Os idiomas tem uma evolução no tempo, e algumas âncoras. Quanto mais longevo e “estático” é o idioma, significa que mais ciência e regras ele tem. Alguns exemplos, como o Chinês Mandarim, o Grego e o Latim são contundentes. Tão contundentes a ponto de um cidadão grego comum e corrente do Século XXI ter a capacidade de ler e entender, em grande parte, um texto da antiguidade clássica grega, digamos, os Diálogos de Platão.
Âncoras
A âncora do idioma é sua forma culta – ou seja, o fato de que alguém(ns) teve (tiveram) o trabalho de estabelecer uma norma. Enquanto isso não acontece, normalmente o idioma vai espiralando indefinidamente, evoluindo sem controle, tornando cada geração incapaz de entender a anterior, em alguns casos.
O inglês foi uma “criação” de William Shakespeare, Geoffrey Chaucer e outros talentosos escritores, que “amarraram” o barco da língua inglesa em um píer de regras, de onde é mais difícil – mas não impossível – escapar. O alemão foi amarrado ao cais da norma culta por Goethe, o italiano (florentino) por Dante Alighieri, o português por Luis de Camões.
O que esses caras tinham em comum? A necessidade de usar um código de compreensão claro para si e para outros. Um código que permitisse a sua obra sobreviver a mais de uma geração sem precisar de um expert linguístico para fazer toda uma arqueologia sobre o idioma.
É natural que os idiomas escapem das âncoras, pouco a pouco. A função da norma culta não me parece ser a de deixar o idioma estático, mas de permitir que as variações possam ser localizadas no tempo, separando regras de costumes. É importante que os significados evoluam. “Coitado” já foi palavrão, hoje é uma mera interjeição de pena. “Porrada” está a caminho de deixar de ser palavrão para significar soco, pontapé, cacetada… e por aí vai. Isso é uso, e usos mudam. Algumas palavras vão e vêm, como os nomes da moda – Joaquim é um nome que no meu tempo de criança só gente velha tinha. Hoje virou nome de lindos moleques. O mesmo vale pra Alice. Um dia voltaremos a ver de novo os Crisóstomos e as Marlenes de 2, 3 e 4 anos andando pelas ruas.
O que me chama atenção na evolução do idioma, no entanto, é seu caráter popular e voluntário. É um fenômeno de massas. É algo que surge ninguém sabe de onde.
Mudança Forçada
Estamos, no entanto, vivendo um momento diferente, em que estamos diante da decisão, de uma minoria, de impor ao falante uma realidade paralela, em que será obrigado a usar expressões que não nasceram nem da alma, nem do uso, nem do desejo de copiar.
A gente não fala “follow up”, “drivers”, “modus operandi”, “data vênia” ou “savoir faire” porque foi forçado. A gente falar porque algum meio, seja acadêmico ou profissional nos empurrou para tal. A gente não fala “lá em riba” ou “Ôxe” porque foi doutrinado a fazê-lo. Fala porque cresceu falando, e porque os pais nasceram falando. Eu, por exemplo, canso de dizer “Nossa”, sem me tocar que, como batista que sou, não sou necessariamente crente nas graças da mãe de Jesus, como intercessora. É parte da herança.
Alemão, há anos no Brasil, ainda fala “genau”; italiano ainda fala “caspita” e japonês ainda se cumprimenta com um “ohaio” sem nem pensar, às vezes. É a fonte, não imposta, mas incorporada, que vale.
Por que eu deveria me curvar a uma imposição de dizer que sou “neutre” num assunto ou outro, ou aceitar que meu suado canudo de papel da USP venha grafado com “Formandes”, só para agradar alguns que acham que a língua vai mudar a forma que um trata o outro?
Por que eu tenho que responder que sou “Latinx” a um gringo? Até entendo que um transsexual use determinado pronome, que lhe interesse. Não é meu problema. Fale como quiser. Seja o que quiser, e preste contas por isso. Não é força nem violência que mudam a sociedade. Isso inclui a violência linguística, imposta por uma minoria que considero (EU considero, bem dito) sem noção.
Se você quiser falar formandes, latinx, el@ ou elxs, tudo bem. Eu não quero nem vou falar assim, Peço que respeitem meu direito de não fazê-lo. Gosto bastante da norma culta da língua, e a despeito do meu português nem sempre castiço, desejo falar o mais explicadamente possível, ao maior número de pessoas, pelo máximo tempo possível. Quero ser entendido.
Não achemos que a língua vai dar a menor bola para isso. Além de romper com uma regra, nada vai mudar se o povão não incorporar isso como mudança. Claro, é fácil mudar regras quando a população é fundamentalmente iletrada. É mais fácil aqui, entendo, do que em um país de nível cultural mais alto. É mais fácil “caô” ou “zuêra” virarem norma culta do que “elxs”, penso eu – até porque pronunciar certas coisas é mais difícil.
O idioma é âncora e é fator de união. Quem conhece esse brasilsão de norte a sul entende que só nos tornamos nação por causa do nosso idioma. Nossa união passa por nos entendermos. Que assim continue, sem imposições.
Sinecura significa “Sem Cuidado” (do latim – sine, “sem” e cura, “cuidado”), de acordo com a Wikipédia. O nome era dado a um emprego ou função que era só uma desculpa pro sujeito “mamar” em alguma teta. Estatal ou não, sem trabalhar – ou seja, receba, sem qualquer cuidado, pois você não tem responsabilidade alguma. Só recebe.
O Brasil não inventou a sinecura. Na Inglaterra dos séculos XVI ao XIX, as sinecuras eram formas de reconhecimento dos reis aos seus súditos fieis, por conta de algo que tivessem feito (merecida ou imaginariamente). A Roma antiga, onde o termo se originou, não foi nem de longe a inventora da prática, embora tenha tornado o termo famoso. E lá as sinecuras eram, pelo menos, entendidas pelo que realmente eram – benesses com o dinheiro alheio.
A famosa Companhia das Índias Orientais, ou “John Company”, na gíria da época, era uma empresa privada com características e poder muito parecidos ao de alguns países. A John Company foi mais rica e mais poderosa do que a maioria dos reinos europeus da época, e também distribuía suas sinecuras.
A prática, portanto, não nasceu em terras e reinos católicos, embora tenham se tornado uma forma de arte, quando os países protestantes da Europa, e os EUA, já tinham praticamente banido a prática, em fins do Séc XIX. Claro que banir é um termo forte, já que em pleno Séc. XX vimos a repetição disso tanto na Inglaterra, Holanda, EUA e outros locais.
O costume chegou ao Brasil com as caravelas de Cabral. Pero Vaz de Caminha aproveita a famosa cartinha a El Rey para solicitar uma sinecurinha pra um cunhado, se não me falha a memória… e daí viemos: de sinecura em sinecura.
A modernidade da Sinecura
O Estado moderno e sua impessoalidade tende a coibir as sinecuras, sob a alegação de que cada trabalho merece sua paga, e não pode existir paga sem trabalho que o justifique. Isso, longe de significar o fim da prática, implicou em sua sofisticação.
