O Idiota em mim, e em você

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Se sentir um completo idiota é uma coisa que deve, na minha opinião, ocorrer com cada um de nós pelo menos uma vez por dia, senão mais. Não que eu queira, ou que algum de nós queira ser um idiota, ter cometido uma idiotice ou faça algo com consequências graves, ou não, de sua inépcia, insensatez ou idiotice mesmo. Tenho o dever de me sentir idiota, para que não seja sem saber.

Mas o fato é que reconhecer que fez algo idiota já é algo bom. Pelo menos a gente está ligada no que faz, acha que poderia ter feito melhor, ou reconhece quando algo não está à altura do que é preciso ser feito. É uma sensação horrível, de incompetência, mas ao mesmo tempo libertadora, pensando bem, por pelo menos eu saber que entendo o que fiz errado.

Adoro atribuir ao Apóstolo Paulo uma frase que ele nunca disse (pelo menos que eu saiba) mas que tem toda a cara dele:

Bem aventurado aquele que sabe aquilo que ignora

Apócrifo

Como é bom olhar algo e ter certeza absoluta de não saber nada, zero, a respeito. Eu estou em busca de expandir o limite da minha ignorância (ou melhor dito, daquilo que conheço), a fim de ignorar cada vez menos. Mas é muito difícil.

Nelson Rodrigues dizia com muita propriedade que

Os idiotas vão tomar conta do mundonão pela capacidademas pela quantidadeEles são muitos.

Nelson Rodrigues

Somos mesmo muitos…

Mas a razão de eu falar de tanta “idiotice” é menos filosófica e mais prática. Existem várias “bolhas”, como se diz por aí. Fala-se muito em “fazer algo repercutir fora da bolha”, e coisas parecidas. Eu costumava não me achar encerrado em em nenhuma delas. Mas francamente, já não sei não. E falo da bolha política, mas também da bolha dos costumes, do politicamente correto/incorreto e todas as outras, que os tempos de Mídias Sociais parece que reforçaram. Eu começo a achar que eu talvez esteja olhando o mundo com óculos errados. Afinal, amigos meus, grandes amigos, deram de ralhar comigo, à vera, por conta de certas posições minhas. Não são necessariamente posições políticas, mas são posições que tem um profundo impacto no que eu penso ser o meu modo de viver ideal.

Já escrevi várias vezes que me identifico como um conservador, cristão e que tento ser racional. Por isso, assuntos como a liberdade de cátedra, a inviolabilidade do direito de opinião, e o caráter absolutamente iconoclasta da ciência tendem a ter muito eco no que eu penso e faço. Assuntos que eu julgava que não mereceriam mais do que um olhar superficial, como por exemplo, a realização ou não de um campeonato de futebol de 30 dias, com sei lá, 16 seleções, sem público, todo mundo testado pra Covid, estão gerando tanto problema que eu chego a me encolher diante de opiniões de amigos que eu julgo inteligentes e sábios.

Outra feita, é uma tal CPI da Covid, que eu não entendo como é que alguém em sã consciência pode dar a mínima credibilidade, ganha tanto espaço e é considerada tão fundamental pra sociedade, neste momento de pânico e suspense: como uma comissão que é presidida e relatada por dois sujeitos desqualificados, moral e legalmente, pode ser levada adiante sob holofotes do Brasil e do mundo, sem qualquer questionamento.

Devo estar priorizando somente um lado da opinião, e isso não gosto de fazer. Deve haver, então, algo errado, e é COMIGO. Afinal, gente que considero muito melhor do que eu enxerga razoabilidade nisso tudo. Desde discutir por conta da tal Copa como assistir uma CPI como se fosse um seriado da NetFlix.

Desde o início desse processo de pandemia eu tenho pensado em muitas coisas que em outros tempos não teriam qualquer repercussão, como o uso ou não desse ou daquele comprimido disso ou daquilo, do tempo que o comércio deve ficar aberto ou fechado, do tanto de transporte coletivo que temos que ter, do atraso de dias, ou meses (dependendo da fonte) para obtenção de vacinas… Tudo o que tenho visto parece formar parte de uma curva de aprendizado sobre algo que nenhum de nós têm a menor experiência, e cujos erros certamente foram cometidos. São patentes, mas não são mais do que isso mesmo – erros, inadequações, idiotices. É o Galípoli, do mesmo Churchill que nos salvou da ameaça nazi-fascista, anos depois. É a tragédia de uma situação que ninguém poderia dizer-se preparado para enfrentar.

Meus amigos, que realmente (não é ironia) são melhores e mais sábios do que eu fazem coro com boa parte da população que bate sem parar no governo (vou fazer aqui a ressalva de sempre – votei e votaria de novo em Bolsonaro em 2018, mas não voto nele se houver alternativa conservadora minimamente capaz de vencer uma eleição).

Um dos meus esportes preferidos é dividir problemas em partes e tentar raciocinar sobre cada uma das partes. Coisa de gente limitada – como eu tenho dificuldade com variáveis múltiplas, busco isolar cada uma e resolvê-las separadamente, e tentar assim chegar a uma conclusão sobre o todo. É isso que tenho tentado fazer ao longo da vida, com algum nível de sucesso.

Mas estou apavorado comigo mesmo. Não sei se estou numa bolha tão, mas tão fechada, que não consigo enxergar algumas coisas que outros veem por óbvio. Eu realmente não consigo “fechar questão” sobre alguns assuntos que uns têm por certo. Eu não consigo achar defeito grave numa economia que conseguiu cair, com Covid e tudo, menos do que entre 2013 e 2014, sem nada, exceto o fato de termos tido um péssimo governo.

Além de tudo isso, tenho uma visão de que no final das contas, o mercado consegue, com seus milhares de interações diárias, de milhares de cabeças pensantes, indicar o que realmente está acontecendo, quando as câmeras e microfones são desligados e os políticos voltam pros seus sepulcros caiados.

Enfim, terminando, outra citação de Nelson Rodrigues, que pretendo manter na mente, justamente por tudo o que já escrevi acima:

Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.

Nelson Rodrigues

Acelerados demais

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Me pego volta e meia me mandando respirar fundo e desacelerar. O fato é que minha agenda não ajuda nem um pouco, muito menos a pressão de produzir resultados bons, confiáveis, revisados e rápidos. Ter tudo isso junto, numa entrega só, é quase impossível. O resultado são noites em que parece impossível desligar.

Sinto isso muito mais intensamente quando faço a atividade que costumava ser prazerosa, de ler a Bíblia, meditar no que me está sendo dito por este Livro, e internalizar conceitos que farão toda a diferença na minha caminhada diária. Cada dia está mais difícil ser profundo. Cada dia mais fácil a mente vagar.

Escrever se torna uma forma de dar ordem aos meus pensamentos, pois que se não fizer isso, nada bom sai pro papel virtual. Qualquer um pode notar perfeitamente quando estou mais ou menos focado e relaxado – é só ler minhas crônicas e artigos e comparar. Verão quantas vezes eu pulo de galho em galho, de aspecto em aspecto, sem conectar os pontos. Pra mim, está tudo tão claro, que eu assumo, presumo, que o leitor eventual vá achar que está claro para si também. Isso raramente acontece.

Na mesa, já não tenho paciência sequer de dizer com clareza: “me passe o saleiro?”, me limitando a apontar na direção geral do objeto e grunhir qualquer coisa, esperando que os filhos ou a esposa vão entender por milagre o que estou querendo.

