Professores, Língua e Liberdade

woman standing in front of children
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Sou filho de um professor de Português e de uma professora de matemática. Nasci e cresci em um ambiente acadêmico, portanto, tendo sido apresentado às letras e números desde muito cedo (minha mãe diz que eu falei muito cedo e que li muito antes de entrar no jardim de infância… coisas de mãe coruja…). Pra mim, avaliar a possibilidade de não saber ler ou contar é algo muito difícil. Só consigo avaliar isso através de pessoas que não sabiam, até certo tempo, e aprenderam – tiveram portanto, tempo de vida que lhes permitiu avaliar a falta que letras e números fazem…

Hoje, dia do professor, somos uma nação que resolveu fazer do ensino uma piada de mau gosto, e do professor um instrumento de luta ideológica. Deixamos de lado o significado das coisas e o exercício mental, a disciplina de aprender algo (aprender custa e cansa) para enfiarmos na cabeça de nossas crianças somente coisas que convêm a um segmento político ou outro, interessados numa massa de manobra para fins específicos de mantê-los nesse poder.

Estamos cansados de ver posts de professores apanhando de alunos, de execração de Paulo Freire, de alunos quebrando salas de aula… tudo isso satura e acaba por nos dessensibilizar para a realidade mais triste. O aprendizado mesmo.

Professores

Agradeço a Deus os professores que tive, e os pais que além de pais, foram mestres. Agradeço pela sinceridade com que ensinavam, e o interesse total em que aprendêssemos. Agradeço, em suma, pela paciência infinita com que ensinavam a todos, retirando desníveis ao longo do ano letivo, fazendo-nos chegar a um bom porto, ao final dele, com todos sabendo o mínimo necessário para “passar de ano” por méritos próprios, e “repetindo” os que não tiveram tal mérito, sem ofende-los, diminui-los, mas fazendo-os reconhecer que falharam.

Agradeço a Deus por ter me dado um mínimo de capacidade de aprender a aprender, a a me ensinar coisas que doutra forma me levariam a continuar a errar nos mesmos lugares ainda hoje. Arrogância devidamente domesticada, interesse pela leitura maximizado, interesse por coisas novas sempre alto, interesse por detalhes cada vez maior, sigo tentando ser melhor, para meu Deus e para meu próximo, lembrando lá de trás, de Tia Ângela, Tia Madalena, Tia Guilhermina, Tia Solange (in memorian), e tantas outras “tias e tios” (as “profe” daqui de Curitiba) que me ensinaram a pensar.

Aos pais-professores, Ivanir e Ruth, cujo amor ao ensino os levou aos estertores, lutando dia e noite por uma educação melhor e mais universal, sem meias verdades, sem aprovações automáticas, sem “medalhas de participação”, cultivando a disciplina e o mérito, sem varrer a incompetência para baixo do tapete oficial, nem se curvarem ante modismos que pouco a pouco acabaram se tornando a educação que vemos hoje – ou a falta dela.

Tias professoras, Dalva, Marly, Chirley, Neide, gente que dedicou toda uma vida a pegar na mãozinha de crianças de 4, 5, 6 anos, ensinando as primeiras letras com uma paciência de Jó.

Creio que ver profissionais, médicos, professores, advogados, engenheiros, contadores, fazendo a diferença no mundo deve ser boa recompensa por tanto amor ao ofício.

Não custa, porém, lembrar que o sacerdócio de professor precisa ser recolocado no pedestal que merece, longe do alcance dos políticos e dos “dominadores do idioma”.

Língua e Significado

Aldous Huxley já falava que “O progresso científico e técnico depende do hábito empírico do raciocínio, que não pode sobreviver numa sociedade estritamente regimentada.“. A ideia de educação, como me foi passada, estava fundamentada na “capacidade de aprender”. Minha escola pública, hoje tão depredada e desprezada, me ensinou a “aprender a aprender”. Quando fui para a universidade, eu já sabia que estava virtualmente sozinho nessa guerra interna da “Ordo ab Chao”. Era minha responsabilidade – que eu havia a duras penas aprendido de meus primeiros mestres – a aprender. E por ter aprendido a aprender, me tornava cada vez menos dependente de alguém que me dissesse o que era certo e errado. Isso me tornou, à uma, arrogante, e à outra, independente (na cabeça). Arrogante porque aprendi a discernir coisas mais cedo do que a maioria, e por isso mesmo, imaturo suficiente para não saber quando calar, quando esperar para responder, ouvir mais. É uma característica difícil de domar e que habita alguns espíritos mais espertos do que sábios. Independente porque não ligava tanto para o que pensavam de mim, o que reforçava, por outro lado, a ideia de que era arrogante. Em síntese, um caos sobre o qual colocar ordem foi muito difícil.

A língua, porém, foi o trampolim para essa capacidade de aprender a aprender. Foi por ler e entender o que lia que eu ia conseguindo interpretar o que estava diante de mim, dando tempo para ruminar o que entendia, e a formar conceitos a partir daí. Minha grande forma de entender o mundo sempre foi a palavra escrita, a despeito dos meus pendores matemáticos. Números sempre fui capaz de manipular com alguma destreza, mas eram símbolos que não falavam ao meu coração. Música (escrita) também nunca entrou no meu coração como no da minha esposa, Aline, por exemplo – sei onde é o fá, o sol, o mi, sei o que é um sustenido, um bemol, sei o que é um compasso, uma clave, uma pausa, mas nada disso “fala no meu coração” como a própria música. Pura preguiça de aprender essas duas línguas como deveria – matemática e música.

