Os Jacarés e a Geração Covid

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Não posso afirmar bem como foi… É como se eu tivesse sido transplantado ao ano de 2030, e já em condições totalmente diferentes da minha vida habitual. De “mastigador de número” e contador bissexto, me vi alçado a uma posição que nunca poderia imaginar. Vivi algo que ainda não sei bem explicar. E voltei pra contar.

Quase uma década depois do malfadado 2020, o mundo estava diferente. Sai de casa de máscara (não essas de pano qualquer, mas de um látex cinzento com uma espécie de “botão” laranja na frente, que apita quando chego perto demais do alheio – qualquer alheio…). Não vivo mais numa casa, mas num apartamento num bairro bem aglomerado no centro. Viro a esquina e dou de cara com mais um monte de gente de máscara cinza com botão laranja. Cada vez que um vivente chega próximo demais de outro, o botão laranja acende e apita.

O povo chama a máscara de BolsoTrump, em homenagem a dois ex-presidentes que brigaram com a “ciência” da época. Uns trogloditas esquisitos. Passou… passou… tudo parece ter voltado aos “eixos”.

Viro a esquina e entro num prédio – parece que meus pés sabem onde querem me levar. Supostamente trabalho ali, no comando alguma divisão do governo ligada à saúde. Fica difícil conciliar minha vida atrás dos balanços e fluxos de caixa e essa, ligada à medicina. Tenho pavor até de ver sangue. Sinto minha cabeça girar. Como fui parar aí?

Mas um impulso, um dever, desse outro eu nesse universo paralelo, me impele. Nada disso estava aqui ontem, e francamente é como se os últimos 9 anos tivessem passado num borrão. Não estou mais gordo, e sei que algo aconteceu pra que eu perdesse o excesso de uns 20 Kg – uma bariátrica que eu programara em 2020 e que não aconteceria antes de 2021? Não sei. Tudo é uma névoa só.

Entro no prédio e dou de cara com o porteiro. As escamas que ele tem na testa dão um ar de alienígena de Star Trek (um Romulano?) mas de alguma forma parecem “comuns”. As mãos estão ornadas com umas unhonas grandonas, pontudas e esverdeadas. Ele me responde com cordialidade, que nem posso dizer se é habitual ou não. Está lá… uma cordialidade que eu chamaria de bovina – se não parecesse reptiliana.

Tinha um ascensorista (Sic!), com um focinho esverdeado e presas afiadas, e testa de homo-sapiens-sapiens, cabelos meio ruivos, olhos esverdeados, parecendo a Cuca do Sítio do Picapau Amarelo. Parte de mim levou a cena na boa; parte talvez tivesse se borrado de medo, ou dado risada. Ascensorista? Por que? Pergunto e ouço a resposta: “condutor de veículo vertical”… orgulho profissional! Estou num filme da Marvel, esse de universos paralelos, de cor meio desbotada e uma mistura de coisa antiga e nova. Um ar de Berlin Oriental dos anos 60 e Blade Runner.

12 andar. Sala 144, a do canto, grande, clara e bem mobiliada. Um dos quadros na parede reconheço como o da minha casa em 2021. Algo ali me é familiar. Respirei fundo e tentei acalmar minha “outra parte”, já que a parte “paralela” parece estar de boa. A secretária chega. Não tem focinho nem escamas, mas quando ela se vira eu vejo uma renca de protuberâncias saindo das costas, como um dinossauro – também esverdeado.

Sr. Figueira, o Dr. Palhares perguntou por si. Anotei direitinho pra não esquecer… Ele mandou… e me passa um bilhete – “Figueira, preciso discutir contigo a questão das remessas de máscaras novas… as com bico vermelho – pros Insistentes”. Que bico vermelho? Que máscaras?

De novo meus pés me levam ao Palhares, a quem conheço sem nunca ter visto. Essa confusão de paralelo e oficial vai acabar me colocando em uma saia justa. Palhares acena pra mim. Tudo normal, os olhos amarelados e dentes pontudos saem da boca grande. O terno Armani super chique e os sapatos de um couro que desconheço – um cromo qualquer – me parecem estranhos, mas o Figueira do Universo Paralelo não acha nada estranho.

Figueira, você é uma mala mesmo! Quantos insistentes catalogamos semana passada? – “Uns 2 mil”, respondo – de onde saiu a convicção, não tenho ideia.

– “Então?” – pergunta Palhares – “nem pensou nas máscaras de ponta vermelha (as “Dula”, em homenagem a outros dois ex-presidentes)? Não temos nenhuma, e essa gente vai causar encrenca. Sem Dula na cara, ou no mínimo uma BolsoTrump, os caras vão sair fazendo arruaça. Vamos agilizar isso. O Ministério deve ter algumas ainda, em Brasília. Vamos pegar o que pudermos.” O Figueira do Universo Paralelo sabe que as máscaras de botão vermelho não são apenas para controle de distanciamento social, mas possuem agulhas prontas para injetar vacina, caso o sujeito ultrapasse a linha que o STF chamou de “Limite da Insurreição Social”. Reclamar é uma coisa. Falar com repórter acarreta meia dose de Pfizer… Escrever textão no Face questionando a ciência do distanciamento dá uma dose de Oxford… e pra completar, levantar cartaz e fazer manifestação dá uma dose inteirinha de Coronavac, e a certeza da cura, pela Semisaurização compulsória – que o STF não quis impor de cara, pois que os países desenvolvidos chamariam de ditadura do judiciário…

Saio tão rápido quando consigo (ser 20Kg mais leve ajuda um monte!). O monitor de tubo catódico me liga por Skype ao Ministério e rapidamente consigo, não as 2 mil, mas perto disso – 1.800. Já dá pro gasto. Deixo mais 2 mil pedidas pro mês que vem, quando as campanhas de conscientização do mês deverão estar concluídas, e os relatórios de anomalias reportarem os novos insistentes.

De volta na sala, o Figueira do Universo oficial se pergunta que raio foi tudo aquilo. O que são “insistentes”, e o que as máscaras de bico vermelho fazem. O Figueira do Paralelo sabe, mas teima em achar que eu sei e não precisa me contar. Somos duas pessoas numa cabeça só. Eu, o Figueira do Oficial, de carona.

Resolvida a questão das Dula, volto a agir sobre o outro tema – as reações adversas. Durante a vacinação de 2021, ninguém se preocupou muito com os resultados de médio prazo – longo prazo, nem se fale. Quando começaram a aparecer os primeiros dentões e as peles esverdeadas, os olhos amarelados e os cachorros e gatos da vizinhança começaram a desaparecer, o Ministério se preocupou. Eram coisas simples, no início, e quem tinha as reações não ligava muito. Tinha até quem gostasse – os “mutantes” (ou semi-mutantes) principalmente. Havia uma espécie de euforia, uma alegria de estar vivo, que contaminava os Semisauros, como passaram a ser tecnicamente chamados, que fez com que ninguém quisesse chegar muito perto ou questionar muito sua nova condição. Era o mRNA que havia feito isso. Um ex-presidente havia predito isso e o povo tinha dado muita risada dele. Afinal, como é que uma vacina chinesa, de Oxford ou de um dos mega-laboratórios mundiais poderia fazer de mal? Ainda mais transformar alguém em crocodilo, jacaré, caimã ou coisa que o valha… bestagem desse povo.

