Eu pareço um zé-ninguém mesmo… nem Deus liga pra mim… se Ele fosse capaz de esquecer de algo, eu diria que se esqueceu mesmo foi de mim! Não liga pra mim, Divindade? Como sempre tem gente querendo meu mal. Tem gente que me odeia, e às vezes eu nem sei bem por que… Até quando você, Deus, vai deixar que esse povo me odeie? Eu fico num bode, num calundu, numa tristeza de dar (des)gosto… Como diria meu filho Ettore, o famoso Tóia – “Ola pla minha cala”, Deus! Deixa eu enxergar o futuro, porque não vejo um palmo adiante do nariz! Eu não quero morrer agora, sem realizar nada; Depois eu morro, e aí os meus inimigos vão dizer que ganharam de mim. Vão ficar todos prosas, se achando, e eu terei perdido essa “peleia”. Mas tudo bem, como sempre. Eu confio que o Senhor vai fazer o melhor, não importa quanta assombração me apareça. Eu confio em Deus e ponto final. Eu reclamo, reclamo, brigo com Deus e fico brabo, mas no final das contas, Senhor, eu só tenho mesmo é que agradecer!
Sinecura significa “Sem Cuidado” (do latim – sine, “sem” e cura, “cuidado”), de acordo com a Wikipédia. O nome era dado a um emprego ou função que era só uma desculpa pro sujeito “mamar” em alguma teta. Estatal ou não, sem trabalhar – ou seja, receba, sem qualquer cuidado, pois você não tem responsabilidade alguma. Só recebe.
O Brasil não inventou a sinecura. Na Inglaterra dos séculos XVI ao XIX, as sinecuras eram formas de reconhecimento dos reis aos seus súditos fieis, por conta de algo que tivessem feito (merecida ou imaginariamente). A Roma antiga, onde o termo se originou, não foi nem de longe a inventora da prática, embora tenha tornado o termo famoso. E lá as sinecuras eram, pelo menos, entendidas pelo que realmente eram – benesses com o dinheiro alheio.
A famosa Companhia das Índias Orientais, ou “John Company”, na gíria da época, era uma empresa privada com características e poder muito parecidos ao de alguns países. A John Company foi mais rica e mais poderosa do que a maioria dos reinos europeus da época, e também distribuía suas sinecuras.
A prática, portanto, não nasceu em terras e reinos católicos, embora tenham se tornado uma forma de arte, quando os países protestantes da Europa, e os EUA, já tinham praticamente banido a prática, em fins do Séc XIX. Claro que banir é um termo forte, já que em pleno Séc. XX vimos a repetição disso tanto na Inglaterra, Holanda, EUA e outros locais.
O costume chegou ao Brasil com as caravelas de Cabral. Pero Vaz de Caminha aproveita a famosa cartinha a El Rey para solicitar uma sinecurinha pra um cunhado, se não me falha a memória… e daí viemos: de sinecura em sinecura.
A modernidade da Sinecura
O Estado moderno e sua impessoalidade tende a coibir as sinecuras, sob a alegação de que cada trabalho merece sua paga, e não pode existir paga sem trabalho que o justifique. Isso, longe de significar o fim da prática, implicou em sua sofisticação.
Hitler, na Alemanha Nazista, formou um time de “Sinecuristas” de alto coturno, composto de empresas como Basf, Bayer, Heinkel, etc, que ajudaram no esforço de guerra alemão em troca de uma sinecura chamada monopólio. Aliás, essa é, na minha opinião, a única diferença entre um estado comunista e um estado fascista- a existência desses monopólios ou oligopólios, no fascismo, contra um estado todo-provedor e empreendedor, no comunismo “raiz”.
Lula, e seu partido, fizeram algo semelhante, muito mais recentemente, com a política dos “campeões nacionais”, que elegeu empresas para serem vitoriosas no mercado, como JBS, Odebrecht, etc. A troca parece funcionar bem, já que a JBS, por exemplo, acabou se tornando mesmo um campeão nacional, e mundial até, com seu gigantesco faturamento e sua competência na produção de proteína animal.
