Opiniões

O Idiota em mim, e em você

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Se sentir um completo idiota é uma coisa que deve, na minha opinião, ocorrer com cada um de nós pelo menos uma vez por dia, senão mais. Não que eu queira, ou que algum de nós queira ser um idiota, ter cometido uma idiotice ou faça algo com consequências graves, ou não, de sua inépcia, insensatez ou idiotice mesmo. Tenho o dever de me sentir idiota, para que não seja sem saber.

Mas o fato é que reconhecer que fez algo idiota já é algo bom. Pelo menos a gente está ligada no que faz, acha que poderia ter feito melhor, ou reconhece quando algo não está à altura do que é preciso ser feito. É uma sensação horrível, de incompetência, mas ao mesmo tempo libertadora, pensando bem, por pelo menos eu saber que entendo o que fiz errado.

Adoro atribuir ao Apóstolo Paulo uma frase que ele nunca disse (pelo menos que eu saiba) mas que tem toda a cara dele:

Bem aventurado aquele que sabe aquilo que ignora

Apócrifo

Como é bom olhar algo e ter certeza absoluta de não saber nada, zero, a respeito. Eu estou em busca de expandir o limite da minha ignorância (ou melhor dito, daquilo que conheço), a fim de ignorar cada vez menos. Mas é muito difícil.

Nelson Rodrigues dizia com muita propriedade que

Os idiotas vão tomar conta do mundonão pela capacidademas pela quantidadeEles são muitos.

Nelson Rodrigues

Somos mesmo muitos…

Mas a razão de eu falar de tanta “idiotice” é menos filosófica e mais prática. Existem várias “bolhas”, como se diz por aí. Fala-se muito em “fazer algo repercutir fora da bolha”, e coisas parecidas. Eu costumava não me achar encerrado em em nenhuma delas. Mas francamente, já não sei não. E falo da bolha política, mas também da bolha dos costumes, do politicamente correto/incorreto e todas as outras, que os tempos de Mídias Sociais parece que reforçaram. Eu começo a achar que eu talvez esteja olhando o mundo com óculos errados. Afinal, amigos meus, grandes amigos, deram de ralhar comigo, à vera, por conta de certas posições minhas. Não são necessariamente posições políticas, mas são posições que tem um profundo impacto no que eu penso ser o meu modo de viver ideal.

Já escrevi várias vezes que me identifico como um conservador, cristão e que tento ser racional. Por isso, assuntos como a liberdade de cátedra, a inviolabilidade do direito de opinião, e o caráter absolutamente iconoclasta da ciência tendem a ter muito eco no que eu penso e faço. Assuntos que eu julgava que não mereceriam mais do que um olhar superficial, como por exemplo, a realização ou não de um campeonato de futebol de 30 dias, com sei lá, 16 seleções, sem público, todo mundo testado pra Covid, estão gerando tanto problema que eu chego a me encolher diante de opiniões de amigos que eu julgo inteligentes e sábios.

Outra feita, é uma tal CPI da Covid, que eu não entendo como é que alguém em sã consciência pode dar a mínima credibilidade, ganha tanto espaço e é considerada tão fundamental pra sociedade, neste momento de pânico e suspense: como uma comissão que é presidida e relatada por dois sujeitos desqualificados, moral e legalmente, pode ser levada adiante sob holofotes do Brasil e do mundo, sem qualquer questionamento.

Devo estar priorizando somente um lado da opinião, e isso não gosto de fazer. Deve haver, então, algo errado, e é COMIGO. Afinal, gente que considero muito melhor do que eu enxerga razoabilidade nisso tudo. Desde discutir por conta da tal Copa como assistir uma CPI como se fosse um seriado da NetFlix.

Desde o início desse processo de pandemia eu tenho pensado em muitas coisas que em outros tempos não teriam qualquer repercussão, como o uso ou não desse ou daquele comprimido disso ou daquilo, do tempo que o comércio deve ficar aberto ou fechado, do tanto de transporte coletivo que temos que ter, do atraso de dias, ou meses (dependendo da fonte) para obtenção de vacinas… Tudo o que tenho visto parece formar parte de uma curva de aprendizado sobre algo que nenhum de nós têm a menor experiência, e cujos erros certamente foram cometidos. São patentes, mas não são mais do que isso mesmo – erros, inadequações, idiotices. É o Galípoli, do mesmo Churchill que nos salvou da ameaça nazi-fascista, anos depois. É a tragédia de uma situação que ninguém poderia dizer-se preparado para enfrentar.

Meus amigos, que realmente (não é ironia) são melhores e mais sábios do que eu fazem coro com boa parte da população que bate sem parar no governo (vou fazer aqui a ressalva de sempre – votei e votaria de novo em Bolsonaro em 2018, mas não voto nele se houver alternativa conservadora minimamente capaz de vencer uma eleição).

Um dos meus esportes preferidos é dividir problemas em partes e tentar raciocinar sobre cada uma das partes. Coisa de gente limitada – como eu tenho dificuldade com variáveis múltiplas, busco isolar cada uma e resolvê-las separadamente, e tentar assim chegar a uma conclusão sobre o todo. É isso que tenho tentado fazer ao longo da vida, com algum nível de sucesso.

Mas estou apavorado comigo mesmo. Não sei se estou numa bolha tão, mas tão fechada, que não consigo enxergar algumas coisas que outros veem por óbvio. Eu realmente não consigo “fechar questão” sobre alguns assuntos que uns têm por certo. Eu não consigo achar defeito grave numa economia que conseguiu cair, com Covid e tudo, menos do que entre 2013 e 2014, sem nada, exceto o fato de termos tido um péssimo governo.

Além de tudo isso, tenho uma visão de que no final das contas, o mercado consegue, com seus milhares de interações diárias, de milhares de cabeças pensantes, indicar o que realmente está acontecendo, quando as câmeras e microfones são desligados e os políticos voltam pros seus sepulcros caiados.