Que vida! Que pressa, que aceleração iníqua! E que tempo perdido, paradoxalmente, com tanta pressa!

O velho Armindo Constantino Montechiari, o velho “Nonno”, costumava dizer que “quem faz errado, faz duas vezes” (ao que acrescento – ou mais do que duas vezes). E obviamente estava certo, e está, até hoje. Costumo refazer raciocínios, irritar as pessoas quando estou acelerado demais, e não passar mensagem que presta. Não é saber ou não saber o que dizer: é atropelar o que falo e com isso deixar todo mundo na mão, sem saber o que quero transmitir. Por isso escrevo. Se tornou mais fácil.

Em um grupo de amigos profissionais, espera-se que eu dê não minha opinião, mas exemplos meus, próprios, que possam ajudar a pessoa a chegar às suas próprias conclusões, sem que eu tenha que “informar” algo. Ocorre que quando se está acelerado, quando se está vivendo dois segundos por segundo, o estrago é fácil de prever – a cara de bobo de pessoas que acham que você deve ser inteligente demais, afinal falou algo que ninguém entendeu (penso eu) ou então o contrário – o que é que este cretino quis dizer com esse amontoado de bobagens? O grupo se frusta comigo, eu me frustro comigo, porque não consigo passar as ideias uma palavra de cada vez.

Essa aceleração vai para o campo do relacionamento pessoal, e só desacelera nos finas de semana, quando uma caminhada melhor, a tranquilidade de uma boa música, uma mesa boa, da melhor cozinheira do mundo, Aline, e um vinho de qualidade nos fazem parar e pensar na vida. O domingo, com suas idas à Igreja, nos leva a sentar e ouvir o sermão com atenção e introspecção, lembrando daquilo que Deus quer falar pro nosso coração.

A alternativa que tem sido (meio que) imposto à nós é a da meditação que nos leva a “esvaziar a mente”. Eu não sou lá muito fã, porque ainda sou do tempo em que se dizia que mente vazia é oficina do diabo. Além disso, o Apóstolo Paulo falava que legal mesmo é “encher-nos do Espírito Santo”, ou seja, tirar o “excesso de nós mesmos” e dar lugar ao Espírito de Deus e suas palavras, sempre calmas e doces. Mas é uma dificuldade conseguir isso frequentemente.

Para não dizer que sou contra tudo o que é oriental, sinto que é muito proveitoso respirar fundo, prestar atenção na nossa respiração, e focar a cabeça num só ponto, um só pensamento. Isso me ajuda.

Se você, como eu, é acelerado mentalmente, e está sentindo que isso cobra um alto preço, solidarize-se comigo. Eu pretendo desacelerar, do falar ao pensar, do sentir ao comer, do respirar ao dormir. E fazer tudo com mais propósito.

Não quero deixar que o FaceBook ou o “ZapZap” ditem meu ritmo. Afinal, pressa continua a ser inimiga da perfeição!

Estados Disfuncionais

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A Wikipedia tem um verbete enorme sobre o assunto dos “Estados Disfuncionais”. Chamo de Disfuncionais porque a tradução exata do inglês é “Estados Falidos” ou “Estados Falhos”, que não faz jus ao que realmente se chama de “Failed States”. Se tiver curiosidade, veja emhttps://en.wikipedia.org/wiki/Failed_state#:~:text=Examples%3A%20Syria%2C%20Somalia%2C%20Myanmar,the%20expense%20of%20other%20groups).

A definição, que é o conceito que interessa aqui, é a seguinte, numa tradução livre, minha, da versão em inglês do verbete:

Um estado falido é um corpo político que se desintegrou a tal ponto que as condições e responsabilidades básicas de um governo soberano não funcionam mais adequadamente … Um Estado também pode fracassar, se seu governo perder sua legitimidade, mesmo que esteja desempenhando suas funções de maneira adequada. Para um Estado estável, é necessário que o governo goze de eficácia e legitimidade. Da mesma forma, quando uma nação se enfraquece, e seu padrão de vida diminui, ela traz sobre si a possibilidade de um colapso governamental total. O “Fundo para a Paz” (ONU) caracteriza um estado falido como tendo as seguintes características:

O texto segue caracterizando o que faz um Estado um corpo Disfuncional:

  • Perda de controle de seu território ou do monopólio do uso legítimo da força física
  • Erosão da autoridade legítima para tomar decisões coletivas
  • Incapacidade de fornecer serviços públicos
  • Incapacidade de interagir com outros estados como membro pleno da comunidade internacional

Alguns países são classificados como em grupos de risco, variável, em relação ao seu grau de aproximação do ponto de ruptura, ou declínio do Estado até se transformar em Disfuncional. Figuras, ó Brasil, florão da América, em posição desconfortável, em péssima companhia, como segue a classificação atual

  • Países com aumento de conflitos de grupos comunitários (étnicos ou religiosos) – Síria, Somália, Mianmar, Chade, Iraque, Iêmen, República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Libéria, Iugoslávia, Líbano, Afeganistão, Sudão, Sudão do Sul.
  • Predação estatal (corrupção ou desvio de recursos às custas de outros grupos) – Nicarágua, Venezuela, Brasil, Filipinas, Croácia, Sudão, Sudão do Sul, Nigéria, Eritreia, Zimbábue, África do Sul, Coreia do Norte, Arábia Saudita, Rússia, Catar, Líbano.
  • Rebelião regional ou guerrilha – Líbia, Síria, Iraque, Afeganistão, Iêmen, Congo, Colômbia, Vietnã.
  • Colapso democrático (levando à guerra civil ou golpe de estado) -Libéria, Madagascar, Nepal.
  • Crise de sucessão ou reforma em estados autoritários – Indonésia (sob Suharto), Irã (sob o Xá Rheza Pahlevi), União Soviética (sob Gorbachev).

A lista deve ter já alguns anos, provavelmente se remetendo à época de governos de esquerda, no Brasil, ou antes da total derrocada do Estado nacional Venezuelano, sob Nicolás Maduro. Estar na incômoda posição de equivalente a uma Venezuela, Coreia do Norte ou Nicarágua certamente NÃO é legal. A lista é certamente pré-pandemia de Covid-19.

Importante é que percebamos o QUE nos leva a essa situação. Onde estamos hoje e que circunstâncias leva um país moderno, em termos de gestão (tecnologia aplicada), formação sócio-econômica (PIB per capita) e até mesmo educação (básica) a figurar como um Estado Falido ou Disfuncional?

Perda de controle de seu território ou do monopólio do uso legítimo da força física

O Brasil, não é de hoje, perdeu sua autoridade sobre parte dos seus territórios. O livro “O Império e os novos Bárbaros” (de Jean-Christofe Ruffin, de 1989) mostra com destaque como o Brasil perdeu parte de seus territórios para as milícias e grupos de crime organizado. O livro é excelente. Pena que a edição que tenho contenha um prefácio (bem plagiado, creio) de Collor de Mello…

Além da perda de controle de favelas e áreas semi-conflagradas no país, o Brasil possui outras áreas, significativas, de seu território que de fato não controla. As reservas indígenas, não por sua característica de proteção às etnias, mas pelo domínio exercido sobre elas por ONGs e nações estrangeiras, são território de novos bárbaros. As terras de garimpo no Norte são outro exemplo, facilmente verificado toda vez que vemos um carregamento de toneladas de ouro ser descoberto, contrabandeado, por algum cartelzinho ou facçãozinha, lá na França.