Nada disso, porém, parece ajudar o país. Em troca de qualquer sinecura, de um empreguinho estilo “rachadinha” num gabinete de vereador no interior até o recebimento de zilhões em empréstimos do BNDES a juros baixos e à custa de deixar outro zilhão de empreendedores sem financiamento (1), o mercado se desalinha e acaba empobrecendo como um todo. Mas esse não foi nem o pior exemplo de sinecura recente. Pior do que financiar um empreendedor nacional é financiar um estado (no mais das vezes totalitário ou quase) com esse mesmo dinheiro da população, sob a certeza de que o pagamento não viria – e na época, não importava se viria ou não.
A Negociata – a Sinecura Nossa de Cada Dia
Assim como a cerveja da 6a. feira, com aquele torresminho, e um pagode, o desejo pela sinecura do dia-a-dia está enraizada aqui, e precisa ser extirpada a golpes de facão.
“Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados”.
Barão de Itararé
Apparício Torelly, o Barão de Itararé citado acima, era um humorista e escritor do início do século, famoso por seu humor ácido e tiradas geniais. entre outras, disse pérolas que se confirmam a cada dia, piada ou não: “O homem que se vende recebe sempre mais do que vale.” ou a célebre “O tambor faz muito barulho mas é vazio por dentro.” entre outras dezenas de frases geniais.
A negociata é a sinecura com meia contrapartida: não é totalmente “sine” (sem), e dá algo de “cura” (cuidado), mas normalmente dá mais lucro. É o outro lado da alma brasileira – se não dá pra receber sem fazer absolutamente nada, “vende-se” algo por um preço um tantinho maior, pagando algo pra cada agente do processo, e até se entrega algo, a depender do grau de vigilância da sociedade. Os hospitais de campanha da Covid 19 me cheiram muito a essa classe de sine-quase-cura: contrato na crise, sem licitação, pago milhões, não uso, descomissiono assim que posso, todo mundo fica com a impressão de que algo foi feito, e nada.
Durante a tragédia em Nova Friburgo e região, em 2011, se não me falha a memória, prefeitos receberam do Governo Federal milhões para aliviar o sofrimento das vítimas. Os prefeitos (mais de um) são acusados de embolsar a grana toda – uns R$ 300 milhões e não fazer nada. Se embolsaram, não sei. O que sei é que qualquer chuvinha maior no centro da cidade provocava alagamentos, por conta do assoreamento das manilhas de águas pluviais.
Eu com isso…
A tendência, como o saudoso Barão já falava, é a de que nós nos importemos somente quando não somos nós o objeto de tão grande benesse. Se estou no meio, às favas a moral. Vimos corruptos, há alguns anos, agradecendo a DEUS (Aiaiai!) pela propina recebida, que era “desejo divino”. Como cristão evangélico, minha vontade é a de que a teologia da “queda da Graça” fosse verdadeira, e esses aí fossem do céu direto pro inferno. Não posso arguir isso…
O fato é que requer grandeza moral para não aceitar nem propor sinecuras ou negociatas. O ser humano em geral, e o brasileiro em particular, são mestres em arrumar desculpas e explicações para seus malfeitos. Ora é “porque todo mundo faz mesmo”, ora é “porque preciso”, ou ainda porque “é por uma boa causa”.
Grandeza moral se aprende no berço, com pais igualmente morais, ou mesmo que imorais, que reconheçam isso e incutam nos filhos o desejo de que eles não sejam iguais aos próprios pais. Levar (ainda que arrastados) para a igreja e escola ajuda muito. Segregar de amizades ruins era a marca do pai de antigamente; não é mais. Grandeza moral, porém, é algo que nem sempre os filhos aprendem. Para isso, infelizmente, as consequências sociais deveriam ser duras e imediatas. Não o são: hoje a leniência com o “pobre do menino de 16 anos que matou 4” tem sido a marca de uma sociedade que no fundo ama a sinecura, o mal-feito, a negociata e deseja que as punições não ocorram. Algo diabólico.
Estamos longe de extirpar o mal e as sinecuras permanecem nos mesmos gabinetes legislativos, nas mesmas varas cíveis e criminais, nas mesmas escolas e universidades, no bar da esquina, na fila do ônibus, na repartição pública, e por aí vai.
