Os Jacarés e a Geração Covid

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Não posso afirmar bem como foi… É como se eu tivesse sido transplantado ao ano de 2030, e já em condições totalmente diferentes da minha vida habitual. De “mastigador de número” e contador bissexto, me vi alçado a uma posição que nunca poderia imaginar. Vivi algo que ainda não sei bem explicar. E voltei pra contar.

Quase uma década depois do malfadado 2020, o mundo estava diferente. Sai de casa de máscara (não essas de pano qualquer, mas de um látex cinzento com uma espécie de “botão” laranja na frente, que apita quando chego perto demais do alheio – qualquer alheio…). Não vivo mais numa casa, mas num apartamento num bairro bem aglomerado no centro. Viro a esquina e dou de cara com mais um monte de gente de máscara cinza com botão laranja. Cada vez que um vivente chega próximo demais de outro, o botão laranja acende e apita.

O povo chama a máscara de BolsoTrump, em homenagem a dois ex-presidentes que brigaram com a “ciência” da época. Uns trogloditas esquisitos. Passou… passou… tudo parece ter voltado aos “eixos”.

Viro a esquina e entro num prédio – parece que meus pés sabem onde querem me levar. Supostamente trabalho ali, no comando alguma divisão do governo ligada à saúde. Fica difícil conciliar minha vida atrás dos balanços e fluxos de caixa e essa, ligada à medicina. Tenho pavor até de ver sangue. Sinto minha cabeça girar. Como fui parar aí?

Mas um impulso, um dever, desse outro eu nesse universo paralelo, me impele. Nada disso estava aqui ontem, e francamente é como se os últimos 9 anos tivessem passado num borrão. Não estou mais gordo, e sei que algo aconteceu pra que eu perdesse o excesso de uns 20 Kg – uma bariátrica que eu programara em 2020 e que não aconteceria antes de 2021? Não sei. Tudo é uma névoa só.

Entro no prédio e dou de cara com o porteiro. As escamas que ele tem na testa dão um ar de alienígena de Star Trek (um Romulano?) mas de alguma forma parecem “comuns”. As mãos estão ornadas com umas unhonas grandonas, pontudas e esverdeadas. Ele me responde com cordialidade, que nem posso dizer se é habitual ou não. Está lá… uma cordialidade que eu chamaria de bovina – se não parecesse reptiliana.

Tinha um ascensorista (Sic!), com um focinho esverdeado e presas afiadas, e testa de homo-sapiens-sapiens, cabelos meio ruivos, olhos esverdeados, parecendo a Cuca do Sítio do Picapau Amarelo. Parte de mim levou a cena na boa; parte talvez tivesse se borrado de medo, ou dado risada. Ascensorista? Por que? Pergunto e ouço a resposta: “condutor de veículo vertical”… orgulho profissional! Estou num filme da Marvel, esse de universos paralelos, de cor meio desbotada e uma mistura de coisa antiga e nova. Um ar de Berlin Oriental dos anos 60 e Blade Runner.

12 andar. Sala 144, a do canto, grande, clara e bem mobiliada. Um dos quadros na parede reconheço como o da minha casa em 2021. Algo ali me é familiar. Respirei fundo e tentei acalmar minha “outra parte”, já que a parte “paralela” parece estar de boa. A secretária chega. Não tem focinho nem escamas, mas quando ela se vira eu vejo uma renca de protuberâncias saindo das costas, como um dinossauro – também esverdeado.

Sr. Figueira, o Dr. Palhares perguntou por si. Anotei direitinho pra não esquecer… Ele mandou… e me passa um bilhete – “Figueira, preciso discutir contigo a questão das remessas de máscaras novas… as com bico vermelho – pros Insistentes”. Que bico vermelho? Que máscaras?

De novo meus pés me levam ao Palhares, a quem conheço sem nunca ter visto. Essa confusão de paralelo e oficial vai acabar me colocando em uma saia justa. Palhares acena pra mim. Tudo normal, os olhos amarelados e dentes pontudos saem da boca grande. O terno Armani super chique e os sapatos de um couro que desconheço – um cromo qualquer – me parecem estranhos, mas o Figueira do Universo Paralelo não acha nada estranho.

Figueira, você é uma mala mesmo! Quantos insistentes catalogamos semana passada? – “Uns 2 mil”, respondo – de onde saiu a convicção, não tenho ideia.

– “Então?” – pergunta Palhares – “nem pensou nas máscaras de ponta vermelha (as “Dula”, em homenagem a outros dois ex-presidentes)? Não temos nenhuma, e essa gente vai causar encrenca. Sem Dula na cara, ou no mínimo uma BolsoTrump, os caras vão sair fazendo arruaça. Vamos agilizar isso. O Ministério deve ter algumas ainda, em Brasília. Vamos pegar o que pudermos.” O Figueira do Universo Paralelo sabe que as máscaras de botão vermelho não são apenas para controle de distanciamento social, mas possuem agulhas prontas para injetar vacina, caso o sujeito ultrapasse a linha que o STF chamou de “Limite da Insurreição Social”. Reclamar é uma coisa. Falar com repórter acarreta meia dose de Pfizer… Escrever textão no Face questionando a ciência do distanciamento dá uma dose de Oxford… e pra completar, levantar cartaz e fazer manifestação dá uma dose inteirinha de Coronavac, e a certeza da cura, pela Semisaurização compulsória – que o STF não quis impor de cara, pois que os países desenvolvidos chamariam de ditadura do judiciário…

Saio tão rápido quando consigo (ser 20Kg mais leve ajuda um monte!). O monitor de tubo catódico me liga por Skype ao Ministério e rapidamente consigo, não as 2 mil, mas perto disso – 1.800. Já dá pro gasto. Deixo mais 2 mil pedidas pro mês que vem, quando as campanhas de conscientização do mês deverão estar concluídas, e os relatórios de anomalias reportarem os novos insistentes.