Hitler, na Alemanha Nazista, formou um time de “Sinecuristas” de alto coturno, composto de empresas como Basf, Bayer, Heinkel, etc, que ajudaram no esforço de guerra alemão em troca de uma sinecura chamada monopólio. Aliás, essa é, na minha opinião, a única diferença entre um estado comunista e um estado fascista- a existência desses monopólios ou oligopólios, no fascismo, contra um estado todo-provedor e empreendedor, no comunismo “raiz”.
Lula, e seu partido, fizeram algo semelhante, muito mais recentemente, com a política dos “campeões nacionais”, que elegeu empresas para serem vitoriosas no mercado, como JBS, Odebrecht, etc. A troca parece funcionar bem, já que a JBS, por exemplo, acabou se tornando mesmo um campeão nacional, e mundial até, com seu gigantesco faturamento e sua competência na produção de proteína animal.
Nada disso, porém, parece ajudar o país. Em troca de qualquer sinecura, de um empreguinho estilo “rachadinha” num gabinete de vereador no interior até o recebimento de zilhões em empréstimos do BNDES a juros baixos e à custa de deixar outro zilhão de empreendedores sem financiamento (1), o mercado se desalinha e acaba empobrecendo como um todo. Mas esse não foi nem o pior exemplo de sinecura recente. Pior do que financiar um empreendedor nacional é financiar um estado (no mais das vezes totalitário ou quase) com esse mesmo dinheiro da população, sob a certeza de que o pagamento não viria – e na época, não importava se viria ou não.
A Negociata – a Sinecura Nossa de Cada Dia
Assim como a cerveja da 6a. feira, com aquele torresminho, e um pagode, o desejo pela sinecura do dia-a-dia está enraizada aqui, e precisa ser extirpada a golpes de facão.
“Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados”.
Barão de Itararé
Apparício Torelly, o Barão de Itararé citado acima, era um humorista e escritor do início do século, famoso por seu humor ácido e tiradas geniais. entre outras, disse pérolas que se confirmam a cada dia, piada ou não: “O homem que se vende recebe sempre mais do que vale.” ou a célebre “O tambor faz muito barulho mas é vazio por dentro.” entre outras dezenas de frases geniais.
A negociata é a sinecura com meia contrapartida: não é totalmente “sine” (sem), e dá algo de “cura” (cuidado), mas normalmente dá mais lucro. É o outro lado da alma brasileira – se não dá pra receber sem fazer absolutamente nada, “vende-se” algo por um preço um tantinho maior, pagando algo pra cada agente do processo, e até se entrega algo, a depender do grau de vigilância da sociedade. Os hospitais de campanha da Covid 19 me cheiram muito a essa classe de sine-quase-cura: contrato na crise, sem licitação, pago milhões, não uso, descomissiono assim que posso, todo mundo fica com a impressão de que algo foi feito, e nada.
Durante a tragédia em Nova Friburgo e região, em 2011, se não me falha a memória, prefeitos receberam do Governo Federal milhões para aliviar o sofrimento das vítimas. Os prefeitos (mais de um) são acusados de embolsar a grana toda – uns R$ 300 milhões e não fazer nada. Se embolsaram, não sei. O que sei é que qualquer chuvinha maior no centro da cidade provocava alagamentos, por conta do assoreamento das manilhas de águas pluviais.
Eu com isso…
A tendência, como o saudoso Barão já falava, é a de que nós nos importemos somente quando não somos nós o objeto de tão grande benesse. Se estou no meio, às favas a moral. Vimos corruptos, há alguns anos, agradecendo a DEUS (Aiaiai!) pela propina recebida, que era “desejo divino”. Como cristão evangélico, minha vontade é a de que a teologia da “queda da Graça” fosse verdadeira, e esses aí fossem do céu direto pro inferno. Não posso arguir isso…
O fato é que requer grandeza moral para não aceitar nem propor sinecuras ou negociatas. O ser humano em geral, e o brasileiro em particular, são mestres em arrumar desculpas e explicações para seus malfeitos. Ora é “porque todo mundo faz mesmo”, ora é “porque preciso”, ou ainda porque “é por uma boa causa”.
Grandeza moral se aprende no berço, com pais igualmente morais, ou mesmo que imorais, que reconheçam isso e incutam nos filhos o desejo de que eles não sejam iguais aos próprios pais. Levar (ainda que arrastados) para a igreja e escola ajuda muito. Segregar de amizades ruins era a marca do pai de antigamente; não é mais. Grandeza moral, porém, é algo que nem sempre os filhos aprendem. Para isso, infelizmente, as consequências sociais deveriam ser duras e imediatas. Não o são: hoje a leniência com o “pobre do menino de 16 anos que matou 4” tem sido a marca de uma sociedade que no fundo ama a sinecura, o mal-feito, a negociata e deseja que as punições não ocorram. Algo diabólico.
Estamos longe de extirpar o mal e as sinecuras permanecem nos mesmos gabinetes legislativos, nas mesmas varas cíveis e criminais, nas mesmas escolas e universidades, no bar da esquina, na fila do ônibus, na repartição pública, e por aí vai.
Educação? Leis duras? Fortalecimento da família? Igrejas e Templos? Tudo isso junto ajuda. Temos uma luz no fim do túnel? Não sei – acho que não pois “o mundo jaz no maligno”. Tenho esperança? Poucas. Vamos resolver o problema? Não creio. Pessimista? Muito.
Eu creio em Deus, porém, e sei que Ele é quem detém o controle da humanidade, a quem dá livre-arbítrio, mas que também teu o Seu. Esperemos pelo melhor, desconfiando, mas esperemos.
(1) A injustiça desta prática é menos aparente, pois parece que o governo simplesmente tem o dinheiro e empresta a quem quer – como devedor líquido e pagador de juros, o dinheiro que vai para o BNDES e que acabou alimentando os campeões nacionais acabou sendo financiado a juros de mercado, em títulos da dívida, a custo significativamente maior. Sou contra a existência de bancos estatais de qualquer natureza, inclusive de fomento, mas entendo o xodó que o mercado tenha por eles, em um país de juros altos e crédito difícil.
A primeira menção do termo Guerrilla (Pequena Guerra) aconteceu quando os espanhóis, por volta de 1808, começaram a atacar o exército invasor de Napoleão, durante as chamadas “Guerras Napoleônicas”, enquanto nosso então soberano, Dom João VI, andava comendo coxinhas de frango nas ruas do Rio de Janeiro, acompanhado da mal-educada Carlota Joaquina, outro tipo de guerrilheira espanhola, exportada para a corte portuguesa de então.
Guerrilha passou a ser um termo militar usado para definir pequenos grupos de ataque, ou na definição abaixo:
“Trata-se de levar um adversário, por muito mais forte que seja, a admitir condições frequentemente muito duras, não empregando contra ele senão meios extremamente limitados“
Beaufré, André, in Introdução à Estratégia
Guerrilha contra Nós
Ontem (28/12/2021) escrevi um meio desabafo a que denominei “Rolo Compressor”, ao qual estaríamos sendo submetidos. Uma minoria, com poderes quase que ditatoriais, e que nós, uma maioria conservadora e de vida pacata, não conseguíamos suplantar.