Língua sempre foi a palavra. E percebo que o domínio sobre a palavra escrita é liberdade. E aí é que mora o perigo da sociedade atual

Letra Cursiva e Domínio do Conceito

Ouvi de um amigo querido, executivo da área de educação, que achava que ensinar a criança a escrever à mão havia se tornado desnecessário. Dar um teclado e ensinar a digitar era suficiente.

Num mundo sob perpétua ameaça de crise de energia, confiar exclusivamente na capacidade de teclar, sem máquinas totalmente mecânicas, manuais, me parece burrice, retruquei.

O fato é que confiamos tanto na tecnologia da informação que esquecemos que todo o conhecimento está sendo confinado em “conventos digitais” os quais podem-nos ser fechados para sempre pela simples falta de corrente elétrica ou manutenção; ferrugem e infiltrações correm o risco de acabar com a civilização mais cedo do que uma guerra atômica.

Enquanto a eutanásia cultural coletiva não vem, assistimos diante de nós, impassivos, à destruição do significado.

Destruição do Significado

Já que não consigo matar de fome, mato empanturrando… Num tempo em que a quantidade de conhecimento acumulada cresce exponencialmente, nossa capacidade de participar desse banquete intelectual de forma controlada e civilizada decai a olhos vistos. Já não conseguimos saber os limites do que é correto, e estamos diante de uma campanha para nos soterrar de informações, úteis e inúteis, e todas, por fim, inúteis, por não sabermos mais a distinção entre elas.

Some-se a isso o fato de que as palavras estão tendo dois destinos: a perda do significado original e a criação de interpretações ofensivas por parte de qualquer um que se sinta ferido por algo que, creio, muitas vezes não sabe sequer interpretar.

Um grande amigo me dizia que chamou um colega de trabalho de “Apedêuta”, ao que o amigo lhe agradeceu muito o “elogio”. Fantástico! Da mesma forma, ao chamar o amigo de “Negão” (o que o cara é, porque enorme, com 1,90m e pele chocolate escuro) soa ofensivo a alguns (no caso, não ao destinatário do carinhoso apelido). Eu posso agradecer por ser incapaz de aprender algo, e ficar extremamente irritado porque alguém chamou um amigo negro de “negão”.

A candidata a juíza da Suprema Corte americana, Amy Coney Barrett, católica, 7 filhos, carreira brilhante, teve que se desculpar por ter usado a expressão “Opção Sexual” para se referir à homossexuais. Deputados de oposição ao governo que a nomeia disseram que a expressão é “homofóbica” e que ela deveria pedir desculpas à comunidade LGBTQ (!). Em dias de patrulha linguística, a liberdade de dizer que entende que existem opções sexuais é um pecado mortal. Ora, pensar se torna um pecado mortal em uma sociedade como a nossa.

A língua é o veículo de escravização mais efetivo que existe hoje, na minha opinião. Na verdade, uma linguagem patrulhada e tornada objeto de apenas alguns tipos de manifestação, tornam a sociedade muito menos capaz de pensar e ter independência. No fundo, se você controla a linguagem, controla a sociedade – como alguém já disse em algum canto, que não me lembro.

Que sigamos pensando, bem ou mal… afinal, como dizia Millôr Fernandes no Pasquim, “Livre pensar é só pensar“…

Abelha da Babilônia

https://babylonbee.com/

Eu adoro sátiras… adoro humor. Mas nesses dias atuais, onde o nível de compreensão da linguagem escrita cai vertiginosamente, a percepção da ironia e do humor fino está se perdendo, por duas razões: de um lado, é difícil fazer as pessoas lerem e perceberem ironias (e essa é a essência delas); por outro lado, é difícil entender se alguém quis ser irônico ou não, nos dias atuais, por absoluta falta da mesma coisa – capacidade de sê-lo. Viva a modernidade…

Um dos sites que curto muito é o “Babylon Bee” (título desse artigo). A descrição do site já é engraçadíssima, por si só:

“O que é O Babylon Bee?

O Babylon Bee é o maior site de sátiras do mundo, totalmente inerrante em todas as suas verídicas afirmações. Nós escrevemos sátiras, coisas de político e coisas do cotidiano.

O Babylon Bee foi criado ex nihilo (do nada) no oitavo dia da semana da criação, exatamente 6 mil anos atrás. Temos sido a primeira fonte de notícia em qualquer dos maiores eventos da humanidade, da Torre de Babel ao Êxodo até a Reforma e à Guerra de 1812. Nosso foco são os fatos, só eles, deixando as fake news e distorções de fatos para outros sites de notícias, como a CNN e a Fox News. Se você tiver alguma reclamação sobre algo no site, leve-a pra Deus. Ao contrário de outros sites de humor, tudo o que nós postamos é 100% verificado por Snopes.com.”

Mais legal ainda, o site possui uns posts que chamam de “Not the Bee”, em que falam que “isso pode parecer uma sátira, mas não fomos nós que inventamos”… Em alusão a algumas falas de políticos e outros personagens, que constantemente (quem lembra do Dilmês?) nos brindam com saudações à mandioca, estocagem de vento, etc.

O ridículo chega ao ápice quando alguém usa o site Babylon Bee como “fonte de informação”. É como um político aqui usar o site do Casseta & Planeta para mencionar uma manchete sobre o aumento de queimadas na Amazônia. Acontece volta e meia. Por incrível que pareça, não é só o internauta médio que tuíta e retuíta coisa sem pé nem cabeça.

Convido quem quiser e conhecer inglês (hoje os sites são traduzidos, em sua maioria, mas as ironias ali são tão específicas que a tradução às vezes sai incompreensível) a visitar o site e se deliciar com as brincadeiras.