Já sobre o uso legítimo da força, o STF, com sua decisão de bloquear a atividade policial em favelas, criou pelo menos 2 anos de “trégua” aos “donos” dos morros, reforçando os Estados-dentro-do-Estado (ou a barbárie), sobre os quais não temos nenhum controle como sociedade.

Erosão da autoridade legítima para tomar decisões coletivas

A tomada de decisões coletivas é feita por consenso, numa sociedade funcional. Este consenso se chama Eleição, e suas ramificações chegam aos três poderes pela via do voto – a)do executivo, de forma direta e majoritária, dando ao eleito, em qualquer nível, direito de estabelecer sua política e diretrizes, vencedoras nas urnas; b)do legislativo, também de forma direta e proporcional, a fim de que os eleitos possam não somente fiscalizar o executivo como propor e votar o consenso das decisões, que, se cremos na qualidade do sistema de representação, implica necessariamente numa decisão coletiva; c)no judiciário, por vias indiretas, e não tão de consenso, porque alguns níveis do judiciário são escolhidos ao arbítrio do governante (STF, STJ). Mesmo assim, a maioria do judiciário pode-ser dizer ter sido escolhido por consenso, já que um concurso público foi a forma votada e aprovada por legisladores, para a formação do judiciário.

Onde esta faculdade está erodida no país? Quando o executivo perde sua capacidade de implantar as políticas vencedoras nas eleições, por interferência direta de outros poderes, por exemplo. Quando a câmara não pode tomar decisões saudáveis e independentes, por haver outro poder comprando ou dominando o processo, seja por pressão financeira seja por pressão derivada dos muitos rabos presos.

Incapacidade de fornecer serviços públicos

Seja nos ambientes controlados pela nova barbárie, seja em regiões tão remotas como os fundões da Amazônia legal, o fato é que o Estado brasileiro tem falhado em prover o mínimo, que faz de uma nação um país “de todos” e para todos.

Mas até aí vamos, sem tanta crítica, pois que houve inegável avanço, seja em alfabetização seja em moradia e renda mínima, principalmente entre os anos de 1960 e 1980. Os anos Lulla também mostraram, por vias controversas e com intenções inconfessas, que o boom das commodities do início dos anos 2000 foi suficiente para gerar tanto excedente que mesmo a pior pilotagem possível nos levou a um porto razoável. Os anos Dillma nos levaram ao caos gerado pela incapacidade de enxergar que o boom havia acabado, e os gastos públicos (e a dívida pública) tinha mais que duplicado, com os resultados inevitáveis que vimos.

Hoje, sabemos que só parcerias público-privadas ou a iniciativa privada, isoladamente, podem resolver problemas como saneamento e infraestrutura de transporte e energia, já que o Estado, sitiado e sobrecarregado por corporações, não faz grana nem pra pagar os cidadãos de primeira classe que lá residem.

Incapacidade de interagir com outros estados como membro pleno da comunidade internacional

Aqui também não temos muito do que nos orgulhar. O Anão Diplomático continua vivo e incólume, desde os tempos de Collor, passando por todos os governantes posteriores, sem exceção. Não vamos extrair da lista de “nanicos” os recentes governos Temer ou mesmo Bolsonaro. Aliás, este último protagonizou um nanismo que foi na contramão de tudo o que se tinha por pilar da diplomacia, desde Rio Branco – tomar partido, se aliar a governos de ocasião no exterior, em vez de se manter neutro e independente de rixas e eleições que não nos competem.

Resumão

Por pelo menos três das quatro razões acima, somos um Estado Disfuncional. Mas nada, absolutamente, se compara ao show de horrores protagonizado pela nossa Suprema corte.

Enquanto isso, os bárbaros (do PCC e Comando Vermelho aos partidos albergados sob togas do STF até os movimentos sem-isso e sem-aquilo, que criam áreas não alcançadas pelo Estado, passando pelas ONGs de interesses obscuros) tomam cada vez mais nacos importantes do nosso território, seja urbano seja rural.

Somos corretamente tachados de estado de “Predação Estatal”. Claro que há mais ilustres “cumpanhêru” que não estão listados ali, como a notória Argentina, que abriu mão de sua liberdade e reconvocou a esqueda de lá pra voltar ao poder e terminar de quebrar a nação irmã.

Somos predados pelo tal “mecanismo”, que, segundo li em algum lado, quer manter o estado sempre vivo, mas no limite da consciência, para que continue a ser sugado.

Deus tem mesmo que sarar nossa terra, como diz a Bíblia, pois que as chagas aumentam.

O dilema que interessa

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Hoje, numa roda de grandes amigos no WhatsApp, falei uma frase que quero repetir, abaixo:

O ser humano, quanto mais bem sucedido, mais próximo está do caos.

Eu mesmo

Por que e em que contexto eu disse isso? Estávamos discutindo sobre uma recente matéria da revista Nature (https://www.nature.com/articles/s41467-021-22446-z) sobre o caráter inócuo da Hidroxicloroquina no tratamento de Covid-19 (o tema que não quer calar).

Eu, como bom negacionista que sou, argumentei com dois links de entidades igualmente respeitáveis, o Lancet (https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31180-6/fulltext) e o New England Journal of Medicine (https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMc2031780) as quais, respectivamente, se retratam (Dez de 2020) de um artigo com o mesmo teor da Nature de ontem, ou dão certa razão à mal/bendita HcQ.

Do lado de lá deste debate virtual algumas das melhores cabeças pensantes que conheço e partilho amizade. Gente difícil de convencer e de argumentar. Intelligence is a bitch!…

A frase, que adoraria ver celebrizada, veio de um pensamento que tive na hora que mencionei a frase recente de um prêmio Nobel de medicina, Richard J. Roberts:

Medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos por empresas farmacêuticas que, em troca, desenvolvem medicamentos “cronificadores” que sejam consumidos de forma serializada.

Richard J. Roberts, Nobel de Medicina

Somei as duas frases, e coloquei então de lado, na minha cabeça, toda a discussão sobre HcQ e Covid e pensei no paradoxo que me levou à frase inicial: Quanto mais bem sucedidos como espécie nos somos, mais perto estamos do caos, e da extinção.

Eu fico pensando no meu jardim aqui em casa, e do fato de que preciso podar sem piedade algumas plantas para que elas continuem viçosas e produtivas. A vida das plantas depende, de certa forma, delas não crescerem indefinidamente. Deixado à própria sorte, o jardim cresce até se matar.

Essa constatação vem de encontro ao que o Mr. Smith, o vilão de Matrix, disse ao Neo (personagem de Keanu Reeves): “os seres humanos são como um virus sobre a terra… se reproduzem até destruir tudo ao seu redor“.

Então estamos fadados, desde o Jardim do Éden (ou desde o paleolítico, como queiram) a nos auto destruir na exata medida em que a civilização progride? Será que teremos que receber “podas” rasas frequentes, como a Peste Negra, a Gripe Espanhola, ou as Grandes Guerras, a fim de nos mantermos viçosos num mundo finito?

Essa já foi a indagação de vários filmes e livros sobre Distopias. Ora é um mundo em que deve-se morrer aos 30 anos (Admirável Mundo Novo de Huxley), ora é um mundo em que somos confinados em “mônadas urbanas” (Mundos Fechados de Robert Silverberg).

