Indo pro Inferno

Todos, ou quase todos nós, temos amigos queridos. Os amigos queridos têm o condão de encher nosso saco sem o menor problema. E sair ileso disso, e ainda receber abraços, e uma dose extra de amor fraternal.

Esse post aí me foi “proposto” como uma pimenta na minha conhecida declaração de fé em um Deus Único, Criador dos céus e da terra, justo e amoroso.

Eu disse ao dito cujo que o responderia, se ele quisesse, em privado, explicando a situação que está proposta aí. Não dá pra fazer digressão ou exegese nos confins do Zap… Ele não veio a mim, sábio que é, pra não ter seu augusto saco cheio, de volta, por mim. Então me digno a escrever, em muito mais linhas do que ele estaria com vontade de ler (aguenta, cabeção!), mas com o que considero ser uma visão que NÃO vai mitigar suas inquietudes, porque quem crê não precisa de explicação, quem não crê não aceita nenhuma delas. Mas vale a tentativa.

Em tempo, o amigo querido em pauta, há uns tempos, disse que estava lendo a Bíblia. Fico feliz com isso, porque parte dos conceitos que vou tentar ordenar não serão inéditos pra ele.

O problema do Conhecimento de Deus

O tal esquimó aí em cima, vivia lá num canto isolado de Labrador, ou um outro Finisterre qualquer gelado lá de cima. Ele obviamente não conhecia o Deus Único em que cremos, nem em Seu filho, Jesus Cristo, em que creio. Nunca ouviu falar do Credo Apostólico nem da Igreja Única, de Cristo, chamada “a Noiva do Cordeiro”.

O tal esquimó então (paradoxalmente, pra piada ter graça) pergunta se ele conhecesse o “Tal de Deus” e o Pecado, ele iria pro inferno. O “Tal Deus” responde, para surpresa do amigo Inuit, e manda um “sim, se você soubesse e não cresse, iria direitinho pras profundas dos infernos”. O inuit então retruca – “então por que você me contou???”… A piada é muito boa, claro, tanto pelo caráter sem-pé-nem-cabeça da proposição inicial, como seu desfecho inesperado, à lá Abbott e Costello – quem é mais velho lembra –

Abbott – “Não me diga que o Tia Edna morreu”…

Costello – “É… a tia Edna morreu”…

Abbott – “Eu te DISSE pra não me contar!”.

Paráfrase de uma das muitas “Não me diga” dessa dupla de comediantes hilários

O que isso representa

A teologia trata do assunto, sem piada, e de forma bastante coerente e racional, baseada em alguns textos do Velho e Novo Testamento que apontam para um racional derivado da observação:

  • Deus nos criou dotados de certos atributos intrínsecos – imagem e semelhança à Ele
  • Esses atributos nos fazem capazes de observar a natureza, externa e interna (a Natureza e a nossa natureza) de forma a tecer certas conclusões inescapáveis:
    • Ou tudo existe ou nada deveria existir
    • Tudo é tão lindo e perfeito, em todos os detalhes, que a vida sem uma sincronia e perfeição difícil de ser obtida sem muita inteligência é tão “aleatória” como chegando a ser impossível
    • Existe uma “Lei Moral” dentro de nós – alguns podem chamar de Compasso Moral, que nos faz rejeitar imediatamente algumas coisas, em detrimento de outras. Por exemplo, matar é algo desprezível, e isso está entranhado dentro do Ser Humano. Portanto, a vida é sagrada. É um “imperativo moral” que aponta para “Algo”.

Com o Dennis Prager falou certa vez – Deus não nos deu qualquer PROVA de Sua existência, mas deixou o mundo lotado de EVIDÊNCIAS dela. E a razão é simples – tanto a existência quanto a não-existência de Deus, comprovadamente, esmagaria o ser humano: a existência pela impossibilidade clara de se chegar a Ele, e a não-existência pela futilidade que a vida teria, o que poderia fazer com que qualquer adulto preferisse o suicídio a viver debaixo de tal maldição – a de ser “nada”.

Portanto, ressoa no meu coração a imensa sabedoria de um Deus que conhece nossas limitações e nos leva a uma única atitude possível, ante a existência ou inexistência de Deus: FÉ. Seja a existência como a inexistência de Deus, só se acredita mediante a fé. Seja ela no Deus da Bíblia ou no tratado científico que mais nos agrade, é somente pela FÉ que somos “salvos” (o que quer que isso signifique pra você).

A resposta ao Inuit

Em primeiro lugar, em um tempo de politicamente correto, chamar o cara de Esquimó é o máximo da falta de correção: Inuit (primeiros povos) são os “Esquimós”. Esquimó é um termo usado pelos Inuits pra NOS denominar “estranhos”.

O tal inuit, então, chega a, sabe-se lá de onde, perguntar a um Deus – não é difícil entender isso, dados os conceitos que já falamos, de Revelação Natural e Compasso Moral – se ele vai pro “Inferno” se rejeitar Deus e não acreditar no pecado. Deus diz que sim, claro.

Se Deus é justo, e se, como a Bíblia diz, Ele não poder deixar “impune” qualquer pessoa que tenha se separado dEle pelo pecado. Como lá está escrito que “Todos pecaram e destituídos estão da Glória de Deus” (Romanos 3:23), então todo mundo carece de perdão de Deus.

Em outro lado, o Apóstolo Paulo (o mesmo de Romanos, acima) diz que “onde não há Lei, não há transgressão da Lei” (Romanos 4:15). Daí deriva a piada acima. Ora, se eu não sei se algo é errado, como é que eu vou evitar cometer um erro? Eu não posso ser considerado culpado por algo que eu sequer sei que é errado.

Nas minhas aulas de domingo, na Escola Dominical, da Igreja Batista Essência, me saí com uma alegoria que exemplifica bem esse conceito:

Cinto de segurança

Houve um tempo em que não era “pecado” (lei) o uso do cinto de segurança. Isso era assim por várias razões. Houve tempo em que nem cinto havia. Portanto, como antecipar o uso de algo que ainda não tinha sido inventado?

Depois da invenção do cinto abdominal, sua limitação de uso e a incerteza sobre se ajudava ou não em caso de acidentes, fez com que seu uso demorasse a ser tornado obrigatório. Isso ocorreu até que a Volvo criou o Cinto de 3 Pontas, e cedeu, gratuitamente, a novidade para todo o mercado, diante do impacto positivo e do aumento fantástico de segurança para os motoristas.

Passou a ser Lei, e hoje eu sou multado se ando de carro sem o apetrecho. Minha aplicação diz respeito justamente a isso – a Lei era considerada boa, por Paulo, e por Jesus (que diz que a veio cumprir, e não revogar). Portanto, a existência de uma Lei que me obrigue a usar cinto é algo fundamentalmente bom.

Mas o melhor de tudo não é a Lei – é o Cinto de Segurança em si. Eu esqueço do incômodo de usá-lo principalmente no calor, quando ele me protege de dar de cara no parabrisa do meu carro, ou de sair voando através da janela, em caso de colisão. ÉSSA é a beleza da Lei. A Lei foi dada porque fundamentalmente é algo que faz bem ao ser humano.

Trata-se de uma coisa que ajuda, e, se entendida, não traz chateação. O Rei Davi diz mais de uma vez nos Salmos que “A Lei do Senhor é perfeita”, “Ó quanto eu amo a Tua Lei”, e por aí vai. Davi entendeu a utilidade da Lei, mais do que o “fardo” que alguns querem fazer parecer.

O Inuit fez a pergunta errada, pra começar a conversa. Não se trata do “pecado”, mas do erro de se afastar de uma “regra” que preserva e melhora a vida. O Inuit deveria ter refletido sobre o quanto a Lei Natural, a Revelação Natural, é útil. Ainda que admitisse a existência ou um conceito diferente de Deus, a revelação natural existe e subsiste como conceito por si só.