De volta na sala, o Figueira do Universo oficial se pergunta que raio foi tudo aquilo. O que são “insistentes”, e o que as máscaras de bico vermelho fazem. O Figueira do Paralelo sabe, mas teima em achar que eu sei e não precisa me contar. Somos duas pessoas numa cabeça só. Eu, o Figueira do Oficial, de carona.

Resolvida a questão das Dula, volto a agir sobre o outro tema – as reações adversas. Durante a vacinação de 2021, ninguém se preocupou muito com os resultados de médio prazo – longo prazo, nem se fale. Quando começaram a aparecer os primeiros dentões e as peles esverdeadas, os olhos amarelados e os cachorros e gatos da vizinhança começaram a desaparecer, o Ministério se preocupou. Eram coisas simples, no início, e quem tinha as reações não ligava muito. Tinha até quem gostasse – os “mutantes” (ou semi-mutantes) principalmente. Havia uma espécie de euforia, uma alegria de estar vivo, que contaminava os Semisauros, como passaram a ser tecnicamente chamados, que fez com que ninguém quisesse chegar muito perto ou questionar muito sua nova condição. Era o mRNA que havia feito isso. Um ex-presidente havia predito isso e o povo tinha dado muita risada dele. Afinal, como é que uma vacina chinesa, de Oxford ou de um dos mega-laboratórios mundiais poderia fazer de mal? Ainda mais transformar alguém em crocodilo, jacaré, caimã ou coisa que o valha… bestagem desse povo.

Uma vez estabelecida a comunidade dos Semisauros, passou a ser perigoso criticar muito. Assim, em poucos anos, os peles verdes e olhos amarelos começaram a ascender socialmente, por conta do efeito de tribo entre eles. Palhares era um deles, e tinha tido muito sucesso, desde que saíra da condição de veterinário no Zoológico de Curitiba para a exaltada posição de líder do combate aos Insistentes.

E os Insistentes? Gente que se recusou a tomar as vacinas, e foi até o STF pra ganhar o direito de não ser vacinado, contraiu Covid-19, depois Covid-20, depois Covid-21 e assim por diante. Agora, já na Covid-28 (a deste ano e do ano passado atrasaram), eles insistem em não se vacinar. Foram perdendo a capacidade cognitiva e hoje são os cara que fazem os trabalhos mais braçais, pesados e sujos da economia. Quase já não há Insistentes em cargos de direção, Se tornaram os Forest Gump de 2030, só que sem sorte.

Eu? nem sei – não me olhei no espelho pra saber se sou Insistente ou SemiSauro. Passo a mão no pescoço e na testa pra ver se acho algo estranho. Não acho nada. Os dentes continuam de herbívoro. Relaxo, e me pergunto – será que isso é bom?

Palhares entra como uma fúria, de novo, na minha sala e me convoca a ir confrontar uma nova manifestação de Insistentes na frente do prédio. – “Meio dia, quase, por que esses caras insistem em manifestar na hora do almoço? Por que não fazem como todo mundo e manifestam na hora do expediente”?

Eu eu paralelo responde – “Eles tem o que fazer. Tem essa mania de trabalhar, bater ponto… sabe como é… só manifestam na hora do almoço, sábado, domingo… é da natureza deles”. Palhares esfumaça pelos ouvidos… Dá pra sentir a mufa…

Palhares chama a segurança e descemos cercados de oficiais – todos Semisauros, armados. Do lado de fora algo como 100 manifestantes (a mídia vai falar que foram 10, o movimento vai dizer que eram 10 mil… same old…). Cartazes pedem o fim das vacinações: “Cloroquina ampla, geral e irrestrita” e “Fora Dirceu”, pedindo o impeachment do presidente. Outro cartaz diz “Cuidado rapá / o mRNA vai te pegá” (assim mesmo).

Palhares pega o megafone e começa – “dispersar para evitar o uso da força” seguido daquela microfonia irritante de filme americano. A líder (aparente) do movimento berra de volta – “Não vamos usar M3rd4! nenhuma de máscara de nariz vermelho! Ninguém aqui come gato e cachorro de vizinho! Abaixo a vacina!”.

Um dos seguranças, indignado com o tratamento dado aos Semisauros (afinal criticar hábitos alimentares é discriminação!), parte pra agressão e lança um jato de spray de pimenta na tal líder, berrando “obscurantista! fascista!”. O pau come. Os seguranças deixam as armas e partem pro ataque usando o que lhes é mais letal – garras e presas. Os manifestantes recuam. Não há, estranhamente, nenhuma câmera ou microfone de TVs ou qualquer outro veículo. Só os celulares gravam tudo – uns modelos parecidos com PT.550 Motorola, só que com visor melhorado e tecnologia 8G. Os manifestantes recuam depois que um sujeito preto (negro!) tem o braço arrancado por um segurança mais “acrocodilado”. Tem um pouco de sangue na calçada, mas ninguém liga muito, depois de tantos episódios parecidos.

Depois de chamar o SAMU, o manifestante foi atendido, a turba vai se espalhando e cantando palavras de ordem. Voltamos ao escritório. Palhares recomeça a cantilena – “Já falei. Se não forem marcados oficialmente como Insistentes, vão dizer que estão em processo de transformação, e que já tomaram vacina. Como não dá pra dizer que não, já que o governo perdeu o controle dos vacinados, fica nessa… o STF mandou a gente não começar o processo de ressocialização enquanto o sujeito não for marcados oficialmente. O volume de Insistentes tá aumentando… já falei com Brasília… Isso vai acabar virando uma revolta de proporções maiúsculas. Ainda bem que a falta da vacina afeta o QI e essa gente já não tem mais tanta capacidade de mobilização… Mas vai que surja um Enstein Insistente entre eles… corremos o risco de ter uma guerra civil nas mãos… e olha que tudo o que queremos é pro bem deles!. Negacionistas! gente burra! Devia estudar! Não conhecem ciência!”