O ser humano é (até onde podemos confirmar) o único ser “imagem e semelhança de Deus” (eu creio), no sentido em que somos sencientes, ou seja, pensamos de forma autônoma, e detemos livre arbítrio. Portanto, somos os primeiros seres vivos sobre o planeta a termos a oportunidade de não experimental o caos como resultado de um vigoroso crescimento, reduzindo ou eliminando guerras. Como?

O Japão nos dá uma lição e uma pista importante sobre este tipo de futuro. São uma nação que envelheceu em pouco tempo (de 1945 para cá) e hoje tem a primeira população francamente em declínio no planeta.

O declínio gerou uma população velha e incapaz de arcar com custos como seguridade social (que no modelo atual equivale a um esquema Ponzi – pirâmide – que só funciona se tiver mais gente na base do que no topo). Esse declínio gerou também gastos médicos muito mais altos do que o resto do mundo, e menos dinamismo na economia. O fato é que há 20 anos os Dekasseguis brasileiros eram odiados por lá, e hoje tolerados, por serem da mesma “raça” (com pedido antecipado de perdão aos mais sensíveis) do que eles e falaram algo do idioma.

O Japão nos mostra que controlar a natalidade não resolve a equação da sobrevivência com sucesso, ou resolve até determinado ponto. Os economistas e biólogos estimam em 2,1 filhos por mulher (Opa… seres humanos que menstruam) como ponto de estabilidade para a raça humana continuar indefinidamente no planeta, desde que aprenda a lidar com ele.

Antibióticos, nutrição, segurança e educação fizeram com que a população do mundo explodisse, consumindo recursos e colocando o planeta em risco, nós dentro dele. Como não temos outro planeta, a grita por medidas que não agridam ou meio ambiente aumentam também exponencialmente. Por outro lado, algumas das propostas para isso implicarão em fome (ainda existente, e muito), desemprego e instabilidade política e social. O “fique em casa” de hoje é apenas um ensaio de uma situação que pode vir a ocorrer, por outras razões, muitas vezes, num futuro próximo.

O problema é que as soluções aventadas nunca, ou quase nunca, passam por um processo democrático ou humano. São quase sempre impostas, e não infrequentemente, letais. Esquecem-se, também frequentemente os formuladores de soluções “de força” que o fator tecnologia e inteligência, além do fator bondade, amor e empatia devem ser levados em consideração. Tecnologia e inteligência salvaram o mundo pós guerra da miséria e da fome. Fatores como bondade e misericórdia, quando aliadas à tecnologia, costumam produzir milagres.

Estamos diante do impasse que propus na frase que abre o artigo. Que o impasse seja resolvido com bondade, misericórdia e tecnologia, e não com guerras, pestes e fome.

Nós e os Agostinho Carraras dessa vida

O Álbum da Grande Família': Relembre os figurinos de Agostinho Carrara no  seriado | Estilo | Gshow
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Circula um vídeo do ator Pedro Cardoso, que interpreta(va) Agostinho Carrara na TV, no qual ele derrama sua sabedoria sobre todos nós, respondendo perguntas feitas por internautas sobre os mais diversos temas.

Agostinho, ou melhor, Pedro, nos brinda com o melhor do padrão Globo de pensamento. Tive que comentar porque parece inteligentíssimo. O cara é articulado, e tal como Agostinho da TV, convence quem não entende o que é “blague” e o que é raciocínio, no duro, pra valer.

Duas coisas me chamaram atenção, e comento as duas em separado pois pode interessar a quem queira entender porque falar certas coisas é fácil, e desmenti-las dá um trabalhão…

Portugal é um destino Socialista

Uma das perguntas feitas a Agostinho (digo Agostinho pois certamente parece ter sido ele que respondeu, mas creio que poderia ter sido o Pedro, com os mesmos efeitos) era por que ele não ia pra Cuba, em vez de ter escolhido Portugal.

Com muita ginga e malandragem típicas do Agostinho, o cidadão responde que “se não sabíamos, Portugal era governado por um primeiro ministro socialista”. E para por aí, obviamente sem elaborar, pois que se elaborar, lascou o cano. Explicar com muitas palavras é coisa que complica, em alguns temas – principalmente naqueles em que há necessidade de rigor técnico e veracidade.

Portugal… Cuba… Cuba… Portugal… hummm, sei não. Qual dos dois é o destino que poderíamos considerar compatível com o que pensa o Pedro (o Agostinho creio que gosta mesmo é de Miami)? Se o objetivo é ser coerente com o que pensa o Pedro, ou pelo menos o que verbaliza, Cuba, ou ainda, China ou Coréia do Norte, seriam destinos mais alinhados ideologicamente.

Afinal, Portugal “está” sob um primeiro ministro socialista, eleito democraticamente, e cujo mandato pode ter um fim a qualquer momento, caso uma moção de desconfiança o retire do cargo prematuramente. Ainda, Portugal já esteve sob vários governos com tons de ideologia diferente, e certamente predomina uma certa social-democracia, embora se vejam nas ruas (a última vez que vi ao vivo e a cores foi entre 15 e 30 de Novembro de 2019, antes dessa peste toda) bandeiras com foices e martelos por todo lado.

Nada disso, porém, tirou (ainda) a liberdade dos portugueses de votar e serem votados, propor mudanças na legislação, eleger de acordo com a representatividade de cada região, demitir seus políticos, ter propriedade privada, fazer negócios intera e externamente, comprar e vender como bem entenderem, e qualquer outra atividade que configure uma nação fundamentalmente democrática. Tal não pode ser visto em Cuba, China, Coréia do Norte e outros paraísos frequentemente descritos como o céu na terra pelos ideólogos, o Shangri-la, o objetivo a ser atingido.

Pedro foi para Portugal. Pedro poderia ter ido para Cuba. Não existe forma de convencer Pedro a ir para Cuba, exceto de férias, na praia, talvez. Pedro é “Cardoso”, o que lhe deve ter legado um passaporte da Comunidade Europeia, um ente significativamente democrático, ainda que com viés social-democrata.

Pedro não ganhou dinheiro com Agostinho – só a Globo

A segunda grande colocação que ouvi (confesso que depois disso tive que sair pra não vomitar) foi a resposta à colocação de um internauta sobre o fato dele ter ficado rico com o Agostinho, e posar de socialista.

A resposta, pérola de hipocrisia e desintendimento sobre a natureza do capitalismo foi mais ou menos assim: “eu não ganhei dinheiro; ganhei um salário; quem ganhou dinheiro foi a Globo. É essa a natureza do capitalismo – o capital é que ganha dinheiro”, ou coisa que o valha.

É odiosa a posição dele. Provavelmente não deve ter recebido o jabá dele como “salário”. Como quase todo vivente bem instruído por contadores e advogados, o sujeito deve ter aberto sua Pejotinha (empresa de prestação de serviços), sabe-se lá, a Pedro Cardoso Produções Artísticas Ltda., e se aproveitado dela para faturar pagando algo em torno de 16% de tributos totais, e usando o resultado líquido como distribuição de lucro (não tributada) para receber os proveitos na sua Pessoa Física.

Duvido que o referido socialista tenha deixado na mão da Globo o valor integral do que recebeu, à razão de 27,5% de IR mais 11% de INSS… duvi-de-o-dó.