Ah, super importante – o site tem fundamentação cristã-evangélica, ou seja, você vai ouvir e ler um monte de referências, muitas vezes nada elogiosas, a gente como o pastor Joel Osteen (um tipo de Valdomiro Chapéu dos EUA, que prega teologia da prosperidade) e outras figuras de proa do meio cristão norte-americano. Os mais puristas vão ficar às vezes meio chateados, por verem alguns “ícones” sofrerem gozações. Não esmoreça, continue a ler. Eu custei a entender e desconsiderar os palavrões do Apóstolo Arnaldo para poder dar risada com o fato de que ele, com razão, diz que “não faz brincadeira com Deus; faz brincadeira com quem faz brincadeira com Deus”, o que é verdade.

Curta com coração leve, porque é muito divertido. Quem dera tivéssemos uma versão A Abelha da Babilônia no Brasil, que cristãos de todos os matizes pudessem contribuir para a risada de qualidade, aquela que Deus aprova e ri junto… Nosso povo merece rir com qualidade!

O Terceiro Mandamento

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Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. 

Êxodo 20:7

No hebraico antigo, a palavra “tomarás” (Nasah) tem o sentido de “carregar”, “levar consigo”. O sentido do mandamento acima, como lindamente escreveu Dennis Prager, da Prager University, seria mais bem colocado como:

Não farás o mal no nome do SENHOR, para fazer bobagem em Seu nome”…

Dennis Prager – https://www.prageru.com/playlist/the-ten-commandments/

Desde a infância eu corria o risco (ainda corro) de tomar um tapa na boca se eu falasse “Meu Deus do céu”, ou “Juro por Deus”, pois era “tomar o nome do Senhor em vão”.

Não é isso que parece ser a ideia bíblica – Dennis Prager fala, muito eloquentemente, que Deus seria muito “miudeiro”, ou “pequeno” se nos condenasse ao inferno por falarmos “Ai meu Deus do céu”… seria (e é) muito idiota. O Deus criador do céu e da terra é muito maior do que isso.

Ocorre que, levado no sentido correto, o 3o. Mandamento nos fala de algo mais profundo: “carregar consigo, usar, levantar” o nome de Deus de uma forma que o envergonhe, ou que traga tristeza ou má reputação a Ele. Quando vemos alguém matar em nome do Senhor, como na Inquisição Espanhola, nas Cruzadas, ou na Invasão Muçulmana dos séculos XI a XII, podemos dizer que esses quebraram, em grande estilo, o 3o. Mandamento.

Quando alguém usa o nome do Senhor para arrancar dinheiro do fiel, quando usa “evangelho da prosperidade” para barganhar com Deus, esse líder, seja pastor, padre, ou outro, quebra este mandamento. Quando um líder usa do nome de Deus para causar mal sexual a alguém, traz desonra ao Senhor, e “carrega em vão” o nome do Altíssimo. Isso sim, não tem (segundo o Êxodo) perdão, porque …”o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.“.

Vivemos os tempos de figuras ridículas, trágicas se cômicas não fossem, como determinados “Apóstolos”, ou “Flordelises” da vida… que trazem sobre o resultado da promessa de “não ter por inocente” quem faz isso. Seja um crime de morte, sexual ou financeiro, ou ainda de qualquer outra natureza (como trazer má fama ao Senhor por ser um parceiro infiel, ou um profissional meia-boca), figuras da atualidade “carregam”, “levantam” bem alto no nome de Deus, apenas para O fazerem desonrado. Uma coisa dessas realmente não tem como passar impune.

Não passa impune, pois na Cruz, Jesus Cristo pagou por esse erro aí também, mas francamente, quem se conduz assim (e na vida todos já “carregamos” o nome do Senhor em vão alguma vez) precisa de arrependimento.

Não é o “Apóstolo Arnaldo” do Youtube que é o cara que devemos, como cristãos, atacar… Aliás, o pobre do Arnaldo Taveira, humorista, está sendo atacado (em vão) por justamente fazer troça com os “apóstolos” que de fato merecem ser atacados, os lobos em pele de ovelha que existem por aí… O Arnaldo fala muito palavrão, o que é chato mesmo, mas eu me racho de rir do cara, por expor, colocar a nu, as mazelas dos que se dizem “apóstolos” mas não o são:

  Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos;

Apocalipse 2:2

Vou me esforçar pra nunca mais carregar o nome do Senhor por aí em vão, o que tenho certeza que será bom pra mim, independentemente do próprio Deus. O resultado do mandamento faz bem até pro ateu…

Amizade disfarçada de parentesco

A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas sorrindo

Roberto e Aluízio, co-autores da minha carreira

Lá no início de minha vida profissional, aos 18, 19 anos, em 1983, alguns amigos vieram em meu socorro, no meio da minha cesta básica de dúvidas juvenis. Meus tios, irmãos de minha mãe, Aluízio e Roberto Montechiari, junto com o Frank, amigo e pai da tia-emprestada, Elaine, me fizeram o favor de me falar algumas verdades, que eu, como moleque, ainda meio achando que possuía um direito divino de viver bem às custas dos pais.

Como todo quase pós-adolescente, eu vivia um mar de interrogações, poucas certezas, e uma briga interna com Deus pela posse de minhas convicções (eu, ou Deus as teria?). No emaranhado de emoções daquele que, pela natureza da relação, não escuta nem pai nem mãe, vieram os tios ao socorro. Por que o conselho dos tios faria alguma diferença, onde o conselho de pai e mãe foram ignorados solenemente?