Se Tia Edna morreu ou não, o fato independe de terem ou não me contado.

O Deus do Inuit

Não tenho a menor ideia – no momento que escrevo – de que tipo de deidade acreditam os Inuits*. Vou procurar ver depois. Mas independentemente disso, a piada mira no cristianismo, de forma bastante direta. De qualquer forma, a Palavra diz que “ninguém pode se dar por escusado”

A charada, pelo menos do ponto de vista Cristão, “morre” com a afirmação d de Efésios 4:9-10 (citação abaixo), de que Jesus Cristo, desceu para ao “Hades” (morada das almas dos mortos) para “pregar às almas”. O Hades é um conceito grego que não equivale a inferno. Segundo a Bendita Wikipedia, “Hades é a transliteração comum para o português da palavra grega haídes, usada em várias traduções da Bíblia. Talvez signifique “o lugar não visto” ou “o lugar invisível”.

Jesus teria ido a este “lugar invisível” para “pregar às almas”. Quando foi isso? Não importa. Se cremos que Jesus é Deus, e eu creio, estou plenamente confortável em crer que o local não é físico nem cronológico. É todo e qualquer momento em que o ser humano será visitado, “sim ou sim”, pelo Filho de Deus, que lhe falará diretamente ao coração e indicará o caminho ao Pai. Assim, ninguém, biblicamente, pode se dar por escusado.

Em tempo, as citações que chegam a esta conclusão estão contidas abaixo:

Porque por isto foi pregado o evangelho também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, mas vivessem segundo Deus em espírito.

(1 Pedro 4:6)

 Ora, isto – Ele subiu – que é, senão que também, antes, tinha descido às partes mais baixas da terra?  Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas. 

Efésios 4:9-10

Quer-se dizer que Jesus não desceu a canto algum que não já estivesse ido, seja no Sábado de Aleluia seja em qualquer outro dia, antes, durante ou depois da Sua Vinda. Isso importa menos do que o tema aqui proposto – ninguém poderá ser dado com escusado diante de Deus no dia do famoso “Julgamento”. Todos, grandes e pequenos, de todas as épocas, tribos, povos e raças, irão se encontrar face a face com Deus. Nisso eu creio, por isso anseio e espero.

Ao meu amado amigo (que não menciono porque não me procurou pra estudar – diz ele que tá em Harvard, of all places, fazendo uma pós graduação. Tendo a crer… hehe) digo que espero que ele aceite a resposta dada, de coração, às suas inquietudes. Lembro, porém, o que ouvi de Joelmir Betting, de saudosa memória e católico praticante:

“A quem não crê, nenhuma explicação é suficiente; a quem crê, qualquer explicação é desnecessária”

Atribuído a Joelmir Betting – já que ouvi dele.

* Li depois na Wikipedia que os Inuits não acreditam em um Deus, mas em um monte de espíritos e deidades, bons e ruins. Ou seja, são “animistas” como boa parte das culturas nômades. Na minha opinião, esta é uma razão pela qual a maioria aderiu ao cristianismo de bom grado. É uma explicação mais razoável para o mundo. O mesmo aconteceu com os povos indígenas mais ao sul, mas esses já tinham em si o conceito de um Deus criador. Mas isso é outro capítulo.

Desconstrução da Objetividade ou a morte da Ciência

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Leio regularmente um website chamado Quillette.com, e recomendo. É um site de ideias, um site de artigos compridos e muitas vezes acadêmicos demais para o ouvido não treinado, o que não apaga seu valor – principalmente num mundo em que mais de 15 segundos, ou 2 linhas, é uma eternidade. O “attention span” do adulto médio brasileiro, creio que deva andar pelos 5 minutos, o que coloca este meu artigo fora do esquadro para a maioria dos que me dirão que o leram.

Mas divagações à parte, hoje li com interesse um artigo que “falou ao meu coração”, pela tragédia intelectual que traz à tona. Traduzo uma pequena parte e gostaria que o meu eventual leitor apelasse para sua generosidade com minha prosa e lesse até o fim:

Vários anos atrás, no mundo pré-pandêmico das reuniões presenciais, um colega recém-contratado do Fashion Institute of Technology propôs um curso de sociologia com temática LGBT, antes da School of Liberal Arts. Este é um passo necessário para que o curso seja aprovado pelo comitê curricular da faculdade. Era a hora de darmos um feedback construtivo e ajustes ocasionais, antes da votação final do comitê. Era um bom curso. A proposta era clara e concisa, indicando não apenas um domínio da literatura relevante, mas uma sensibilidade aos interesses, expectativas e capacidade dos alunos para lidar com a carga de trabalho.

Notei, porém, um problema que parecia aparentemente menor e facilmente corrigível. Entre os resultados de aprendizagem listados estava a exigência de que os alunos desenvolvessem uma “maior aceitação das perspectivas e direitos LGBTQ+”.

Isso me pareceu problemático. Acontece que penso que tal aceitação é uma coisa boa, mas estipulá-la como um resultado de aprendizagem levanta uma questão complicada. Se um aluno dominar o material do curso, entregar o trabalho exigido e passar nos exames, mas não exibir essa aceitação, ele será reprovado?

Depois de expressar minha admiração geral pelo curso, expressei minha apreensão da seguinte forma (e isso é quase uma citação exata):

“Precisamos ter em mente que somos uma universidade estadual. Nossa missão é buscar, averiguar e disseminar a verdade objetiva e equipar nossos alunos para fazer o mesmo. Por essa missão, não acho que podemos propor um resultado de aprendizagem que exija a aprovação dos alunos em uma questão de moralidade pessoal. Os outros resultados de aprendizagem são bons. Você não precisa disso, então eu simplesmente cortaria.”

Minha colega tinha acabado de sair da pós-graduação e ainda não havia se formado, o que (teoricamente) a colocava em uma posição vulnerável. No entanto, ela teve um ataque apoplético; com tanta raiva, na verdade, que ela teve dificuldade em pronunciar sua primeira frase. “Não acredito que as pessoas ainda pensam assim!” ela gaguejou. “A Queer Theory desconstruiu a objetividade!”. Suas palavras pairaram no ar enquanto eu olhava ao redor da sala. Nem um único membro do corpo docente, nem mesmo aqueles em matemática ou ciências, parecia perturbado por sua declaração categórica. Como eu era um professor titular, relutava em debater com um colega não titular durante uma reunião escolar. Então, deixei o assunto de lado. O curso foi aprovado sem revisão pela Escola de Artes Liberais, e passou a ser aprovado pela comissão curricular. E foi assim que minha faculdade entrou no negócio de ganhar convertidos.

Mark Goldblatt in https://quillette.com/2023/02/07/the-approaching-disintegration-of-academia/ – Grifos meus, tradução minha e do Google Translator…

Não estou aqui, como não está o autor, Mark Goldblatt, para concordar ou discordar com a proposição, nem mesmo com o que a professora chamou de “Queer Theory” (Teoria Gay, ou coisa que o valha). Não se trata nem de concordar nem discordar dessa ou aquela posição, no espectro de pensamento possível ao ser humano de qualquer espectro, raça, religião (ou falta dela). Trata-se da negação da POSSIBILIDADE DO CONTRADITÓRIO. O professor catedrático teve que se calar, ante a professora iniciante, tão somente para evitar um problema mais sério, devido ao fato de TODOS os outros acadêmicos presentes terem se omitido, ante a avassaladora pressão exercida por um conceito que sequer admite ser questionado.

Questionar é Preciso?

A pergunta fundamental é essa. Estamos proibidos de questionar? Sejam equações ou urnas eletrônicas, estamos diante de grupos organizados de pressão cada vez menos propensos a aceitar ser contraditados. E não apenas se sentirem afrontados pela mínima discordância, mas pessoalmente ofendidos. Independentemente de se tratar tão somente de um debate saudável de ideias.