Uma vez estabelecida a comunidade dos Semisauros, passou a ser perigoso criticar muito. Assim, em poucos anos, os peles verdes e olhos amarelos começaram a ascender socialmente, por conta do efeito de tribo entre eles. Palhares era um deles, e tinha tido muito sucesso, desde que saíra da condição de veterinário no Zoológico de Curitiba para a exaltada posição de líder do combate aos Insistentes.

E os Insistentes? Gente que se recusou a tomar as vacinas, e foi até o STF pra ganhar o direito de não ser vacinado, contraiu Covid-19, depois Covid-20, depois Covid-21 e assim por diante. Agora, já na Covid-28 (a deste ano e do ano passado atrasaram), eles insistem em não se vacinar. Foram perdendo a capacidade cognitiva e hoje são os cara que fazem os trabalhos mais braçais, pesados e sujos da economia. Quase já não há Insistentes em cargos de direção, Se tornaram os Forest Gump de 2030, só que sem sorte.

Eu? nem sei – não me olhei no espelho pra saber se sou Insistente ou SemiSauro. Passo a mão no pescoço e na testa pra ver se acho algo estranho. Não acho nada. Os dentes continuam de herbívoro. Relaxo, e me pergunto – será que isso é bom?

Palhares entra como uma fúria, de novo, na minha sala e me convoca a ir confrontar uma nova manifestação de Insistentes na frente do prédio. – “Meio dia, quase, por que esses caras insistem em manifestar na hora do almoço? Por que não fazem como todo mundo e manifestam na hora do expediente”?

Eu eu paralelo responde – “Eles tem o que fazer. Tem essa mania de trabalhar, bater ponto… sabe como é… só manifestam na hora do almoço, sábado, domingo… é da natureza deles”. Palhares esfumaça pelos ouvidos… Dá pra sentir a mufa…

Palhares chama a segurança e descemos cercados de oficiais – todos Semisauros, armados. Do lado de fora algo como 100 manifestantes (a mídia vai falar que foram 10, o movimento vai dizer que eram 10 mil… same old…). Cartazes pedem o fim das vacinações: “Cloroquina ampla, geral e irrestrita” e “Fora Dirceu”, pedindo o impeachment do presidente. Outro cartaz diz “Cuidado rapá / o mRNA vai te pegá” (assim mesmo).

Palhares pega o megafone e começa – “dispersar para evitar o uso da força” seguido daquela microfonia irritante de filme americano. A líder (aparente) do movimento berra de volta – “Não vamos usar M3rd4! nenhuma de máscara de nariz vermelho! Ninguém aqui come gato e cachorro de vizinho! Abaixo a vacina!”.

Um dos seguranças, indignado com o tratamento dado aos Semisauros (afinal criticar hábitos alimentares é discriminação!), parte pra agressão e lança um jato de spray de pimenta na tal líder, berrando “obscurantista! fascista!”. O pau come. Os seguranças deixam as armas e partem pro ataque usando o que lhes é mais letal – garras e presas. Os manifestantes recuam. Não há, estranhamente, nenhuma câmera ou microfone de TVs ou qualquer outro veículo. Só os celulares gravam tudo – uns modelos parecidos com PT.550 Motorola, só que com visor melhorado e tecnologia 8G. Os manifestantes recuam depois que um sujeito preto (negro!) tem o braço arrancado por um segurança mais “acrocodilado”. Tem um pouco de sangue na calçada, mas ninguém liga muito, depois de tantos episódios parecidos.

Depois de chamar o SAMU, o manifestante foi atendido, a turba vai se espalhando e cantando palavras de ordem. Voltamos ao escritório. Palhares recomeça a cantilena – “Já falei. Se não forem marcados oficialmente como Insistentes, vão dizer que estão em processo de transformação, e que já tomaram vacina. Como não dá pra dizer que não, já que o governo perdeu o controle dos vacinados, fica nessa… o STF mandou a gente não começar o processo de ressocialização enquanto o sujeito não for marcados oficialmente. O volume de Insistentes tá aumentando… já falei com Brasília… Isso vai acabar virando uma revolta de proporções maiúsculas. Ainda bem que a falta da vacina afeta o QI e essa gente já não tem mais tanta capacidade de mobilização… Mas vai que surja um Enstein Insistente entre eles… corremos o risco de ter uma guerra civil nas mãos… e olha que tudo o que queremos é pro bem deles!. Negacionistas! gente burra! Devia estudar! Não conhecem ciência!”

Fico no meio do caminho, entre a pena dos Insistentes de QI baixo e os Semisauros ferozes mas preocupados com o bem estar geral. É uma situação difícil.

Na TV, de noite, o presidente fala à nação – “Hoje, vimos várias manifestações contra a ciência e pelo obscurantismo. Gente de QI baixo, que se recusou a tomar a vacina, enfrentou as forças da lei, que foram obrigadas a dispersar as manifestações com galhardia, e algumas mordidas“. E chorou, segundo ele, de pena desse povo sofrido, que não entende que a ciência trabalha para seu próprio bem… Chorou, porque afinal, lágrimas são típicas de crocodilos.

Do jeito que fui para em 2030, voltei pra 2021, no meu peso normal (Sic!) e com meu mau humor habitual. Tenho que decidir: tomo ou não tomo a vacina? Se eu tiver visto o futuro, tenho a escolha de virar um Sauro ou me tornar um Burro, Insistente…

Da sala minha mulher avisa – “vamos sair que chamaram a nossa faixa de idade na fila da vacina – e não quero mais nem meio mais – você VAI COMIGO!” berra ela… e eu vou…

Metacelebridades

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No início dos anos 2000, fomos, minha esposa e eu, e nossos filhos bem pequenos, à Porto Alegre, na casa de uns queridos amigos de décadas. Eles tinham (têm) três filhas que são minhas sobrinhas postiças, a quem amo muito. Lá, meu filho mais velho, Thomas, é indagado por elas se ele “gostava da Xuxa”. Ele com uns 4 anos, faz cara de paisagem e pergunta “quem é Xuxa”?

A reação das meninas até hoje é lembrada com risadas aqui em casa. “Que chique!!!! Ele não sabe quem é a Xuxa!!!”. Elas tinham sido criadas na geração em que toda menina tinha que se vestir de “Paquita” ou “Xuxinha”, num misto de Cindi Lauper com Madonna, consagrados pela loura apresentadora da Globo.