Ora, daquela sensação de pasmo, de espanto, ante um par de sujeitos bem sucedidos, um comerciante, bem de vida, cheio de relacionamentos importantes, o outro oficial da força aérea, “herói” de qualquer sobrinho que sabe que o tio pilotava caças e aviões militares. Ambos fizeram a diferença, não porque eram o que eram, mas porque “o que eram” me permitiu parar e refletir sobre o que falavam, com seriedade.

Hoje, encerra-se um capítulo importante na minha história, com a morte do meu amado Tio Aluízio, que não só me influenciou, mas deu emprego, deu palavras (duras, sábias, boas). Não vou poder estar com meus primos e tia (Carlos Eduardo, Carla Andréa e Neide). Tem Covid-19, sabe, essa “nuisance” na vida de todos nós que barateia o conceito de morte, e faz com que se fale tanto em contagem de corpos que se perca a noção da singularidade, da particularidade da morte privada, da morte íntima, da morte sofrida porque próxima do nosso coração.

“Preciosa é à vista do Senhor a morte dos Seus santos”

Salmo 116:15

Fica, de lá pra cá, um desejo imenso de talvez ter sido mais prestativo, mais presente, embora morando a muitas centenas de Km de distância. Fica saudade, mas não fica dor, porque eu espero encontrar com esse tio amado na Glória do Senhor, que nos salvou a ambos, em momentos diferentes da vida, e que nos redimiu por igual, independentemente de quão carola um tenha sido, ou quão blasé o outro fosse, em determinados momentos da vida. O fato, inescapável e indelével, é que o selo do Espírito Santo da Promessa foi impresso em ambos os nossos corações, e nos fez amigos, irmãos em Cristo.

Tem realmente amizades que vêm disfarçadas de parentesco, da mesma forma que tem amizades que são mais fortes que laços de sangue. Nesse caso, o laço de sangue falava, e fala altíssimo, mas a amizade, o amor, sobrepujou a tudo isso.

Vai com Paz e em Paz, porque sei que o Senhor te guarda nos braços.

Até breve, tio amado!

Que relevância tem o povo?

Antigamente, sempre que alguém ouvia algo que não lhe agradava (no Rio, pelo menos) tinha uma frase padrão para responder: “meu ouvido não é penico”… que sintetizava o que achava o ouvinte sobre os comentários que lhe adentravam o pavilhão auricular…

Pois bem, creio que estamos ficando acostumados a sermos latrinas auditivas de nossas autoridades, de todos os matizes. O rigor das opiniões não mais existe, e o que se disse ontem é cada vez menos levado em consideração. O sujeito não apenas muda de opinião como fica zangado se lhe pregamos na cara o que havia dito antes. Afinal, seu deputado federal presidente da câmara, por que raios você agora acha que pode ter um outro mandato, contra o regimento da casa que você comanda? Quem te deu o direito?

Outros falam pelos cotovelos coisas que sequer acho que pesaram antes. A fala do ministro do STF, que candidamente e solenemente abalroou a própria Carta Magna, que ele mesmo deveria ser guardião, dizendo que, na prática, “todo poder emana do Supremo“, e não do povo, e será usado contra esse mesmo povo. Que vergonha, que papelão. Antes não tínhamos memória, como povo: o que ocorria há 4, 5 anos, já estava sepultado e não tinha mais quem recordasse. Agora, bastam 2 semanas.

“Toda tirania deve ser afastada, inclusive a tirania da maioria que elege o Executivo e o Congresso

Suposto guardião da Constituição

As pessoas sabem de tudo, ou ouviram de tudo um pouquinho, mas não se dão ao trabalho de examinar nada. O ritmo de recebimento e registro da informação é tão alto que a pessoa não medita mais sobre nada (aliás, eu, leitor da Bíblia, sinto isso no meu dia a dia – o que antes era motivo de 1, 2 horas de leitura de uns poucos versículos e muito tempo de meditação, virou 5, 10 minutos de um vapt-vupt que não deixa rastros na memória. Que vergonha…)

O povo já não tem relevância porque o povo está incapacitado para lembrar. Os políticos sabem que podem falar, e depois “desfalar”, porque sabem que, no fundo, é mais fácil hoje do que em qualquer outro momento da história humana se desdizer impunemente.

O povo não tem mais relevância porque não pega em armas, porque essas lhe foram tiradas? Quem poderia advogar a revolta popular, e a morte por uma guerra civil? Ninguém quer isso, claro. Mas na raiz de toda guerra civil existe, pelo menos, uma forte de lembrança do que está levando o povo a lutar.

Em tempos de Covid, com todo mundo em casa, eu mesmo tenho me dado ao trabalho de ler mais e tentar refletir mais sobre as coisas, aprofundando o que sei, e completando o que não sei com o conhecimento alheio. Checando fontes, perguntando a quem já viu ou já viveu, eu vou daqui dando meus pitacos sobre os temas que, como já disse, me interessam. Não trato de nada para agradar audiência, e nem sei se tenho audiência, mas não me importa. É um registro, pros meus amados (filhos, amigos) do que pensei e penso.

Assim, penso que o povo não tem mais relevância nenhuma mesmo. Vamos votar daqui há pouco, e novamente, por falta de capacidade de reflexão, vamos eleger um monte de ficha suja, de bandido, de gente que atenta contra a moral e a ética. Cristãos provavelmente vão eleger políticos de partidos que têm o fim da família como parte do compromisso formal, que creem que religião é “ópio do povo”.

Perderemos totalmente a relevância, por fim, quando sequer formos consultados, em urnas ou fora delas. Aliás, como quer o tal super-ministro, guardião da constituição cidadã de 1988, o povo é um tirano de seus governantes, e isso não tem o menor cabimento… quem manda é a burocracia!