Hoje me ocorreu que não é bem um rolo compressor, mas uma guerrilha, talvez. A observação cautelosa da história dos últimos 150, 200 anos, dá conta de que há uma guerrilha em ação, na qual, de fato, um adversário muito mais forte acaba sendo dominado pela via de ações com meios extremamente limitados, mas efetivos.
Terrorismo
Neste sentido, terrorismo acaba sendo uma espécie de guerra de guerrilhas, pelo uso de força sub-reptícia contra combatentes, e não combatentes, ou seja, contra populações desarmadas, por meios extremamente violentos, cujo objetivo é deixar o adversário de boca aberta, sem reação, baratinado com a capacidade para o mal, empregado contra ele.
O 11 de Setembro, de fato, foi um grande sucesso “militar”, guerrilheiro, se considerarmos o efeito e o custo absurdo em vigilância e segurança. Com o custo a todos nós imposto por essa ação única e ousada, poderíamos ter transformado todo o oriente médio, Irã e Afeganistão, em países de primeiríssimo mundo, com ruas calçadas de prata e calçadas de marfim.
A Guerrilha entre Nós
A guerrilha tradicional, de forma geral, e o terrorismo em particular, têm um defeito de origem: seu potencial de aplicação continuada. Não dá para empregar ataque atrás de ataque impunemente. Depois do 11 de setembro houve o Metrô de Madrid e mais outros episódios de maior ou menor impacto, mas o grande terremoto e comoção gerados pelas Torres Gêmeas não seria repetido com igual eficácia.
Há, porém, a guerrilha no estilo Rolo Compressor, que continua firme e forte, e que nos mantém a todos reféns de várias correntes de pensamento, desde a esquerda internacional, que preconiza a “Pátria Grande” latino-americana, até a dominação cultural de organizações como ONU, OMC e grandes corporações. Esse tipo de guerrilha pode ser usada continuamente, e tem sido usada assim, contra tudo e contra todos os que se opõem ao seus objetivos.
No caso do terror internacional, o objetivo declarado, a Jihad, é uma iniciativa de uns tantos covardes radicalizados, que são incapazes de conquistar corações e mentes pela apologia e discussão ampla, irrestrita, de ideias e ideais. São covardes porque não possuindo meios de convencimento, jogam bombas; inexistindo razão para dar-lhes amparo, recorrem aos aviões pilotados por radicais. Quanto ao terrorismo, sabemos o que ele quer, e de forma mais ou menos precisa, quem são.
No caso da guerrilha intelectual marxista, o “inimigo” é difuso, mas mais capacitado a conquistar incautos pela pregação de suas doutrinas, ainda que igualmente incapazes de debater de forma ampla, aberta, irrestrita, e sem berrar ou recorrer a mentiras. Vemos uma erosão da vida ocidental que ocorre entre os 16 e os 30 e poucos anos, pela adesão a um modo de vida descompromissado com a realidade do emprego e dos boletos para pagar. Após os 30 e poucos, o sujeito começa a acordar para o fato de que não há solidez em qualquer argumento que dê a um estado-deus a primazia sobre a vida de populações inteiras.
De Paulo Francis a Thomas Sowell, de José Guilherme Merchior a Carlos Lacerda, exemplos abundam de gente que, por pensar, simplesmente, deixaram os “tenets” de esquerda, e acabaram virando grandes anti-esquerdistas. Este fato, aliás, da visceralidade com que antigos esquerdistas se voltam contra postulados de esquerda, diz muito sobre o que viram, e como acabaram por entender o que antes acreditavam, e do que se livraram.
Perguntado, Paulo Francis não hesitou em dizer a razão pela qual tinha se desiludido e deixado a esquerda: “Eu cresci“. Amadurecimento gera uma espécie de conservadorismo que nada mais é do que deixar de lado as coisas de menino, nos dizeres do Apóstolo Paulo:
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino.
1a. Epístola de Paulo aos Coríntios 13:11
Há um muro no final da vida de cada um de nós. Quando somos jovens, o muro está tão longe, aparentemente, que não o vemos, e portanto, não nos importamos. A vida, claramente, é infinita. É a beleza da experimentação, da descoberta, das realizações e da ousadia. Não é ruim em si, mas não sei se deve ser estimulado – hormônios já fazem isso bastante bem. Na medida em que envelhecemos, acabamos vendo o muro cada dia mais próximo, e nos damos conta de que mais cedo ou mais tarde vamos dar de cara nele. E começamos a pensar na “Vida após o Muro”. Nos tornamos mais reflexivos e mais cautelosos. Isso também não é ruim em si, mas também não precisa ser estimulado, pois que a falta de hormônios, ou sua substituição por outros, já cumpre o papel.
Mas a guerrilha segue e existe, e certamente não é liderada por menores (em idade cronológica). Se não o é, então quem a lidera? São gente mais próxima do tal Muro do que seus liderados. Deveriam, portanto, ter deixado a sabedoria e seus hormônios, ou a falta deles, falar em seus corações. Deveriam ter-se dado à reflexão e parado de encher o saco de todas as novas gerações.
Então quem são esses guerrilheiros, a dita “Esquerda”? Como cristão, tendo a acreditar que, sabedores ou não, seguem uma cartilha ditava pelo capeta, o capiroto, o coisa-ruim, de destruição de todos os valores implantados com sangue, suor, erros e lágrimas, ao longo de 20 séculos de cristianismo, com auxílio luxuoso do judaísmo (chamar de auxílio é reducionismo, claro). Boa parte sim, cônscios de que são “não-inocentes úteis” nas mãos do inimigo, mas boa parte tão somente não tendo amadurecido a ponto de enxergar que os ideais, à primeira vista tão nobres, de repartição de renda, igualdade, e planejamento central, não funcionam, e nunca funcionarão.
Graças a Deus, como dizia Paulo Francis,
A melhor propaganda anti-comunista é deixar um comunista falar.
Paulo Francis
Deixe-o falar, não o impeça. Ouça até ele parar com a ladainha pré-ordenada, e daí comece a fazer perguntas simples sobre alguns aspectos e peça detalhes sobre como tal e tal coisa funcionarão. O sujeito acabará te convencendo, sem querer, de como o que ele defende não tem base na realidade e como nunca funcionou, e nunca funcionará.
Mas isso não impedirá o rolo compressor de seguir compactando e amassando nossa existência, nem a guerrilha lutando pelas mentes e corações dos nossos jovens.
Estratégia
A estratégia de qualquer guerrilha se resume em poucas ações: escolha de um local em forma de gargalo, surpresa, velocidade, violência e retirada rápida. Foi assim com os espanhóis cortando as linhas de suprimento dos exércitos de Napoleão, e que enfraqueceu estômagos e pernas dos soldados, permitindo o então Visconde de Wellington derrotá-los dentro de Portugal. Foi assim no 11 de setembro, quando uns 10 caras deixaram de joelhos a nação mais poderosa da terra.