Até hoje, com meus filhos já na faixa de 20 e poucos, nos deparamos com celebridades que desconhecemos solenemente. Sem falar das celebridades que todo mundo de bom senso adora ignorar, como o cara que imita foca, a outra com uns peitos enormes e funks pavorosos, temos as metacelebridades, para imitar um conceito filosófico recente, que usa meta pra tudo (metacapitalista, metanarrativas, etc).

Eu acho que usaria o termo Metacelebridades a pessoas que se tornaram conhecidas, se chamam celebridades, mas não as vemos como tal, talvez pelo simples fato de que ser “célebre” signifique mais do que os consagrados termos como “afamado”, “conhecido”. Penso que talvez, etimologicamente, deveria estar mais ligado a “celebrado”, ou “louvado por feitos” ou coisa que o valha.

Portanto, “metacelebridade” talvez possa ser um termo que (espero que eu seja o primeiro a defini-lo) signifique o que realmente o cara que imita foca ou a funkeira gorda, ou o narigudo apresentador de TV sejam: pessoas conhecidas de muita gente, e que tenham pouca celebridade, de fato, ou seja, alguém que tenha algo a me oferecer, a ponto que eu possa “enaltece-la”.

Celebração se liga(va) a coisas solenes – um culto, uma missa, o Natal, o Eid, o Ano Novo Chinês, e por aí vai. Celebrado significa lembrado em posição de destaque (o que deve fazer sentido na cabeça de quem acha legal o narigudo ou o barbudo político, etc). Hoje, celebra-se por razões que talvez não se devesse fazer.

Ao ascender a um “estrelato”, em termos, a metacelebridade assume imediatamente a posição de opinar sobre tudo. De lançamento de foguetes até a epidemia de Covid.

Isso é normal, afinal, opinião é como… não vou completar pelo bem dos leitores. Vocês devem conhecer o dito popular – não é por ter (opinião) que você precisa dar. A metacelebridade tem 1 milhão de seguidores. Isso, por si só, é um feito. Seja imitando foca ou cantando Caneta Azul, o fato é que uma multidão de pessoas se dispôs a “curtir” algo, e seguir uma pessoa. A metacelebridade, do alto da multidão de pessoas dispostas a ouvir quase qualquer coisa que falem ou façam, sente que pode opinar, e influenciar, essa multidão em qualquer aspecto da vida e do “saber”.

O que não é normal não é que a vaidade da metacelebridade suba à cabeça e que ela fale ou faça o que não deva ou tenha condições para tal. O que não é normal é que alguém seja incensado, e, de fato, celebrizado, pela grande mídia, que deveria agir como curadoria da sociedade.

Xuxa veio a nós nua (literalmente às vezes) e crua, sem qualquer curadoria. Ao longo de sua carreira nos brindou com uma infinidade de pérolas. Cheguei a buscar algumas na internet, mas os pouparei da agrura. O rapaz da foca também, bem como o narigudo da TV não merecem também qualquer diferenciação de tratamento, dadas as platitudes.

Não sou saudosista, não acho que só meia dúzia de pessoas têm o que dizer. Muita gente tem, e muita gente me surpreende pela fineza de raciocínio e a beleza da pluma. Um planeta com mais de 7 bilhões de pessoas certamente tem milhões com pensamentos que valem à pena celebrizar. Não sou, tampouco, purista a ponto de me remeter somente aos clássicos – aliás, minhas críticas a alguns deles, como Nietzsche ou Freud são muitas.

O que um mundo de metacelebridades clama é por um pouco de curadoria. Que a imprensa e a intelligentsia voltem a ler, refletir sobre, e criticar para nós, mortais, dando pelo menos uma aparência de maior ordem no caos dos zilhões de palavras jogadas ao vento todos os dias (como essas…).

Livros

Numa cena de Indiana Jones e a Última Cruzada, o personagem de Harrison Ford pergunta à também arqueóloga e colaboradora dos nazistas, a loura alemã Dra. Elsa Schneider: “Por que, ao invés vez de queimar livros, vocês não experimentam lê-los?“.

Bela pergunta… e que vem se repetindo desde que a Igreja Católica criou o Index Librorum Prohibitorum, em 1559, pelo Papa Paulo IV – somente revogado, pasmem, em 1966, pelo Papa Paulo VI.

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Era o auge da contra-reforma, e o objetivo era o de banir textos que atentassem contra os dogmas da Igreja. Alguns personagens de destaque foram “agraciados” com uma menção no tal Index, como Rousseau, Descartes, Galileu, & Cia. Isso não foi exclusividade dos católicos. Luteranos e Calvinistas, o próprio Calvino à frente, também proibiram, ou tentaram proibir, o acesso das pessoas ao que eles julgavam inadequado. Acho que nós, batistas, fomos os menos afeitos a isso, o que nos deu a alcunha de “Livres Pensadores”, naquela época. A fé se adquire livremente, pelo exame de tudo (como disse o Apóstolo Paulo em I Tessalonicences, 5:21 – “Julgai todas as coisas, retende o que é bom“.

A síntese de toda a censura pode ser condensada numa palavra: MEDO. Lideranças católicas, protestantes, muçulmanas, e outras, tinha medo de que seus fiéis se “perdessem” nas firulas e intricácias de pensamento de alguns textos, e com isso, se afastassem da influência de seus líderes.

Vivi a vida toda no meio de Livros… eu os amo com paixão. Dediquei boa parte da minha vida a colecioná-los e lê-los. Não deixo entrar na minha estante nada que eu não tenha lido, usado em pesquisas, ou ambos. Tenho um Livro na cabeceira que nunca deixo sair, a Bíblia (na verdade uma coleção de livros).

Ao longo dos últimos anos passei a usar o Kindle, que me dá uma baita velocidade de leitura, mas me tira muito da retenção de detalhes, da capacidade de rabiscar (não sou muito fã, mas faço) mas me dá a possibilidade de ler da hora que acordo à hora que caio de sono, às vezes de madrugada. Estou pensando seriamente em reduzir drasticamente meu uso do Kindle – mas terei que aumentar minhas estantes, e a patroa é capaz de me jogar pra fora de casa…

Livros são tesouros. Mesmo os ruins. Afinal, de que servem apenas os bons conselhos, se os não temos os maus conselhos para fazer o tão necessário contraste “claroscuro” que nos dá capacidade de enxergar a realidade?

Por isso um texto de Madeleine Lackso, hoje, na Gazeta do Povo, me chamou atenção. Dê uma pausa, por favor, e leia, no link https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/madeleine-lacsko/movimento-quer-proibir-todos-os-livros-porque-nao-sao-politicamente-corretos/ e depois volte.

Voltou? Pois bem, minhas considerações vão na direção exatamente do MEDO. A tal hashtag “#DisruptTexts” foi criada por uns professores americanos que entendem que existe a necessidade de “purgar” as mentes e corações dos jovens de textos que eles acham inadequados. O argumento não é feito com relação à falácia de um texto ou em como ele pode “disruptar” um dogma ou ideologia. Diz respeito tão somente ao que consideram “politicamente incorreto”. Ou seja, querem informar ao leitor por que ele não deve ler Shakespeare, ou Homero, como fala a autora do artigo.