Cloroquina

https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/polzonoff/chifre-nao-e-vacina-chico-buarque-tierry/

Hoje cedo li um artigo bem interessante. O link anexo remete ao Polzonoff, articulista da Gazeta do Povo. Sujeito interessante esse, que fala algo que nem tinha me tocado – ninguém, nem umzinho, desses “beautiful people” metido a artista, fez nada, ainda, pelo menos, sobre o momento dramático que estamos vivendo. Nenhuma Guernica, nem um “For whom the bells toll”, nem um Abaporu horroroso que seja. Nada. Bom, já que é possível fazer um abaporuzinho de M que seja, fiz o meu em forma de sonetinho cafona:

Soneto pra Cloroquina

Se cura, ainda não sabemos, se mata, ignoramos                                                                          Na frente da morte estamos, e então ressabiados                                                          Tomamos a tal pastilha, e mui piamente oramos                                                                           Até que por três quartãs tenhamos todos passado 

O que se prega e o que se faz são duas coisas distintas 
Boa pra curar malária, doença pra qual não ligo 
Joga-se conversa ao vento, renega-se a Cloroquina 
Tornando fraterno compadre no mais feroz inimigo  

Mas não só conversa se gasta; dinheiro bom, suado 
Transforma-se em intolerância, travestida de propina 
E seguimos todos o baile esperando por um milagre    

Ou talvez um bom remédio, talvez uma vacina 
Que nos remeta ao passado, de praia e de foguetório 
Onde a notícia, ao menos, não nos cheirava a velório                                                                             

É bonito, ou feio? É meu. Pelo menos cite a fonte quando curtir ou malhar… E vamos nós, esperando por um milagre, mesmo… E se me chamar de Buarque eu brigo!

Abaixo as Estátuas e o Cristianismo sob Fogo

Jesus Christ wall decor
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Sou cristão. Se algum tipo de restrição ou perseguição ao cristianismo aparecer, não duro 5 minutos antes da “cana” chegar aqui em casa e sumir comigo… Confesso que não saberia dizer por que eu seria levado por esta crença, mas ok… os primeiros cristãos também não sabiam.

Saulo de Tarso, jogado do cavalo abaixo por um Jesus Cristo perseguido por ele, não teve livre arbítrio diante do Livre Arbítrio de Deus – “tu vai falar de mim e da minha mensagem, e não tem conversa… tu vai ver o que é bom pra tosse, sua mala“… (Parafraseando Atos 9:5, e outros textos, em “weslês”). Eu tive escolha, tive livre arbítrio. Deus não me jogou de cavalo embaixo pra me motivar a servi-Lo… eu decidi – mas depois… ah, depois eu fui jogado de cavalo abaixo muitas vezes, e todas por culpa minha. Mas no fundo, ser cristão não parece ser uma opção, depois que se é; deixar de sê-lo, não é possível ao converso…

A “sociedade” (ainda uma minoria mais à sinistra, mas mudando rápido) decidiu que ser cristão é algo ruim. Se você acredita em Deus, acha que a Bíblia é Sua Palavra, ama sua família, não acha que roubar é legal, acha que temos que dar exemplo de trabalho e serviço ao outro, bom, você está marcado. Se você acha que assassinar criança na barriga da mãe é ruim, xiii…. se lascou. Se você acha que menino é menino e menina é menina (se veste rosa, azul ou roxo, pouco importa), você está a ponto de ser tornado criminoso. Mais ainda, se você acha que professor tem que ensinar e aluno calar a boca e estudar, está marcado. Mudar a natureza mesma das coisas virou moda. Mas isso já estava previsto.

Julgou o agora Apóstolo Paulo que “contra isso aí, não tem lei“, ou seja, ninguém seria idiota suficiente em encontrar uma forma de tornar isso ilegal. Mas isso já não é mais verdade. Entra em cena outra “profecia” (quase) lá de 400 anos antes de Cristo:

Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo! 

Isaias 5:20

Já sobre ações “do bem” e sua natureza, um outro texto da Palavra é ilustrativo sobre o que os cristãos devem pensar, fazer e considerar:

Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade (paciência), benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança (domínio próprio). Contra essas coisas não há lei. (Gálatas 5:22 e 23).

Gálatas 5:22 e 23

Meu corpo, minhas regras“, esbraveja a militante. Ok, perfeito. Quem falará isso pela menina que está na sua barriga e não teve sequer o direito de respirar ainda?

Existem vários sexos, e não só dois biológicos; tudo isso é uma construção social“. Maravilha. conte isso pros cromossomos que estão dentro de cada um de nós (eu não os coloquei lá e não sei como modifica-los). Tem biólogo evolucionista ateu dando mais razão aos “crentes” do que aos ativistas da identidade de gênero. Um deles escreveu recentemente no Quillette:

Foi também durante esse período que comecei a me interessar pelo que muitos agora chamam de “ideologia de gênero”. Essa ideologia não apenas convida a um tratamento compassivo para indivíduos trans (que eu apoio), mas também promove as alegações cientificamente imprecisas de que o sexo biológico existe em um “espectro” contínuo, de que as noções de homem e mulher podem ser meras construções sociais e que o sexo de alguém pode ser determinado pela “identidade” autodeclarada em vez da anatomia reprodutiva. Quando recuei contra essas alegações, fui manchado como um fanático transfóbico. Temendo danos profissionais, parei de me envolver, cedendo o campo àqueles que defendem ficções da moda.” (Colin Wright, in https://quillette.com/2020/07/30/think-cancel-culture-doesnt-exist-my-own-lived-experience-says-otherwise/)

Como cristão quero fazer o que é certo, segundo a Bíblia. Quero viver em paz com o próximo e amá-lo (embora mesmo Cristo tenha dito que a gente deve viver em paz com os outros “de depender de nós”, reconhecendo que tem vezes que não dá…); quero pagar minhas contas em dia, quero tratar meus colegas de trabalho com justiça e retidão; quero fazer aos meus clientes, se possível, um pouquinho mais do que me pediram (e pagaram para isso) – quero “caminhar a segunda milha”. Quero, enfim, poder me defender se atacado, sem ser considerado os fascista.