É assim hoje, e o local em forma de gargalo são as nossas escolas e universidades, é a nossa mídia, é a nossa cultura. Nas instituições de ensino, guerrilheiros bem treinados atacam de forma pontual os “exércitos” de toda a nação, um pelotão/turma por vez; na mídia, meio dúzia de guerrilheiros bem falantes, dispostos a defender um ideal, atacam de uma posição de vantagem tática (uma câmera e um microfone) milhões de incautos ao mesmo tempo; na cultura, umas poucas centenas de guerrilheiros talentosos e charmosos atacam toda uma população com frases de efeito, palavras bonitas douradas por fora com desejos elevados. E está feita a mágica da guerrilha intelectual moderna. Poucos dominam o cenário mundial, enquanto muitíssimos assistem impotentes, ou tão ocupados em pagar as contas que não têm como fazer nada.
Por fim, não nos esqueçamos de um fator que um ser humano bem formado não costuma lançar mão: a mentira, o engano, a meia-verdade, a violência. Se você é guerrilheiro, não pode ter pudor de atacar a dona do mercadinho, a senhorinha que vende flores no térreo da Torre, ou o pai de família que saiu pra trabalhar e pegou um voo fatídico. Você tem que encarar essas mortes como “danos colaterais”, para um bem maior, e seguir em frente. Minta, engane, falseie estatísticas, escolha com carinho seus entrevistados para falar o que você quer, coloque pílulas de mentira em livros didáticos. Reescreva a história para contar o que você quer; enfim, lance mão de qualquer argumento, mas principalmente, não deixe o outro falar. Sufoque-o com um palavrório sem fim. Tenha um bom fôlego de modo que não deixe o outro argumentar. E se o outro conseguir te pedir detalhes do que você pensa, insista que o tempo acabou e que você precisa chamar os comerciais, ou que a aula está no fim.
Nossa Guerrilha
Temos uma guerrilha para chamar de nossa? Sim, e ela tem milhares de anos: a família. É nela que diariamente os guerrilheiros-pais metem na cabeça dos filhos, dia após dia, coisas “subversivas” como falar a verdade, usar a lógica, não gastar mais do que ganha, respeitar os mais velhos, e por aí vai.
Temos outra tática boa – igrejas. Nelas são completados os ensinos de virtude e frutos do espírito – amor, paz, benignidade, bondade, mansidão, domínio próprio, e coisas contra as quais não havia lei – hoje estão criando.
Uma outra tática, o envelhecimento natural, parece estar ocorrendo sempre, e sobre ela não temos nada a melhorar ou mudar, exceto polir a existência de forma a tornar os anos adicionais de cada cidadão nos mais produtivos de sua vida, e não achar que a vida acabou porque a aposentadoria chegou.
O muro continua lá, o além-muro existe e pode ser uma bênção. Enquanto não batermos no muro, poderemos ajudar outros a pelo menos enxergá-lo. Será nossa maior guerrilha. Sempre.
Não tenho dúvida de que vivemos debaixo de um rolo compressor, em nossa sociedade ocidental. Viramos o patinho feio de tudo o que é aspecto da sociedade moderna. Temos que pedir desculpas por tudo, a quem quer que seja, por qualquer coisa que tenha acontecido há 10 ou 200 anos atrás. Não temos escolha. Temos que ajoelhar quando um cabeludo, péssimo quarterback de time da NFL nos manda ajoelhar.
Temos que achar bacana coisas como Planed Parenthood (organização pró-aborto nos EUA), Femen, Movimento LGBTQ+, ESG ou qualquer outra moda que inventem e que possa ser colocada debaixo do manto da santidade politicamente correta. Dava cansaço. Agora dá irritação. Espero que não dê em banho de sangue.
Por outro lado temos que nos envergonhar por coisas que eram sinônimo de moral e bons costumes, como família nuclear, cis-genderismo, apreço à ideais democráticos, como liberdade de expressão e livre trânsito de ideias, livre trânsito de produtos, liberdade de cátedra, e outras abominações.
Esse é um rolo compressor que às vezes vem do alto de uma empresa mundial qualquer, por exemplo, informando que temos que fazer cursos de integração e reaprendizado LGBTQ+, ou “descolonialismo”. De repente vem um CEO ou ministro de estado dizendo que todo mundo tem que aderir a um determinado tipo de palavreado, e aceitar passivamente coisas como linguagem “neutre”.
Já não se pode discordar. Não digo atacar, vociferar ou discriminar. Digo apenas discordar, polidamente. Acreditar diferentemente. Ser independente nas ideias. Nada disso pode mais. Até palavras que tínhamos como tendo significado consagrado, estão sendo ressignificadas. Aliás, até a Bíblia tem tido defensores de sua reinterpretação e ressignificação. Com muito apoio inclusive dentro de comunidades cristãs “mainstream”.
Não existe mais nenhum ponto imutável de apoio. Nada mais é firme e constante. Nenhuma ideia ou opinião pode ser considerada não-efêmera, e somos constantemente levados a acreditar que algo que sempre tivemos por fundamento, como falar a verdade, examinar e pensar sobre algo antes de verbalizar, ou mesmo a forma como educar nossos filhos, já não vale mais.
Um novo capítulo está sendo aberto nessa sanha de compressão social: a prevalência do estado sobre os pais, no que concerne à criação e saúde dos filhos. Mais recentemente, estamos vendo-se perder a liberdade de escolha que temos que ter a responsabilidade de ter, sobre o destino dos nossos pequenos.
O rolo compressor me obriga a pensar que meu filho de 5 anos pode escolher perfeitamente o sexo que terá. Mas não pode ser responsabilizado, se matar alguém aos 16 anos. Ele pode decidir se vacinar por conta própria, mas não tem condição de dirigir aos 15 anos.
O rolo compressor está vindo numa velocidade cada vez maior. Não dá para saber (se você nunca leu Apocalipse, claro) sua origem e interesses. Manifestamente, o cristianismo e os valores da civilização ocidental são seu alvo. Nossos valores familiares são seu prato, a ser devorado e transformado em fezes.
Se você se sente debaixo de um rolo compressor social, cujos motoristas são uns poucos gatos pingados com excessivo poder – sabe-se lá quem o deu a eles – sinta-se abraçado. Um abraço bem forte, de quem está sendo esmagado junto. Aliás, estaremos cada vez mais juntos, até virarmos pasta de gente.