Bom, às colocações dele:

Salário não é lucro e portanto não deixa ninguém rico

É isso que se pode inferir da resposta – Ora, mesmo na hipótese de que Pedro tenha sido subtraído em mais de 40% sobre seus vencimentos, de IR e INSS, convenhamos que um salário de, sabe-se lá, R$ 1 milhão ou R$ 500 mil por mês está acima do rendimento de quase qualquer brasileiro. Trata-se, porém, de um sujeito que se equipara, em termos de renda, aos maiores empresários do país. Não. Ele não detém o capital (pois não aplicou nenhum na produção do programa nem correu qualquer risco, não contratou gente, contra-regras, não comprou câmeras, nem nada).

Pedro, portanto, se coloca na mesma posição de qualquer trabalhador, empregado com carteira assinada, se sorte tiver. Considera-se um mero peão num joguete que é controlado pela malvada corporação à qual pertence, e que é o vilão de um jogo do qual ele seja, talvez, um dos grandes beneficiários. Não dá pra ser mais hipócrita.

A Globo é o Capital, e como tal, não deve ser boa

Bom, isso ele não disse, mas certamente, ao fazer a colocação do item anterior, certamente é a única coisa que se pode presumir. Capital é ruim. Ponto final. Capital é o vilão e não há discussão – se discutir é fascista, genocida e sei lá mais o que.

Qualquer conservador sabe que capitalismo, no duro, NÃO se faz com monopólios. A Globo já foi quase monopolista, hoje está entrando na vala comum das outras TVs, em termos de audiência. Em termos de qualidade é superior tecnicamente, e inferior moral e em termos de sua objetividade. Há anos sofremos um massacre da Globo. Eu mesmo tive que ser “desmamado” da Globo, como um toxicômano. Que falta fazia o JN… Por que? Por ter assistido desde os tempos do Reporter Esso, Cid Moreira e Eron Domingues à bordo. Outros tempos, herdados por esses que aí estão.

A Globo, sob comando da geração atual, se perdeu em seus padrões morais, e, pior, tenta insistentemente nos influenciar a crer no que os irmãos Marinho parecem ser os temas a serem levantados: promiscuidade sexual, adultério, louvor ao “espertalhão”, desestruturação da família, homossexualismo e outros tópicos que não lembram em nada a Santa Missa em seu Lar, dos tempos idos.

Concluindo, Pedro/Agostinho lançam mão dos argumentos manjados e batidos de qualquer esquerdista. É fácil, diz-se em poucas palavras, e para combatê-los leva-se tempo e é necessário pensar e refletir. Isso não é o forte dessa nossa geração, “shallow now” (and ever).

Vamos pedir a Deus que Pedro finalmente tope passar um tempinho em Pyongyang… Lhe fará bem ver o quanto há de distância entre lá, e Lisboa. Vá com Deus, Pedrinho…

Estados Digitais

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O Contrato Social

Jean-Jacques Rousseau tenta explicar, em seu “O Contrato Social”, a forma como a sociedade elaborou, ao longo de séculos, um pacto, em que os indivíduos abrem mão de determinados direitos em nome de obter as coisas básicas para uma vida “normal”: ordem, paz (ausência de guerras), justiça, etc.

Rousseau viveu numa época em que os estados nacionais modernos se encontravam ainda no nascedouro – tudo, até então, passava por imposição, em maior ou menor grau. Portanto, julgo eu, até a renascença, pelo menos, estados nacionais no conceito moderno do termo, não existiam.

Em 1762, quando Rousseau escreve, estávamos ainda a 14 anos da declaração de independência dos EUA, que abriu a “era moderna” (minha opinião) dos Contratos Sociais. Logo após, em 1789, a Revolução Francesa, uma excelente iniciativa cooptada pela esquerda da época, que a transformou em nada mais do que um grande banho de sangue, mudaria para sempre o comportamento dos reis e presidentes em suas cadeiras – de déspotas, ou quase, a seres incomodados com a opinião alheia – do povo. Isso, pela primeira vez na história.

Para ser bem justo, o primeiro experimento (forçado, diga-se) de algum tipo de descentralização de poder, se dá com a Magna Carta (o título inteiro dá uma boa ideia do que era – “Grande Carta das liberdades, ou concórdia entre o rei João e os barões para a outorga das liberdades da Igreja e do rei Inglês”, assinada debaixo de porrete pelo Rei João sem Terra, da Inglaterra, ainda em 1215. Descumprida pelo monarca desde o princípio, serviu, mesmo assim, de base para a moderna sociedade inglesa. Pasmemos: um documento odiado pelos reis, mal usado pelos nobres e posto em frangalhos pela Igreja serviu, mesmo assim, de base para a primeira grande nação da era moderna, e até hoje nos causa espanto.

Tudo isso computado, quando os EUA se chamam de um “Farol sobre a Montanha”, se referindo ao exemplo que deram ao mundo, não podemos dizer que se trata de exagero. De fato, ter constituição, e leis que tornem o estado democrático de direito algo primordial em uma sociedade, em que:

We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness”… (Temos essas verdades como sendo auto-evidentes, em que todos os homens são criados iguais, dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, entre os quais esão a Vida, Liberdade e a busca da Felicidade)

Bill of Rights, 1789

Definição de Estado Nacional

Antecede esses direitos e definições o conceito mesmo de Estado Nacional. Portugal é considerado o primeiro estado nacional dentro do conceito moderno, de nação – território definido, governo central, cidadania, etc. Fundado (conquistado por casamento) por Dom Afonso Henriques, depois Afonso I, tinha as características que hoje se esperam de um estado nacional:

  • Fronteiras – Definições claras de fronteiras marcam a base de um estado nacional moderno. Sem fronteiras demarcas, e principalmente, reconhecidas, não há estado nacional moderno; Disputas de fronteiras podem ocorrer, mas dentro da sede de um marco legal preexistente e reconhecido ao menos em parte, por outros estados nacionais
  • Cidadania – A definição de cidadão de determinado país, dada fundamentalmente por nascimento em suas fronteiras, é definida diferentemente por alguns países – desde os ultra-estritos, como o Japão (para quem alguém que nasceu lá pode não ser japonês, se não tiver características e ancestralidade japonesa) até os EUA (para quem o nascimento em seu território, mesmo se por acaso ou propósito específico de gerar cidadania são a regra), as definições de cidadania é a mesma – alguém “nosso” para quem nossas leis se aplicam. Neste conceito se abriga o “direito” de deportar cidadãos, por quaisquer razões que o Estado entenda aplicáveis.
  • Governo Central – Entidade controladora da justiça, leis, regras, a quem se delega o monopólio da violência (com exceções, como os EUA e seu sagrado direito de porte de armas ao cidadão) e controle da economia, moeda, etc.

Ficamos apenas nessas três características, já que o texto já se alonga.

Estados Digitais

Se eu estou dentro do Facebook, Instagram ou outra rede qualquer, apenas para ficar nas mais influentes e poderosas, aparentemente estou dentro de um “local virtual de convivência”. Chama-los de “redes sociais” implica, em minha opinião, em chama-los, fundamentalmente, de “estados digitais, no sentido em que, de fato, esses “espaços geo-digitais” se constituem num Estado Virtual. Como não?