O conceito de “Espírito do Tempo”, conhecido em todas as línguas (Esprit du Temp, Zeitgeist, e trololós) foi cunhado exatamente porque há séculos o homem se depara com a leitura de textos que se baseiam em realidades diferentes das suas. Ao advertir, ou chamar o leitor para atentar para o Zeitgeist, quem escreve ou fala nos diz: “era assim que se pensava naquele tempo”…

Os romanos achavam abjeta a prática do sexo homossexual dos gregos, e chamavam o homossexualismo de “Vício Grego” (aqui, eu, eu mesmo, peço que invoquem o Zeitgeist e não me apedrejem – ainda). No entanto, os romanos de alta classe mandavam seus filhos para serem instruídos aos pés dos grandes filósofos gregos da época. Fica claro que, há mais de 2 mil anos, os romanos já conseguiam entender o conceito de Zeitgeist contido nos clássicos da literatura grega, e “perdoar” (Sic!) Homero, Ésquilo & Cia.

O próprio Shakespeare conseguiu escrever livros que o remetiam a tempos anteriores ao dele próprio, retirando a lição de vida, o entretenimento e a beleza de dentro do Zeitgeist, sem que fosse necessário purgar ou “disruptar” o que quer que fosse.

Essa nossa sociedade não consegue entender que a Cabana do Pai Tomás representa o espírito de uma época. Tom Sawyer e Huckeberry Finn, clássicos da minha infância, são considerados inadequados para que nossos filhos os leiam. Há alguém, de fora da cultura, de fora do entendimento do passar do tempo, que está nos dizendo o que ler, no que acreditar, como nos comportar, como falar. Estamos assistindo passivamente a destruição da cultura, da filosofia, e até da ciência.

Não se discute com uma equação. Ponto final. Isso foi o que aprendi. Não mais, aparentemente. Uma equação nos “faz sentir” mal ou bem. Portanto, se a realidade não se adapta ao que eu penso, dane-se a realidade. Dane-se a razão, dane-se o bom senso, viva a fogueira de livros, tocada a Readers` Digest dos anos 60, 70, 80 (hoje impossíveis de serem lidos sem o crivo dos “iluminados” do novo Index Librorum Prohibitorum.

Nunca poderia imaginar que o fim dos tempos (sim, creio que estamos perto dele) poderia acontecer não pelas mãos de um tirano de bigodinho ridículo ou um penteado mais ridículo ainda e olhinhos puxados, mas pelas mãos de professores teoricamente encarregados de nos esclarecer e ensinar a pensar.

Para quem ama livros, perdê-los é como viver escondido por ter-se recusado a receber a marca da besta.

Amen and Awomen

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Um pastor metodista, Emanuel Cleaver, foi convidado para orar na abertura do 117a. legislatura de congresso norte-americano. O tal reverendo terminou a oração dizendo “Amen and Awomen” (em Inglês soaria como “Ahomem e Amulher“). Gargalhadas à parte, o fato reflete o “Ésprit des Temps“, uma desgraceira idiotizante que se instalou na sociedade mundial, EUA na frente. É, como diria Fernando Lyra, a “vanguarda do atraso“… Amém, todo mundo sabe ou deveria, significa “Assim seja”. Nada mais do que isso, em hebraico.

Vou deixar em ingles mesmo porque é engraçado… “Back in the 60s this joke made the rounds: “Why do we say ‘amen’ and not ‘awomen‘?” The reply: “Because it comes at the end of a hymn, not a her. A piada é quase intraduzível e não tem graça alguma em Português, mas é muito legal assim mesmo… mas ERA uma piada…

Em tempos passados expressões como “meus povos e minhas povas“, “everybodies e everycabras“, e mais recentemente “presidenta“, “Amigues“, entre outras pérolas, ou eram, de cara, piadas e motivo de muita risada, ou foram objeto de ridículo até por quem nem estudou tanto assim. “Povo de Sucupira…” como diria Odorico Paraguassú… um desses dias vamos acabar achando que saudar a mandioca faz sentido…

Gente sem ter o que fazer já até teorizou que “Amen” derivaria de “Amen-Rá” (ou Amun-Rá, divindade egípcia – não confundir com o terrível personagem de quadrinhos Moon-Rá, dos Thundercats…). Mas ninguém ainda tinha duvidado da masculinidade do “pobre” Amém.

O reverendo não ficou satisfeito em orar ao Deus Único – que de uma ou outra forma, é o Deus dos “povos do livro” (Judeus, Cristãos e Muçulmanos) que representa a fé de uns 95% do congresso. Inventou na hora, provavelmente, uma inclusividade que chegou até a deuses pagãos. Só faltou incluir o Deus dos sem-deus, os ateus.

De novo, gargalhadas à parte, é uma tragédia intelectual que um cara que se formou em teologia, numa importante denominação cristã cujos princípios foram deixados por John Wesley (do qual meu nome – que odeio – deriva) tenha falado tamanha asneira. O fato é que os “progressistas” vão quebrando com as tradições e a cultura de um povo – pra não falar da fé, mesma – aos pouquinhos. Colocar um monge budista pra orar no congresso americano não ia pegar bem agora, de cara. Mas começar com um tresloucado qualquer, disposto a aparecer à custa da fé que deveria representar, vai quebrando algo muito caro aos americanos de forma paulatina. Fica “lindo”, “inclusivo”, uma beleza aos ouvidos de alguns, e não tão cacofônico aos ouvidos de quem se espantaria com a temperatura da proverbial água no balde do sapo.

Barbaridade, diriam os gaúchos. Barbaridade mesmo – coisa de bárbaro roendo o Império pelas beiradas, impulsionados pela sede de destruir o que está lá. Podem ter certeza de que vai dar certo, se Jesus Cristo não retornar primeiro – no que creio firmemente. Ocorre que, assim como em 473 DC, o resultado costuma ser uma “Idade das Trevas” de mil anos.

Estamos pagando pra ver. Estão reescrevendo o significado das palavras na nossa cara, à força, e sem o auxílio luxuoso do povão, que é quem sanciona as mudanças, em última instância. Se pagamos pra ver, vamos acabar vendo, ou não, por estarmos mortos, nós que ainda achamos que a língua importa.

O próprio bafo

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Se tem uma coisa irritante em toda essa pandemia, não é o medo do vírus, não é o lockdown, não é a falta de restaurante aberto pra ir nem a falta dos amigos, que não podem nos visitar. É o bafo! Pior. É o NOSSO próprio bafo. Represado dentro das miseráveis máscaras, sentimos o que dantes não nos incomodava.