Por que, Senhor, você anda longe de mim? Será que é justo na hora do meu perrengue que você some? Os ricaços mal formados andam atrás de quem não tem nada, pra fazer com que eles fiquem ainda mais pobres… Deus do céu, que essa gente caia do cavalo. Gente má fica se gabando de cada coisa… ser mau, por exemplo. Tem mão-de-vaca por aí que vive falando mal do Senhor. Gente que se “acha” vive sem querer saber se Deus existe e se é capaz de operar dentro desse universo. Nem querem saber disso. E o pior é que quanto mais maus são, mais a vidinha deles dá certo. Parece que estão acima do bem e do mal. Gente que te odeia, Deus, parece que não tá nem aí pro Seu julgamento. Fazem pouco caso de Deus. Lá dentro de suas cabecinhas de mamão dizem: eu, hein? Nunquinha que algouma coisa má vai me acontecer… pode passar o tempo, nada vai me deixar chateado. É gente que tá sempre falando mal dos outros, mentindo, enganando e fazendo maldade; só tem coisa ruim na boca dessa gente. Parece que ficar de tocaia nos bairros da periferia, pra pegar e roubar gente trabalhadora; vivem querendo fazer mal ao pequeno e ao pobre. É como se fosse um animal selvagem que dá um bote, de repente, e trucida o pobre infeliz que nem sabe o que o atingiu. É um bicho rasteiro, essa gente; pegam de surpresa quem já está na pior. Eles dizem, lá no fundo do coração (mesmo sem crer em Deus): Deus? Que Deus? Ele esqueceu desse povinho. Deus nunca vai cobrar a conta de quem faz o que nós fazemos. Por isso a gente pede – Vem aqui, Deus, faz pó dessa gente! Não esqueça dos pobres (aqueles que depois você mesmo disse que “nunca faltaria, entre nós”). Por que um cabra mau, que acha Deus uma piada de mau gosto, diz que Deus não se importa com a gente? Mas eu tenho certeza de que Você, meu Deus, tem visto o que essa gente faz; Você tá olhando a penúria que esse pequeno povo passa e a tristeza que vivem. Daí eu acho… acho não – tenho certeza: o Senhor vai pegar a gente no colo. Quem não tem nada, se entrega nos Seus braços; Você, Deus, que ampara o órfão… Você, Deus, quebra os braços dessa gente ruim, olha com microscópio a maldade toda que eles fazem, e anota tudo… tudinho. O meu Deus é um Rei que vive pra sempre. Ele, que é dono de todos os lugares do mundo, cria países como bem quer. O Senhor tem ouvido, que eu sei, os pedidos nossos, gente que pouco ou nada tem; o Senhor faz a gente sair da depressão que a gente vive. O Senhor vai nos acudir, E aí vai ter justiça pra quem perdeu os pais, pra quem está sendo massacrado. Depois disso tudo, pode deixar… nós, o povo oprimido não vamos mais ter medo de nada! Nada nessa terra vai nos meter mais medo.
Por que tem tanta gente no mundo que gosta de uma briga, e ouve fake news, e se enche de raiva, imaginando bobagem?
Os poderosos do século XXI adoram dizer que são a favor da ciência, e, para isso, acham que têm que zombar do Criador, e contra o Seu Salvador, Jesus. Aí abrem a boca para falar bobagem, dizendo: “Deus não existe, e se existe, não nos importa.”
Deus, lá do céu, deve cair na gargalhada… Quem não existe, na verdade, é a inteligência desses tais poderosos.
Deixe que os tais poderosos falem tudo o que é asneira. Quando Deus resolver agir, não vai sobrar nem um dito “poderoso” pra contar a história. Aliás, não terão cabeça nem pra contar a história…
Eu? Eu não sou besta. Coloquei o Meu Deus onde ele merece, no Trono do meu Coração.
Falo com a boca mais aberta do mundo, pra quem quiser ouvir, tudo o que Deus é e o que Ele quer de nós. Aí Ele respondeu: “Beleza… você é meu filho, de verdade.”
E mais: “Pode me pedir e eu vou fazer com que você seja o poderoso desse mundo, tanto aqui quanto na China.”
“Os tais poderosos serão como um jogo de lego na sua mão – você vai montar e desmontar com eles.”
Daí, Ele emenda – “Poderosos, come on… sejam menos bestas e ouçam quem argumenta. Poder Judiciário, não seja burro: ouçam conselhos…
Arremato dizendo: Deus merece nossa consideração. Olha pra cima, veja como O Cara é poderoso, e sejam alegres, mesmo morrendo de medo do poder que vocês estão presenciando.
Por fim, e mudando de saco pra mala – Quando vocês ouvirem falar do tal Filho de Deus, dá bola pra Ele, porque é igual ao Pai dele. Se Ele ficar irritado, vai dar ruim pra vocês. É muito bom ficar dentro do Bunker de Deus.
A minha tentação é a de generalizar. Tomar o todo pela parte, e sair batendo. Não funciona. Eu já começaria este post cometendo o mesmo erro que me proponho a desnudar, ou esclarecer (modestamente) que vejo no povo brasileiro. A falta de escrúpulos. Claro que temos um povo que em sua maioria tem vergonha de fazer algo que é moralmente condenável, ou literalmente na definição do Websters, que figura acima “o sentimento que evita que você faça alguma coisa que você pensa ser moralmente errada, e o faz ter incerteza sobre faze-lo“.
Mas o fato é que vivemos num país em que os “moral qualms” (dilemas morais) não estão na ordem do dia das pessoas. Aliás, o mundo segue o Brasil nessa via de mão única em direção ao caos. Desde furar uma fila ou colocar o carro pra rodar no acostamento, até jogar a moral de todo um país na lama pra ganhar uma eleição, o fato é que temos poucos dilemas morais. Antes tínhamos nossos pais e nossas igrejas e templos para nos lembrar da nossa responsabilidade de sermos mais polidos, pensar nos outros primeiro, e fazer o que é certo em qualquer situação. A recompensa era um “céu” ou um “bom carma”, ou ainda evitar um “pito” ou umas “correadas”. Positivas ou negativas, as motivações para andarmos na linha existiam e eram implantadas.
Via Expressa para o Caos
O país, e agora o mundo, começam a marchar na Via Expressa do Caos. Vamos a toda velocidade, ignorando a maior motivação positiva de todas – a civilização. Esta me parece ser a maior recompensa terrena do Escrúpulo. Só a existência de dilemas morais é que nos tira da rota de colisão com o Caos que se avizinha. E vamos todos alegremente repetindo toda e qualquer coisa que nos traga algum conforto pessoal, alguma vantagem, alguma posição de destaque.
O intelectual foi o primeiro e perder o escrúpulo, a bússola moral. Deveria ser o último. Afinal, é para a intelectualidade, para os pensadores, que se volta a sociedade em busca de compasso para suas dúvidas. Nossa intelectualidade abraçou com força e paixão a visão de mundo do “quanto pior melhor”, contanto que detenhamos a postura de pessoas bem intencionadas.
A Via Expressa vai afunilando e se tornando cada vez mais esburacada, cada vez que um intelectual, ou um famoso, a esburaca de propósito. Alguns exemplos recentes nos ajudam a refletir sobre isso.
Fique em Casa
Há quase 2 anos fomos instados a ficar em casa, pois que a “economia a gente vê depois”. O escrúpulo foi ali jogado às favas, por famosos, “influencers”, jornalistas e intelectuais. Políticos também, claro, mas deles sempre pudemos esperar qualquer coisa.
O debate aberto, claro, franco, e honesto foi substituído por um ruído estridente, que proibiu que se debatesse com calma e “ciência” (entre aspas para denotar seu inescrupuloso uso recente) sobre o assunto.
É lógico que daria para criar as medidas suficientes e necessárias para que continuássemos a trabalhar e produzir, sem aumentar a tragédia que já estava instalada entre nós. Prova disso foi a fantástica performance do agribusiness, que não parou, e acabou por salvar nosso pescoço e nossos estômagos, a despeito dos aumentos de preços.