O nível de mudança de “bem em mal” e “mal em bem” alcançou proporções que, quem as olha de fora, juraria que vivemos num hospício. Meu filho Thomas ontem citou de cabeça (ele adora esse tipo de frase!) o que George Orwell escreveu no seu clássico, 1984, e que embasa bastante bem os tempos que vivemos:

“Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros reescritos, todas as pinturas foram repintadas, todas as estátuas e prédios renomeados, todas as datas públicas foram alteradas”.

George Orwell in 1984

Bom, as estátuas estão sendo mesmo é derrubadas, não renomeadas; a escola General Fulano agora é Companheiro Sicrano… Dia dos pais agora é dia de quem se diz pai…

Na boa, chegou o dia – bem é mal e mal é bem… liberdade de expressão virou “fake news” (quem vigia os vigilantes?).

E eu corro o risco de ir mais cedo do que mais tarde pra alguma masmorra para ser “reeducado” e aprender duplipensar e novilíngua…

Se é voluntário…

brown tree
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Quotas, ações afirmativas, socialismo… o que esses termos têm em comum? Todos eles partem do princípio de que isso é algo “imposto” por alguém. Tudo isso está fadado ao fracasso, por serem atos artificiais na sociedade. Senão, vejamos:

Quotas

A política de quotas por raça, sexo, orientação sexual, entre outros fatores, substitui a livre competição em processos seletivos, por vagas em uma universidade, colégio, emprego, em alguma medida. O argumento de que é preciso dar acesso “mais fácil” a alguém em virtude de alguma característica qualquer tira a legitimidade dela (a pessoa) estar naquele lugar. Nunca tive essa oportunidade na vida, mas imagino ter lutado com unhas e dentes para galgar uma certa posição só para ver alguém que não tenha se preparado tão bem estar ao meu lado em igualdade de condições. Do ponto de vista técnico, isso pode ser até perigoso, dependendo da atividade exercida. Eu me sentiria tremendamente constrangido de estar num local para o qual não tenho capacidade de estar.

Ações Afirmativas

São quotas que não necessariamente implicam em uma “burla” a um sistema de libre competição, mas que reservam a um grupo qualquer um espaço que deveria ser objeto de competição livre. O exemplo mais claro são as quotas de candidaturas para cargos eletivos para mulheres. Obviamente que não sou contra a maior participação de mulheres no processo eleitoral; aliás, sou muito a favor, dada a melhor qualidade analítica e maior cuidado social das mulheres quando no trato com a res pública. A questão é a mesma das quotas: artificialismo – queremos fomentar algo “de cima para baixo” sem qualquer preocupação com os efeitos colaterais disso. Ora, mulheres são intrinsecamente diferentes dos homens, a começar pelos cromossomos. Somos iguais em direitos e deveres, e assim deve ser, mas eu, como homem, não pude parir filhos, assim como minha amada esposa não pode faze-los. Cada um no seu quadrado, entendendo que diferenças, antes de detestáveis, são necessárias e bemvindas.

Socialismo

A aparência inicial é sempre a mesma: justiça social, distribuição de renda, mais liberdade. Tudo acaba da mesma forma: tirania, pobreza e opressão. Qual é a causa disso? De novo, artificialismo. Tentamos, de cima para baixo, criar as condições para um “paraíso na terra”, forçando as pessoas a fazer o que é contrário aos seus interesses mais próximos, a ir contra sua natureza, necessariamente egoísta (o homem é um ser decaído, conforma a Bíblia, o que se demonstra na prática dia a dia).

Voluntarismo versus Imposição

Sob qualquer aspecto, o ser humano não gosta de ser forçado a nada. Ele só abdica de direitos quando forçado a isso, conscientemente ou não. A sabedoria de um sistema voluntário reside em dar condições para que as pessoas façam algo em seu benefício próprio, algo bem egoísta, mas de livre escolha.

Um exemplo magnífico do uso sábio do voluntarismo a serviço do bem comum está, creiam-me, nas Bolsas de Valores e nos Fundos de Pensão: em ambos os casos, criam-se mecanismos de obtenção de lucro (“maldito lucro”, dirão alguns) que são vistos pelo grande público como indo alimentar um “gordo, porco capitalista”, quando na verdade os maiores beneficiários são os aposentados do mundo todo. Um grupo de pessoas junta seu dinheiro num fundo de pensão (privado ou público) e precisa fazer esse dinheirinho render para bancar a sobrevivência da velhinha de Taubaté ou se São José da Boa Morte; Des Moines ou Los Angeles, Milão ou Verona… não importa.

O Brasil até bem pouco tempo tinha altas taxas de juros que drenavam a poupança para uma única fonte de renda: os títulos públicos. Não é assim no resto do mundo, há muitos anos. Você precisa aplicar dinheiro numa atividade produtiva. Bolsa de Valores é a resposta mais correta e mais democrática. Mas para isso precisa sobrar renda no bolso do trabalhador.

Por outro lado, a imposição de altas taxas de tributação, ao mesmo tempo tornam a vida do cidadão comum mais cara e drena recursos para que um grupo de iluminados tome decisões por nós, de forma imposta. O Brasil escolheu ter ao mesmo tempo alta tributação (impostos) e baixo retorno desta imposição. O resultado é o que vemos: muito dinheiro centralizado na mão de governos, com a consequente tentação de usar o público para fins privados, dentro da lei (mordomias, vinhos premiados e lagostas) ou fora dela (petrolão, mensalão, etc).