  • Fronteiras – Possuem fronteiras claramente demarcadas. Aliás, são as fronteiras mais claras da história – tem que entrar no sistema, ou seja, passar por suas fronteiras, para “estar” no “país Facebook” ou “país Instagram”. Dentro desses países virtuais, temos a clareza absoluta de onde estamos no momento, mas não sabemos onde estão as fronteiras. É como morar no Amazonas e não enxergar, ou talvez sequer compreender, a distância que existe até o Rio Grande do Sul. Pior ainda, porque essas fronteiras se expandem na medida em que novos cidadãos virtuais nascem e desenvolvem novos territórios virtuais, alargando o tamanho da “nação”
  • Cidadania – Ora, para entrar neste país virtual, temos que nos cadastrar, e sermos aceitos. Isso obviamente gera uma cidadania, a qual é-nos graciosamente concedida pelo Governo Central. Os casos atuais de “cancelamentos” virtuais são uma analogia mais que perfeita com os banimentos praticados por alguns estados nacionais. Banir, cercear, punir, prender (ainda que virtualmente), multar ou quaisquer outras atitudes contra o “cidadão” comprovam que há, nesses países virtuais, um conceito claro de cidadania
  • Governo Central – Fica claro que se alguém dita as regras, tem o poder de definir as “leis” e detém o poder de polícia – o monopólio da “violência virtual”. Sua constituição e sua declaração de princípios, da qual lança mão para punir quem quer. Em sendo uma propriedade privada, trata-se, portanto, de uma monarquia, no mais estrito sentido do termo – Um que Manda.

Resultados

Somos então, cidadãos de estados nacionais virtuais, que cobram de nós impostos (pagamos, direta ou indiretamente, para estar ali, ou pagam por nós), nos mantém “na linha” e tem o direito de prender e banir, perguntamos: que direito temos?

Em monarquias tradicionais (sobram pouquíssimos exemplos delas), os direitos costumam ser nuisances, à disposição e alvedrio do monarca. Aplicam-se, ou não. Ocorre que, sendo estados virtuais supranacionais, não devem nenhuma obediência aos seus súditos. Ou será que deveriam dever (sic!)?

Em termos de Facebook, Instagram, WhatsApp, Parler, etc, não temos muita liberdade de expressão, e, no fim das contas, acabaram por nos caçar o direito de falar o que pensamos. Percival Puggina, hoje, reflete texto de Alex Pipkin, no qual este diz que “o primeiro cancelamento a gente nunca esquece”. De ontem para hoje, um texto dele foi “banido” (equivalente no mundo real de terem censurado o texto por ferir a moral e bons costumes, ou algo semelhante).

Como conservador convicto, creio que a empresa privada tem o direito de fazer o que quiser. No entanto, já não parecem se tratar de empresas, mas de monopólios, monarquias, e como tal talvez devam ser tratadas. À exemplo da Standard Oil ou da Mother Bell, talvez o nosso CADE virtual devesse impor algumas regras de funcionamento ou até provocar sua divisão.

Não apoio a divisão desses meios, pois a medida seria mais arbitrária do que o que essas “comunidades” fazem com seus cidadãos-virtuais. No entanto, equivalente a um posto de gasolina que tem que ter determinadas regras de segurança, ou frigoríficos que devem ter regras sanitárias, entendo que a constituição de um país deva ser aplicada ao mundo virtual que circula e contém seus cidadãos de carne e osso. Ora, se temos, no mundo real, o direito a opinião – ainda que por isso possamos ser levado à justiça – que tenhamos a mesma condição no mundo virtual. Não sermos taxados disso ou daquilo por conta de um rapazote ou moçoila de 20 e poucos anos, que se arvorou no direito de nos cancelar, por terem ficado irritado(as) com o texto.

No fim das contas, num mundo em que vivemos boa parte do dia virtualmente, estamos acabando por ser mais cidadãos virtuais do que reais.

Lockdown

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Estamos aí de novo, curtindo nova onda de “lóquedáum” por conta da Covid-19. Na verdade, pode-se dizer que é por conta de outros fatores, que não a própria Covid:

  • Pode-se afirmar, por exemplo, que é por conta dos respiradores nunca comprados ou superfaturados (e comprados a menos) pelos governadores e prefeitos
  • Pode-se afirmar que é por conta dos hospitais de campanha, pagos a peso de ouro, e desmontados menos de 3 meses depois (se tanto) e cujos leitos de UTI estão fazendo tanta falta agora
  • Pode-se ainda afirmar que é por conta do fato de que fizeram lockdown antes do que deveriam, ou ainda, da forma errada, focando mais no aspecto “eu mando” (imposição) do que no aspecto “faz que é bom” (educacional).
  • Pode, por fim, afirmar que é pelo fato de que mesmo antes de pandemia, já termos um déficit de UTIs crônico, e que a Covid só fez agravar…

Tudo isso pode, mas cá entre nós, o problema desde o início é se lockdown resolve algo. Lógico que resolve: tranca todo mundo em casa que não há circulação de ninguém e o virus de fato, não se espalha. Ao longo da história fez-se lockdown. Estamos hoje repetindo o que se fez desde a idade média, e suas pestes negras e pragas terríveis.

Mas o problema é não é esse. O problema é: num mundo com quase 8 bilhões de habitantes, e num país com problema crônico de sub-moradia e saneamento ruim, de gente que vende o almoço pra comprar a janta, que precisa, de trabalho todos os dias, querer que as pessoas fiquem por longos períodos em casa, e apenas um grupo de cidadãos de segunda classe se exponha, é bastante desigual e quase desumano.

Quando escrevo o Paraná fechou mais uma vez toda sua economia, basicamente, e São Paulo faz o mesmo, por mais 20 dias, como se 20 dias de um ano de 365 dias não fosse algo a ser devidamente matutado antes de decidido.

Complementando a lista lá de cima, nesta reflexão, pode-se afirmar que o uso dos lockdowns por motivos escusos, por parte de governos estaduais, são a prova cabal de que “o mundo jaz no maligno”, como a Bíblia fala. É realmente surreal ver governos fazendo a mesma coisa, repetidas vezes, sifonando dinheiro federal, nosso dinheiro, para tudo, exceto combate à pandemia (até salários estão sendo pagos com essa grana), fechando tudo pela 5a., 6a. vez, achando que “dessa vez vai”… a insensatez não tem limites, por aqui.

Enquanto isso, vamos sendo tangidos em direção à nova descrição de nossas atribuições como “gado” (não de bolzonaro, mas de qualquer governinho estadual-imperial): vacina também não resolve. Tem vacina, mas fique em casa, já teve covid, mas fique em casa, vacinou 2 doses, continue usando máscara, ficando em casa… ou seja, a impressão é que esta pandemia não terá fim, e que, se tiver, já existe outra preparada, ali na esquina, para nos manter reféns de ordens de nossos “piccoli capi”.

O Bonito é Difícil?

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Lutei a infância e adolescência pra aprender a ler música e a tocar um instrumento por ela. A preguiça e a pressa não me permitiram. Toco um violão meia boca, um baixo pior ainda, tudo de ouvido, e apenas e quase só na Igreja os nas atividades dela.

Minha esposa começou aos 5 anos no piano, lê música, rege corais, cursou faculdade de música sacra e é minha fonte de inveja eterna… Foi persistente e isso dá a ela hoje um “ativo” difícil de se obter depois de velho.

Um violinista disse que odiou o violino e as partituras até que finalmente começou a não pensar mais na “técnica” e a tocar o que lhe desse na cabeça, lendo ou não a pauta, porque já não precisava dela. A técnica o escravizou, depois ele escravizou a técnica.