A Guerra dos Absorventes
Mais recentemente, o veto presidencial a uma esdrúxula medida de prover absorventes higiênicos pagos pelo SUS para jovens e adolescentes de classes menos privilegiadas gerou uma gritaria desproporcional ao fato. Mais ainda por duas razões que poderíamos chamar de apavorantemente claras: não foi dito de onde sairia a grana para bancar isso e não se pensou antes nos dias de aula perdidos pelo Fique em Casa. O país que mais manteve alunos fora da escola agora clama por absorventes para supostamente evitar evasão escolar.
Não se trata aqui de dizer que o estado não deve dar este ou aquele item de higiene, saúde, etc. Trata-se de dizer que o Estado não deveria “dar” NADA a ninguém sob forma de subsídio ou “doação”, pois não há dinheiro público, mas só o nosso, o do pagador de impostos.
Se o Estado quer dar algo ao povo, que dê liberdade de empreender, trabalhar, produzir e ganhar seu próprio dinheiro para comprar seus próprios itens de higiene com orgulho e vergonha na cara, sem depender de ninguém.
O STF
Por último, por hoje, a falta de escrúpulos de homens e mulheres escolhidos para a mais alta corte do país, que deveria ser usada somente para solução de problemas constitucionais, no esclarecimento de pontos específicos e de quem propõe ações a ela, para atingimento de interesses próprios.
Partidos políticos passaram a usar nosso STF de forma a atingir objetivos específicos, principalmente no questionamento de temas que não deveriam ser sequer reconhecidos por esta Corte como sendo de sua alçada julgar.
E aí está o outro lado da falta de escrúpulos – por entender que precisa “fazer algo”, 11 ministros desvirtuam os objetivos da Corte e põem-se a julgar e avocar a si as coisas mais aberrantes, deixando ações que estão há décadas pendentes de uma decisão tomando poeira.
Existe maior falta de escrúpulo, menos bússola moral, do que colocar um ladrão do erário na rua por tecnicalidade? Existe falta de moral e compasso maior do que colocar traficantes de tóxico e chefes de facção em liberdade, por razões que sequer tenho a coragem de inferir aqui?
Que tipo de Corte Suprema se dá ao trabalho de imiscuir-se dia a dia nas obrigações de outros poderes? Que ministros são esses que não têm o menor dilema moral em votar e fazer algo frontalmente contra a própria constituição, como caçar um mandato e manter direitos políticos, ou começar seus próprios inquéritos ao arrepio do processo legal?
Efeitos
A falta de escrúpulos não veio até a sociedade, no atacado, sem antes passar pelo longo e penoso processo de permear o varejo. Antes de vermos governadores roubando em larga escala, vimos Brizola fazer acordos espúrios com o crime organizado, já nas eleições de 1982.
Antes de vermos Lula ser posto na rua “descondenado”, vimos todo um processo de difamação da Operação Lava Jato, constituído pouco a pouco, a ponto de gente razoavelmente inteligente dizer que “prefere Lula do que Bozo”, como se fosse uma escolha minimamente informada ou clara, com todas as informações puras, na mesa, passadas por uma imprensa livre e honesta.
Enfim, o processo que nos leva à Via Expressa do Caos começou pequeno, lá atrás, com o “Jeitinho Brasileiro” sendo louvado como sendo uma forma de adaptação, de flexibilidade. Nunca foi chamado por ninguém pelo que realmente é – falta de escrúpulo.
É óbvio que se resolvem problemas mais rápido sem se ter dilema moral. Engravidou? Não tem condição de criar? Mate a criança. Aborte. Não tem condição de ter um par de tênis de marca? A sociedade te tirou o direito ao bom e o melhor? Roube! É simples. Não consegue estudar para passar em medicina? Don`t worry – compre uma vaga.
A Ordem sobre o Caos era o mote dos Positivistas de onde vem o “Ordem e Progresso” da bandeira. O Caos sobre a Ordem parece ser o mote de qualquer um que deseje o poder neste país.
Todo mundo sabe quem é Luiz Felipe Pondé. Já eu, seria algo como “Zé Ruela Qualqué”, ou seja, um ignoramus. Contudo, ouvir e dar razão pelo simples fato de alguém ter notoriedade não parece muito esperto… Vide um tal imitador de focas, de altíssimo perfil público, mas a quem o desprezo intelectual parece justificado.
Pois bem… Pondé pondera (sem trocadilhos) que a polarização é um fato antigo, primeiro relacionando o conceito ao “culto ao mal”, que, segundo ele, vigorou antes do culto ao bem, e portanto há uma tendência à polarização que vem daí, se é que entendi bem.
Mais à frente em sua coluna diz que “a polarização especificamente política não é nova”. Ele então a remete ao início do capitalismo. Pois bem… e nós com isso?
Dois aspectos me vêm à mente:
Polarização é Necessariamente Ruim?
A impressão que fica, tanto do artigo, como da opinião comum, da imprensa e principalmente do Beautiful People, é de que a polarização é sempre, e necessariamente, ruim. Obviamente, a polarização dos outros, claro. A nossa, que não se confessa nem a pau, não é.
O Brasil sempre foi um país sem grandes polarizações, com muita gente num centro, meio “geleia geral“. Aliás era disso mesmo que a minha geração era acusada – de não tomar posição, não lutar por seus direitos, não se afirmar, ser “alienada”. Meus amigos da América Latina sempre acusaram o Brasil de ser um país de gente “blanda” (branda) e que não se posiciona. Culpam-nos por ter sido sempre complacentes, da turma do “deixa disso”. Ditadura aqui sempre foi “blanda”, briga aqui sempre foi apaziguada, com raras exceções. Fomos colocados em banho maria desde tempos imemoriais, como Homo Amabilis, que sempre fomos como nação.
O medo que está dando no povo é que o Homo Amabilis parece ter sofrido mutação, desde que a esquerda, em fins dos anos 80 do século passado, começou a dominar a cena acadêmica e cultural. Com o adentrar em campo de políticos proeminentes como FHC e Lula, e cujas posições, muito devagar, foram-nos empurrando para cantos separados, fomos nos “radicalizando”. Nos tornamos Homo Radicitus, ou radical.
Ocorre que o Brasil mais abrangente é o do Homo Amabilis, esse sujeito do interior, ou mesmo das capitais, mas que não se sente com o mínimo de vontade de brigar com ninguém, cujo salário contado, se permite uma cervejinha no fim de semana, com 1 Kg. de lombo agulha na brasa, já se satisfaz; é o cara do campo e das pequenas cidades, em paz com todo mundo, feliz por não ter que enfrentar neve ou terremoto (sem nem o saber), e que tem sua banana e sua abóbora no quintal, come bem e ainda distribui; vai na sua igreja, ora, reza, volta para casa, quer criar os filhos obedientes e honestos, enfim, o sujeito que não pegaria em armas, mas está sendo conduzido a isso.
Que não se confunda este sujeito com um imbecil lesado, massa de manobra pura e simplesmente. É alguém que, com limitações, consegue interpretar a vida de uma forma bastante razoável. Aliás, tem-se a tendência de subestimar quem não tem assim tantas letras como gente incapaz de pensar por si. Na minha experiência isso é burrice. Desde meus avôs e avós, com pouca escolaridade, mas com um bom senso fora de questionamentos, até os funcionários de vários níveis que já tive na vida, e ainda tenho, todo mundo tem uma fita métrica bem boa na cabeça, e é capaz de identificar o que é bom pra si e para o próximo.