Fico no meio do caminho, entre a pena dos Insistentes de QI baixo e os Semisauros ferozes mas preocupados com o bem estar geral. É uma situação difícil.

Na TV, de noite, o presidente fala à nação – “Hoje, vimos várias manifestações contra a ciência e pelo obscurantismo. Gente de QI baixo, que se recusou a tomar a vacina, enfrentou as forças da lei, que foram obrigadas a dispersar as manifestações com galhardia, e algumas mordidas“. E chorou, segundo ele, de pena desse povo sofrido, que não entende que a ciência trabalha para seu próprio bem… Chorou, porque afinal, lágrimas são típicas de crocodilos.

Do jeito que fui para em 2030, voltei pra 2021, no meu peso normal (Sic!) e com meu mau humor habitual. Tenho que decidir: tomo ou não tomo a vacina? Se eu tiver visto o futuro, tenho a escolha de virar um Sauro ou me tornar um Burro, Insistente…

Da sala minha mulher avisa – “vamos sair que chamaram a nossa faixa de idade na fila da vacina – e não quero mais nem meio mais – você VAI COMIGO!” berra ela… e eu vou…

Metacelebridades

crying Marilyn Monroe graffiti
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No início dos anos 2000, fomos, minha esposa e eu, e nossos filhos bem pequenos, à Porto Alegre, na casa de uns queridos amigos de décadas. Eles tinham (têm) três filhas que são minhas sobrinhas postiças, a quem amo muito. Lá, meu filho mais velho, Thomas, é indagado por elas se ele “gostava da Xuxa”. Ele com uns 4 anos, faz cara de paisagem e pergunta “quem é Xuxa”?

A reação das meninas até hoje é lembrada com risadas aqui em casa. “Que chique!!!! Ele não sabe quem é a Xuxa!!!”. Elas tinham sido criadas na geração em que toda menina tinha que se vestir de “Paquita” ou “Xuxinha”, num misto de Cindi Lauper com Madonna, consagrados pela loura apresentadora da Globo.

Até hoje, com meus filhos já na faixa de 20 e poucos, nos deparamos com celebridades que desconhecemos solenemente. Sem falar das celebridades que todo mundo de bom senso adora ignorar, como o cara que imita foca, a outra com uns peitos enormes e funks pavorosos, temos as metacelebridades, para imitar um conceito filosófico recente, que usa meta pra tudo (metacapitalista, metanarrativas, etc).

Eu acho que usaria o termo Metacelebridades a pessoas que se tornaram conhecidas, se chamam celebridades, mas não as vemos como tal, talvez pelo simples fato de que ser “célebre” signifique mais do que os consagrados termos como “afamado”, “conhecido”. Penso que talvez, etimologicamente, deveria estar mais ligado a “celebrado”, ou “louvado por feitos” ou coisa que o valha.

Portanto, “metacelebridade” talvez possa ser um termo que (espero que eu seja o primeiro a defini-lo) signifique o que realmente o cara que imita foca ou a funkeira gorda, ou o narigudo apresentador de TV sejam: pessoas conhecidas de muita gente, e que tenham pouca celebridade, de fato, ou seja, alguém que tenha algo a me oferecer, a ponto que eu possa “enaltece-la”.

Celebração se liga(va) a coisas solenes – um culto, uma missa, o Natal, o Eid, o Ano Novo Chinês, e por aí vai. Celebrado significa lembrado em posição de destaque (o que deve fazer sentido na cabeça de quem acha legal o narigudo ou o barbudo político, etc). Hoje, celebra-se por razões que talvez não se devesse fazer.

Ao ascender a um “estrelato”, em termos, a metacelebridade assume imediatamente a posição de opinar sobre tudo. De lançamento de foguetes até a epidemia de Covid.

Isso é normal, afinal, opinião é como… não vou completar pelo bem dos leitores. Vocês devem conhecer o dito popular – não é por ter (opinião) que você precisa dar. A metacelebridade tem 1 milhão de seguidores. Isso, por si só, é um feito. Seja imitando foca ou cantando Caneta Azul, o fato é que uma multidão de pessoas se dispôs a “curtir” algo, e seguir uma pessoa. A metacelebridade, do alto da multidão de pessoas dispostas a ouvir quase qualquer coisa que falem ou façam, sente que pode opinar, e influenciar, essa multidão em qualquer aspecto da vida e do “saber”.

O que não é normal não é que a vaidade da metacelebridade suba à cabeça e que ela fale ou faça o que não deva ou tenha condições para tal. O que não é normal é que alguém seja incensado, e, de fato, celebrizado, pela grande mídia, que deveria agir como curadoria da sociedade.

Xuxa veio a nós nua (literalmente às vezes) e crua, sem qualquer curadoria. Ao longo de sua carreira nos brindou com uma infinidade de pérolas. Cheguei a buscar algumas na internet, mas os pouparei da agrura. O rapaz da foca também, bem como o narigudo da TV não merecem também qualquer diferenciação de tratamento, dadas as platitudes.

Não sou saudosista, não acho que só meia dúzia de pessoas têm o que dizer. Muita gente tem, e muita gente me surpreende pela fineza de raciocínio e a beleza da pluma. Um planeta com mais de 7 bilhões de pessoas certamente tem milhões com pensamentos que valem à pena celebrizar. Não sou, tampouco, purista a ponto de me remeter somente aos clássicos – aliás, minhas críticas a alguns deles, como Nietzsche ou Freud são muitas.

O que um mundo de metacelebridades clama é por um pouco de curadoria. Que a imprensa e a intelligentsia voltem a ler, refletir sobre, e criticar para nós, mortais, dando pelo menos uma aparência de maior ordem no caos dos zilhões de palavras jogadas ao vento todos os dias (como essas…).