O medo maior, no meu caso, é que tal postura está chegando em ciências exatas, o que será, certamente, a total abdicação do direito de inovar e quebrar paradigmas.

Desconstrução da Objetividade

Acho que neste “pormenor”, a professora da citação tem toda razão. A Queer Theory quer, de fato, “desconstruir a objetividade”. O que isso poderia significar? Uma banana pra realidade; uma figa pro senso comum? Não se sabe. O fato é que ao dizer que desconstruiu a objetividade, eu coloquei no lugar dela algo diferente – e necessariamente menos objetivo – subjetivo. Qual é o lugar que a subjetividade possui no meio acadêmico e científico? Em minha opinião, não deveria ter nenhum lugar. Nem mesmo em “ciências” consideradas menos exatas, como sociologia, psicologia ou mesmo teologia, a base é o sufixo “logia”, lógica, sobre a qual se baseia, ou deveria se basear, qualquer estudo sincero – nem vou dizer sério, porque o conceito de seriedade também pode ser considerado subjetivo. Sincero, porque se propõe a observar a realidade, e comprovar, de forma tão segura quanto possível, os resultados experimentais ou provas matemáticas/mentais.

Por lógico, descontruir a objetividade parece significar a inclusão de elementos menos palpáveis, ou comprováveis. Isso fica claro no uso que se dá à própria linguagem. A desambiguação da linguagem é o objetivo, por exemplo, dos dicionários e da linguística (e mesmo a filologia). Com as mudanças constantes de conceitos, baseadas em preferências e sensações, mais do que em fatos ou usanças, perde-se o referencial e o entendimento comum de um termo. Os grandes escritores do mundo ajudaram a “fixar a língua no tempo”. Shakespeare no inglês, Goethe e Schiller, no alemão, Dante Alighieri no italiano, Cervantes no espanhol ou Camões no portugues escreveram de forma tão magistral que ajudaram a transformar “sua versão” do idioma em “regra culta”, menos mutável, e por conseguinte menos sujeita a más interpretações.

Um tio querido, recém falecido, tradutor juramentado de alemão, sempre se gabava da superioridade desse idioma para definições de engenharia – só como um exemplo. É de tal ordem, e tão bem definido, o conceito de cada coisa, que é praticamente impossível a um engenheiro “não entender” ou “desentender” algo, devido ao detalhismo do idioma alemão com coisas para as quais temos uma só tradução como “alicate”, “arruela”, “fechadura”, “biela” e coisas que, se ambíguas, tornam um carro uma carroça.

Posso ir adiante falando do tema, mas como já perdi talvez 99,99% dos meus leitores, por enfado, deixo o texto à posteridade – ou pra mim mesmo no futuro, quando eu mesmo tiver saco para ler o que escrevi. Mas ao ler, saberei de forma precisa o que quis dizer – espero.

Poda

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Tenho duas pequenas figueiras no jardim da frente de casa. Uma é de figos amarelos, é mais velha, e dá entre 200 e 300 figos todos os anos. Após cada estação, eu podo a figueira de um jeito que um vizinho já achou que eu ia matá-la. Nada disso. Quanto mais podo, mais (e melhor) era flore e dá frutos, no ano seguinte. A outra figueira é ainda muito jovem e só este ano começou a dar uns figos roxos bonitinhos.

Quem, como eu, tem jardim grande, sabe que só tem boas flores, boas folhas e bons frutos se você cuidar, aguar e podar com regularidade e sem muito medo de matar a plantinha. O caso do Bonsai é ainda mais complexo e emblemático: nesse caso, ideal é não deixar a planta crescer, podar raiz, e mantê-la quase à míngua. Daí fica linda e faz jus ao nome “árvore de pote”.

Acho que os caras de Davos devem ter chegado à conclusão de que são “jardineiros” desse mundo, e que precisarão fazer algo radical, como um “Great Reset”, ou uma poda rasa, para que o mundo continue a florescer. Parecem ter tomado nas mãos a tarefa da “poda mundial”. Para isso, precisam passar essa ideia sob um tom menos ameaçador do que faria um Hitler, um Stalin, um Mao ou Pol Pot. Precisam revestir suas ações de uma verborragia benevolente.

Bill Gates já foi acusado de querer atingir esse objetivo por meio de uma “vacinação forçada” (dizem os fact-checkers que é mentira). Independentemente do que seja ou não verdade, ou esteja ou não no coração dos “esclarecidos”, ou como Thomas Sowell chamou, os “Ungidos”, o fato é que muita gente acha que 8 bilhões é gente demais e uma poda expressiva precisa ser feita.

Quem fará? Eu? Você? Algum governo esclarecido, “do bem”? Malthus achava que a população se autorregularia na marra, por meio de epidemias e guerras. O pós-segunda-guerra provou que isso pode não ser tão verdade assim. Ou pelo menos que um “ajuste malthusiano” pode acontecer de forma mais espaçada, e, por isso mesmo, muito mais radical. Malthus pode até estar certo, mas não disse que alguém faria isso de forma premeditada e racional: apenas que situações específicas forçariam as tais pestes e guerras.

Podar milhões, ou mesmo bilhões de seres humanos, gente como nós, não deverá ser algo a ser feito sem uma reação grave, de quem está sendo “podado” ou que não crê nessa poda.

Eu, se for “podado”, não pretendo ir sem uma boa briga. Podar, não vou. O tal “ama teu próximo como a ti mesmo” não deixaria. Mas vá lá: no reino vegetal, pelo menos, uma poda é essencial. No reino animal, a poda é individual, e mais doída, por levar a totalidade do ser pro brejo. Mas suponhamos que necessária. Como escolher quem vai? Quem executa a poda, e com que instrumentos? Quem decide quem fica? Quem é mais importante que fique? Os bonitos? Os inteligentes? Os ricos?

Sob qualquer aspecto, o nível de julgamento a ser exercido, só Deus (“O” Deus) poderia saber. Mas ele já disse que uma poda virá, e já nos deu até as bases para o corte. Eu não preciso me preocupar nem escolher um lado para estar. Claro que, pudesse escolher, escolheria ser podado, antes que podar.

Países cujas populações passaram a decrescer, estão morrendo. O Japão é um exemplo. Portugal teve seu pescoço demográfico salvo por uma infusão de estrangeiros maciça. Outros, europeus, e mesmo a China, estão em declínio populacional (a China, somente este ano começou a encolher). O Brasil perdeu seu bônus populacional e agora envelhece a olhos vistos. É vítima de ter perdido a juventude antes de ganhar a riqueza.

Então a poda é necessária? Nunca foi, nunca será, e, pior, nunca seria algo moral. Seria sempre algo demoníaco, como aliás, tudo o que está acontecendo diante de nossos olhos é: o mundo jaz no maligno, diz a Bíblia, e em nenhum momento da história isso foi tão real como agora. Nunca o “diabo” foi tão presente na história – diabo significa “dois lados”, “duas facções”. O mundo nunca esteve mais polarizado, e as partes nunca se ouviram e tentaram se entender tão pouco quando hoje em dia.

O pior é que estou seguro de que ambos os lados do espectro ideológico parecem querer fazer o bem. Mas enxergam o outro lado sempre como sendo “do mal”. Somos incapazes de ventilar ideias e fluir palavras com a única intenção de melhorar o entendimento sobre um assunto, e sobre o outro.

Parece que um grupo de “demônios” fica direcionando um conflito sem fim, entre essas partes radicalizadas e isoladas uma da outra, colhendo os frutos que podem nos levar a tentar “podar” a outra parte. Malthus do Capeta parece que pode levar à poda.

É poda, ou não é?