É claro que a deseducação que vimos tomar conta do país nas últimas décadas contribuiu bastante para que, mais jovem a pessoa, menos capaz de bom senso seja, mas nem isso são favas contadas. O que há hoje é uma divisão clara (uma radicalização) entre gente extremamente bem informada e inteligente e uma minoria, eu diria, que abriu mão de pensar.
Se estamos hoje diante de uma massa de gente menos disposta a contemporizar com certas coisas, e sobre as quais a grande mídia não consegue mais exercer um comando como o fazia, se deve a duas coisas: a)a mídia deixou de ser razoável, em suas pressões por “mudança” sobre o cara comum, da esquina e; b)o cara comum, da esquina, já percebeu que não tem vez nem voto num país manipulado de pé a ponta. Ou seja, se há gente na rua aos milhões, gritando fora isso, fora aquilo, isto é o resultado da falta de bom senso de quem, de fato, obtinha sucesso relativo em manter um certo nível de conformação por parte do cidadão, que não consegue mais.
A corda parece ter realmente arrebentado com a Lava Jato, que expôs o Rei Nu, Lula, e seus asseclas, e tornaram o homem comum.
Polarização pode ser Necessária?
O ideal é que não haja nunca, necessidade de polarização. Mas o fato é que poucas vezes na vida há momentos críticos em que uma polarização não é somente necessária, mas caso de vida ou morte. Alguns exemplos vêm à cabeça e sempre com o ponto e o contraponto – o “radical” e seu “detrator” – Catilina (o carbonário) e Cesar (o estadista), Churchill (o radical) e Neville Chamberlain (o cara do Deixa Disso), e mais recentemente, Trump (o boquirroto) e Biden (o pacifista).
O que há de comum nesses casos todos é a tentativa de um “radical” em resolver um assunto, mesmo que pela força, e os “pacifistas”, cujas atitudes nos teriam levado ao caos, caso aplicadas. A mais flagrante delas certamente foi a atitude de Churchill, cuja retórica e radicalismo nos salvou a todos de estarmos até hoje sob a suástica.
Portanto, você, meu caro polarizado, que berra nas ruas e nas redes, reconheça-se como um caso de atavismo da espécie, espécie essa que se arrasta pelo mundo produzindo mitologias, inclusive políticas, que nada mais são do que formas empobrecidas de metafísica. Você é a pura inércia em ação. Sua substância é a violência.
Minha substância não é a violência, mas me sinto polarizado. Não porque eu tenha uma natureza “catilinária”, “carbonária”, mas porque estamos diante de algo maior do que o deixa-disso pode resolver. Assim, dizer que somos todos uma cambada de radicais, de um ou outro lado, sem enxergar a perspectiva de cada um (e confesso que algumas visões da esquerda – bem intencionada e não metida em rolos – são válidas) é cegueira, e lacração pura e simples.
Sinto que estamos num momento em que uma bela dose de polarização é desejável e necessária. Ou bem entendemos que estamos sim caminhando a passos largos para uma situação de exceção, ou deixamos tudo como está para ver como vai ficar. Fizemos isso em 1985, com o fim da ditadura. Acordamos anos depois com um congresso eleito por “puxadores de votos”, com partidos que não representam ninguém, com uma constituição parlamentarista para um país presidencialista, sem nossas armas, a despeito do resultado de um plebiscito, com milhões de funcionários públicos a mais do que o necessário e com salários mais altos do que qualquer outro setor, com uma dívida interna acima dos 80% do PIB, e para finalizar, na iminência de aceitarmos bovinamente ativismo da corte que deveria impedi-lo, em detrimento de nossa liberdade de expressão
Façam suas apostas. O mundo já se viu nessa encruzilhada antes. Quem “polarizou” conseguiu sobreviver. Quem não o fez, virou vítima de quem fingiu não ser. Melhor um fim com horror do que um horror sem fim.
Uma vala comum foi encontrada durante as obras de expansão do aeroporto de Odessa, na Ucrânia. Oito mil pessoas pelo menos foram enterradas lá. Os trabalhos continuam, e podem ser mais do que essa quantidade, por si já absurda. Não se trata do Holomodor, a grande fome, provocada por Stálin, e que resultou na morte de milhões de ucranianos. Foi um abate sistemático de pessoas pela polícia secreta da então União Soviética.
“Uma boa bala, uma boa cova”, falou Miguel Iasi, deputado federal pelo PC do B há algum tempo, parafraseando Bertold Bretch:
“Nós sabemos que você é nosso inimigo, mas considerando que você, como afirma, é uma boa pessoa, nós estamos dispostos a oferecer o seguinte: um bom paredão, onde vamos colocá-lo na frente de uma boa espingarda, com uma boa bala e vamos oferecer, depois de uma boa pá, uma boa cova. Com a direita e o conservadorismo, nenhum diálogo, luta”
Bertold Brecht, poema “Perguntas a um homem bom“
De novo, lá vamos nós, observando nossos arqueólogos da modernidade escavando, uma hora aqui, outra acolá, 10 mil ossadas, 3 mil ossadas… Ao todo já foram mais de 100 milhões de ossadas encontradas nos subsolos da utopia comunista.
Também há ossadas, claro, em outros regimes não comunistas, mas igualmente de força, como as 30 mil do regime militar argentino, 10 mil do chileno, e por aí vai, inclusive nossas quase 500, em 21 anos de nossa “ditablanda” (como dizem os hermanos latinos).
Tudo contra ossadas, se elas não estão perfeitamente identificadas em cemitérios e não tiveram sua morte comprovada e, se possível, de causas naturais. Tudo contra valas comuns de qualquer origem, sejam elas brasileiras, chinesas, russas ou do Khmer Vermelho.
O problema aqui é estarmos todos nós, brasileiros, flertando com mais um campo de ossos, ali na esquina, gerado por mais uma ditadura, seja de esquerda, de direita ou do judiciário. Neste meio tempo, o Sete de Setembro passa a ser, para alguns, motivo de medo, e não de júbilo.
Um Holomodor brasileiro, perpetrado há anos, nos deixa com uma sensação coletiva de que nada do que fomos ou somos valeu ou vale a pena. Tudo nesses 521 anos foi ruim, tudo patético, tudo substituível por algo “melhor”, segundo alguns, mesmo que para isso algumas novas valas comuns tenham que ser abertas.
Não sei muito sobre a maior parte dos assuntos. No entanto, tendo trabalhado com auditoria minha vida toda, até hoje, me sinto no direito de dizer algo sobre os conceitos básicos de auditoria, sua necessidade, e a enorme discussão – e confusão – sobre as urnas eletrônicas. Tentarei tratar do assunto sem qualquer viés, mas sempre que possível, tecnicamente.