Enfim, terminando, outra citação de Nelson Rodrigues, que pretendo manter na mente, justamente por tudo o que já escrevi acima:

Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.

Nelson Rodrigues

Acelerados demais

man holding handbag
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Me pego volta e meia me mandando respirar fundo e desacelerar. O fato é que minha agenda não ajuda nem um pouco, muito menos a pressão de produzir resultados bons, confiáveis, revisados e rápidos. Ter tudo isso junto, numa entrega só, é quase impossível. O resultado são noites em que parece impossível desligar.

Sinto isso muito mais intensamente quando faço a atividade que costumava ser prazerosa, de ler a Bíblia, meditar no que me está sendo dito por este Livro, e internalizar conceitos que farão toda a diferença na minha caminhada diária. Cada dia está mais difícil ser profundo. Cada dia mais fácil a mente vagar.

Escrever se torna uma forma de dar ordem aos meus pensamentos, pois que se não fizer isso, nada bom sai pro papel virtual. Qualquer um pode notar perfeitamente quando estou mais ou menos focado e relaxado – é só ler minhas crônicas e artigos e comparar. Verão quantas vezes eu pulo de galho em galho, de aspecto em aspecto, sem conectar os pontos. Pra mim, está tudo tão claro, que eu assumo, presumo, que o leitor eventual vá achar que está claro para si também. Isso raramente acontece.

Na mesa, já não tenho paciência sequer de dizer com clareza: “me passe o saleiro?”, me limitando a apontar na direção geral do objeto e grunhir qualquer coisa, esperando que os filhos ou a esposa vão entender por milagre o que estou querendo.

Que vida! Que pressa, que aceleração iníqua! E que tempo perdido, paradoxalmente, com tanta pressa!

O velho Armindo Constantino Montechiari, o velho “Nonno”, costumava dizer que “quem faz errado, faz duas vezes” (ao que acrescento – ou mais do que duas vezes). E obviamente estava certo, e está, até hoje. Costumo refazer raciocínios, irritar as pessoas quando estou acelerado demais, e não passar mensagem que presta. Não é saber ou não saber o que dizer: é atropelar o que falo e com isso deixar todo mundo na mão, sem saber o que quero transmitir. Por isso escrevo. Se tornou mais fácil.

Em um grupo de amigos profissionais, espera-se que eu dê não minha opinião, mas exemplos meus, próprios, que possam ajudar a pessoa a chegar às suas próprias conclusões, sem que eu tenha que “informar” algo. Ocorre que quando se está acelerado, quando se está vivendo dois segundos por segundo, o estrago é fácil de prever – a cara de bobo de pessoas que acham que você deve ser inteligente demais, afinal falou algo que ninguém entendeu (penso eu) ou então o contrário – o que é que este cretino quis dizer com esse amontoado de bobagens? O grupo se frusta comigo, eu me frustro comigo, porque não consigo passar as ideias uma palavra de cada vez.

Essa aceleração vai para o campo do relacionamento pessoal, e só desacelera nos finas de semana, quando uma caminhada melhor, a tranquilidade de uma boa música, uma mesa boa, da melhor cozinheira do mundo, Aline, e um vinho de qualidade nos fazem parar e pensar na vida. O domingo, com suas idas à Igreja, nos leva a sentar e ouvir o sermão com atenção e introspecção, lembrando daquilo que Deus quer falar pro nosso coração.

A alternativa que tem sido (meio que) imposto à nós é a da meditação que nos leva a “esvaziar a mente”. Eu não sou lá muito fã, porque ainda sou do tempo em que se dizia que mente vazia é oficina do diabo. Além disso, o Apóstolo Paulo falava que legal mesmo é “encher-nos do Espírito Santo”, ou seja, tirar o “excesso de nós mesmos” e dar lugar ao Espírito de Deus e suas palavras, sempre calmas e doces. Mas é uma dificuldade conseguir isso frequentemente.

Para não dizer que sou contra tudo o que é oriental, sinto que é muito proveitoso respirar fundo, prestar atenção na nossa respiração, e focar a cabeça num só ponto, um só pensamento. Isso me ajuda.

Se você, como eu, é acelerado mentalmente, e está sentindo que isso cobra um alto preço, solidarize-se comigo. Eu pretendo desacelerar, do falar ao pensar, do sentir ao comer, do respirar ao dormir. E fazer tudo com mais propósito.

Não quero deixar que o FaceBook ou o “ZapZap” ditem meu ritmo. Afinal, pressa continua a ser inimiga da perfeição!

A percepção que interessa

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Bovespa

No auge da crise do subprime, nos EUA, a bolsa brasileira oscilava entre índices Bovespa de 42 mil a 50 mil pontos. No início do primeiro governo Dilma, a Bovespa chegou a 70 e poucos mil pontos; já auge da crise “da Dilma”, em 2013 a 2015, o mesmo Bovespa mostrava uns 40 mil pontos, tendo chegado a meros 38 mil pontos, se a memória não falha. Na transição par ao governo Temer, o golpista, o ilegítimo, o Bovespa chegou a 97 mil pontos. Hoje, no auge da “crise da Covid”, da “crise Bolsonaro”, o mesmíssimo Bovespa demonstra 124 mil pontos.

O que é este Índice? Para quem não tem familiaridade, a Bovespa/B3, é a maior Bolsa da América Latina, e como tal, contém ativos financeiros (ações) das maiores empresas do país, algumas entre as maiores do mundo, como Vale, Petrobrás, WEG, Cemig, Telefónica, entre tantas outras.

É, portanto, a média ponderada da valorização (ou desvalorização) desses ativos, negociados livremente entre milhares de pessoas físicas e jurídicas, diariamente, de forma clara, transparente e sem interferências externas (há controvérsias, em alguns casos, mas as tentativas de manipular o mercado são normalmente coibidas pelo xerife do mercado, a Comissão de Valores Mobiliários, ou CVM).