Bafo é algo que normalmente só irrita o alheio. Bafo é como chatura. O chato, ou o bafudo, nem se dá conta. No caso do bafo a culpa é da glândula pituitária, que “satura” e a gente nem percebe mais. O chato é igual. Eu como chato de galocha sei disso: a gente tá mais preocupado com o que nós mesmos achamos e pensamos que saímos distribuindo nossa “expertise” a torto e a direito, sem perguntar se o outro gosta ou não do que estamos falando. Adoramos ouvir o som da própria voz.

A chatura é o bafo da alma. O bafo é a chatura da boca. Mas qual é a do bafo? Sabe bem quem usa máscara. Tem que cobrir a boca e o nariz. É como aquele gesto de bafejar na mão antes de um encontro, pra ver se a moça que vamos beijar não vai desmaiar como resultado do nosso mau hálito. Coisa de tempos em que não havia Listerine. Comia-se pasta de dente e olha lá. A máscara institucionalizou a estética do hálito. Estética é algo que não costuma ser relacionada com bafo, nem com coisas do nariz, mas creia-me: depois da Covid, o próprio bafo se tornou uma questão de sobrevivência. Tem gente que não liga, que põe a máscara, sente aquele “gás mortal” entrando de volta pelas narinas e em 5 minutos já não sente mais… e segue pela vida, bafejando e sendo bafejado.

Cubro a boca e o nariz porque me mandaram cobrir. Não me convenceram totalmente de que é realmente necessário, mas faço em respeito ao meu vizinho, meus semelhantes. Isso teve o saudável efeito colateral de me informar que (e quando) estou bafudo. Dia desses me peguei em oração – “cuida da alma que o corpo já era“… Que bafo! E tratei de caçar o enxágue bucal. Aline, a patroa, não gosta de criticar o bafo alheio, mas eu peço pra ela fazer um certo controle de qualidade. Ela faz sob protesto, mas faz. De vez em quando ela fala “tá com um pouquinho de bafo” – e eu sei que estou matando urubu em pleno voo – ou estaria, não fosse a máscara.

Já a chatura, essa não tem muito jeito. Não tem uma máscara de cobrir a cara que tenha o condão de fazer a chatura voltar na nossa cara. Quem dera! Seria um aliado fantástico pra não perder amigos, negócios ou se envolver em discussões tolas. Outro dia, eu e o filho de um grande amigo expulsamos da sala de jantar o resto dos convivas, só pelo caminho que certa discussão pegou. Era “papo cabeça”. Chatura na veia! O bafo da nossa chatura afastou o povo. Não demos a mínima – como todo chato que se preza – estávamos curtindo o bafo um do outro, e nem ligamos pra quem se afastou. Coisa de chato profissional.

Estou certo de que a Covid, então, teve esse efeito colateral positivo – a redução do bafo (acho que reduziu-se o bafo percebido, claro, mas certamente o “real” também). Tem gente que nunca se importou com o próprio bafo, já que não a incomodava, mas deve estar roxa de vergonha agora, ao lembrar de momentos de cochichos e conversas próximas que de repente afastavam o outro… Só restava um fingimento do tipo “ora veja você!“… “não diga!” e um menear de cabeça pra trás, pra longe do jato de vento fedorento diante de nós.

Peço a Deus por uma Covid da alma – entendam-me – não quero um vírus pra alma (tem gente que é literal e não interpreta texto muito bem…): falo de algo que devolva na nossa cara o odor fétido da nossa chatice – aliás, chatice, chatura, chateza, chateação… leiam como quiserem (não sejam chatos vocês também!). Quisera eu receber na cara uma lambada de chatice fedorenta de volta, cada vez que começasse a chatear o alheio.

Chato assumido que sou, embora com a melhor das intenções, descobri que um bom disfarce pra chatura é o humor. Você disfarça sua vontade de jogar indiscriminadamente pros outros suas ideias, exatamente como o chato. Mas sob forma de humor se torna um pouco mais palatável (ou cheirável). Humor é o Listerine do chato.

Argentina e o Aborto

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Não era minha intenção escrever nada hoje. Não iria tampouco fazer uma retrospectiva de 2020, já que escrevo para mim mesmo e para os meus (amigos, parentes, etc) e não para nenhum grande público. Quem quiser ler, leia, quem quiser malhar, malhe (sem ofensas, mas no raciocínio – afinal é possível discordar de quase qualquer coisa) mas esses escritos são para mim mesmo.

Não posso deixar de comentar para mim mesmo e para minha posteridade sobre o insano ato da Argentina em legalizar o aborto, de forma praticamente irrestrita. Bom, isso é praxe em muitos lugares, e países ditos civilizados matam seus bebês não-nascidos de forma quase indiscriminada. Um massacre e uma hipocrisia sem fim. Em alguns desses países, como a Holanda, Bélgica e Canadá, se você abandonar um cachorro na rua ou maltratar um gato, você vai preso. Mas matar uma criança pode. O “meu corpo, minhas regras” impera – sem que seja dada à criança não-nascida o direito de dizer a mesma coisa.

argentina aborto
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Mas o que me chamou a atenção não foi nada disso. A foto acima é o retrato que quero discutir (comigo mesmo, com quem ler). Veja quem quiser a atitude das mulheres da foto e quem é representado ali. O que me chama a atenção é a alegria incontida dessas militantes. Quase todas sem muita pinta de que gostariam algum dia de ter, nutrir e criar como gente de bem um ser humano que escapasse do cataclisma do aborto. Na era da pílula e dos contraceptivos, será que vale lutar pelo direito de matar inocentes?

Esses são movimentos de esquerda, saudados pelo El País (Espanha) como “Argentina legaliza o aborto e se põe na vanguarda dos direitos sociais na América Latina“. (https://brasil.elpais.com/internacional/2020-12-29/votacao-historica-no-senado-de-projeto-para-legalizar-aborto-na-argentina.html). Vanguarda dos direitos sociais. Pois é… é assim que a mídia trata o assassinato. Bem, para quem aprova o que a mídia atual aprova, isso não é nada estranho.

Como disse a reportagem da Gazeta do Povo, o movimento pró-aborto se traveste de “saúde pública”. Um rolo compressor passou por cima da vontade da maioria dos argentinos (conheço o país pelas trocentas viagens que fiz para lá a serviço) e a mesma narrativa será aplicada aqui no Brasil pelos mesmíssimos mobilizadores.

É com uma tristeza incontida que eu vejo isso. Eu tive 3 filhos, dois dos quais ainda estão comigo, e um está na posse do Senhor Deus. Lutei por 12 anos pela saúde do meu “Piá”, como se diz aqui em Curitiba. Fizemos, minha esposa e eu, o que pudemos, e oramos em família pela cura dele até o dia 04 de Agosto de 2015, quando Deus houve por bem leva-lo. NÃO me conformo que as pessoas tratem a vida de modo tão “light”. NÃO me conformo que as pessoas imaginem que alguém como a foto que encabeça esse artigo, essa vida iniciante, não tenha sentimentos, não sinta dor, não tenha direito a existir. Lutei por algo que alguns já jogaram fora algumas vezes na vida, desprezando numa privada qualquer, numa clínica qualquer. NÃO consigo achar normal. Meu corpo, minhas regras, claro. O corpo do ser dentro de mim, as regras dele.