Vivemos num país que nunca foi livre de fato.

Liberdade

A base da sociedade democrática e capitalista de hoje em dia está no cristianismo, mais amplamente, num sistema judaico-cristão de pensamento. Jesus desejava ardentemente que os pobres fossem ajudados, que amássemos ao próximo como a nós mesmos, e tudo o mais que está descrito nos Evangelhos. Coisas boas, “contra as quais não há lei”. No entanto, ele nunca quis que virássemos a mesa, e impuséssemos nada a ninguém – “não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito”, disse o Senhor.

Se os seres humanos fossem perfeitos, qualquer sistema de governo seria ótimo, pois na verdade seriam desnecessários. Cada um pensaria mais no outro do que em si, cada um faria ao outro o que quer para si mesmo, cada um consolaria ao outro, sem imposição, por bom coração. Isso não é verdade, ainda, e enquanto não o for, precisamos conviver com a inescapável necessidade de usar sabiamente a liberdade individual para o bem coletivo.

Daí a conclusão de que é necessário “usar o egoísmo e a ganância naturais do ser humano para o melhor resultado possível”. Conforme disse Adam Smith há tanto tempo”

Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor próprio, e nunca falamos das nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter”.

Adam Smith

O liberal progressista dirá que isso é um absurdo, e que temos que “fazer com que as pessoas pensem nos outros”; temos que “forçar as pessoas a serem benevolentes, e boas”. Há pessoas assim, claro, que pensam mais nos outros do que em si mesmas. Essa, contudo, não é a regra. A regra é que as pessoas pensem primeiro em si. Aliás, quanto mais pobres, quanto menos têm para dar, a tendência é pensar mais em si. São raros, infelizmente, os casos como da “viúva pobre” descritos por Jesus, que oferta ao Senhor seus últimos vinténs.

Maslow descreveu essa tendência lindamente em sua Hierarquia das Necessidades. Quanto mais básica e imediata é sua necessidade, mais rapidamente, e a qualquer custo, a pessoa quer resolve-la. Se alguém está se afogando, sem pensar leva consigo ao fundo do rio o amado colega do lado, na intenção de se safar. Se alguém está morto de fome, tentará de tudo para sacia-la (alguns, a qualquer custo). Ora, se isso é verdade, para que haja paz social é preciso que “Apelemos não à humanidade, mas ao amor próprio, e nunca falamos das nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter”. Se eu quero que alguém faça algo sempre, de bom grado, com qualidade, livremente, é preciso que o desejo dela esteja alinhado com o meu.

Por isso o socialismo não funciona: porque as pessoas são colocadas, de forma imposta, em posições que não querem, fazendo coisas que não querem, por um pagamento que julgam injusto. Não funciona porque o ser humano é intrinsecamente pecador e falho. Só isso.

Por isso é que quotas e ações afirmativas não funcionam: porque criam algo artificial, não voluntário, não sustentável, cujo fim é algum tipo de tragédia, mais cedo ou mais tarde.

O primeiro rascunho da história

https://www.foxnews.com/media/bari-weiss-quits-new-york-times-bullying

Hoje cedo no FB li com interesse a notícia veiculada ontem de que a colunista do New York Times pediu demissão e saiu “atirando” contra a política de “sanitização” de “nova ortodoxia” existente dentro do poderoso veículo de comunicação.

Pra quem não conhece, Bari Weiss escrevia sobre política no NYT desde 2017. É bastante respeitada e que cuja carreira como colunista, além do NYT, começou no também respeitadíssimo The Wall Street Journal. Judia, diz ter tendências de “centro-esquerda”, tendo expressado essas tendências em várias oportunidades, por escrito.

Chama atenção, portanto, o fato de que ela tenha escrito algumas das acusações mais graves feitas recentemente contra um grande órgão de imprensa nos EUA. Eis algumas de suas opiniões, expressas em entrevistas, quando de sua saída:

  • Sobre a eleição de Trump em 2016 – “lições que deveriam ter seguido a eleição, lições sobre a importância de entender outros americanos, a necessidade de resistir ao tribalismo e a centralidade da livre troca de idéias para uma sociedade democrática – não foram aprendidas“;
  • O novo consenso – “um novo consenso surgiu na imprensa: … que a verdade não é um processo de descoberta coletiva, mas uma ortodoxia já conhecida por alguns poucos esclarecidos cujo trabalho é informar todos os outros.
  • Escreve-se o que as Mídias Sociais “mandam” – “À medida que a ética e os costumes dessa plataforma [aqui, se referindo ao Twitter] se tornaram os do jornal, o próprio NYT tornou-se cada vez mais uma espécie de espaço de shows. As histórias são escolhidas e contadas de maneira a satisfazer esse público mais restrito, em vez de permitir que um público curioso leia sobre o mundo e depois tire suas próprias conclusões.“;
  • Uma guerra civil na redação – “Uma guerra civil está fermentando dentro da redação” – dito após o NYT ter publicado um op-ed (artigo de opinião) do senador republicano pelo Arkansas, Tom Cotton, pelo qual o próprio NYT “pediu desculpas” após ter sido publicado.
  • “Nova Ortodoxia” e Autocensura – “Por que é que eu vou editar algo desafiador para os nossos leitores ou escrever algo ousado, apenas para ver aquilo passar por um processo “entorpecedor” que vai tornar o que escrevi ideologicamente “kosher” (ou seja, “sanitizado”), quando podemos garantir nossa segurança no trabalho (e dos caracteres que publicamos) publicando nosso zilhonésimo artigo argumentando que Donald Trump é o único perigo para o país e o mundo? E assim a autocensura se tornou a norma“;
  • O Pavor da Repercussão Digital – “Todo mundo vive com pavor das “tempestades digitais”. O veneno on-line é aceito, desde que seja direcionado aos alvos adequados”