Amen and Awomen

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Um pastor metodista, Emanuel Cleaver, foi convidado para orar na abertura do 117a. legislatura de congresso norte-americano. O tal reverendo terminou a oração dizendo “Amen and Awomen” (em Inglês soaria como “Ahomem e Amulher“). Gargalhadas à parte, o fato reflete o “Ésprit des Temps“, uma desgraceira idiotizante que se instalou na sociedade mundial, EUA na frente. É, como diria Fernando Lyra, a “vanguarda do atraso“… Amém, todo mundo sabe ou deveria, significa “Assim seja”. Nada mais do que isso, em hebraico.

Vou deixar em ingles mesmo porque é engraçado… “Back in the 60s this joke made the rounds: “Why do we say ‘amen’ and not ‘awomen‘?” The reply: “Because it comes at the end of a hymn, not a her. A piada é quase intraduzível e não tem graça alguma em Português, mas é muito legal assim mesmo… mas ERA uma piada…

Em tempos passados expressões como “meus povos e minhas povas“, “everybodies e everycabras“, e mais recentemente “presidenta“, “Amigues“, entre outras pérolas, ou eram, de cara, piadas e motivo de muita risada, ou foram objeto de ridículo até por quem nem estudou tanto assim. “Povo de Sucupira…” como diria Odorico Paraguassú… um desses dias vamos acabar achando que saudar a mandioca faz sentido…

Gente sem ter o que fazer já até teorizou que “Amen” derivaria de “Amen-Rá” (ou Amun-Rá, divindade egípcia – não confundir com o terrível personagem de quadrinhos Moon-Rá, dos Thundercats…). Mas ninguém ainda tinha duvidado da masculinidade do “pobre” Amém.

O reverendo não ficou satisfeito em orar ao Deus Único – que de uma ou outra forma, é o Deus dos “povos do livro” (Judeus, Cristãos e Muçulmanos) que representa a fé de uns 95% do congresso. Inventou na hora, provavelmente, uma inclusividade que chegou até a deuses pagãos. Só faltou incluir o Deus dos sem-deus, os ateus.

De novo, gargalhadas à parte, é uma tragédia intelectual que um cara que se formou em teologia, numa importante denominação cristã cujos princípios foram deixados por John Wesley (do qual meu nome – que odeio – deriva) tenha falado tamanha asneira. O fato é que os “progressistas” vão quebrando com as tradições e a cultura de um povo – pra não falar da fé, mesma – aos pouquinhos. Colocar um monge budista pra orar no congresso americano não ia pegar bem agora, de cara. Mas começar com um tresloucado qualquer, disposto a aparecer à custa da fé que deveria representar, vai quebrando algo muito caro aos americanos de forma paulatina. Fica “lindo”, “inclusivo”, uma beleza aos ouvidos de alguns, e não tão cacofônico aos ouvidos de quem se espantaria com a temperatura da proverbial água no balde do sapo.

Barbaridade, diriam os gaúchos. Barbaridade mesmo – coisa de bárbaro roendo o Império pelas beiradas, impulsionados pela sede de destruir o que está lá. Podem ter certeza de que vai dar certo, se Jesus Cristo não retornar primeiro – no que creio firmemente. Ocorre que, assim como em 473 DC, o resultado costuma ser uma “Idade das Trevas” de mil anos.

Estamos pagando pra ver. Estão reescrevendo o significado das palavras na nossa cara, à força, e sem o auxílio luxuoso do povão, que é quem sanciona as mudanças, em última instância. Se pagamos pra ver, vamos acabar vendo, ou não, por estarmos mortos, nós que ainda achamos que a língua importa.

O próprio bafo

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Se tem uma coisa irritante em toda essa pandemia, não é o medo do vírus, não é o lockdown, não é a falta de restaurante aberto pra ir nem a falta dos amigos, que não podem nos visitar. É o bafo! Pior. É o NOSSO próprio bafo. Represado dentro das miseráveis máscaras, sentimos o que dantes não nos incomodava.

Bafo é algo que normalmente só irrita o alheio. Bafo é como chatura. O chato, ou o bafudo, nem se dá conta. No caso do bafo a culpa é da glândula pituitária, que “satura” e a gente nem percebe mais. O chato é igual. Eu como chato de galocha sei disso: a gente tá mais preocupado com o que nós mesmos achamos e pensamos que saímos distribuindo nossa “expertise” a torto e a direito, sem perguntar se o outro gosta ou não do que estamos falando. Adoramos ouvir o som da própria voz.

A chatura é o bafo da alma. O bafo é a chatura da boca. Mas qual é a do bafo? Sabe bem quem usa máscara. Tem que cobrir a boca e o nariz. É como aquele gesto de bafejar na mão antes de um encontro, pra ver se a moça que vamos beijar não vai desmaiar como resultado do nosso mau hálito. Coisa de tempos em que não havia Listerine. Comia-se pasta de dente e olha lá. A máscara institucionalizou a estética do hálito. Estética é algo que não costuma ser relacionada com bafo, nem com coisas do nariz, mas creia-me: depois da Covid, o próprio bafo se tornou uma questão de sobrevivência. Tem gente que não liga, que põe a máscara, sente aquele “gás mortal” entrando de volta pelas narinas e em 5 minutos já não sente mais… e segue pela vida, bafejando e sendo bafejado.

Cubro a boca e o nariz porque me mandaram cobrir. Não me convenceram totalmente de que é realmente necessário, mas faço em respeito ao meu vizinho, meus semelhantes. Isso teve o saudável efeito colateral de me informar que (e quando) estou bafudo. Dia desses me peguei em oração – “cuida da alma que o corpo já era“… Que bafo! E tratei de caçar o enxágue bucal. Aline, a patroa, não gosta de criticar o bafo alheio, mas eu peço pra ela fazer um certo controle de qualidade. Ela faz sob protesto, mas faz. De vez em quando ela fala “tá com um pouquinho de bafo” – e eu sei que estou matando urubu em pleno voo – ou estaria, não fosse a máscara.