Trata-se então, de uma representação numérica da vida econômica do país, em grande medida. Claro que não é um índice que mede confiança, nem performance econômica, mas certamente, num prazo mais longo, representa o grau de certeza ou incerteza dos agentes econômicos sobre nosso país.

O gráfico é publicado diariamente, e portanto ninguém pode dizer que não tem acesso, ou que as informações foram manipuladas:

Então vamos partir dos seguintes pressupostos:

  • Milhares de pessoas transacionam em Bolsas de Valores todo santo dia
  • Todas essas pessoas o fazem de boa fé, e de forma livre
  • As empresas nas quais investimos diariamente são empresas que estão inseridas no contexto nacional – para bem ou para o mal – dentro das regras tributárias, trabalhistas, de juros, de crescimento do PIB, etc
  • As empresas estão inseridas também num contexto internacional, sujeitas a chuvas e trovoadas como todo mundo.

Se tudo acima é verdade, então como é que em plena CPI da Covid, com todos os holofotes virados contra o executivo, com o STF agindo como executivo, o legislativo também tentando, por que a Bolsa sobe? O que essa miríade de gente pensa da vida, pra apostar as fichas em produção, lucro e perspectivas de valorização desses papéis?

A realidade

Existe um fator que precisa ser dito, a bem da verdade, e que ajudou em muito a decolagem da Bolsa – a queda dos juros. Com juros reais negativos, o brasileiro parece que “descobriu” o mercado de renda variável. Mas por que exatamente? O medo não seria razão suficiente para um refúgio seguro na poupança?

Que razão leva milhões de pessoas físicas, brasileiros de carne e osso, assalariados, a “aventurar-se” em Bolsas, sabendo que um dia se ganha, outro se perde?

A resposta parece estar no distanciamento cada vez maior entre o Brasil real e o Brasil Brasília, o Brasil Imprensa, o Brasil mídias sociais. O fato é que é difícil atribuir (eu não atribuo) essa subida das Bolsas ao governo Bolsonaro. Aliás, creio que se o chefe do executivo tivesse ficado calado 70% do tempo em que passou falando em microfones, talvez o Bovespa já estivesse em 150 mil pontos.

O fato, porém, é que o governo real, do país real, montado pelo dito ogro, está fazendo um bom trabalho, que começou com a difícil e necessária reforma da previdência, e agora parece continuar, aos trancos e barrancos, com a mais necessária ainda reforma administrativa.

Esta última, se feita adequadamente, pode ser a chave para a redução do tamanho “elefantal” (como diria o ex-ministro Magri) do estado, abrindo caminho para uma reforma tributária digna do nome – o que não é possível hoje, com o orçamento engessado e os déficits públicos crescentes.

E daí?

E daí que ações importantes, aqui e ali, como a facilitação da entrada de novos “players” no segmento bancário, com a ampliação do crédito e criação de toda uma nova classe de bancos, financeiras e FIDCs, somadas ao PIX, só citando um exemplo de medida disruptiva e que nos coloca na vanguarda mundial das transações bancárias (em transparência e velocidade), além do Agro, que já representa 40% do PIB e é um fator de equilíbrio e pujança, podemos dizer que, “tirante” as borbulhas da mídia, o Brasil que presta, o que paga as contas e coloca comida na mesa, está bem melhor do que se diz.

Listando pra facilitar as conclusões:

  • O Brasil vai melhor do que pintado pela mídia
  • O ogro é ruim, pessoalmente, mas fez um excelente trabalho em montar uma equipe dar liberdade suficiente para que esta fizesse um trabalho bom – levando em conta a crise atual, muito bom mesmo
  • A política pode até nos envolver, em campos opostos ou não, mas no final das contas, a soma de milhões de pequenas percepções sobre esta ou aquela empresa e sobre a economia em geral é que falam a verdade
  • A agricultura tem menos voz do que deveria, num país cada vez mais dependente dela
  • O Congresso e o STF deveriam se ater às suas funções, e só isso.
  • O mundo vai acabar sim, quando Jesus voltar (eu creio) mas até lá, o Brasil continuará, a despeito de ogros, cachaceiros e corruptos de todos os matizes.

O Malvado Favorito

BLOG CLEUBER CARLOS: Eduardo Cunha: Meu Malvado Favorito
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Assisti outro dia, do início ao fim (quando a barulhada do jogo de Banco Imobiliário entre esposa, filhos, nora e sobrinho permitiam) a entrevista do notório Eduardo Cunha, exclusiva à CNN, sobre a qual fiz alguns comentários pelo FaceBook enquanto assistia… É difícil resistir em comentar tamanha desfaçatez. O sujeito é mesmo o malvado favorito – aquele que a gente sabe que é um ladrão, corrupto, vagabundo, mas nos deu de presente como país, o mais justo ato político dos últimos anos, que foi o impeachment da presidanta Dilma Rousseff.

Para dar algum pano de fundo, o sujeito foi meu colega (não contemporâneo) na extinta Arthur Andersen auditores independentes, no RJ, nos idos de 1980. Meu BFF, Elias Cerqueira, o conheceu melhor, e poderia dar uma pequena aula sobre o caráter do cidadão (ou falta dele). Deixo isso a quem teve o prazer de conviver com o sujeito naquela época.

Inteligentíssimo, habilidoso com as palavras, extremamente metódico e sabendo exatamente o que quer e onde quer chegar, Cunha foi muito bem na tentativa tanto de sepultar a Lava Jato, o que é do seu maior interesse, como em não antagonizar com quem quer que seja que lhe poderia ser de interesse. Bater, mesmo, só bateu no Rodrigo Maia, que virou pano de chão político, nos últimos tempos, e Sérgio Moro, o que é compreensível.

Se disse também “anti-PT”, o que o levaria fatalmente a votar em Bolsonaro, caso este fosse para o 2o. turno da eleição de 2022, que anda em avançado estágio de campanha, informal, com todo mundo focado em derrubar a outra parte. Entendo que seja mesmo anti-PT, até porque é uma posição fácil. Só não dá pra ser anti-PT e anti-Lava Jato ao mesmo tempo, por via de nexo entre as coisas.