O mesmo vale pra leitura. Nessa área eu vou melhor um pouco. Papai, professor de Português, sempre teve centenas de livros em casa e nos incentivava a ler. E não a ler qualquer coisa. Tenho até hoje a versão d’Os Lusíadas que ele me “deu” (roubei, melhor dito), da Editora Melhoramentos de 1950 e qualquer coisa. Linda! Li Machado de Assis pra caramba e odiei (Lusíadas também). Meu maior desafio, porém, foram os Diálogos, de Platão – principalmente “A República”, que eu me lembre. Sensação de perda de tempo, de opressão mesmo. Livro vai, livro vem, fui me ajustando a uma literatura, digamos, mais cordial a mim, como Stephan Zweig, Henri Charrière, Émile Zola, entre outros “clássicos não tão clássicos”. Adorei o conceito de “série” contida na epopéia dos Rougou-Marquart, de Zola, “uma história natural e social de uma família sob o terceiro império”, que começa com a história de Naná, uma prostituta, e cuja família vira “gente fina”. Fui polindo minha leitura até que hoje, vejam vocês, vou de um lado a outro do espectro, de “coisas” como J.K. Rowling e mesmo Paulo Coelho até C.S. Lewis, Eugen Rosenstock-Huesy, entre outros.

Bonito, então, é difícil sim. Tem que ser, pois que bonito é algo que se olha de fora e se admira como algo pouco, ou muito, extraordinário. Duvido que achemos uma flor algo “simples”, uma concha perfeita como “simplória” ou um soneto de Vinícius de Moraes algo “comum”. Útil também é difícil por natureza – pois que para ter utilidade deve necessariamente se prestar a um papel diferente do de estar parado, sem uso.

Para que todo esse palavrório? Porque estamos vivendo uma época de preguiça mental e hiper-simplificação de conceitos e significados. Esses dois exemplos – a música e a literatura, e a necessidade de trabalho duro sobre ambas, a fim de dominar o básico, para daí seguir, é um chamado ao “Ordo ab Chao”, sobre o que já tenho chamado atenção aqui e acolá. A ordem sobre a tendência do ser humano de simplificar coisas além do que é possível, e a certeza, como disse Einstein, de que não se deve simplificar além do máximo possível. A vida não para de pé, a sociedade não pra de pé, a religião não para de pé, nem um motor de fusquinha “para de pé” por assim dizer, se não houver a complexidade mínima que permita às partes funcionarem.

O título do artigo poderia ser “O Bom é difícil” ou “O útil é difícil” ou muitos outros. Apenas selecionei “bonito” por ser compatível com os dois exemplos que dei. Não há música bonita sem a mínima complexidade das notas que a compõem, assim como não há literatura possível sem o mínimo de trama, de arrumação gramatical ou semântica que nos leve a ter prazer nela.

Com nossa tendência ao caos, ao “mínimo possível”, à lei do menor esforço, enfim, a tudo o que desarruma, em vez de arrumar, teremos o mesmo fim melancólico que estamos presenciando na cátedra hoje, na família, hoje, na igreja, hoje, e em todo lugar.

Há um “diabo” em sociedade que nos sopra no ouvido sempre que o “simples é melhor” – simples sim, mas não menos do que o necessário à utilidade e beleza .

Carnaval Cancelado

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Creio que é a primeira vez na história… desde que a festa foi inventada aqui no Brasil. Posso estar enganado, mas parece que sim. Nem a 1a. ou a 2a. guerra mundiais isso aconteceu, talvez durante a Gripe Espanhola talvez – mas lá atrás não era assim um “festão” com direito a meio dia de quarta-feira de cinzas pra curar a ressaca, etc.

Sou cristão evangélico, daqueles chatos mesmo, que fala de Jesus quando pode e até quando não pode/deixam. Vou sim na “escolinha dominical” (como diria uma amiga minha em tom um tanto desrespeitoso), quando não tem Covid, claro. Dou dízimo (!) veja só… É, sou um “desses”.

Como cristão, portanto, me deixou bastante chateado a imagem de um “Cristo” sendo escorraçado e arrastado por uma figura representando um “Diabão” na avenida, pela escola de samba mais conhecida, a Mangueira. Não posso “admitir” como normalidade um tratamento como esse, num país majoritariamente cristão. Mas quem faz carnaval, quem faz esquerda ideológica neste país não é “povo”. É um grupo muito bem arregimentado e coordenado. Mas se eu amo a liberdade de expressão (e amo), então deixe os caras se divertirem com sua “brincadeira” com o Filho de Deus. Fazer o quê? Não posso trocar essa liberdade pela que seria retirada de mim, por exemplo, de falar desse mesmo Jesus Cristo em termos, digamos, mais afetuosos, embora essa liberdade que tenho esteja-me sendo retirada, pedacinho a pedacinho.

Chegamos ao carnaval seguinte. O de 2021… O carnaval da Covid (o de 2020 era “pré-Covid”). Quero aqui deixar de lado minha natural tendência de espiritualizar o fato passado e suas consequências. Quero somente lançar minhas dúvidas quando ao nexo de causalidade entre as duas coisas e dizer em alto e bom som (sic!) que aaaacho…. teeeeemo… que haja alguma coisa aí a ser interpretada em termos não tão pós-modernos, digamos.

Católico ou Evangélico, ou mesmo alguns espíritas, amigos meus, o fato é que todo mundo com um viés um pouco mais centrado, ou conservador mesmo, se incomodou com o espetáculo de desfazimento da fé alheia.

Quando o tal Bispo Honorilton da Igreja Universal chutou a santa (alguém lembra?) eu fiquei muito brabo. Como evangélico, certamente não advogo Maria como co-redentora ou intercessora, mas entendo que irmãos/amigos católicos o façam, e acho que a Palavra de Deus é clara quando diz que trazer alguém ao conhecimento de Deus não se faz “Por força ou por violência, mas pelo Meu Espírito” (diz o Senhor). Mas era “liberdade de expressão”, diriam alguns. Vá lá, mas não gosto.

O pior é que nem do ponto de vista teológico a tal representação do diabo maltratando e matando Jesus é adequada. A Bíblia diz que Jesus veio para os “seus, e os seus não o receberam”, e que ele foi “entregue nas mãos dos homens para ser morto”. Satanás, o capeta, o vermelhinho (como diria o saudoso Tio Antônio Dantas) é obviamente parte interessada no processo, mas não acho que Jesus foi morto “pelo capeta” mas pelo meu (e o seu) pecado. É uma construção de ponte, no qual somente Ele, Jesus, é “pontífice” – a ponte entre minha separação eterna de Deus e a vida com Deus.

Pois bem, o carnaval foi cancelado, vamos trabalhar (aqui na minha firma, pegaremos no pesado, normalmente) e não sentirei, como nunca senti, nenhuma falta da festa amada por tantos. A tentação, se é que o termo é esse, é dizer “viram só o que aconteceu? Foram zombar de Deus, e de Deus não se zomba… olha no que deu”… Obviamente os pós-modernos e menos crédulos acharão risível, e, olhando superficialmente, parece mesmo. Afinal de contas, o carnaval da Mangueira já estava sendo preparado desde 2019, ou até antes… o enredo já tinha sido elaborado, e as fantasias e o “Jesus” já tinha até sido contratados.