O triste é ver fila de gente querendo adotar uma criança, e as pessoas desprezando isso. Talvez apelar para a ganância das pessoas desse resultado – quem sabe uma lei permitindo que a mulher que não abortar uma criança tenha o direito de “vende-la”. Parece horrível, e é. Mas do ponto de vista daquele serzinho em formação, será a maior bênção. Será a vida mesma. Ora, melhor que a “parideira” venda a criança e faça uns trocados do que jogar no lixo de uma clínica qualquer algo criado por Deus.

O paradoxal é que diante da possibilidade de escolher livremente – sem pressões ou campanhas de mídia – os argentinos certamente, na minha opinião, haveriam de escolher a vida, e não o aborto. Os brasileiros fariam o mesmo. Ocorre que se trata de agenda de “colonização moral”. Criar um fait accompli, e esperar que a sociedade bovinamente aceite isso. Tudo está indo nesse sentido, na agenda da esquerda – aborto, poligamia, proibição dos pais disciplinarem seus filhos, restrições ou mesmo criminalização de práticas religiosas ou objetos religiosos, escolas com partido, tudo vai na direção de criar uma tremenda onda de maldade que avassalará a sociedade, solapando tudo, como um tsunami de más intenções que, se não detido, gerará o caos que propiciará a um pequeno grupo, uma Nomenklatura, a formação dos novos Politburos, que acabarão com o resto das liberdades individuais.

O grande problema é que nós, cristãos, gente que acorda cedo, trabalha duro, cria empregos, gera riqueza, vai à igreja, paga impostos, respeita contratos, nós, os otários, ficamos calados diante disso tudo, vendo nossos potenciais filhos e netos exterminados no Holomodor, um Shoah de proporções diluvianas, sem que falemos nada. Nem um pio…

Deus permita que tenhamos força de nos expressar, deixando de lado o medo de nos expor, invadir redações de jornais – como profissionais, não na marra – e mudar a sina desse mundo tenebroso.

Os extremos do Ministério Público

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Dificilmente alguém vai discordar, em sã consciência, da importância última do Ministério Público. Pra quem não sabe, o MP é um órgão de estado, separado da política (ou deveria) e a quem cabe iniciar ações em nome dos cidadãos. É um órgão da Constituição de 1988, que quis dar voz e vez ao cidadão, em seus pleitos. Não sou jurista, e não vou falar nada juridicamente, mas dar minha opinião sobre o que interessa: os efeitos mesmo, na bucha, da atuação do MP. Positivos e negativos.

Assim, um Procurador de um MP qualquer, estadual ou federal, pode e deve examinar assuntos e iniciar ações, inclusive – e principalmente – contra o governo em suas esferas, protegendo o cidadão contra o governo e suas conhecidas avançadas contra as liberdades individuais e patrimoniais da população.

Mas temos dois ministérios públicos, ao que parece. Se de um lado existem os caras da Lava Jato, que com uma tenacidade incrível conseguiram desbaratar uma quadrilha encastelada no poder por anos, e trazer à luz coisas horrorosas, crimes cometidos por empresas “queridinhas” do poder, por outro lado existe um MP um pouco mais obscuro em suas atividades.

O membro do MP tem o direito de agir “em nome do povo”. Se espera (eu espero, pelo menos) que um membro do MP trabalhe dentro da melhor técnica possível, pensando no espírito das leis, e no que fará bem à sociedade como um todo, como decorrência de seu trabalho. Ocorre que há de tudo no MP, e pode-se afirmar que boa parte dos membros dos MPs, tanto estaduais como federais, tomaram consciência que detêm um “poder próprio”, e não a ser exercido para bem da população.

Os exemplos abundam. Um membro do MP pode, por exemplo, “cismar” com uma empresa, e dar em cima dela até achar algo que não case com suas preferências sociais, políticas ou de qualquer natureza, e criar um caso que pode custar milhões ao dito contribuinte, e ao próprio governo, no final das contas. A área trabalhista, onde o MP é bem atuante, decidiu contestar os efeitos da última modificação da CLT, interpretando a lei no sentido de suas convicções. Assim, temos membros do MP levando empresas a tribunais, criando uma enorme incerteza jurídica no país.

Talvez o caso mais flagrante sejam os membros do MP que se dedicam a aspectos ambientais. Há, me parece, um ativismo no MP sobre questões ambientais que ultrapassa a letra da lei e cria um grau de incerteza absurdo para empresas nas áreas de agricultura, pecuária e, principalmente, mineração e extrativismo. Do nada, mesmo com tudo bem regularizado, papelada em ordem, surge na porta um oficial de justiça a mando do MP intimando a isso, mandando aquilo, propondo TACs (Tratados de Ajustamento de Conduta) que tornam a vida de quem explora essas atividades uma insanidade.

No norte do país, a região amazônica se mantém como a região mais atrasada do país. Claro que a existência de condições naturais complexas e a necessidade de preservar o rico patrimônio biológico e ecológico do país são fatores que contribuem para isso. Mas nada explica a piração que atinge tantos no MP, auxiliado pelos zilhares de ONGs da região, na defesa da região contra projetos que, tocados como previstos, trariam imenso progresso com impacto ambiental quase nulo – e remediável.

Parece que temos dois MPs em um só. Um MP parece ser composto de gente técnica, que quer buscar o equilíbrio entre o estado e o cidadão, que busca o bem comum (definição atual mais aceita de “justiça”). Tem outro MP cuja função é tão somente criar caso, aparecer em TVs e jornais, atacar um ou outro personagem político (não se desconsidere aqui o viés de cada representante do MP nessa seara). À esquerda e à direita, alguns se movimentam com o intuito de criar as condições para sua alçada ao estrelato político. Quanto mais ruidoso o processo, parece que melhor.

Como o acesso ao MP é o mais democrático possível – é só estudar feito um condenado e passar numa prova dificílima, não há como dizer que eles estão lá por qualquer força que não o mérito individual. Quanto a isso eu creio restarem poucas dúvidas. São, portanto, uma elite técnica e intelectual. Isso, por si só, não garante que por isso seu trabalho seja sempre do nível que se esperaria de alguém tão preparado e inteligente.

Concluo dizendo que o MP é uma bênção para o país, como um todo, e que foi um dos (poucos) acertos da Constituição de 1988, na minha modesta opinião.

Não posso deixar de dizer que alguns membros do MP causam ao país danos incríveis, que eles mesmos não pesam ao começar suas cruzadas, aqui e acolá. Entendo que a primeira arguição que um membro do MP se deveria fazer ao começar uma dessas cruzadas é “isso presta ao país”? “isso ajuda mais do que atrapalha”. Pensando assim, creio que teriam mais apoio popular.