Brazil’s Bicentennial

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I was born in Brazil. I am proud of it. I was born some months after an alleged military Coup d’État was completed, with the support of the higher and lower chambers of the Congress, as of April 1st 1964. I was called “a son of the dictatorship” many times. Well, I had no heart, I heard several times, as the adage goes – “he who was not leftist when young…”. I hope I developed a brain from my young years to now…

I was educated here in Brazil. I heard, thousands of times, my teachers telling us of the shortcomings, pitfalls and errors of my country. I was led to believe we, as a nation, were a failure, an abomination, and more recently, a terrible place to be a minority, be it black, gay, or have the “wrong” religion.

Teachers Said…

According to our teachers, our discovery, in 1500, was a fraud. I was taught that the Portuguese people came here to usurp, despoil and kill. Only. The fact that according to the sensus of the XVII and XVIII showed a Brazil with a GDP per capita similar to that of the USA. That clearly means that Brazil was not “destitute” as we were made believe. In fact, Brazil was, at the time, twice the size of the “Metropole”, Portugal.

We we also taught that our independence, bloodless as it was, was another fraud. We were being turned independent just to remain under the boot of tyrants – England being the main beneficiary of this torpidity. No one in Brazil had a say about it. We were irrelevant. 100% useless big farm. Our 2 rulers (Don Pedro I and II) were sold to us as frauds, tyrants and very bad to the population. They were pro-slavery, bad, bad elements. Don Peter II deserved to lose his throne, we were taught.

Our Republic was another farce. Despite of the fact that the old, former Emperor deserved nothing but the worst. The Republic was proclaimed and was born as a sort of dictatorship. All was decided by a group or pro-slavery landowners, sycophants, all, and also very very bad people.

Our participation in World War II? A failure, irrelevant (despite the thousands dead in Italy) our teachers told us. A fascist dictator was in charge of support the “free-world”. What a lie!

Our way of life was never endangered during the Cold War. That was all a smoke screen to the public opinion. Our Congress did not consider the presidency vacant, when João Goulart, a leftist president, left the country without the authorization of the Congress, which was forbidden by the Constitution. No. We were lured into believing we were under threat of a Coup D’État from leftist individuals. The Brazilian Communist Party never had in its tenets the definition of “Internationalism” and having one single, supreme party in power. No. We were led to believe we were being saved by the military. Guerrillas just wanted us to be free from Imperialism. And, again, before you ask, no – they did not want to substitute one form of imperialism for another one.

More modernly, we were fooled into believing the military did not leave power by their own free will, once the menaces of communism revolution were reduced, due to the impending doom of the Soviet Union. Nope… absolutely not. The “milicos” left, we were taught, because the military were “expelled” of the power by the enlightened academics and politicians. That was 1985 and I was 21 by then, and working as super-junior (and bad) auditor. I was living by myself by then and still in college. Again, I never had a heart, and therefore I did not understand that I was a slave of a dictatorship. Well, I voted every 2 years, I was never impeded to go here or there, leave the country, buy and sell, and even curse the military, the press, God, or whatever the ethanol in the blood stream required from me.

We then were taught we had the best Constitution of the whole world. By 1988 we were entering the concert of the civilized nations, at a long last. And no… we were not being played by two left wing parties, in what was called the “Theatre of Scissors”… nope. All was well. We were being enlightened.

We had the best of all times during the Lula`s presidency. And before anyone asks, no… definitely he did not rob us big time. The USD 6 Bn sent back to the treasury and to Petrobrás was a figment of our imagination. And no… a mid-tier manager did not put back into Petrobras an amount of USD 96 Million. He was threatened by bad people (public attorneys and federal judges) to relinquish their own, sweated money to the Company as to avoid prison. Bad system we have. Lula did not surf the best economic period of all times. No… commodities were not at historic highs when he was in power. He was not responsible for putting into his own chair a bad, stupid president. No. The woman was a maverick and was unfairly impeached because of “minor faults”.

We are here today, under a fascist president. One that has been massacred by the press in a day-by-day basis, worldwide. And a thousand times no. The man is a “negationist” and “the very worst president ever” of Brazil. No. inflation is out of control, at 6% in 2022 (check this figure against USA and Europe). The country is not growing 2.6% this year. No no and no – we are to vote for Saint Lula, if we want to regain our independence.

What I see…

All in all, Brazil is a 522 years-old failure. Those are the “facts” as we were taught by our enlightened teachers and precise and technical press. Facts? What about facts? Who needs facts when we have a mission to fulfill, comrade?

Well, I live in the best and most beautiful country of the whole world – I am a negationist, after all. I live in a place of kind and warm people. I live in a place that has been undermined and robbed by our politicians, with just a few respites along our history. I live in the “cherry over the cake” country, desired by all powers to be. I live in a country that has increasingly embraced good western values, such as Christianity and free market. I live in a place that can be so much more!

I live in a place where 80% of its energy is renewable and still has 1/3 of its territory preserved as it was in 1500. We have the least polluting car fleet of the world, using a mix of ethanol and gasoline which is much better to the environment than the alternatives.

I am proud of this country. I am sick of people telling us how bad we are. I am tired of seeing our own “elite” going abroad to dissacrate the truth and tell everyone that “the Amazon is burning” when it is not true.

Yes, we can do better. Yes, we can go greener. Yes, we can discriminate less. Yes, we can simplify taxation, limit the invasiveness of the State, improve our judiciary system, control criminality better. Yes, we can make this a better place, but man… I do not want to permanently live in another country. Though I very much love the USA, Italy and other countries in which I am very well received, I love my dear country.

Long live, Brazil! May the next 200 years be better, easier, and more just. God bless Brazil!

Confortavelmente Entorpecido

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Confortáveis

Em 1979, Roger Waters e David Gilmour “poetizaram” uma tendência que estava já em sua adolescência, e que se tornou um problema de saúde pública hoje.

“Não há dor, você está recuando
Um navio distante, fumaça no horizonte
Você está apenas vindo em ondas
Seus lábios se movem, mas não consigo ouvir o que você está dizendo
Quando eu era criança
Eu saquei um vislumbre fugaz,
De rabo de olho
Eu me virei para olhar, mas ele já tinha passado…
Eu não consigo detalhar o que isso significa, agora
A criança está crescida…
O sonho se foi
Eu me tornei confortavelmente entorpecido”

Pink Floyd, in The Wall, 1979

A juventude, em 1979, encarava um problema: negava-se a encarar a vida, talvez pela primeira vez (de forma coletiva). Antes era mais difícil, porque quem assim o fizesse morreria de fome, frio ou ostracismo social. A vida tinha sido tornada fácil pelas gerações que antecederam os “Baby Boomers” (BBs, nascidos entre 1950 e 1970). Eram tempos nos quais pagar as contas ficava mais a cargo do Estado do que do cidadão, mesmo nos EUA, mais pragmáticos, e muito mais na Europa, com seu estadão grandão e paizão.

A geração dos BBs foi-se revelando, mesmo, uma geração de bebês. No Brasil essa tendência demorou mais a chegar, pois aqui custamos mais a poder depender do estado, e as famílias ainda eram mais próximas e exigentes. Não é mais assim, hoje em dia, e nos aproximamos muito aos padrões de primeiro mundo, pelo menos para uma classe média e alta urbanas.

Confortavelmente entorpecidos fomos vivendo, álcool, narcóticos, pornografia e outras coisas nos distanciando da realidade. Liberdade, como dizia a propaganda de jeans, “é uma calça velha azul e desbotada”. Ou seja, liberdade é usar o que quiser, falar o que quiser, fazer o que quiser, se quiser, fumar, cheirar e beber o que quiser. É proibido proibir, foi nosso mote – o da minha geração, que basicamente começou isso, por aqui. Confortavelmente entorpecidos continuam nossos contemporâneos, e as gerações que nos sucederam, como Gerações X, Y, Millenials, etc.