Livrou a cara de Lula, quando do processo na Lava Jato, dizendo que o mesmo teria sido condenado injustamente – a exemplo, claro, dele mesmo… Como defender-se significa defender Lula, não vê qualquer razão em não fazê-lo, a despeito da flagrante imbecilidade de tal posição.

A bem da verdade, meu malvado favorito, mesmo, é Roberto Jefferson. Este sim um cara que fez o que o Brasil precisava que fizesse, e nos livrou de mais uns 20 anos de PT no poder, denunciando o mensalão. Foi levado de roldão, pois recebeu um qualqué, também, para o PTB (diz ele). Santo, não é, mas foi útil acima da média dos políticos. Agora ressurge, ou tenta, como campeão de Bolsonaro, como se nada tivesse feito.

Malvados ou não, são gente muito articulada, inteligente e que sabe exatamente onde quer chegar. E não é para o bem de todos e felicidade geral da nação.

Estados Disfuncionais

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A Wikipedia tem um verbete enorme sobre o assunto dos “Estados Disfuncionais”. Chamo de Disfuncionais porque a tradução exata do inglês é “Estados Falidos” ou “Estados Falhos”, que não faz jus ao que realmente se chama de “Failed States”. Se tiver curiosidade, veja emhttps://en.wikipedia.org/wiki/Failed_state#:~:text=Examples%3A%20Syria%2C%20Somalia%2C%20Myanmar,the%20expense%20of%20other%20groups).

A definição, que é o conceito que interessa aqui, é a seguinte, numa tradução livre, minha, da versão em inglês do verbete:

Um estado falido é um corpo político que se desintegrou a tal ponto que as condições e responsabilidades básicas de um governo soberano não funcionam mais adequadamente … Um Estado também pode fracassar, se seu governo perder sua legitimidade, mesmo que esteja desempenhando suas funções de maneira adequada. Para um Estado estável, é necessário que o governo goze de eficácia e legitimidade. Da mesma forma, quando uma nação se enfraquece, e seu padrão de vida diminui, ela traz sobre si a possibilidade de um colapso governamental total. O “Fundo para a Paz” (ONU) caracteriza um estado falido como tendo as seguintes características:

O texto segue caracterizando o que faz um Estado um corpo Disfuncional:

  • Perda de controle de seu território ou do monopólio do uso legítimo da força física
  • Erosão da autoridade legítima para tomar decisões coletivas
  • Incapacidade de fornecer serviços públicos
  • Incapacidade de interagir com outros estados como membro pleno da comunidade internacional

Alguns países são classificados como em grupos de risco, variável, em relação ao seu grau de aproximação do ponto de ruptura, ou declínio do Estado até se transformar em Disfuncional. Figuras, ó Brasil, florão da América, em posição desconfortável, em péssima companhia, como segue a classificação atual

  • Países com aumento de conflitos de grupos comunitários (étnicos ou religiosos) – Síria, Somália, Mianmar, Chade, Iraque, Iêmen, República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Libéria, Iugoslávia, Líbano, Afeganistão, Sudão, Sudão do Sul.
  • Predação estatal (corrupção ou desvio de recursos às custas de outros grupos) – Nicarágua, Venezuela, Brasil, Filipinas, Croácia, Sudão, Sudão do Sul, Nigéria, Eritreia, Zimbábue, África do Sul, Coreia do Norte, Arábia Saudita, Rússia, Catar, Líbano.
  • Rebelião regional ou guerrilha – Líbia, Síria, Iraque, Afeganistão, Iêmen, Congo, Colômbia, Vietnã.
  • Colapso democrático (levando à guerra civil ou golpe de estado) -Libéria, Madagascar, Nepal.
  • Crise de sucessão ou reforma em estados autoritários – Indonésia (sob Suharto), Irã (sob o Xá Rheza Pahlevi), União Soviética (sob Gorbachev).

A lista deve ter já alguns anos, provavelmente se remetendo à época de governos de esquerda, no Brasil, ou antes da total derrocada do Estado nacional Venezuelano, sob Nicolás Maduro. Estar na incômoda posição de equivalente a uma Venezuela, Coreia do Norte ou Nicarágua certamente NÃO é legal. A lista é certamente pré-pandemia de Covid-19.

Importante é que percebamos o QUE nos leva a essa situação. Onde estamos hoje e que circunstâncias leva um país moderno, em termos de gestão (tecnologia aplicada), formação sócio-econômica (PIB per capita) e até mesmo educação (básica) a figurar como um Estado Falido ou Disfuncional?

Perda de controle de seu território ou do monopólio do uso legítimo da força física

O Brasil, não é de hoje, perdeu sua autoridade sobre parte dos seus territórios. O livro “O Império e os novos Bárbaros” (de Jean-Christofe Ruffin, de 1989) mostra com destaque como o Brasil perdeu parte de seus territórios para as milícias e grupos de crime organizado. O livro é excelente. Pena que a edição que tenho contenha um prefácio (bem plagiado, creio) de Collor de Mello…

Além da perda de controle de favelas e áreas semi-conflagradas no país, o Brasil possui outras áreas, significativas, de seu território que de fato não controla. As reservas indígenas, não por sua característica de proteção às etnias, mas pelo domínio exercido sobre elas por ONGs e nações estrangeiras, são território de novos bárbaros. As terras de garimpo no Norte são outro exemplo, facilmente verificado toda vez que vemos um carregamento de toneladas de ouro ser descoberto, contrabandeado, por algum cartelzinho ou facçãozinha, lá na França.

Já sobre o uso legítimo da força, o STF, com sua decisão de bloquear a atividade policial em favelas, criou pelo menos 2 anos de “trégua” aos “donos” dos morros, reforçando os Estados-dentro-do-Estado (ou a barbárie), sobre os quais não temos nenhum controle como sociedade.