Educação? Leis duras? Fortalecimento da família? Igrejas e Templos? Tudo isso junto ajuda. Temos uma luz no fim do túnel? Não sei – acho que não pois “o mundo jaz no maligno”. Tenho esperança? Poucas. Vamos resolver o problema? Não creio. Pessimista? Muito.
Eu creio em Deus, porém, e sei que Ele é quem detém o controle da humanidade, a quem dá livre-arbítrio, mas que também teu o Seu. Esperemos pelo melhor, desconfiando, mas esperemos.
(1) A injustiça desta prática é menos aparente, pois parece que o governo simplesmente tem o dinheiro e empresta a quem quer – como devedor líquido e pagador de juros, o dinheiro que vai para o BNDES e que acabou alimentando os campeões nacionais acabou sendo financiado a juros de mercado, em títulos da dívida, a custo significativamente maior. Sou contra a existência de bancos estatais de qualquer natureza, inclusive de fomento, mas entendo o xodó que o mercado tenha por eles, em um país de juros altos e crédito difícil.
Socorro, acode, Senhor...
Tem malandro demais nesse mundo!
Ninguém faz mais o que presta,
Só tem mentiroso, ladrão, vagabundo...
Se o cara abre a boca, ja tá mentindo,
Corta fora o beiço dos caras, Senhor!
Cala a boca de toda essa corja, é o que resta
Essa gente que engana e não tem temor!
Quem vai pelo mundo criando tristeza
E faz da vida do pobre um horror
Pode crer que não vai demorar
Pra Deus dar um fim a você, malfeitor.
Deus vai nos livrar de você, malandragem,
Mas nós sabemos que tem muita gente
Que adora enganar, e ser enganado
Dá ouvidos a promessa, de político que mente.
Socorro, acode Senhor...
Versão em Prosa – pra parte do Jogral:
Socorro, acode, Senhor…Tem malandro demais nesse mundo! Todo mundo só quer se dar bem. Ninguém mais liga pra fazer o que presta. Só tem mentiroso (tanto no tempo de Davi como hoje! – Nota do Adaptador). Abriu a boca, pode contar que tá enrolando, puxando saco, mentindo. Pode parecer cruel, mas que Deus corte fora a língua de quem é assim – pode até ser figurativamente… Esses caras vão pelo mundo achando que engalam todo mundo na lábia, e falam abertamente: quem é que manda na minha boca? O povo mau vai pelo mundo fazendo o pobre sofrer, mas Deus falou que vai dar um fim nesse estado de coisa. Deus só fala coisa boa, honesta que nem ouro e prata puros. Ele falou, não tem erro! Pois é… a gente sabe que Deus vai tomar conta de nós; e vai nos livrar da malandragem pra sempre. Mas é claro que tem gente ruim em todo lado, e que no fim das contas tem um monte de gente que acha bacana gente que fala bonito, promete tudo, não mede palavras pra agradar, mesmo que no fundo só queira uns votos… ou uma grana.
Nota: a brincadeira com o “samba enredo” e o jogral é pra lembrar que Salmos, na verdade, significam “cânticos” de louvor, e eram coletâneas de músicas que provavelmente eram entoadas em cultos a Deus… e ainda são!O Samba enredo é pra curtição mesmo… o jogral é pra nós imaginarmos a criançada da igreja falando, no intervalo das estrofes, ao som de uma cuíca, baixinho, ao fundo…
“Deus abençoe” tem sido o meu “motto” quando falo com pessoas, às vezes até com quem não tenho muita intimidade. Procuro pensar no que vou falar, e falar porque realmente desejo a bênção de Deus sobre a pessoa.
De uma forma geral, mesmo que é agnóstico não se importa com meus bons desejos. É o normal. Se alguém me diz “Nossa Senhora te abençoe”, eu, que sou evangélico, a despeito de fã de carteirinha de Maria, a mãe terrena de Jesus, não acredito que ela vá me abençoar, pois está com Deus na Sua Glória. Mas e daí? Importa para mim o bom desejo do meu amigo “desejador”.