Chama atenção uma frase dela “Sempre fui ensinada que os jornalistas eram encarregados de escrever o primeiro rascunho da história ” … “Agora, a própria história é mais uma coisa efêmera moldada para atender às necessidades de uma narrativa predeterminada“… ou seja, que o jornalista deveria deixar para a posteridade, se exercido com honestidade, a base para depuração, estudo e análise dos fatos, sem viés de nenhuma natureza, para que a história seja escrita no futuro sem o vício antigo de ser “a história dos vitoriosos”.

Sempre fui ensinada que os jornalistas eram encarregados de escrever o primeiro rascunho da história ” .

Barri Weiss

Ela diz ter sido chamada de “nazista” (ele é judia, sionista) e racista, por colegas de redação. “Meu trabalho e meu caráter são abertamente desprezados na rádio-corredor de toda a empresa, onde os editores regularmente opinam e influenciam”. Ainda, “Aparecer pra trabalhar, e se identificar como centrista em um jornal americano não deve exigir coragem“.

A síntese, e sua aplicação no Brasil varonil é simples – a mídia americana está dominada pelo medo de quem vocifera mais nas mídias sociais, como Twitter, FB, etc. Entretanto, esse “medo” só tem efeito se for para os “alvos adequados” (no caso dos EUA, o presidente e qualquer conservador). Qualquer repercussão, por maior que seja, por parte da ala conservadora do país, não tem qualquer repercussão na mídia, e parece que “não existiu”.

Como aqui, ainda há um determinado consenso de que se não saiu no JN, ou no Fantástico, “não aconteceu”. Isso já não é mais verdade, e cada vez menos o é, mas continua a ser assim considerado pela própria mídia “mainstream”. Lula e Dilma (um deles, pelo menos) dizia só ter medo de algo se aparecesse no Jornal Nacional. Ou seja, uma ditadura de informação que é olhada por olhos míopes de nossa classe governante como sendo “o Ó do borogodó”, mesmo que isso não seja mais verdade.

Bari Weiss disse que quando a mídia abriu os olhos, Trump já havia vencido a eleição, que eles consideravam “ganha” (tinha capa impressa falando “Madame Presidente” para Hillary). Os jornais falam e repercutem um grupo de pressão, e não estão dando ouvidos à sociedade como um todo.

Aqui não é diferente. A imprensa também dava como certa a vitória de Haddad, até dias antes da eleição. Não enxergaram o cara da esquina, o seu Zé do Bar da Esquina, a Dona Maria, que vai na Igreja da Assembléia de Deus 4 vezes por semana e assiste o programa do Ratinho.

E assim vamos vendo o “primeiro rascunho da história” ser escrito diante de nossos olhos, sem um mínimo de equilíbrio, e com uma dose a menos de verdade.

Talvez…

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Photo by dylan nolte on Unsplash

Roberto Montechiari Werneck

Quando vejo o hábito policial de pisar no pescoço de negros, mulheres e minorias, lembro da fala de George Orwell no livro 1984: “Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre”. Ao ver estas imagens fico me questionando sobre as engrenagens de um sistema que se vale excessivamente da punição, de estímulos aversivos, para conter os comportamentos das pessoas, para ensinar hábitos edificantes, para fazer um mundo melhor.

Particularmente, não consigo crer que uma sociedade sadia possa surgir de relações opressivas e desumanizantes. Sim, vejo que os males sociais que hoje enfrentamos são exatamente fruto de escolhas passadas que usaram o chicote, a cela, a forca e a força no intuito de construir um mundo mais civilizado. As escolhas continuam as mesmas e os resultados, possivelmente, serão ainda piores que os que hoje assistimos e/ou sofremos.

Uma bota pressionando um pescoço, um rosto humano, é a declaração de um poder altivo diante daquilo que é considerado desumano, inferior, descartável. Sim, vemos todos os dias a declaração de que existem castas em nossa sociedade. Há aqueles que humilham e os humilhados; há aqueles que tudo podem e aqueles que nada conseguem; há aqueles que possuem tudo e os que pouco ou nada tem. Normalizamos essa diferença, nos insensibilizamos diante da morte, diante de milhares de mortes; nos acostumamos aos jovens que são dilacerados por vícios, de velhos que vivem na vergonha do descaso, de crianças que são apenas substituíveis, de mulheres que são objetos de uso, de trabalhadores que sofrem o abuso do capital.

Talvez seja tempo de entendermos que a agressão, a guerra, o ressentimento e coisas do gênero nunca produzirão admiração necessária para mudar hábitos nocivos. São comportamentos que normalmente reproduzem a si mesmos. Precisamos entender que o bem que desejamos em sociedade se faz por mudança de hábitos nas relações com o nosso próximo. É isso fica claro quando admiramos a ação policial respeitosa e humana, quando encontramos políticos que mantém a ética e o compromisso com a justiça social, quando encontramos pais comprometidos e filhos respeitosos.

O bem só se torna impraticável em nossos dias, porque receamos ser tachados de bobos ou inocentes ao tratarmos o agressor com a outra face, ao lidarmos com paciência com os destemperados, ao perdoarmos o mal que foi praticado contra nós. Mas tenha certeza de uma coisa, essa bota não ficará eternamente pisando o rosto de um ser humano.