Erosão da autoridade legítima para tomar decisões coletivas

A tomada de decisões coletivas é feita por consenso, numa sociedade funcional. Este consenso se chama Eleição, e suas ramificações chegam aos três poderes pela via do voto – a)do executivo, de forma direta e majoritária, dando ao eleito, em qualquer nível, direito de estabelecer sua política e diretrizes, vencedoras nas urnas; b)do legislativo, também de forma direta e proporcional, a fim de que os eleitos possam não somente fiscalizar o executivo como propor e votar o consenso das decisões, que, se cremos na qualidade do sistema de representação, implica necessariamente numa decisão coletiva; c)no judiciário, por vias indiretas, e não tão de consenso, porque alguns níveis do judiciário são escolhidos ao arbítrio do governante (STF, STJ). Mesmo assim, a maioria do judiciário pode-ser dizer ter sido escolhido por consenso, já que um concurso público foi a forma votada e aprovada por legisladores, para a formação do judiciário.

Onde esta faculdade está erodida no país? Quando o executivo perde sua capacidade de implantar as políticas vencedoras nas eleições, por interferência direta de outros poderes, por exemplo. Quando a câmara não pode tomar decisões saudáveis e independentes, por haver outro poder comprando ou dominando o processo, seja por pressão financeira seja por pressão derivada dos muitos rabos presos.

Incapacidade de fornecer serviços públicos

Seja nos ambientes controlados pela nova barbárie, seja em regiões tão remotas como os fundões da Amazônia legal, o fato é que o Estado brasileiro tem falhado em prover o mínimo, que faz de uma nação um país “de todos” e para todos.

Mas até aí vamos, sem tanta crítica, pois que houve inegável avanço, seja em alfabetização seja em moradia e renda mínima, principalmente entre os anos de 1960 e 1980. Os anos Lulla também mostraram, por vias controversas e com intenções inconfessas, que o boom das commodities do início dos anos 2000 foi suficiente para gerar tanto excedente que mesmo a pior pilotagem possível nos levou a um porto razoável. Os anos Dillma nos levaram ao caos gerado pela incapacidade de enxergar que o boom havia acabado, e os gastos públicos (e a dívida pública) tinha mais que duplicado, com os resultados inevitáveis que vimos.

Hoje, sabemos que só parcerias público-privadas ou a iniciativa privada, isoladamente, podem resolver problemas como saneamento e infraestrutura de transporte e energia, já que o Estado, sitiado e sobrecarregado por corporações, não faz grana nem pra pagar os cidadãos de primeira classe que lá residem.

Incapacidade de interagir com outros estados como membro pleno da comunidade internacional

Aqui também não temos muito do que nos orgulhar. O Anão Diplomático continua vivo e incólume, desde os tempos de Collor, passando por todos os governantes posteriores, sem exceção. Não vamos extrair da lista de “nanicos” os recentes governos Temer ou mesmo Bolsonaro. Aliás, este último protagonizou um nanismo que foi na contramão de tudo o que se tinha por pilar da diplomacia, desde Rio Branco – tomar partido, se aliar a governos de ocasião no exterior, em vez de se manter neutro e independente de rixas e eleições que não nos competem.

Resumão

Por pelo menos três das quatro razões acima, somos um Estado Disfuncional. Mas nada, absolutamente, se compara ao show de horrores protagonizado pela nossa Suprema corte.

Enquanto isso, os bárbaros (do PCC e Comando Vermelho aos partidos albergados sob togas do STF até os movimentos sem-isso e sem-aquilo, que criam áreas não alcançadas pelo Estado, passando pelas ONGs de interesses obscuros) tomam cada vez mais nacos importantes do nosso território, seja urbano seja rural.

Somos corretamente tachados de estado de “Predação Estatal”. Claro que há mais ilustres “cumpanhêru” que não estão listados ali, como a notória Argentina, que abriu mão de sua liberdade e reconvocou a esqueda de lá pra voltar ao poder e terminar de quebrar a nação irmã.

Somos predados pelo tal “mecanismo”, que, segundo li em algum lado, quer manter o estado sempre vivo, mas no limite da consciência, para que continue a ser sugado.

Deus tem mesmo que sarar nossa terra, como diz a Bíblia, pois que as chagas aumentam.

Eu sou, e o Agora

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Gosto de pensar sobre as Escrituras e em como, nas entrelinhas de suas histórias, há ensinos aplicáveis à vida. Ao ler sobre a queda da humanidade em Adão e Eva, fiquei a considerar a respeito de algumas questões existenciais.

Quando, no texto bíblico, a serpente tenta Eva, afirma que aquele que provasse do fruto da árvore seria como Deus, conhecendo o bem e o mal. Considero que o equívoco, a mentira, estava em que Adão e Eva já eram como Deus. Eles eram plenos, inteiros, Santos e em completa comunhão com Ele e entre si mesmos. Mas cederam ao engano e à ilusão de que havia uma falta e, ao mesmo tempo, uma má intenção oculta. Negaram o presente que é o Eu Sou, por um Eu Serei baseado em uma perspectiva de falta, insatisfação, desconfiança e medo.

Usando esta reflexão como uma metáfora, fico a considerar se esta não continua sendo a problemática que, ainda hoje, enfrentamos em relação ao ser e à maneira insatisfeita e ansiosa que vivemos? Pois ao negarmos o eu sou, numa busca contínua de ser como o outro, de sermos como os “deuses” em seus Olimpos de sucesso e poder, nos perdemos num turbilhão de exigências e cobranças; deixamos de enxergar o que é e quem somos, para buscarmos ser o que afirmam nos faltar.

Ao fixarmos nossa atenção ao mal desconhecido, à ausência do bem, despertamos para o medo e desconfiamos do amor. Em função disso, o mal se torna parte de quem somos, pois nossas ações e personalidade absorvem as estratégias defensivas diante de um mundo visto como mal e perigoso. Assim, perdemos as oportunidades que surgem em função do medo que nos orienta e, as escolhas benditas são desperdiçadas por nossa incapacidade de afirmarmos nossa identidade com o bem e o eu sou.