Quando um amigo espiritualista me deseja “bons fluidos”, ou coisa parecida, não fico zangado. Sei o que ele quer dizer com isso e aceito de bom grado o que há no coração dessa pessoa. Não me incomoda; ao contrário, me dá alegria.
Por outro lado, volta e meia recebo um “what???” ou “o que é isso???” nas redes sociais quando desejo a alguém meus “God Bless”, “Dio vi benedica”, ou “Deus abençoe”. A razão? Sei lá. Talvez a rejeição pura e simples a Deus, por implicância, ou por achar que se desejo bons votos em nome do meu Deus, claramente sou um conservador, e provavelmente fascista, terraplanista, bolsonazista, e por aí vai. Qual o que…
O ano de 2022 promete. Promete coisas más, eu creio, pois quando há eleição num ano, sempre há a maldade da manipulação da nossa sociedade em prol de uma ou outra visão de mundo. 2022 promete trazer coisas boas, também, como é comum. Deus sempre manda nossa quota de sanidade, pela via de coisas boas que Ele tem prazer de lançar sobre a humanidade, apesar de nós. Mas o vidente sempre acerta no “artista famoso que vai partir”, a “enchente que vai inundar o sudeste”, ou mesmo a “guerra que vai estourar no oriente médio… em algum lugar”. Ninguém dá bola. Isso também é praxe.
O que não é praxe neste ano é a culminação de uma cisão social tremenda, desnecessária e que só serve a político e à política. Estamos escravos do nosso sistema político, que concentra poder nas mãos de quem não deveria te-lo, e mantém a renovação política longe da sua plenitude. Mas também será um ano em que esse mesmo Deus, Aquele do “te abençoe”, abençoará de fato esta nossa sagrada terrinha. Poucas vezes tenho visto tanta gente engajada em tentar renovar a política. Gente boa, de fato, se mobilizando para se candidatar e tentar mudar as coisas. Isso vai mexer no cenário, e de fato, só precisamos de uma ligeira maioria no Senado para que a população reconquiste um módico de controle social sobre a política. Para ver o nível de corrupção que inunda as casas legislativas.
Deus vai nos abençoar porque é Deus. Não porque nós merecemos qualquer coisa. Mas essa terra tem sido vítima, por tempo demais, de gente que tem o coração voltado só para seus interesses, e seus grupos de pressão. Ninguém (ou quase ninguém) parece capaz de em determinado momento parar, refletir e pensar “minha posição é ruim para o Brasil”, ou “minha posição tornará gente infeliz”.
Bom, quem é capaz de criar e viver de uma indústria tão perversa como a da seca no nordeste, do tóxico, do tráfico de seres humanos ou de influência no legislativo, é capaz de tudo. Mas para esses também existe um Deus todo-poderoso. E a eles também eu desejo que “Deus os abençoe” – até porque a bênção de Deus assume tantas facetas, que em alguns casos pode significar a frustração de todos os planos de quem meu pedido de bênção é estendido.
Portanto, Deus te abençoe, Bolsonaro (e que você pare de criar encrenca, mesmo com boas intenções). Deus te abençoe Lula (e que você tenha um encontro com Jesus e desista de seus maus caminhos). Deus os abençoe, Ministros do STF (e que vocês passem a julgar com equidade e não com suas agendas políticas). Deus te abençoe, José Dirceu (e que você entenda que Deus existe, e que cobrará de você contas pelas suas maldades contra o país). Deus os abençoe, Macedo, Valdomiro e tantos outros mercadores da fé (e que vocês reconheçam que o que fazem é contrário à Palavra de Deus, em muitos e muitos casos).
Por fim, Deus te abençoe, eu mesmo, e que aprenda a lidar com as dificuldades em mais otimismo e certeza de que há um futuro sempre melhor, não importando a dor do passado; as felicidades do presente, e principalmente da vida Eterna com Deus, são e serão recompensas suficientes por tudo.
Feliz 2022, amigos, Feliz 2022, Brasil, e que Deus nos abençoe, o que quer que isso signifique para cada um de nós!