Vivemos confortavelmente por tempo demais.

Entorpecidos

O entorpecimento parece já não ser tão confortável, mas seguimos negando fatos que são esfregados na nossa cara. Nem numa cracolândia, comendo lixo na rua, parece que o cidadão consegue enxergar que está pouco confortável, e muito entorpecido. Quanto mais desconfortável, mais entorpecido precisa estar para seguir adiante. Se é que se pode chamar esse estado de “ir adiante”.

Estamos entorpecidos por não termos disciplina. Estamos entorpecidos por termos perdido a liberdade para a preguiça, o conforto e a irresponsabilidade com o futuro, e a falta de perspectivas.

Esse entorpecimento é fruto da indisciplina reinante, e tem alguns frutos bem visíveis.

Escrita e Leitura

Não escrevemos mais. Estamos perdendo a capacidade de nos comunicar por escrito. Por consequência, a falta de disciplina para tal nos faz perder também a capacidade de nos comunicarmos oralmente. Quem não consegue colocar em palavras um mínimo de sentenças organizadas, não vai conseguir falar adequadamente. Vejo que mesmo os analfabetos ou semi analfabetos do meu tempo de criança sabiam se expressar melhor do que muitos alfabetizados de hoje. Talvez porque fossem analfabetos por falta de oportunidade, mas não por desinteresse. O que lhes faltava em letras, talvez lhes sobrasse em reflexão.

Metade, ou mais, de quem chegar a começar a ler este texto provavelmente vai largar – até entendo que meu estilo é chato, mas espero que não o conteúdo. A verdade é que ler se torna cada vez mais difícil a quem prefere ver. Tik-Toks e outros Reels são prova eloquente dessa preguiça em decifrar caracteres. Quanto menos eu ler, menos eu sigo uma linha de raciocínio, e menos, consequentemente, terei disciplina para formar padrões e ideias. Adoraria estar exagerando. Temo que não esteja.

Estética e Música

Desde a pele se tornando um pergaminho multicolorido até os piercings e mutilações cutâneas, fomos sendo paulatinamente tornados cegos à beleza da pele humana. Passamos a achar lindos os apetrechos colocados sobre nós em exageros, que muitas vezes chegam ao implante de chifres.

Na música, repetições indolentes das baladas sertanejas, repetitivas e previsíveis, ao pancadão cujo ritmo serve às rodas de semi-zumbis de periferia, deixamos de lado a harmonia. Trocamos a beleza pela feiura, em uma estética pobre que as massas adoram.

Por que? Porque não requer disciplina alguma para absorver. Requer altura. O som de péssima qualidade, tocado no maior volume possível, talvez seja uma outra prova da necessidade de me isolar (acusticamente) do mundo ao redor.

Fones de ouvido, usados por horas à fio, fazem o papel de um biombo, ocultando nossos sentidos do mundo ao redor. Um belo quarto, pago pelos pais, com internet de alta velocidade e, de preferência, com ar condicionado e TV 4K, completam o serviço, nos tirando do mundo e não nos livrando de mal algum.

O que virá?

Costumávamos dizer que qualquer material tem sua resistência posta à prova, até o ponto de rompimento. Como tudo no mundo parece ser pendular, espero que o pêndulo, que me parece estar totalmente à esquerda (sem conotação política) poderá voltar a virar-se à direita (idem). Assim, é possível que o esgotamento de um modelo de indisciplina e a vida nesse “metaverso” terrível acabe por acabar, nem que seja pelo esgotamento de ter quem pague por isso tudo. Acabando o financiador, talvez acabe a indisciplina, pela via da escassez, do desamparo.

Não acho que isso vai acontecer, contudo. Entendo que o mundo, de fato “jaz no maligno” como a Bíblia diz. Essa entropia (desorganização) do universo, que é crescente, me dá um medo patológico de que cheguemos ao ponto de não-retorno, onde as pessoas estarão tão Comfortably Numb, que nem a morte será mal vinda. Será a consumação de um processo de deterioração que fará com que nossa civilização imploda, como faz o câncer no organismo, indo até matar o hospedeiro.

Eu escapo? Talvez. Acho que sim, porque de fato, estou numa bicicleta sem rodinhas. Se eu parar, eu caio. Portanto, o melhor que a sociedade poderia fazer pelo ser humano seja retirar dele toda e qualquer rede de amparo social (triste dizer isso…) que não derive da extrema necessidade e que não seja continuada, mas pontual. Deixar o ser humano voltar a ser responsável pelos seus pratos de comida, talvez faça com que levemos mais à sério o ato de sobreviver.

Comfortably Numb, mas às minhas custas…

No princípio era o Código-Fonte

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Com certeza, mudar o Evangelho de João de “Verbo” para “Código Fonte” vai aterrorizar alguns e outros me chamarão de herege. Afinal, creio que o próprio Apóstolo, ao trocar o nome de Jesus Cristo por “Verbo”, já deve ter apanhado em alguma medida… então o problema não deve ser novo.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo ERA Deus. O que João chama de “Verbo” é a palavra Logos, de onde derivam todas as palavras ligadas à Lógica, como Antropologia, Teologia, e por aí vai. Logos é o nome dado filosoficamente à RAZÃO. Ou seja, João está dizendo que o que criou o mundo foi a Razão. Uma das definiçoes de Razão, rapidamente arrancada da internet é:

Razão, no sentido geral, é a faculdade de conhecimento intelectual próprio do ser humano, é um entendimento, em oposição à emoção. É a capacidade do pensamento dedutivo, realizado por meio de argumentos e de abstrações. É a faculdade de raciocinar, de ascender às ideias.”

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Ou seja, no princípio existia somente o conhecimento intelectual, o raciocínio. Sem o raciocínio, nada do que existe teria sido criado. E então o Raciocínio veio até nós, fez-se carne, e morou conosco, e vimos sua Glória, como a glória de um filho único de Deus – demonstrando que o Filho de Deus é A Razão, o Raciocínio, e que Jesus Cristo trouxe a nós uma nova razão.

Por que tudo isso? Porque no fundo, É como se Deus, ao criar, tenha criado um código-fonte da vida, que se espalhou de forma proposital e dirigida, coisa que está sendo difícil à ciência desprovar, a cada dia. Quando nos demos conta, estávamos olhando dentro de nossas células, e demos de cara com um código de quatro letras, A, C, T e G. Com essas quatro letrinhas, O Verbo criou toda a vida que existe, desde o Princípio até agora.

A conclusão então é a de que somos “informação”? Somos feitos de informação, com um propósito? Sim, creio. Só que, como um vírus entra num programa de computador, um “código malware” entrou em nossa programação e fez com que ficássemos impedidos de fazer qualquer coisa, sem essa sequência errada de programação. O “hacker” foi denominado de Diabo, Serpente ou Satanás (aliás, um belo apelido pra um hacker “do mal” como esse). Precisou de um antivirus de alta potência, que para retirar o vírus de nossa programação, teve que “se deixar apagar”, voluntariamente. Isto é, se deixou morrer. Com isso, levou cativo o cativeiro, ou seja, levou preso o malware. Limpou o programa, e é a chave para fazê-lo.

Apenas que esse antivirus não se instala em local algum, em programa algum, sem autorização individual, dada por um “Enter” bem teclado. E muitos de nós não reconhecem o malware dentro de nós mesmos, se recusando a deixar o antivírus nos limpar.

No princípio era a Razão. Deus é a razão, e pede de nós uma vida racional, capaz de olhar em volta, ver a complexidade do programa baseado nas quatro letrinhas, dentro de nosso corpo, e reconhecer que é impossível alguém dar de cara com um manual de programação sem entender que aquilo está ali com um objetivo, e não por acaso.