É prudente não sucumbir diante daqueles que afirmam a sua inferioridade e negam o seu ser. Afirme o seu valor e valorize suas habilidades. Sabemos que o mundo traz sua mazelas, mas não seja casa para nenhuma delas.

Riscos de Empreender num país louco

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Se não bastasse todo o apuro e dificuldades por que passa o empreendedor brasileiro, nesses ano e meio de Covid, a Justiça do Trabalho, a jabuticaba jurídica mundial, a maior destruidora de empregos do país, vem agora com uma linda pérola, para tornar a vida de quem dá emprego ainda mais complicada:

Um juiz do trabalho de Três Corações, MG (veja em https://portal.trt3.jus.br/internet/conheca-o-trt/comunicacao/noticias-juridicas/justica-do-trabalho-reconhece-morte-por-covid-19-como-acidente-de-trabalho-indenizacao-sera-de-r-200-mil) acaba de decretar que contaminação por Covid agora é responsabilidade do empregador.

Segundo Sua Excelência, “a adoção da teoria da responsabilização objetiva, no caso, é inteiramente pertinente, pois advém do dever de assumir o risco por eventuais infortúnios sofridos pelo empregado ao submetê-lo ao trabalho durante a pandemia do coronavírus.”…

Mais ainda – “Na visão do juiz, o motorista ficou suscetível à contaminação nas instalações sanitárias, muitas vezes precárias, existentes nos pontos de parada, nos pátios de carregamento dos colaboradores e clientes e, ainda, na sede ou filiais da empresa.

Na dúvida, puna-se a empresa pelos resultados da pandemia… o precedente pode acabar de quebrar desde a pastelaria da esquina até a Petrobrás, e dar ampla razão à turma do “Fique em Casa”, aqueles de colchão cheio de grana, geladeira abastecida e salário garantido no final do mês. Viu? Se tivesse fechado tudo e ficado em casa não teria sido contaminado… simples assim né?

Empresário neste país caminha a passos largos para ser uma raça em extinção, o que é, obviamente, o objetivo não confessado do socialismo a nós impingido pelos “de sempre” – tudo no estado, nada e ninguém fora dele (na verdade, fascismo é socialismo, pois a frase, ou parte dela, é de Mussolini).

O juiz entendeu que cabe à empresa “provar que deu todas as condições para que não houvesse contaminação”, e como não há – em caso algum – a possibilidade de alguém provar “negativamente” algo (desde a inexistência de Deus até a inexistência de culpa), manda o magistrado que a empresa se vire e pague R$ 200 mil para à viúva e à filha. Se a moda pega, todo mundo vai culpar empresas pelas mortes e mandar as empresas “provarem que não são culpadas”.

Inviabilizar um país, plantar discórdia e miséria, é o objetivo das facções importantes do país. Depois de inviabilizada a nação (os “Failed States” como dizem nos EUA), completa-se a revolução pela tomada do poder por uma minoria com armas e violência. Mas é fundamental plantar a miséria via confusão, caos. Para isso contribui uma multidão de inocentes úteis, gente que crê que está fazendo “o bem”, como militantes de todos os matizes, dentro e fora das cortes fazem dia a dia.

“Another brick in the Wall”, diria Roger Waters… e vamos que vamos nessa terra cada vez mais de ninguém.

O dilema que interessa

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Hoje, numa roda de grandes amigos no WhatsApp, falei uma frase que quero repetir, abaixo:

O ser humano, quanto mais bem sucedido, mais próximo está do caos.

Eu mesmo

Por que e em que contexto eu disse isso? Estávamos discutindo sobre uma recente matéria da revista Nature (https://www.nature.com/articles/s41467-021-22446-z) sobre o caráter inócuo da Hidroxicloroquina no tratamento de Covid-19 (o tema que não quer calar).

Eu, como bom negacionista que sou, argumentei com dois links de entidades igualmente respeitáveis, o Lancet (https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31180-6/fulltext) e o New England Journal of Medicine (https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMc2031780) as quais, respectivamente, se retratam (Dez de 2020) de um artigo com o mesmo teor da Nature de ontem, ou dão certa razão à mal/bendita HcQ.

Do lado de lá deste debate virtual algumas das melhores cabeças pensantes que conheço e partilho amizade. Gente difícil de convencer e de argumentar. Intelligence is a bitch!…

A frase, que adoraria ver celebrizada, veio de um pensamento que tive na hora que mencionei a frase recente de um prêmio Nobel de medicina, Richard J. Roberts:

Medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos por empresas farmacêuticas que, em troca, desenvolvem medicamentos “cronificadores” que sejam consumidos de forma serializada.

Richard J. Roberts, Nobel de Medicina

Somei as duas frases, e coloquei então de lado, na minha cabeça, toda a discussão sobre HcQ e Covid e pensei no paradoxo que me levou à frase inicial: Quanto mais bem sucedidos como espécie nos somos, mais perto estamos do caos, e da extinção.

Eu fico pensando no meu jardim aqui em casa, e do fato de que preciso podar sem piedade algumas plantas para que elas continuem viçosas e produtivas. A vida das plantas depende, de certa forma, delas não crescerem indefinidamente. Deixado à própria sorte, o jardim cresce até se matar.

Essa constatação vem de encontro ao que o Mr. Smith, o vilão de Matrix, disse ao Neo (personagem de Keanu Reeves): “os seres humanos são como um virus sobre a terra… se reproduzem até destruir tudo ao seu redor“.

Então estamos fadados, desde o Jardim do Éden (ou desde o paleolítico, como queiram) a nos auto destruir na exata medida em que a civilização progride? Será que teremos que receber “podas” rasas frequentes, como a Peste Negra, a Gripe Espanhola, ou as Grandes Guerras, a fim de nos mantermos viçosos num mundo finito?