Frases

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Frases são pílulas. Poucas palavras, bem arrumadinhas, mais ou menos pensadas, podem ter um impacto devastador ou abençoador. Frases contém em poucas palavras muitos conceitos, que podem destruir ou construir.

O problema com as frases é que elas são pequenas, compactas e potentes como uma injeção intravenosa, ou uma pílula potente. Podem matar ou curar. Frases são o recurso tanto do pensador, sábio, ou do incendiário, destruidor. Mas frases nunca são o recurso do “morno”, do cara do meio da fila, do mais ou menos. Frases nos levam a “completar as lacunas” com nossas próprias ideias, de onde quer que elas venham.

Uma frase é um gancho. Nos dá “pêga” como se dizia antes da reforma ortográfica (Sic!) e nos leva numa ou noutra direção. Frases são anzóis, que nos fisgam, ou não, como diria Caetano…

Frases Sabedoria

Algumas frases contém muita sabedoria em poucas palavras ou linhas:

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. ”

Paulo, o Apóstolo, em I Coríntios 13:1

Frases de sabedoria teriam mesmo que começar com uma citação da bíblia. Esta é uma daquelas frases que ninguém, de qualquer religião (ou até sem ela), cultura ou língua poderia dizer que não é preciosa, se é que a pessoa tenha algo de moral e razão na cabeça. Essa é daquelas que marcam e que servem a tantos momentos, e nos ajudam e dão norte na vida. Ter amor é fundamental, e com amor é possível extrair significado da vida.

Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade.

Os “Pais Fundadores” no Preâmbulo da Declaração de Independência dos EUA

Apesar de haver um grande movimento contra a base mesma do pensamento que ordenou e conduziu a Revolução Americana, não dá para não se embasbacar com conceitos como por exemplo, o direito à busca da felicidade.

Quem faz errado, faz duas vezes…”

Armindo Constantino Montechiari, meu avô materno

“Seu Careca” como era chamado, tinha pouquíssima educação e lia muito porque lia a Bíblia sempre. Quase que exclusivamente Ela. Essa sua citação persegue a nós, nesta família Montechiari, de uma forma terrível. Sempre é a mesma coisa: fazemos algo “provisório” ou “matado” ou com preguiça, apenas e tão somente para nos deparar com a cara rosada do Velho Careca a nos dizer “eu te disse… quem faz errado…”…

Frases Nonsense

Existem frases que não significam nada, ou muito pouco. Algumas delas são clássicos que estão no imaginário popular como “pérolas de sabedoria”. Vou citar somente uma, sabendo que vou apanhar bastante por citá-la, por ser a predileta de muita gente. Essa frase voltou à tona no Facebook recentemente:

“Você se torna eternamente responsável por aquilo que cativou”

Antoine de Saint-Éxupery in Pequeno Príncipe

Não sei se vocês são como eu, que paro e penso no que raios algo realmente significa. Essa frase me chama atenção por não me dizer muita coisa do ponto de vista prático. Eu sempre fico de frente pra essas frases-esfinge (decifra-me eu te devoro) e me pergunto – o que o cara quis dizer com isso? Ora, sim. Por que eu me torno responsável? Que tipo de “cativeiro” eu provoquei? Uma amizade imorredoura? Se sim, por que me tornei responsável pelo bem estar ou qualquer outro aspecto da vida de alguém que desejou, voluntariamente, ser meu amigo para sempre?

Tenho pessoas que se dizem meus melhores amigos. Algumas dizem isso há anos e acredito piamente. Outras disseram isso enquanto estavam tirando o máximo de proveito de minha amizade – a que dediquei a ela – e rapando o tacho das coisas que podia obter de mim, em nome dessa amizade. Então alguém me responda, de forma cabal: o QUE o estimado Pètit-Prince quis dizer. Estou escravizado por alguém ter se escravizado (cativado) a mim? Não sei.

Este tipo de frase é bastante difundida, e soa bem. Às vezes só isso. Mas estou aberto a ser introduzido aos augustos mistérios de frases similares.

Frases Veneno

Existem frases, contudo, que são como pílulas de veneno. Quem reconhece o veneno fica possesso de raiva, sabendo que muitos engolirão as frases sem fazer qualquer análise crítica delas. Alguns exemplos vão parecer chocar ou querer parecer politicamente carregadas, mas tentarei não ser tão abertamente conservador (o que sou).

“Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”

Paulo Freire – Aqui uma frase muito cara ao coração de professores, principalmente de esquerda. Qual é a relação entre o aprendizado (neste caso, em idade tenra) do bê-a-bá com o contexto social, o lucro com a uva, ou se Eva só viu a uva ou se vendeu a uva? Que razão existe por trás dessa frase sem sentido algum, exceto o estímulo a que o educador fuja de seu compromisso básico com o bê-a-bá, em si uma tarefa coberta de honra e de glória, para dedicar-se a encher a cabeça dos pequenos com considerações que deveriam ser feitas para pessoas com condições de percebê-las?

Frases Piada

Ainda outras frases parecem piada, mas têm um fundo de verdade extraordinário. Essas são tantas e tão legais que não tem como não citar umas duas.

“De onde menos se espera… é de onde não sai nada, mesmo”

Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”.

O genial jornalista e escritor me sai com essa aí. O genial é que é absolutamente correta, na maioria das vezes: pode ter certeza. Olhou para uma coisa e acha que não vale um tostão furado, normalmente não vale mesmo… É válida para “intelectuais”, para alguns cientistas, mas aplica-se com maior validade a políticos e juízes…

A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todos os lados, diagnosticá-los incorretamente e aplicar as piores soluções.

Groucho Marx

Taí um que eu admiro! Igual a esse ainda vai demorar a nascer. Groucho era um gênio por encapsular em poucas palavras o que achamos, e ser muito correto sobre o tema. No caso acima, de fato ninguém como um político para achar problema onde não existe, diagnosticar incorretamente e aplicar as piores soluções possíveis! É incrível como passam o dia “devarde” (como dizem os paranaenses) caçando um problema que não existe pra dar uma solução que ninguém quer, que não resolve nada e que vai certamente tornar a vida do cidadão pior, mais penosa ou mais cara.

Em síntese, frases, essas pílulas, são venenos, sabedoria, ironia, idiotice ou gargalhada enlatada para consumo rápido. A cultura dos memes de hoje em dia criou uma situação em que quase qualquer um é um frasista, e o resultado é uma diarreia de conceitos mal usados, e uma prisão de ventre de ideias verdadeiras…

Fico com o humor…

Kaos e Controle

Maxwell Smart | Get Smart Wiki | Fandom
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Quem tem pelo menos 45 anos lembra bem da figura acima. É o trapalhão Maxwell Smart, do “Agente 86” (em inglês “Get Smart” ou “Fique esperto”). Steve Carell fez um bom trabalho no filme “remake” do pastelão dos anos 60 e 70. Trata-se de um cretino sortudo que por sabe-se lá que meios, se tornou agente de uma rede de espionagem americana à lá Cia, chamada “C.O.N.T.R.O.L.”. Era o auge da guerra fria, e a TV americana fazia piada com a situação. Do outro lado do “Controle” estava a organização (provavelmente da então Alemanha Oriental) chamada “K.A.O.S.”. Outro panaca, o agente Siegfried “Sig”, com planos mirabolantes para destruir o ocidente e implantar um regime ditatorial baseado no “Kaos”.