Já a chatura, essa não tem muito jeito. Não tem uma máscara de cobrir a cara que tenha o condão de fazer a chatura voltar na nossa cara. Quem dera! Seria um aliado fantástico pra não perder amigos, negócios ou se envolver em discussões tolas. Outro dia, eu e o filho de um grande amigo expulsamos da sala de jantar o resto dos convivas, só pelo caminho que certa discussão pegou. Era “papo cabeça”. Chatura na veia! O bafo da nossa chatura afastou o povo. Não demos a mínima – como todo chato que se preza – estávamos curtindo o bafo um do outro, e nem ligamos pra quem se afastou. Coisa de chato profissional.

Estou certo de que a Covid, então, teve esse efeito colateral positivo – a redução do bafo (acho que reduziu-se o bafo percebido, claro, mas certamente o “real” também). Tem gente que nunca se importou com o próprio bafo, já que não a incomodava, mas deve estar roxa de vergonha agora, ao lembrar de momentos de cochichos e conversas próximas que de repente afastavam o outro… Só restava um fingimento do tipo “ora veja você!“… “não diga!” e um menear de cabeça pra trás, pra longe do jato de vento fedorento diante de nós.

Peço a Deus por uma Covid da alma – entendam-me – não quero um vírus pra alma (tem gente que é literal e não interpreta texto muito bem…): falo de algo que devolva na nossa cara o odor fétido da nossa chatice – aliás, chatice, chatura, chateza, chateação… leiam como quiserem (não sejam chatos vocês também!). Quisera eu receber na cara uma lambada de chatice fedorenta de volta, cada vez que começasse a chatear o alheio.

Chato assumido que sou, embora com a melhor das intenções, descobri que um bom disfarce pra chatura é o humor. Você disfarça sua vontade de jogar indiscriminadamente pros outros suas ideias, exatamente como o chato. Mas sob forma de humor se torna um pouco mais palatável (ou cheirável). Humor é o Listerine do chato.

Frases

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Frases são pílulas. Poucas palavras, bem arrumadinhas, mais ou menos pensadas, podem ter um impacto devastador ou abençoador. Frases contém em poucas palavras muitos conceitos, que podem destruir ou construir.

O problema com as frases é que elas são pequenas, compactas e potentes como uma injeção intravenosa, ou uma pílula potente. Podem matar ou curar. Frases são o recurso tanto do pensador, sábio, ou do incendiário, destruidor. Mas frases nunca são o recurso do “morno”, do cara do meio da fila, do mais ou menos. Frases nos levam a “completar as lacunas” com nossas próprias ideias, de onde quer que elas venham.

Uma frase é um gancho. Nos dá “pêga” como se dizia antes da reforma ortográfica (Sic!) e nos leva numa ou noutra direção. Frases são anzóis, que nos fisgam, ou não, como diria Caetano…

Frases Sabedoria

Algumas frases contém muita sabedoria em poucas palavras ou linhas:

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. ”

Paulo, o Apóstolo, em I Coríntios 13:1

Frases de sabedoria teriam mesmo que começar com uma citação da bíblia. Esta é uma daquelas frases que ninguém, de qualquer religião (ou até sem ela), cultura ou língua poderia dizer que não é preciosa, se é que a pessoa tenha algo de moral e razão na cabeça. Essa é daquelas que marcam e que servem a tantos momentos, e nos ajudam e dão norte na vida. Ter amor é fundamental, e com amor é possível extrair significado da vida.

Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade.

Os “Pais Fundadores” no Preâmbulo da Declaração de Independência dos EUA

Apesar de haver um grande movimento contra a base mesma do pensamento que ordenou e conduziu a Revolução Americana, não dá para não se embasbacar com conceitos como por exemplo, o direito à busca da felicidade.

Quem faz errado, faz duas vezes…”

Armindo Constantino Montechiari, meu avô materno

“Seu Careca” como era chamado, tinha pouquíssima educação e lia muito porque lia a Bíblia sempre. Quase que exclusivamente Ela. Essa sua citação persegue a nós, nesta família Montechiari, de uma forma terrível. Sempre é a mesma coisa: fazemos algo “provisório” ou “matado” ou com preguiça, apenas e tão somente para nos deparar com a cara rosada do Velho Careca a nos dizer “eu te disse… quem faz errado…”…

Frases Nonsense

Existem frases que não significam nada, ou muito pouco. Algumas delas são clássicos que estão no imaginário popular como “pérolas de sabedoria”. Vou citar somente uma, sabendo que vou apanhar bastante por citá-la, por ser a predileta de muita gente. Essa frase voltou à tona no Facebook recentemente:

“Você se torna eternamente responsável por aquilo que cativou”

Antoine de Saint-Éxupery in Pequeno Príncipe

Não sei se vocês são como eu, que paro e penso no que raios algo realmente significa. Essa frase me chama atenção por não me dizer muita coisa do ponto de vista prático. Eu sempre fico de frente pra essas frases-esfinge (decifra-me eu te devoro) e me pergunto – o que o cara quis dizer com isso? Ora, sim. Por que eu me torno responsável? Que tipo de “cativeiro” eu provoquei? Uma amizade imorredoura? Se sim, por que me tornei responsável pelo bem estar ou qualquer outro aspecto da vida de alguém que desejou, voluntariamente, ser meu amigo para sempre?

Tenho pessoas que se dizem meus melhores amigos. Algumas dizem isso há anos e acredito piamente. Outras disseram isso enquanto estavam tirando o máximo de proveito de minha amizade – a que dediquei a ela – e rapando o tacho das coisas que podia obter de mim, em nome dessa amizade. Então alguém me responda, de forma cabal: o QUE o estimado Pètit-Prince quis dizer. Estou escravizado por alguém ter se escravizado (cativado) a mim? Não sei.

Este tipo de frase é bastante difundida, e soa bem. Às vezes só isso. Mas estou aberto a ser introduzido aos augustos mistérios de frases similares.