As urnas estão sob questionamento há anos
Não é de hoje que nós vemos críticas e dúvidas sobre as urnas. Não é de hoje que se levantam questionamentos e sinceras dúvidas técnicas sobre um produto que já tem lá seus anos de tecnologia e que já provou ser, sim, unitariamente, devidamente violável. Um amigo de muitos anos, dono de uma empresa séria e de bom tamanho (vou dar o nome pra não ficar parecendo firula), Maurício “Moshe” Marques, faz uma séria e ferrenha campanha pelo aumento da segurança das urnas há anos. Há pelo menos uma década ele fala disso, e, penso eu, com razão. Temos um produto antigo e cuja violação já foi realizada, por profissionais e amadores, diversas vezes.
Quanto ao sistema de centralização de dados, boletins de urna, etc, são apenas totais gerais, por unidade, e não trazem, no meu entender, possibilidades de realmente examinar o resultado, localmente, unitariamente, e agir sobre o mesmo, impugnando ou restabelecendo votos no local, na seção, com presença dos partidos interessados, localmente.
Pode-se dizer que, na prática, temos um sistema que é sim, se não é violável, não temos elementos suficientes para concluir que é seguro – até onde posso concluir. Mas isso é apenas um dos aspectos da briga.
O Princípio da Auditoria
Ser auditável significa, fundamentalmente, ser passível de exame de resultados, olhando para partes constituintes, via documentação suporte e/ou regras de cálculo específicos. Os elementos colocados à disposição do auditordevem prover uma garantia “razoável” de que o ente auditado está materialmente adequado (100% de certeza não é auditoria, é refazimento). O auditor, por seu lado, precisa ser independente.
Portanto, o que entendo que queiram os defensores do “voto impresso” é prover, com as tais urnas laterais, evidências verificáveis, ou a possibilidade de que um ou outro resultado seja pontualmente auditado e confirmado, e, em caso de dúvidas materiais, seus resultados sejam impugnados, como era uma possibilidade antigamente, no tempo das eleições no papel, quando juízes eleitorais tinham o direito de declarar uma seção ou urna “impugnada” por razões fundadas – por exemplo, flagrantes de “curral eleitoral”, por parte dos coroné do passado, entre outros.
Para ser auditável, o sistema de votação precisa, unitariamente ser passível de ser “aberto” e confrontado com a natureza da dúvida que se levantou. Há casos em que pessoas questionam, com razão, que seu voto no candidato “A” não foi registrado na urna da seção – e muitas vezes com fundadas razões. As urnas atuais não são auditáveis, no sentido em que somente fornecem um boletim geral de contagem dos votos e não a possibilidade de exame efetivo das quantidades votadas com os boletins eletrônicos das urnas (minimamente).
Os aludidos procedimentos de “zeramento” das urnas apenas garantem que os “saldos” de votos no início da eleição eram zero, e portanto começou-se daí. Isso não significa, em minha opinião, que os resultados não possam ser manipulados por sub-rotinas ou programas externos, para gerar uma determinada votação.
Quando fui com meu amigo Martin Bargraser, em Caracas, votar (ele) contra Hugo Chavez lá pelo fim dos anos 1900, ele já me alertava para o fato de que havia um “tíquete” que saía de uma impressora e caía direto na urna, e que assegurava que quem votou viu seu próprio voto e concorda com ele. Isso torna a votação auditável.
Hugo Chavez acabou democraticamente eleito, e deu no que deu. Portanto, eleições auditáveis não garantem a sabedoria do resultado, mas isso é outra história.
O Fantasma e o “medo” das Urnas Auxiliares
Roberto Barroso, ministro do STF e presidente do TSE, levantou uma preciosidade retórica sobre as tais urnas auxiliares, auditáveis – elas iriam criar “insegurança” sobre o processo eleitoral, e não adicionar segurança. O raciocínio é típico de advogado que defende cliente culpado: usar qualquer argumento, já que não possui nenhum. Ora, como é que um processo de exame adicional vai aumentar insegurança?
Sobre o aspecto de tornar o processo auditável, um ex-sócio de auditoria da empresa em que eu trabalhava, dizia que “quem não tem medo de auditoria, não liga para ela; quem tem medo, precisa ser auditado”. Portanto, no processo eleitoral, vale a máxima acima.
É justamente por NÃO quererem o voto auditável que os políticos precisam dele, e a sociedade mais ainda. Barroso, ao advogar o que advoga, é quem lança mais medo na população, com relação à lisura dos nossos pleitos.
Bolsonaro “provando” fraudes
O presidente nunca cansa de propalar coisas que não consegue provar, e dessa vez não foi diferente. Espalhou aos quatro ventos que tinha provas bombásticas sobre fraudes na eleição de 2018 (que ele ganhou). Não tinha.
Não tinha justamente porque o argumento da necessidade de urnas auditáveis é válido: NÃO HÁ como provar fraudes. E por isso, tenham elas existido ou não, não se podem provar.
A chateação minha e de todos os que não são Bolsominions, mas torcem pra esse governo dar minimamente certo, por amor ao país, é a de que o presidente cai em ciladas ridículas. Não é a primeira vez que ele lança um balão de ensaio do tamanho de um bonde, e logo é ridicularizado. Ele até parece querer fazer as coisas corretamente, e francamente o governo me agrada mais do que desagrada, até o momento, por conta da condução do lado real da vida – aquele que acontece enquanto Brasília trama: agricultura, infraestrutura, economia, etc, vão bem obrigado, a despeito do que se fale. Mesmo o controle da pandemia me parece ruim, mas no nível da maioria dos países do mundo, ou seja, fomos pegos de calças curtas como todo mundo. A diferença é que aqui tem torcida pelo virus, o que não se vê frequentemente no mundo.
Quando Bolsonaro falou que ia para a TV “provar” a fraude, eu gelei e nem assisti a tal live. Achei que iria justamente contra o fato de que não é possível comprovar nem fraude nem lisura das urnas. Não há meios. A eleição dá um resultado “acabado”, visto por poucos, sem conhecimento de informática suficiente para julgar, comandada por um tribunal que quer tão somente se proteger de críticas, e que não parece estar aberto à possibilidade de criar meios e mecanismos de exame de resultados.
Assim, Bolsonaro, boquirroto que é, tentou provar o que é impossível provar – e o que é justamente a razão maior para o movimento por urnas auditáveis.
De amigos apaixonados contra o governo – faça esse o que faça – ouço as palavras de que eu “passo pano” para o governo. Sei pesar exatamente o que está sendo feito de bom ou de ruim, e por mais inteligente e capaz que um antagonista seja a esse governo, também sou capaz de formular minhas conclusões de forma independente, sem me deixar levar nem pelas idiotices do chefe do executivo, nem pelos muitos acertos que vi até o momento.
Sou auditor há mais de 30 anos. Conheço razoavelmente meu ofício. Se me chamassem para emitir um parecer sobre a capacidade do sistema atual brasileiro, de ser examinado e auditado, eu diria que “me abstenho de opinar”, pois que faltam elementos de controles internos e externos para me dar segurança para tal.
Do outro lado
Do outro lado dessa lambança toda temos o PT, o PSOL e outros partidos que são frontalmente contra urnas auditáveis ou “voto impresso”. Tirem suas conclusões sobre essa postura. Eu já tirei as minhas desde 1989.