Essa já foi a indagação de vários filmes e livros sobre Distopias. Ora é um mundo em que deve-se morrer aos 30 anos (Admirável Mundo Novo de Huxley), ora é um mundo em que somos confinados em “mônadas urbanas” (Mundos Fechados de Robert Silverberg).

O ser humano é (até onde podemos confirmar) o único ser “imagem e semelhança de Deus” (eu creio), no sentido em que somos sencientes, ou seja, pensamos de forma autônoma, e detemos livre arbítrio. Portanto, somos os primeiros seres vivos sobre o planeta a termos a oportunidade de não experimental o caos como resultado de um vigoroso crescimento, reduzindo ou eliminando guerras. Como?

O Japão nos dá uma lição e uma pista importante sobre este tipo de futuro. São uma nação que envelheceu em pouco tempo (de 1945 para cá) e hoje tem a primeira população francamente em declínio no planeta.

O declínio gerou uma população velha e incapaz de arcar com custos como seguridade social (que no modelo atual equivale a um esquema Ponzi – pirâmide – que só funciona se tiver mais gente na base do que no topo). Esse declínio gerou também gastos médicos muito mais altos do que o resto do mundo, e menos dinamismo na economia. O fato é que há 20 anos os Dekasseguis brasileiros eram odiados por lá, e hoje tolerados, por serem da mesma “raça” (com pedido antecipado de perdão aos mais sensíveis) do que eles e falaram algo do idioma.

O Japão nos mostra que controlar a natalidade não resolve a equação da sobrevivência com sucesso, ou resolve até determinado ponto. Os economistas e biólogos estimam em 2,1 filhos por mulher (Opa… seres humanos que menstruam) como ponto de estabilidade para a raça humana continuar indefinidamente no planeta, desde que aprenda a lidar com ele.

Antibióticos, nutrição, segurança e educação fizeram com que a população do mundo explodisse, consumindo recursos e colocando o planeta em risco, nós dentro dele. Como não temos outro planeta, a grita por medidas que não agridam ou meio ambiente aumentam também exponencialmente. Por outro lado, algumas das propostas para isso implicarão em fome (ainda existente, e muito), desemprego e instabilidade política e social. O “fique em casa” de hoje é apenas um ensaio de uma situação que pode vir a ocorrer, por outras razões, muitas vezes, num futuro próximo.

O problema é que as soluções aventadas nunca, ou quase nunca, passam por um processo democrático ou humano. São quase sempre impostas, e não infrequentemente, letais. Esquecem-se, também frequentemente os formuladores de soluções “de força” que o fator tecnologia e inteligência, além do fator bondade, amor e empatia devem ser levados em consideração. Tecnologia e inteligência salvaram o mundo pós guerra da miséria e da fome. Fatores como bondade e misericórdia, quando aliadas à tecnologia, costumam produzir milagres.

Estamos diante do impasse que propus na frase que abre o artigo. Que o impasse seja resolvido com bondade, misericórdia e tecnologia, e não com guerras, pestes e fome.

Cristão tem medo de Ciência?

Li um interessante artigo no excelente site Quillette (www.quillette.com), um artigo longo, textão mesmo, como são quase todos os artigos desse site, mas detalhado e muito bem escrito. Coisa fina. Vale ler.

O artigo está acima e mesmo quem não conhece inglês pode traduzir lá mesmo.

Lá o autor trata de uma “briga” de palentólogos em torno das chamadas “Primeiras Nações” ou “Primeiros Povos”. Arqueólogos escavaram numa região que vai do estado do Maine até Newfoundland (Terra Nova), no Canadá, fósseis datados de uns 10 mil anos atrás, que apresentam um povo mais desenvolvido do que povos nativos mais recentes, da região. O “suco do assunto é que os povos nativos americanos passaram a exigir que os paleontólogos e arqueólogos NÃO estudem esses povos, mas que enterrem de volta os achados arqueológicos, no que chamam de “restituição”.

Será que eles não querem saber sua origem? Não é assim. É que os achados apontam para o fato de que os povos que hoje se consideram vítimas dos Europeus foram, eles mesmos, algozes de povos que já estavam na região há mais tempo, desfazendo o mito da sua primazia, e a narrativa de seu bom-mocismo.

Ciência bota medo…

Em outra ocasião, mais recente, cientistas brigam com outros cientistas sobre a validade de destruírem certas posições anteriores com teorias mais modernas, e mais corretas.

Tem gente querendo substituir o Big Bang a todo custo, simplesmente porque não cabe na sua narrativa sobre a origem do universo e da vida. O mesmo Stephen Hawking lutou com unhas e dentes até o fim da vida para tentar achar uma equação, uma explicação para “desdizer” a teoria que ele mesmo trabalhou para explicar e popularizar. Tudo porque seu ateísmo, ou agnosticismo, não podia suportar a afronta de que o universo teria tido um início, e portanto, um “causador”.

Diante disso tudo, nos vemos, cristãos, diante de uma situação em que, frequentemente chamados de negacionistas, terraplanistas e anti-científicos, temos que optar por uma postura mais bíblica, entendendo que a Bíblia pode contradizer a ciência em algum momento.

Os que chamam o cristianismo, principalmente o Catolicismo original e os Reformados de obscurantistas talvez se esqueçam que a quase totalidade das instituições de ensino que hoje lideram a pesquisa científica no mundo são de origem, inspiração ou manutenção cristã ou de cristãos (desde a Universidade de Padova, passando por Oxford, Harvard, Cambridge, todas as PUCs do planeta, e por aí vamos).

Muito, ou mal usado pelo Presidente, o texto de João 8:32, sempre foi um dos meus preferidos. Costumo brincar que é o Texto Áureo dos Auditores:

“E conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará”

Jo 8:32

Se a bíblia é a inspirada palavra de Deus (e eu creio nisso) e o texto acima partiu da própria boca do Filho de Deus (eu creio nisso também), então cristão algum tem o DIREITO de ser acrítico, anti-científico ou jogar na retranca, quando o assunto é ciência.