Indo Além

Deus como inteligência, porém, é uma visão muito estreita. Nós trataremos de “desumanizar” Deus, se o tratarmos apenas como inteligência. A Bíblia, o Manual de Instruções e Programação, diz que “Deus é amor”. Como podemos fazer essa transição lógica de inteligência para amor? Vivendo num mundo de “programas infectados”, conhecemos bem a inteligência sem amor, fria, autocentrada, e via de regra, usuário do alheio sem meias medidas e sem pudor. O inteligente costuma usar tudo ao redor, quando lhe falta justamente o Amor.

E Deus é “amor” em essência. O que se pode concluir disso? Que quando se é realmente inteligente, como Deus é, tende-se a colocar o amor na jogada (esqueça por um momento se você crê em Deus ou num deus – apenas trabalhe com as variáveis sobre a mesa). Só quem é sumamente inteligente pode ser sumamente amoroso. Quando você sabe que é a pessoa mais inteligente da sala, e não se beneficia do outro, você não perde o respeito pelo outro, mas cresce em Amor. Amor aqui definido como o desejo de que o outro seja melhor, se sinta melhor, ame, e propague o mesmo amor.

Jesus, o Verbo, então veio dar testemunho desse imenso Amor. A inteligência se fez mortal, viveu entre nós num tempo analógico, e de grandes limitações materiais, para contar a nós que é possível usar um potente antivírus e ter nossos programas consertados; olharmos a Criação e vermos o amor de Deus por nós, em cada “linha de código” contida numa árvore, num, bebê, num pé de alface, qualquer coisa; olhar o outro e querer para ele mais do que queremos para nós mesmos.

Vimos Sua Glória como a glória do Único Filho da Inteligência. Se é difícil entender por que um Deus manda “seu filho” para estar entre nós, talvez a analogia com um antivirus, que é capaz de andar no meio dos programas e linhas de código comuns, e não ser, ele mesmo, contaminado, nos dê uma visão clara do Amor da Inteligência, do Programador, por nós.

O nome “filho” talvez transmitisse melhor o conceito do Cristo no ano 1, e talvez hoje uma analogia melhor fosse justamente a de um “código comprimido”, um “arquivo .rar” de um programa maior, da mesmíssima essência, mas de função diversa, de ser provado e depois estar habilitado a retirar o “virus do mundo”, um Cordeiro.exe, que, se dermos o “Enter”, teremos a certeza de estarmos livres do malware. Estando no mundo, porém, sempre estaremos em contato com o “virus” e sempre precisaremos recorrer ao antivirus, sabendo que não há necessidade de dar outro “Enter”, mas somente pedir para que “rode” e limpe o que marginalmente foi escangalhado nas funções do dia-a-dia.

Que o Supremo Código-Fonte continue nos limpando dos malwares do dia a dia, até chegarmos à estatura de linguagens perfeitas diante dEle!

O taxista baiano

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Numa dessas minhas andanças recentes a trabalho pelo país me deparei com um cidadão extremamente bem falante, educadíssimo, boa cultura, voz mansa, dirigindo um taxi que me levaria de um lado a outro da cidade de Feira de Santana, na Bahia.

Ah… a Bahia… um local único onde a cidadania enxerga o mundo de uma maneira muito interessante, nem sempre correspondendo ao que se vê no dia a dia. Bahia de todos os santos, e demônios também… Mas deixemos o coisa-ruim pra lá, se der pra fazer isso.

Arthur Schopenhauer, em seu livro “Como vencer uma debate sem ter razão alguma” elenca 38 formas de debater, e ser bem sucedido, sem ter razão. É, obviamente, uma fina ironia mas define exatamente o mundo em que vivemos, sem a obviedade: quem assim debate não sabe que não tem razão, muitas vezes.

Foi o caso do dito chofer de praça… Lá pelas tantas, numa dessas interjeições que me marcam (e me atrapalham) lanço uma expressão sem objetivo claro, algo do tipo “isso é coisa de esquerdista”, ou “gripezinha, como a Covid”. Foi o suficiente para, com voz calma, branda e didática, eu ter sido ensinado, entre outras coisas: a)meu negacionismo, com relação à Covid; b)meu erro por achar o Paulo Guedes um bom ministro da economia; c)minha suprema burrice por não enxergar o que claramente se nota – que o preço da gasolina está alto por culpa única e exclusiva dos nossos dirigentes.

Não se iludam os meus (parcos) leitores. Nada foi dito com raiva. Não fui chamado de fascista, negacionista, terraplanista e tudo o mais. A voz branda me “educou” em vários aspectos da minha vida em que eu, obviamente, estou totalmente errado. Num dos momentos áureos da corrida que não durou 20 minutos, foi educado no que significam dados científicos. “Vou lhe dar dados à prova de bala: a Covid mata mais do que qualquer outro vírus – as estatísticas (sei lá de que, nem me lembro) confirmar. É ciência!”. Admiti, claro, que matava, pois é verdade. Mas dizer que mata, e mata mesmo, mas que não seria razão para declaração de pandemia ou “feche tudo” não serviu de nada. Os olhos diziam da tristeza que ele sentia por mim, uma alma condenada ao purgatório, no mínimo.

O senhor tem que entender que o Paulo Guedes está fazendo uma péssima gestão. Não vê a inflação? Não vê o preço da gasolina? Não vê como a gente está morrendo de fome feito moscas nas ruas?“. No que eu tento (em vão) contra argumentar – mas o que foi possível foi feito, creio, um auxilio de R$ 400,00 para quem não tinha nada é o que se pode fazer num país com orçamento apertado.”… “Seu Wesley, vou lhe ensinar uma coisa – nós somos um país de miseráveis, e R$ 400,00 são esmola…“. Tá ok… fazer o que, ele tem razão, a economia, afinal de contas, a gente vê depois.

Minha irritação sobe na medida em que a vozinha de padre de paróquia vai ficando tanto mais agressiva nos argumentos quanto mais doce e branda no tom. Eu ia perdendo a paciência. A discussão, eu já tinha perdido. No final da corrida o meu professor de economia e saúde ainda me diz “o senhor entendeu“? Eu, obviamente já com cara vermelha digo: “meu amigo, você deveria parar e pensar no que fala, porque dissemina um nível de falsidade que não dá pra tolerar“.

Ponto pro taxista. Bola fora pra mim… vou aprender um dia a ter vozinha de padre, a não perder a calma quando confrontado com argumentos tão “acachapantes” como esses… e depois, de saideira, tive que dar a minha nas costelas dele, às expensas do bondoso e amigo povo baiano, que nada tem a ver com essa situação em particular: “você deve ter razão… afinal, a Bahia há anos vive sob governos tão bons, e tem taxa de desemprego e IDH tao altos”…

Que baixeza da minha parte… não sabendo como “me defender”, aplico um golpe baixo desses… Um dia eu aprendo…

Linguagem de Gênero? Sou Neutre…

(Reprodução/Internet)
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Os idiomas tem uma evolução no tempo, e algumas âncoras. Quanto mais longevo e “estático” é o idioma, significa que mais ciência e regras ele tem. Alguns exemplos, como o Chinês Mandarim, o Grego e o Latim são contundentes. Tão contundentes a ponto de um cidadão grego comum e corrente do Século XXI ter a capacidade de ler e entender, em grande parte, um texto da antiguidade clássica grega, digamos, os Diálogos de Platão.

Âncoras

A âncora do idioma é sua forma culta – ou seja, o fato de que alguém(ns) teve (tiveram) o trabalho de estabelecer uma norma. Enquanto isso não acontece, normalmente o idioma vai espiralando indefinidamente, evoluindo sem controle, tornando cada geração incapaz de entender a anterior, em alguns casos.