Frases Veneno

Existem frases, contudo, que são como pílulas de veneno. Quem reconhece o veneno fica possesso de raiva, sabendo que muitos engolirão as frases sem fazer qualquer análise crítica delas. Alguns exemplos vão parecer chocar ou querer parecer politicamente carregadas, mas tentarei não ser tão abertamente conservador (o que sou).

“Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”

Paulo Freire – Aqui uma frase muito cara ao coração de professores, principalmente de esquerda. Qual é a relação entre o aprendizado (neste caso, em idade tenra) do bê-a-bá com o contexto social, o lucro com a uva, ou se Eva só viu a uva ou se vendeu a uva? Que razão existe por trás dessa frase sem sentido algum, exceto o estímulo a que o educador fuja de seu compromisso básico com o bê-a-bá, em si uma tarefa coberta de honra e de glória, para dedicar-se a encher a cabeça dos pequenos com considerações que deveriam ser feitas para pessoas com condições de percebê-las?

Frases Piada

Ainda outras frases parecem piada, mas têm um fundo de verdade extraordinário. Essas são tantas e tão legais que não tem como não citar umas duas.

“De onde menos se espera… é de onde não sai nada, mesmo”

Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”.

O genial jornalista e escritor me sai com essa aí. O genial é que é absolutamente correta, na maioria das vezes: pode ter certeza. Olhou para uma coisa e acha que não vale um tostão furado, normalmente não vale mesmo… É válida para “intelectuais”, para alguns cientistas, mas aplica-se com maior validade a políticos e juízes…

A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todos os lados, diagnosticá-los incorretamente e aplicar as piores soluções.

Groucho Marx

Taí um que eu admiro! Igual a esse ainda vai demorar a nascer. Groucho era um gênio por encapsular em poucas palavras o que achamos, e ser muito correto sobre o tema. No caso acima, de fato ninguém como um político para achar problema onde não existe, diagnosticar incorretamente e aplicar as piores soluções possíveis! É incrível como passam o dia “devarde” (como dizem os paranaenses) caçando um problema que não existe pra dar uma solução que ninguém quer, que não resolve nada e que vai certamente tornar a vida do cidadão pior, mais penosa ou mais cara.

Em síntese, frases, essas pílulas, são venenos, sabedoria, ironia, idiotice ou gargalhada enlatada para consumo rápido. A cultura dos memes de hoje em dia criou uma situação em que quase qualquer um é um frasista, e o resultado é uma diarreia de conceitos mal usados, e uma prisão de ventre de ideias verdadeiras…

Fico com o humor…

Kaos e Controle

Maxwell Smart | Get Smart Wiki | Fandom
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Quem tem pelo menos 45 anos lembra bem da figura acima. É o trapalhão Maxwell Smart, do “Agente 86” (em inglês “Get Smart” ou “Fique esperto”). Steve Carell fez um bom trabalho no filme “remake” do pastelão dos anos 60 e 70. Trata-se de um cretino sortudo que por sabe-se lá que meios, se tornou agente de uma rede de espionagem americana à lá Cia, chamada “C.O.N.T.R.O.L.”. Era o auge da guerra fria, e a TV americana fazia piada com a situação. Do outro lado do “Controle” estava a organização (provavelmente da então Alemanha Oriental) chamada “K.A.O.S.”. Outro panaca, o agente Siegfried “Sig”, com planos mirabolantes para destruir o ocidente e implantar um regime ditatorial baseado no “Kaos”.

A quem não viu, recomendo ver, porque é um microcosmo satírico de algo que estamos prestes a viver de novo – talvez não tão engraçado. Estamos diante do ressurgimento de uma contraposição cada vez mais forte do Caos ao Controle.

Tudo está sendo feito no sentido de, desta vez, colocar os espiões não como “invasores” dentro do Ocidente, mas ter aqui gente nascida e criada debaixo da liberdade e padrão de vida ocidental, somente que fervorosos e fieis adeptos de uma ideologia que não conhecem bem mas que nós sabemos o que quer e no que vai dar. As Venezuelas, Cubas e Coreias do Norte da vida não são suficientes para desencorajar esse “amor” por esta causa que está cada dia mais próxima de nós e mais “raivosa”.

Os autores da série de TV tiveram sacadas ótimas com os nomes, pois é disso mesmo que se tratava antes, e se trata agora – Criar o K.A.O.S. a fim de assumir o C.O.N.T.R.O.L…, e do lado do ocidente, manter o C.O.N.T.R.O.L…a fim de evitar o K.A.O.S.. A coisa tá de volta com força total… só que em vez de governos atrás da Cortina de Ferro, temos agentes do K.A.O.S. infiltrados entre nós, trabalhando dia a dia por um caos que lhes beneficie, em última análise. Tudo isso travestido de “amor” e “carinho” pelo ser humano.

Até a palavra Controle assumiu significados novos. No meu tempo moleque, os pais lutavam pra que a gente fosse independente e assumisse o Controle, pra não cair no Caos. Isso significava pôr ordem sobre a própria vida e a busca incessante por fazer o que é certo. Arrumar a cama todo dia e pagar as contas em dia e assumir responsabilidades pelos seus – pais e filhos. Hoje, Controle é palavrão, em muitos meios.

Max Smart tinha um telefone no sapato, um celular fora de época, muito eficiente – mas tinha que tirar do pé, e depois recolocar. Um K.A.O.S.. no Controle. Era uma piada, mas é o que às vezes queremos fazer. Criamos uma situação complicada pra resolver um problema mais simples do que a solução mesma. Hoje fazemos o mesmo: soluções que políticos dão às coisas parecem um celular no sapato. Até funciona – se você estiver disposto a baixar, tirar o sapato, virar uma chave no salto, colocar o ouvido na sola, discar, depois recolocar tudo no lugar e ainda ter que cheirar o próprio chulé.