E daí? Deus por acaso – se você crê num sujeito Onipotente, Onipresente e Onisciente – teria algum problema em ver isso lá de antes? E a Covid seria algo dissociado disso, ou criada “só por conta disso”? Bom, aprendi que Deus é o melhor jogador de sinuca do mundo… o maior enxadrista, o maior cientista… Só ele conhece as relações de causa e efeito que podem fazer um fator (no caso, a Covid) ser usada para ensinamento, repreensão e correção de tanta gente, por razões tão diferentes, em tantos lugares. Essa Onisciência e Onipotência (de novo, caso você creia – eu creio) fazem com que ele dê uma tacada, e com ela só, “mate” todas as bolas do jogo. Sem nem olhar pra mesa. Ora, essa capacidade poderia, então, ser relacionada ao que aconteceu? Partindo das premissas de crença acima, sim.

O engraçado é que daqui há algum tempo isso corre o risco de entrar para o folclore religioso, como reação de um Deus vingativo ao sacrilégio contra Seu filho. Na verdade, deveria ser objeto de uma reflexão mais séria sobre algo que só ocorre de quando em vez – a intervenção direta de Deus em algum momento, nesta terra.

Isso tudo parece, aos olhos dos cristãos, convergir para o “fim”. A realidade de uma humanidade que esgarça seu tecido social a golpes de crucifixos metidos onde não devem, e pichação de igrejas fala alto pra nós. Gostaria de ser mais otimista com relação à sociedade atual. Não consigo.

Quanto mais pessimista me torno quanto à sociedade, mais otimista me torno quando a mudar de residência, desta “para melhor” o mais rápido possível!

Big Techs são Market Makers?

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No passado, todos sabemos, a Dona Mariquinha e Dona Maricota eram responsáveis pelo “Correio Popular” de qualquer cidade do interior. Na antiguidade os romanos tinham a Acta Diurna, uma espécie de Jornal, mais voltado para as legiões romanas, e que era afixado em um mural.

As ruas e muros das cidades antigas também serviam de “noticiário”, de “páginas amarelas” e de propaganda política na antiguidade, como as bem preservadas ruínas de Pompéia e Herculano, soterradas pelo Vesúvio, deixaram gravadas para sempre.

A popularização dos jornais vieram com a imprensa, por volta de 1500, e já durante as revoluções americana e francesa, foram empregados de forma eficiente como propaganda nacionalista, como o Saturday Evening Post, de Benjamin Franklyn, na América do Norte pré-independência, e o L`Ami du Peuple, de Jean-Paul Marat, na França revolucionária de de 1789.

Jornais, depois rádio, depois TV, tudo num turbilhão, que nos transformou em consumidores ávidos por notícias, se tornaram nossos meios para que formássemos opinião, por mais de 400 anos. Nos acostumamos a veículos de uma mão só: “de lá pra cá”, com a eventualidade de uma carta à redação, ou em casos mais graves, direito de resposta.

Com a internet, uma população cada vez de saco cheio com a forma com a notícia era dada, se viu atraída massivamente para as “redes sociais”, que se viram, de repente, donas de um canal de comunicação instantâneo e único. A circulação dos grandes jornais foi dizimada, e muito papel economizado, para delírio dos ecologistas. Passamos a ler, e ser, o jornal. Passamos a participar na formação da notícia. Muitos passaram a comentaristas e jornalistas amadores (como eu, aqui do meu escritório, escrevendo sobre um assunto qualquer, que me chama a atenção, para um público que pode ir de meia dúzia de pessoas até milhões).

O motivo desse escrito, no entanto, não é falar sobre as mídias sociais como meios de comunicação, mas em como esses meios de comunicação podem ser usados para afetar diversas áreas do nosso cotidiano, inclusive o que me atrai a atenção nesse momento – a economia.

O poder desses meios de comunicação e infraestrutura tecnológica ficou evidente diante do “corte raso” feito nos EUA sobre Donald Trump, no início deste ano, tendo por justificativa a alegação de que o ex-presidente teria promovido o “levante” que resultou na invasão do Capitólio, sede do Congresso americano, e causado inclusive mortes. Não entrando no mérito, em si, observa-se a efetividade, o corte seco, rápido e inapelável dado pelo Twitter, Facebook e outros mega-outlets de mídia, além do provedor de acesso Amazon. Tão rápido e fulminante foi o golpe, que uma rede social “de direita”, o Parler, até hoje não voltou para o ar. Ou seja, o poder inapelável desses órgãos teve a força inédita de acabar com um órgão de mídia social – e, por que não? – de imprensa.

O Twitter e o Facebook comentaram, em caráter oficial, que podem aumentar ou diminuir a visibilidade de um determinado post, inclusive suprimi-lo. Como conservador e liberal em economia, entendo que as empresas fazem o que quiserem com o conteúdo postado em suas mídias. Portanto, não vou aqui advogar que o governo, qualquer governo, deva intervir na liberdade da empresa em ditar suas regras. Afinal, estamos nessas mídias porque queremos.

A questão se prende a algo mais prosaico, e talvez não tão fácil de entender até onde chega e que impactos tem: com este nível de poder nas mãos, um quase monopólio desses novos “meios de comunicação”, em que até os veículos tradicionais podem ser objeto de censura, o que, ou quem, impede que empresas como Facebook, Twitter, entre outras, tenham a possibilidade de influenciar decisivamente, por exemplo, o mercado de capitais? Quem duvida que algum(ns) funcionário(s) do Facebook ou Twitter, com o grau correto de “estímulo” ou “pressão”, possam acabar influindo nas políticas econômicas dos países, simplesmente pela forma como manipulam (eles deixam isso claro, da forma como falam em aumentar ou reduzir a exposição de um determinado assunto) o que aparece e o que não aparece em sua/minha Timeline?

Eis a questão: Essas empresas são privadas e fazem o que querem, se estamos num estado democrático de direito. Nada a opor. Mas como é que saberemos onde é que chegou a hora em que as mídias sejam tão poderosos canais, quase monopolistas, e com pensamento muito parecido (“progressista” nos costumes e relativamente à esquerda, na ideologia), tenham cruzado uma linha em que eles mesmos acabarão por impor uma censura inapelável, ou mesmo a quebra do princípio de liberdade de imprensa?

Que imprensa? Pode-se perguntar? Estamos todos sujeitos, na nossa quase totalidade, a “umas poucas mídias”: se mídias sociais, quase todos em FB e TW; se apelamos para buscadores, Google; se precisamos de armazenamento em nuvem e acesso para usuários, AWS ou Google?

Como auditor, com registro na CVM, ouvi a vida inteira um mantra: “ou todo mundo, ou ninguém” (ou a informação está à disposição de todos ou não deve ser liberada). De que forma podemos afirmar que isso continuará a acontecer, e em que medida, doravante?

No passado a Mother Bell foi rachada nas Baby Bells justamente pelo estado Americano ter desconfiado que estava muito poderosa, e esses poder acabava rivalizando com o estado. Igualmente, a Standard Oil foi rachada em 34 “filhotes”, em 1911, por decisão da Suprema Corte Americana, dando origem a Exxon, Mobil, Atlantic, Amoco, Chevron, entre outras.

Os governos e seus judiciários perderam o direito de liderar processos de descartelização? Alguém tem alguma dúvida de que a Voz Grossa de um Twitter ou FaceBook é capaz de criar tanta confusão a ponto de impedir que qualquer corte julgue contra elas?

Estamos, ou estaremos em breve, diante de um caminho sem volta, e que colocará não somente a opinião, mas o direito de obter informação “limpa” sobre ações e mercado de capitais, nas mãos do acaso, ou de meia dúzia – ou menos – de “players”. Olho nos novos Donos do Mundo!