (usado – pasmem – durante a pandemia de COVID-19 pra roubar dados de hospitais), são alguns dos exemplos de males que nos afligem ou afligirão, se, como sociedade, não procedermos com o cuidado que a coisa merece.

O Brasil é um dos países cujo uso da informática é mais intenso em todo mundo. Estamos entre os maiores usuários de internet e mídias sociais do planeta, e não nos damos conta de que dia após dia

LockBit: é um ransomware relativamente novo que foi descoberto pela primeira vez em 2019. Ele tem sido usado em vários ataques cibernéticos contra empresas em todo o mundo.

É importante lembrar que a ameaça representada pelo ransomware é real e em constante evolução. As empresas devem tomar medidas para proteger seus sistemas e dados contra ameaças cibernéticas, incluindo a implementação de soluções de segurança robustas e a adoção de boas práticas de segurança cibernética.

Precisamos seguir o espírito que rege (ou deveria reger) as Leis – o espírito dá vida. A Lei é perfeita (a do Senhor), e eu não deveria ter medo de seguir leis boas, de bom grado, sem acha-las um fardo.

Apátridas

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Seu João, o Apátrida

O avô da minha esposa, Sr. Jon Friesen, era de origem alemã, menonita. Nasceu na Sibéria Central, Rússia, no início do século XX. Com o advento (tragédia) da Revolução Bolchevique, os menonitas, cristãos, tiveram que se mudar de lá, fugidos, atravessando o Rio Amur, da Sibéria para o norte da China. Toda a família foi – pai, mãe, filhos, tios, tias, primos, e tudo o que tinham de possessões terrenas, em cima de carroças com esquis, feitas trenós. Passaram quatro anos (acho) para atravessar toda a China, então um “protetorado do Reino Unido”, até chegar a Shangai, e de lá num barco para Marselha, na França, onde uma sociedade de apoio aos migrantes menonitas os indicou dois destinos possíveis – Brasil ou Canadá. Parte da família escolheu Brasil, parte Canadá. Até hoje existem menonitas de nome Friesen (que é bem comum) em ambos os locais, aparentados.

O Sr. João (o Jon ou Ivan) entrou no Brasil como “Apátrida”, com um documento emitido pela Liga das Nações (creio, também), antecessora da ONU. Tive esse documento nas mãos, e creio que meu sogro, Heinrich Friesen, ainda deve ter em algum lado, ou a Tia Gertrude Friesen Dyck. Foi meu primeiro contato direto com o termo Apátrida – “sem pátria”. Ora, Seu João, a quem conheci bem, nos anos 90, tinha cara de “russo”. Falava um tantinho de russo, além do Alemão (Hoch Deutsch – o “Alto” Alemão, de Goethe e Schiller) e o Plötisch (ou Platt Deutsch, “alemão amassado” (Sic!) ou dialeto dos “alemão russo” como falam ainda hoje aqui perto, na colônia menonita de Witmarsum). Era russo, mas não era russo. O pai nasceu, até onde sei, na Península da Criméia, que já foi Rússia, já foi Ucrânia, já foi Rússia, já foi Ucrânia… e hoje é Rússia, de novo, meio que na marra). Não era Ucraniano. Não era Alemão (Friesen significa originário de Friesland, que tem Ost-Friesland e West-Friesenland, região do norte da Alemanha e Holanda, de onde vem a mistureba que chamam de Plöttisch…).

Seu João nunca se naturalizou brasileiro. Morreu Apátrida, portanto. Bom, eram os tempos dos documentos de papel, dos passaportes falsificáveis (hoje ainda são…) e das encrencas de fronteiras, que ainda existem naquela parte do mundo. Ao que me consta nunca teve problemas aqui. Aqui casou, criou os filhos, possuiu terras, e até se aposentou, e morreu. Está enterrado na Colônia Nova, em Nova Aceguá (antigo distrito de Bagé-RS) e em paz descansa, com o Senhor.

Da Sibéria para a Nicarágua

Ser apátrida por contingências é algo triste, até certo ponto. Depende de uma nação acolhedora, como eram o Brasil e o Canadá de então (e ainda são) para receber e dar uma vida digna a esses imigrantes pobres e sem bandeira.

Ser apátrida por decisão de um Estado Nacional é coisa que dificilmente se vê. Eu vejo histórias de “banimento” feitas por monarcas absolutistas de até o Século XVIII. Depois disso nem sei se o fato voltou a existir. Os absolutismos foram sendo reduzidos e os banimentos se tornaram muito raros. Depois da 2a. guerra mundial, nem sei como anda isso. Não sou expert em política migratória internacional, mas tendo a pensar que quase nada assim acontece. Nações desenvolvidas acabaram com isso.

De repente, surge um sujeito do 3o. mundo, com cara de caudilho analfabeto, e começa a retirar cidadania de seus paisanos. Um bispo aqui, um escritor ali, uma ativista de direitos humanos acolá… e isso parece que não incomodou ninguém, nem no mundo dito civilizado, por um bom tempo. Parece que começa a incomodar agora. Até mesmo no nosso Brasil varonil, de triste governo e tendências autoritárias. Parece que a dose foi demasiada, até mesmo para gente pouco dada à democracia, como os que temos no poder, antes e agora.

Ora, o que significaria ter sua cidadania, seu direito a um país, a uma bandeira, caçados por decisão do chefete de estado de ocasião? O que dizer ao mundo, se você agora se vê sem direito algum, em sua própria terra, da qual detinha um passaporte, cantava o hino e, no fim das contas, amava e ama?

O cidadão perdeu seus direitos, e não sabe para onde vai. Países latinos um tantinho menos ditatoriais, como Chile, Colômbia, México, outros nem tanto, como Argentina e Brasil, e até nações europeias, como Espanha (que, afinal de contas, criou essa confusão toda aqui) ofereceram asilo aos cidadãos (nenhum deles culpado de nada, exceto discordar do ditador). Como esses apátridas se sentirão aqui? Aliviados, como Seu Bernardo, pai do já descrito Seu João Friesen, por ter alguma terra para cultivar e paz para crer em Cristo? Ou frustrados por ter que receber um passaporte que não é o seu, de uma terra que não é a sua, cantar um hino que não é seu e tentar amar uma terra com a qual tem pouca afinidade?

Quem parará o ditador? Qual é o limite que precisa ser rompido, que lei internacional quebrada, que artigo da Convenção de Genebra burlado, para que o mundo se aborreça a ponto de intervir? Será Daniel Ortega melhor que Manuel Noriega, cujo Panamá se viu envolvido no quebra-pau com os EUA? Será que é preciso um Canal do Panamá para que alguém se digne a intervir?

O mundo está deixando de tomar atitudes por razões éticas, cada vez mais. Ah… isso sempre aconteceu, dirão os puristas. Sim, claro. Trata-se, porém, da frequência e natureza das infrações, e da qualidade e força das intervenções. Eu vejo um gráfico apontando uma queda cada vez mais forte tanto na frequência quanto na intensidade das intervenções.

Hutus mataram um milhão de Tutsis, em Ruanda, depuseram seu monarca, e o mundo olhou. As manchetes não tinham um milésimo da indignação que o holocausto até agora gera. Uganda foi inundada de refugiados Tutsis, que devem estar por lá até agora. Apátridas, todos, na prática, senão na documentação.

Eu e você, cristão, conservador ou pelo menos amante da família nuclear, de pai e mãe, corremos o risco de sermos os novos apátridas, em algumas décadas, ou anos? Eu tenho a distinta impressão que sim. E tenho também o distinto medo de que ninguém virá em nosso socorro.