Fazem parte desse tipo de solução a taxação das grandes fortunas, a CLT, o emaranhado tributário atual, as saidinhas de fim de ano pra presidiários, as ações dos partidos junto ao STF, e mais um caminhão de leis tão bem intencionadas quanto o sapato-telefone do Agente 86. E nós cheirando chulé para falar.

Além das soluções tipo “sapato-telefone”, tem o Caos que é criado propositalmente para dar a falsa sensação de que o “Grande Irmão – Governo” está cuidando de todos. São as soluções que cabem numa frase curta e apelativa, mas cujos resultados são espantosamente ruins e de difícil explicação. Cada frase do tipo “meu corpo, minhas regras“, “viva a redistribuição de renda“, “por uma política de quotas para negros, gays, mulheres, etc“, entre outras, contêm venenos terríveis, de efeitos nocivos, mas não imediatos, sobre a vida de todos nós. Só que pra rebater cada uma dessas frases com racionalidade, gastamos tanto tempo que perdemos a atenção do interlocutor, que prefere a solução simples da frase feita.

Segundo os agentes do K.A.O.S., Controle é ruim, pois que ele no fundo emana de cada um de nós. É o conjunto de nossos controles individuais diários, nas pequenas ações, e é da nossa independência intelectual, financeira e moral que obtemos o Controle que nos leva a precisar menos e menos da burocracia estatal. Não queremos e não devemos nos submeter a governo algum, exceto no sentido de que o governo deva ser empregado e não patrão de todos nós.

Eu quero Controle. Deixe o K.A.O.S. pro Sig…

Marca na testa?…

Lords of Chaos' film tells origins of Norwegian black metal, Evangelical  Focus
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João de Deus trabalhava de contínuo numa redação de um desses jornais de bairro. Era um bairro bonzinho, classe B, numa São Paulo envergonhada de seus bairros bonzinhos, já que bom mesmo era ser abaixo da média… Mais correto, politicamente, menos visado por meliantes públicos, enfim, distante daquele quase já longínquo 2020, de triste memória, ele se recordava como as coisas começaram a ir mal.

João de Deus pede desculpa ao chefe e vai na esquina tomar um café (redução de custos… nem cafezinho mais tem). Leva a máscara, claro, pois que já tinha calo suficiente atrás das orelhas pra aguentar o dia todo respirando o próprio mau hálito. Lá encontra os de sempre, aqueles flagelados do novo normal, sujeitos broncos, brabos pra caramba com o governo, qualquer governo, mas já sem coragem pra falar o que pensam. Afinal, 4 anos depois da Covid-19, já não era possível sair às ruas sem máscara, sem um frasco de álcool gel em lugar visível e sem a caderneta de vacinação.

Depois da mixórdia da Covid-19, tudo continuara com a polêmica da vacinação obrigatória, que alguns julgavam impossível de ser praticada – afinal, o sujeito se esconde, finge, não toma, e no fim das contas, causa uma tragédia, já que contamina 2, 4, mil, e fica por isso mesmo. Questão de saúde pública… Força bruta justificada!

O ex-presidente, agora execrado por seus “mal-feitos”, substituído por um popular governador, está preso à sua casa no litoral do RJ, desconsolado por ter sido, segundo ele, vítima de um golpe palaciano. Sem entrar no que o ex-presidente fez de bom ou ruim, o fato é que o cara pirou depois de ser basicamente desautorizado a tomar qualquer atitude, pela justiça e depois ser cobrado por tudo o que deu de errado durante a Covid-19. Acabou como o grande culpado de tudo. O governador, e sua vacina importada, haviam vencido tanto a luta com o executivo federal quanto a batalha pela vacinação obrigatória. Não se sabe bem se a vacina funcionou mesmo, ou se foi só o resultado da baixa mortalidade daquele virus… mas ok, tá valendo. Venceu também a caderneta de vacinação virtual, um App no celular, www.vacinaobrigatoria.gov.br, que indica se o portador estava ou não vacinado. Isso lá nos idos de 2021.

Sem a tal caderneta atualizada o sujeito já não pode ir a lado algum. Está trancafiado e tem que pedir a parentes e amigos pra comprar comida e pagar suas contas, já que não pode sequer pedir nada por telefone ou internet. Está segregado enquanto não se conformar ao novo normal.

Um sujeito política e religiosamente apático, a despeito do nome, João de Deus, encostado no balcão do bar, toma seu cafezinho e discute com o Mário (que Mário – êta piada velha de sempre…) dono do local:

“Escuta, você já foi se vacinar esse ano?”, pergunta o Mário…

“Não ainda, mas vou logo porque tenho que fazer compra de mês com a patroa. Sabe como é que é… se não for logo, a inflação come o valor todo, e nem com PIX eu consigo transferir grana a tempo pra pagar o arroz-com-feijão. Tá cada vez mais difícil”, responde João de Deus.

Ao que Mário responde – “Aqueles meus amigos católicos da Opus Dei, e meus primos batistas decidiram não se vacinar. Agora não tem mais como nem entrar num supermercado. Continuam enchendo meu saco pra tentar comprar as coisas pra eles. Paguei uma conta de luz ontem pro Zé Ernesto e agora quero ver como é que vou fazer pra receber, já que o cara nem emprego mais tem. Foi demitido depois que o pessoal do telemarketing que ele trabalhava há anos descobriu que ele não tinha caderneta, e ainda por cima vivia dizendo ‘graças a Deus’ pra cima e pra baixo”…

“Pois é. O Corona desse ano, aliás, parece que tá pior que o de 2022. O do ano pasado nem foi tão ruim, porque com o novo desinfetante à base de suco de creolina deu super certo. Tudo cientificamente testado e aprovado”, completa João de Deus.