A razão é muito simples – cremos (eu creio) que Deus é o autor da ciência. Se Ele criou as regras e leis deste universo, que são explicadas e desfiadas na física, química, biologia, etc, NÃO TEMOS o direito de achar que uma equação vai desdizer, ou desfazer o que cremos.

A Bíblia nunca se propôs a ser um livro científico. Escrita para pessoas tão diferentes quanto (adoro falar isso) Albert Einsten e Forest Gump, a Bíblia teve por obrigação ser atemporal, e acessível a ser explicada a todos.

Quando a Bíblia fala de um assunto que está francamente acima da capacidade, mesmo dos mais iluminados humanos, ela deixa claro que há coisas que são “mistérios”, ou que ainda não foram reveladas. Mas isso nada tem a ver com obscurantismo ou qualquer tipo de limitação à investigação. Nos escritos do Velho Testamento, Deus já falava a Adão e Eva que entendessem o mundo, dessem nomes às espécies (numa ordem de taxonomia bem clara).

Posso concluir que se a ciência em algum momento contraria a Bíblia, só pode ser por dois motivos:

  • Erro de Interpretação – Quem diz falar “pela Bíblia” na verdade entendeu errado ou criou um “dogma” que não deveria haver. Um exemplo claro éa insistência da igreja católica em condenar as teorias da terra redonda e que não seria o centro do universo. Na verdade o livro de Isaías já nos advertia de que “Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; ele é o que estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar” – Isaías 40:22)
  • A Ciência ainda não chegou lá – Aqui, o maior exemplo vem da antiga teoria cosmológica, válida durante décadas, de que o universo nunca teria tido começo e não teria fim. Desbancada pela descoberta da radiação de fundo, e comprovada nos laboratórios Westinghouse, em Nova Jersey, por Arno Penzias e Robert W. Wilson. Os “fósseis” de luz comprovariam a teoria de que alguém riscou o fósforo que gerou a explosão.

Que tranquilidade é saber que a ciência não desbancará, nunca, o Deus Onipotente. Que alegria é saber que a Bíblia é mais inteligente do que alguns se arvoram o direito de se achar. O caso mais recente, emblemático e francamente ridículo foi o do artigo de Mário Sérgio Conti, comparando nossa crença em Jesus Cristo à do coelhinho da Páscoa.

Este douto senhor, do alto de sua inaudita inteligência e certeza de todas as coisas declara-nos a todos nós como crianças burras e obscurantistas… Como se homens (de verdade) muito maiores e mais inteligentes do que ele não tivessem declarado seu pasmo e reverência a esse Deus Criador.

Termino com as palavras de Louis Pasteur, sempre citado pelos cristãos, cujos feitos excedem, talvez, um pouquinho, à montanha de maravilhas criadas por Conti:

Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima.

Louis Pasteur

Mar de Terra

people wearing costumes
Renny Gamarra by www.unsplash.com

https://g1.globo.com/natureza/desafio-natureza/noticia/2019/10/10/na-terra-indigena-mais-ameacada-do-brasil-base-da-funai-e-destruida-e-ninguem-sabe-quem-cometeu-o-crime.ghtml

Lendo uma matéria que poderia perfeitamente mostrar a precariedade da FUNAI ou outro organismo ligado ao cuidado com os índios ou meio ambiente (ou qualquer outro órgão público destes que temos olvidados, abandonados ou sem função…), notei algo bem perturbador.

Poderia ser o fato de que a matéria, de maneira até infantil (o que mostra como nossa população é manobrável), tentava transformar abandono de um posto avançado dentro de uma reserva indígena como “ataques”… O titulo da matéria tentava logo de cara dar contornos de crime e mistério para algo idiota:


Na terra indígena mais ameaçada do Brasil, base da Funai é destruída, e ninguém sabe quem cometeu o crime.

G1

Da leitura, era claro que o posto nunca teve condições de funcionamento, foi abandonado pela FUNAI e foi sendo depredado lentamente, ao largo de anos.
Também fazia links forçados com o tema de desmatamento e queimadas, como se o posto da FUNAI fosse fazer o trabalho do IBAMA e outros órgãos ambientais.

O problema do desmatamento e queimadas não é o foco destas minhas linhas – é um assunto grave e este texto aqui é só uma brincadeira, uma reflexão minha que mandarei para uns amigos e que morre aqui.

Bom, mas o que realmente era perturbador eram os números que apareciam dentro da matéria, de forma complementar e quase passaram sem ser notados, especialmente para mim que sou avesso à matemática (confesso!).

A reserva em questão era a Karipuna, que tem um território de 153 mil hectares (homologado em 1998). Mais uma vez confessando minha ignorância no assunto e esquecimento das aulas da tia Nanci de matemática, fui ao Pai Google ver quanto isso correspondia em metros.

Você sabe a quanto equivale um hectare em metros? Segundo o pai dos burros modernos (Google), “Um hectare, representado pelo símbolo ha (conhecido também como hectômetro/hectómetro quadrado [hm²]), é uma unidade de medida de área equivalente a 100 (cem) ares ou a 10.000 (dez mil) metros quadrados. 10.000 (dez mil) metros quadrados. Eu gosto de futebol. Assim, ficou gravado na minha memória quando fui a primeira vez ao Maracanã e me disseram que o campo (só o gramado, ok?) do Templo do Futebol possuía 9.000 metros quadrados. Seguindo minha ladainha de hoje, confesso – de novo – que fiquei impressionado como o nosso Brasil é grande: o território Karipuna corresponde a mais de 153 mil gramados do Maracanã…

Imaginei, então, que a nação Kari (deixa eu voltar o mouse aqui que já esqueci o nome da tribo) Karipuna seria um mar de gente, NÉ? É aqui que termino minha viagem de hoje: de acordo com a matéria, os Karipuna são 58 pessoas vivas, das quais 22 frequentam a tribo. O Brasil é grande AND generoso…