O inglês foi uma “criação” de William Shakespeare, Geoffrey Chaucer e outros talentosos escritores, que “amarraram” o barco da língua inglesa em um píer de regras, de onde é mais difícil – mas não impossível – escapar. O alemão foi amarrado ao cais da norma culta por Goethe, o italiano (florentino) por Dante Alighieri, o português por Luis de Camões.

O que esses caras tinham em comum? A necessidade de usar um código de compreensão claro para si e para outros. Um código que permitisse a sua obra sobreviver a mais de uma geração sem precisar de um expert linguístico para fazer toda uma arqueologia sobre o idioma.

É natural que os idiomas escapem das âncoras, pouco a pouco. A função da norma culta não me parece ser a de deixar o idioma estático, mas de permitir que as variações possam ser localizadas no tempo, separando regras de costumes. É importante que os significados evoluam. “Coitado” já foi palavrão, hoje é uma mera interjeição de pena. “Porrada” está a caminho de deixar de ser palavrão para significar soco, pontapé, cacetada… e por aí vai. Isso é uso, e usos mudam. Algumas palavras vão e vêm, como os nomes da moda – Joaquim é um nome que no meu tempo de criança só gente velha tinha. Hoje virou nome de lindos moleques. O mesmo vale pra Alice. Um dia voltaremos a ver de novo os Crisóstomos e as Marlenes de 2, 3 e 4 anos andando pelas ruas.

O que me chama atenção na evolução do idioma, no entanto, é seu caráter popular e voluntário. É um fenômeno de massas. É algo que surge ninguém sabe de onde.

Mudança Forçada

Estamos, no entanto, vivendo um momento diferente, em que estamos diante da decisão, de uma minoria, de impor ao falante uma realidade paralela, em que será obrigado a usar expressões que não nasceram nem da alma, nem do uso, nem do desejo de copiar.

A gente não fala “follow up”, “drivers”, “modus operandi”, “data vênia” ou “savoir faire” porque foi forçado. A gente falar porque algum meio, seja acadêmico ou profissional nos empurrou para tal. A gente não fala “lá em riba” ou “Ôxe” porque foi doutrinado a fazê-lo. Fala porque cresceu falando, e porque os pais nasceram falando. Eu, por exemplo, canso de dizer “Nossa”, sem me tocar que, como batista que sou, não sou necessariamente crente nas graças da mãe de Jesus, como intercessora. É parte da herança.

Alemão, há anos no Brasil, ainda fala “genau”; italiano ainda fala “caspita” e japonês ainda se cumprimenta com um “ohaio” sem nem pensar, às vezes. É a fonte, não imposta, mas incorporada, que vale.

Por que eu deveria me curvar a uma imposição de dizer que sou “neutre” num assunto ou outro, ou aceitar que meu suado canudo de papel da USP venha grafado com “Formandes”, só para agradar alguns que acham que a língua vai mudar a forma que um trata o outro?

Por que eu tenho que responder que sou “Latinx” a um gringo? Até entendo que um transsexual use determinado pronome, que lhe interesse. Não é meu problema. Fale como quiser. Seja o que quiser, e preste contas por isso. Não é força nem violência que mudam a sociedade. Isso inclui a violência linguística, imposta por uma minoria que considero (EU considero, bem dito) sem noção.

Se você quiser falar formandes, latinx, el@ ou elxs, tudo bem. Eu não quero nem vou falar assim, Peço que respeitem meu direito de não fazê-lo. Gosto bastante da norma culta da língua, e a despeito do meu português nem sempre castiço, desejo falar o mais explicadamente possível, ao maior número de pessoas, pelo máximo tempo possível. Quero ser entendido.

Não achemos que a língua vai dar a menor bola para isso. Além de romper com uma regra, nada vai mudar se o povão não incorporar isso como mudança. Claro, é fácil mudar regras quando a população é fundamentalmente iletrada. É mais fácil aqui, entendo, do que em um país de nível cultural mais alto. É mais fácil “caô” ou “zuêra” virarem norma culta do que “elxs”, penso eu – até porque pronunciar certas coisas é mais difícil.

O idioma é âncora e é fator de união. Quem conhece esse brasilsão de norte a sul entende que só nos tornamos nação por causa do nosso idioma. Nossa união passa por nos entendermos. Que assim continue, sem imposições.

Salmos da Modernidade – Salmo 15

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A Casa de Deus não é moradia pra qualquer um…

Quem, Deus do Céu, vai morar na tenda que o Senhor mandou a gente erguer no deserto? Quem é que vai ser corajoso de viver tão perto de Você?
A resposta parece simples, mas no fundo é bem complexa e a gente nem se dá conta disso: quem tem integridade. Quem é justo no que faz, de coração. Quem fala a verdade.
Quem não fala mal do alheio. Quem não faz mal aos outros. Quem não calunia os outros. 
Quem despreza gente que é ruim, mas faz de Deus seu modelo de vida, e tem pavor de desrespeitá-Lo e as Suas Leis. Quem dá a palavra e cumpre a palavra, mesmo que isso cause prejuízo pra si. 
Quem não cobra juros absurdos dos outros. Quem não faz conchavo ou recebe propina.

Difícil, não?  Mas saiba que quem faz isso tudo, JAMAIS vai ter medo de nada. Vai viver de cabeça erguida para sempre. 

A natureza das discussões

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Pertenço a um grupo de executivos que se reúne mensalmente e debate sobre temas diversos. É como um “Conselho de Administração” coletivo, privado, em que temos a oportunidade de nos apoiar uns aos outros, e usar as experiências coletivas para ajudar e apoiar os outros. É muito bom.

Na base dos “guidelines” do grupo está uma orientação para nunca darmos a nossa opinião, mas contarmos experiências e deixar que o outro chegue a conclusões por si só. Seria uma forma de não ser intrusivos, e não darmos uma de “professor de Deus” aos outros. Confesso que com minha natureza voluntariosa, e profissão, tenho a tendência de sair imediatamente dizendo “se eu fosse você…”. Isso é algo radicalmente contra a tal diretriz.

Recentemente me deparei com um artigo num editorial chamado “Quillette” (www.quillette.com) extremamente interessante, e que dá uma entonação muito diferente ao conceito de “intromissão” e discordâncias. Se chama “Quando discordância se torna trauma” (tradução livre) e pode ser encontrado no link https://quillette.com/2022/05/08/when-did-disagreement-become-trauma/.

O subtítulo é bastante revelador sobre o tema: “How does one deal with those who claim that debate itself represents an agony beyond human endurance?” (“Como é que alguém lida com aqueles que dizem que o debate, em si mesmo, representa uma agonia além da resistência humana?”

A Universidade da Columbia Britânica gestou, por anos, um documento chamado “Anti-Racism and Inclusive Excellence Task Force Report” (Relatório da Força-Tarefa Anti-Racismo e Excelência Inclusiva”), seja lá o que isso de fato signifique. É um calhamaço de 300 páginas em que os acadêmicos defendem o que têm defendido já há alguns anos, e que define um termo: “Truthing” (eu traduziria por “verdadear”, mas o Google traduz como “veracidade”). O termo, vejam, não trata da “verdade” em si, e é definido como

“o ato de afirmar verdades sobre assuntos considerados de conhecimento difícil e/ou perigoso, em contextos de hiperpoliciamento, vigilância e microgerenciamento de organizações racializadas… , e censura que acompanha a veracidade do assunto enquanto simultaneamente aborda as relações de poder e as injustiças que interrogam ativamente o desconforto, a negação, o direito à negação, o apagamento e a censura que acompanha a verdade do assunto.”

Força-Tarefa Anti-Racismo e Excelência Inclusiva da BCU

Fugindo da discussão

É um tremendo esforço para dizer que não se pode expressar ideias, creio eu. Discutir, em “bolhas”, se tornou sinônimo de pecar. Fora da Bolha também. Dentro da Bolha, discutir significa desagregar, por esta definição; significa querem criar caso. Fora da Bolha, significa perda de tempo, num ambiente em que só nos cabe “cancelar” o outro por pensar diferente.