“Os meus parentes vivem dizendo que existe perseguição contra cristão… não vejo nada disso. Só que limitar o número de pessoas nos templos a 15% da capacidade é questão de saúde pública. Estamos há 4 anos no novo normal, e cada ano, parece perseguição, uma nova cepa de Covid aparece… quando não é da China é da Coréia, ou do Vietnã… Quando não é Covid é ameaça de Ebola… Virou uma festa isso aí… Falar nos meus primos crentes, você acha que essa tal de cristofobia existe?”

“Existe nada, Mário. Essa gente quer ser melhor do que os outros. Ficam falando – ‘ah… mas em avião todo mundo fica espremido’… ‘ah… mas em cinema pode até 75%, em supermercado pode 80%…’… mas dá pra entender, né? Temos que comer, e nos divertir um pouco, senão ficamos doidos. Pior ainda é ficar falando pra todo mundo o que crê. Uns chatos… parecem esses carolas que batem de porta em porta…”, diz João de Deus.

“Eu te digo que já nem sem bem… às vezes tenho saudades da missa… da cantoria… era bonito… Fui nuns cultos dos batistas, também gostei muito… animadinho… O caso é que ficam criando caso porque queimaram mais uma igreja, desta vez no meio de uma praçona grande, na Cidade do México, eu acho… Tinha uns 500 anos a igrejona… Achei triste, mas fazer o quê”…

Ao que retruca João de Deus – “olha, acho isso ruim. Afinal é patrimônio histórico, né? Tem que preservar sim… pode até tirar da igreja e dar pro governo tocar, mas era importante manter lá pra lembrar como é que era antes. O que eu sei é que pelo menos nas Mesquitas ninguém tocou em nenhuma até agora. Pelo menos por alguma religião ainda tem respeito… Tá vendo? Não é que o povo tenha cisma com religião. É que os crentes, os católicos, são tudo meio chatos mesmo… ficam querendo dizer pra gente o que é certo e o que é errado.”

“Mudando de saco pra mala, você acha que as aulas presenciais voltam ainda em 2024?”, pergunta Mário.

“Sei não. Ainda é perigo, né? Cada ano um troço diferente… melhor manter todo mundo em casa, estudando no computador… E no final a molecada gosta, porque eles passam todo ano. Ninguém repete. É bom pra auto-estima deles…”

Se despedem com uma cotovelada, porque ninguém é bobo de se expor… Vai que pegam a Covid-23…

Nota do Autor – Obviamente o texto acima é uma hipérbole e nunca… nunquinha mesmo que o governo teria a capacidade de criar uma Covid-19 atrás da outra… Mas já um outro tipo de calamidade… sei não… E dá-lhe queimar igrejas mundo afora…

Abelha da Babilônia

https://babylonbee.com/

Eu adoro sátiras… adoro humor. Mas nesses dias atuais, onde o nível de compreensão da linguagem escrita cai vertiginosamente, a percepção da ironia e do humor fino está se perdendo, por duas razões: de um lado, é difícil fazer as pessoas lerem e perceberem ironias (e essa é a essência delas); por outro lado, é difícil entender se alguém quis ser irônico ou não, nos dias atuais, por absoluta falta da mesma coisa – capacidade de sê-lo. Viva a modernidade…

Um dos sites que curto muito é o “Babylon Bee” (título desse artigo). A descrição do site já é engraçadíssima, por si só:

“O que é O Babylon Bee?

O Babylon Bee é o maior site de sátiras do mundo, totalmente inerrante em todas as suas verídicas afirmações. Nós escrevemos sátiras, coisas de político e coisas do cotidiano.

O Babylon Bee foi criado ex nihilo (do nada) no oitavo dia da semana da criação, exatamente 6 mil anos atrás. Temos sido a primeira fonte de notícia em qualquer dos maiores eventos da humanidade, da Torre de Babel ao Êxodo até a Reforma e à Guerra de 1812. Nosso foco são os fatos, só eles, deixando as fake news e distorções de fatos para outros sites de notícias, como a CNN e a Fox News. Se você tiver alguma reclamação sobre algo no site, leve-a pra Deus. Ao contrário de outros sites de humor, tudo o que nós postamos é 100% verificado por Snopes.com.”

Mais legal ainda, o site possui uns posts que chamam de “Not the Bee”, em que falam que “isso pode parecer uma sátira, mas não fomos nós que inventamos”… Em alusão a algumas falas de políticos e outros personagens, que constantemente (quem lembra do Dilmês?) nos brindam com saudações à mandioca, estocagem de vento, etc.

O ridículo chega ao ápice quando alguém usa o site Babylon Bee como “fonte de informação”. É como um político aqui usar o site do Casseta & Planeta para mencionar uma manchete sobre o aumento de queimadas na Amazônia. Acontece volta e meia. Por incrível que pareça, não é só o internauta médio que tuíta e retuíta coisa sem pé nem cabeça.

Convido quem quiser e conhecer inglês (hoje os sites são traduzidos, em sua maioria, mas as ironias ali são tão específicas que a tradução às vezes sai incompreensível) a visitar o site e se deliciar com as brincadeiras.

Ah, super importante – o site tem fundamentação cristã-evangélica, ou seja, você vai ouvir e ler um monte de referências, muitas vezes nada elogiosas, a gente como o pastor Joel Osteen (um tipo de Valdomiro Chapéu dos EUA, que prega teologia da prosperidade) e outras figuras de proa do meio cristão norte-americano. Os mais puristas vão ficar às vezes meio chateados, por verem alguns “ícones” sofrerem gozações. Não esmoreça, continue a ler. Eu custei a entender e desconsiderar os palavrões do Apóstolo Arnaldo para poder dar risada com o fato de que ele, com razão, diz que “não faz brincadeira com Deus; faz brincadeira com quem faz brincadeira com Deus”, o que é verdade.

Curta com coração leve, porque é muito divertido. Quem dera tivéssemos uma versão A Abelha da Babilônia no Brasil, que cristãos de todos os matizes pudessem contribuir para a risada de qualidade, aquela que Deus aprova e ri junto… Nosso povo merece rir com qualidade!