A quem não viu, recomendo ver, porque é um microcosmo satírico de algo que estamos prestes a viver de novo – talvez não tão engraçado. Estamos diante do ressurgimento de uma contraposição cada vez mais forte do Caos ao Controle.

Tudo está sendo feito no sentido de, desta vez, colocar os espiões não como “invasores” dentro do Ocidente, mas ter aqui gente nascida e criada debaixo da liberdade e padrão de vida ocidental, somente que fervorosos e fieis adeptos de uma ideologia que não conhecem bem mas que nós sabemos o que quer e no que vai dar. As Venezuelas, Cubas e Coreias do Norte da vida não são suficientes para desencorajar esse “amor” por esta causa que está cada dia mais próxima de nós e mais “raivosa”.

Os autores da série de TV tiveram sacadas ótimas com os nomes, pois é disso mesmo que se tratava antes, e se trata agora – Criar o K.A.O.S. a fim de assumir o C.O.N.T.R.O.L…, e do lado do ocidente, manter o C.O.N.T.R.O.L…a fim de evitar o K.A.O.S.. A coisa tá de volta com força total… só que em vez de governos atrás da Cortina de Ferro, temos agentes do K.A.O.S. infiltrados entre nós, trabalhando dia a dia por um caos que lhes beneficie, em última análise. Tudo isso travestido de “amor” e “carinho” pelo ser humano.

Até a palavra Controle assumiu significados novos. No meu tempo moleque, os pais lutavam pra que a gente fosse independente e assumisse o Controle, pra não cair no Caos. Isso significava pôr ordem sobre a própria vida e a busca incessante por fazer o que é certo. Arrumar a cama todo dia e pagar as contas em dia e assumir responsabilidades pelos seus – pais e filhos. Hoje, Controle é palavrão, em muitos meios.

Max Smart tinha um telefone no sapato, um celular fora de época, muito eficiente – mas tinha que tirar do pé, e depois recolocar. Um K.A.O.S.. no Controle. Era uma piada, mas é o que às vezes queremos fazer. Criamos uma situação complicada pra resolver um problema mais simples do que a solução mesma. Hoje fazemos o mesmo: soluções que políticos dão às coisas parecem um celular no sapato. Até funciona – se você estiver disposto a baixar, tirar o sapato, virar uma chave no salto, colocar o ouvido na sola, discar, depois recolocar tudo no lugar e ainda ter que cheirar o próprio chulé.

Fazem parte desse tipo de solução a taxação das grandes fortunas, a CLT, o emaranhado tributário atual, as saidinhas de fim de ano pra presidiários, as ações dos partidos junto ao STF, e mais um caminhão de leis tão bem intencionadas quanto o sapato-telefone do Agente 86. E nós cheirando chulé para falar.

Além das soluções tipo “sapato-telefone”, tem o Caos que é criado propositalmente para dar a falsa sensação de que o “Grande Irmão – Governo” está cuidando de todos. São as soluções que cabem numa frase curta e apelativa, mas cujos resultados são espantosamente ruins e de difícil explicação. Cada frase do tipo “meu corpo, minhas regras“, “viva a redistribuição de renda“, “por uma política de quotas para negros, gays, mulheres, etc“, entre outras, contêm venenos terríveis, de efeitos nocivos, mas não imediatos, sobre a vida de todos nós. Só que pra rebater cada uma dessas frases com racionalidade, gastamos tanto tempo que perdemos a atenção do interlocutor, que prefere a solução simples da frase feita.

Segundo os agentes do K.A.O.S., Controle é ruim, pois que ele no fundo emana de cada um de nós. É o conjunto de nossos controles individuais diários, nas pequenas ações, e é da nossa independência intelectual, financeira e moral que obtemos o Controle que nos leva a precisar menos e menos da burocracia estatal. Não queremos e não devemos nos submeter a governo algum, exceto no sentido de que o governo deva ser empregado e não patrão de todos nós.

Eu quero Controle. Deixe o K.A.O.S. pro Sig…

A idade certa

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É um mundo muito estranho:

  • Para votar, 16 anos;
  • Para responder por crimes, 18 anos;
  • Para beber, 18 anos;
  • Para trocar de sexo, 13 anos;
  • Para fazer sexo, 14 anos;

É um mundo que dá o direito aos pais de trocarem o sexo dos filhos aos 4 anos de idade e nega aos pais uma boa palmada de amor no bumbum por ter feito algo errado. É um mundo que não permite que um marmanjo de 16 anos seja julgado por ter matado um pai de família, por ser “criança” mas permite que alguém de 12 anos possa começar a tomar hormônios para inibir puberdade.

Pior e mais trágico ainda – neste mundo (que há 30 anos pareceria um episódio de “Twilight Zone”), quem tem menos de 18 anos está proibido de trabalhar, salvo em situações tão específicas que é difícil, quase impossível, conseguir colocação. Pais que são profissionais em certo ofício, como marceneiros, pecuaristas, açougueiros ou outras profissões, estão literalmente impedidos de ensinar aos filhos o seu ofício. O que até 50 anos atrás era basicamente a regra, hoje não existe mais, quase que nem como exceção.

É de uma tristeza abjeta viver neste mundo. A Greta é exaltada por matar aula para supostamente “salvar o planeta” (mesmo sem saber bem o que está fazendo, e falando através de ventríloquos), viaja o mundo cercada de câmeras e exaltação ao seu “trabalho”. O Joãozinho, porém, teve o pai com sérios problemas com o juizado da infância e juventude porque o filho ajuda na lojinha da família depois das aulas.

A inversão dos valores originais, civilizacionais, como o trabalho, honestidade, adiamento de recompensas, honra aos pais, responsabilização pelos próprios atos e coisas do estilo, está tão entranhada na nossa sociedade que já achamos estranho ver uma criança atendendo no balcão da farmácia da família (coisa que na minha família era considerada honra para os pais, que os clientes vissem um filho ou filha tão responsável…).

Onde mais nossa ignorância da realidade da vida vai nos levar? Para onde uma geração fraca e “mimizenta” vai conduzir o mundo? Que estofo moral os nossos jovens terão, quando convocados a repelir o próximo Hitler, o próximo Stalin ou Mao?

São boas perguntas, e que certamente vão me dar muita dor de cabeça, muitos dislikes e muito xingamento. Que comece o jogo…