Não se trata de um lado, outro lado, esquerda, direita. Nada disso. Qualquer lado neste mundo tem usado essa mesma abordagem quando algum assunto entra em discussão. Eu concordo? Não discuto; eu discordo? Eu xingo. Não transijo, não tento entender o outro, não promovo o progresso do pensamento. Cancelo e vou-me embora pra Pasárgada, feliz e justificado…

Em síntese – sinta-se bem. Não raciocine nem se preocupe em fingir que se preocupa.

Safe Environments

Volto ao tema inicial – o meu grupo de amigos: estamos no meio do caminho. Não deixamos de discutir; não discutimos, porém. Não damos opinião direta mesmo que instados a isso. Somos os “Ambiente Seguro”. Não que eu me orgulhe disso. Como (supostamente) pensador, gosto de me dar ao luxo de pensar nas coisas – e escrever sobre elas – sob um ponto de vista que muitas vezes até eu mesmo tenho preguiça de fazer, quando em companhia de terceiros.

Gosto, portanto, de pensar que talvez estamos diante de uma incapacidade crescente de contrariar o outro – isso torna o ambiente “unsafe” por expressarmos o que pensamos. As “turmas do deixa-disso”, que antes eram circunscritas às brigas a socos e pontapés, agora interfere em qualquer discussão que passe de uma sequencia de concordâncias – qualquer sinal de que vai “acalorar”, mesmo que da forma mais positiva possível, é motivo para ess turma agir, mudar de assunto, e falar de algo mais light, como futebol, praia, e o tempo.

Eu me vejo de quando em vez sendo “apartado” de discussões como nos tempos do pátio do colégio público de Cordeiro, RJ, quando “rodava a baiana” com alguém, ou alguém o fazia comigo. Discuto e sou tangido a não fazê-lo, e principalmente não me aprofundar em qualquer assunto, mesmo que a coisa possa desaguar em soluções ou apoio legítimo.

Que ambiente “seguro” eu quero, no campo da discussão, “papo cabeça” mesmo, coisa de amigo que bebeu mais do que devia e abre o coração para o outro, que, por também estar doidão, aceita as provocações e conselhos na boa, sem filtros? Eu quero um ambiente em que eu não seja “coagido” mentalmente?

enquanto simultaneamente aborda as relações de poder e as injustiças que interrogam ativamente o desconforto, a negação, a negação, o apagamento e a censura que acompanha a verdade do assunto.

Uma parte do artigo que me choca – mesmo em se tratando do Canadá de Trudeau:

Essa alergia ao desacordo é agora uma característica crescente da vida intelectual em todo o Canadá. Na Mount Royal University, em Alberta, por exemplo, o sindicato dos professores recentemente enviou duas páginas de instruções detalhadas sobre como os professores deveriam se comunicar uns com os outros em um próximo retiro de primavera. Na mensagem de e-mail, vazada para mim por um membro do corpo docente exasperado, o sindicato alertou os membros que as discussões no retiro “podem alcançar o envolvimento em espaços corajosos, embora não totalmente seguros”. A fim de “minimizar os danos”, os participantes foram aconselhados a “falar de nossa própria experiência e não invalidar as experiências dos outros. Foi-lhes garantido que os moderadores expulsariam qualquer um que violasse intencionalmente essas regras e confortariam aqueles que fugiram de discussões “prejudiciais”. Também havia instruções detalhadas sobre como delatar colegas sindicalistas que se envolveram em falar errado – inclusive por denúncia anônima. Tomado como um todo, o documento é um aviso para todos de que qualquer pessoa que discorde de alguém sobre qualquer coisa pode estar em risco de vergonha pública e sanção oficial.

Johnathan Kay in https://quillette.com/2022/05/08/when-did-disagreement-become-trauma/

Me chama atenção aqui o paralelismo entre a visão de “minimizar os danos”, os participantes foram aconselhados a “falar de nossa própria experiência e não invalidar as experiências dos outros e a situação que convivemos em nosso ambiente de discussão.

Ora, qual é, então, o limite que o outro está disposto a aceitar para crescer? Isso, obviamente, é decisão de cada um. Sempre se pode levantar e ir embora, se algum limite severo tiver sido ultrapassado. Não interessa que o outro tenha tido a melhor das intenções. Os incomodados que se mudem, dizia-se antigamente. Já não é assim – os incomodados, hoje, mudam a maioria, mudam o mundo, mudam os costumes, os hábitos. Exigem serem chamados de “elxs” ou “querid@s”, exigem ser reconhecidos como negros, sendo brancos, gato, sendo gente, e muito mais.

E agora?

Um texto que recebi recentemente, de um tal

faz um paralelo interessante entre o QI médio da população e a quantidade de palavras usadas, ou habituais. Reproduzo porque é muito interessante:

O QI médio da população mundial, que sempre aumentou desde o pós-guerra até ao final dos anos 90, diminuiu nos últimos vinte anos. É a inversão do efeito Flynn.
Parece que o nível de inteligência, medido pelos testes, diminui nos países mais desenvolvidos. Pode haver muitas causas para este fenómeno. Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem.
Na verdade, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não é apenas a redução do vocabulário utilizado, mas também as sutilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos.
O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre no presente, limitado ao momento: incapaz de projeções no tempo.
A simplificação dos tutoriais, o desaparecimento das letras maiúsculas e da pontuação são exemplos de “golpes mortais” na precisão e variedade de expressão.
Apenas um exemplo: eliminar a palavra “signorina/senhorita/mademoiselle” (agora obsoleta) não significa apenas abrir mão da estética de uma palavra, mas também promover involuntariamente a ideia de que entre uma menina e uma mulher não existem fases intermediárias.
Menos palavras e menos verbos conjugados significam menos capacidade de expressar emoções e menos capacidade de processar um pensamento. Estudos têm mostrado que parte da violência nas esferas pública e privada decorre diretamente da incapacidade de descrever as emoções em palavras.
Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível.
Quanto mais pobre a linguagem, mais o pensamento desaparece.
A história está cheia de exemplos e muitos livros (George Orwell – “1984”; Ray Bradbury – “Fahrenheit 451”) contam como todos os regimes totalitários sempre atrapalharam o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras.
Se não houver pensamentos, não há pensamentos críticos. E não há pensamento sem palavras. Como construir um pensamento hipotético-dedutivo sem o condicional? Como pensar o futuro sem uma conjugação com o futuro? Como é possível captar uma temporalidade, uma sucessão de elementos no tempo, passado ou futuro, e a sua duração relativa, sem uma linguagem que distinga entre o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderia ser, e o que será depois do que pode ter acontecido, realmente aconteceu?
Caros pais e professores: Façamos com que os nossos filhos, os nossos alunos falem, leiam e escrevam. Ensinemos e pratiquemos o idioma nas suas mais diversas formas. Mesmo que pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço existe liberdade.
Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem dos seus “defeitos”, abolir géneros, tempos, nuances, tudo que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana.
Não há liberdade sem necessidade. Não há beleza sem o pensamento da beleza.

A gramática é a expressão da linguagem. A linguagem é a expressão de pensamento. O pensamento é a expressão de Deus no homem….

Christophe Clavé

Palavras são tão importantes que deveriam ser mais usadas. A pobreza de vernáculo certamente traz consigo a burrice. Não que a riqueza traga necessariamente a sabedoria (um amigo querido costumava chamar um imbecil conhecido de “uma diarreia de palavras e uma prisão de ventre de ideias”). O fato é que os Safe Environments do presente estão deixando as universidades e entrando em nossas casas, via chats, via mídias sociais, via boca de filhos e de pais. Com os Safe Environment está vindo o medo patológico de discutir ideias das quais se discorda.

Pobre mundo.