A Terra Plana

brown wooden map board
Foto por Brett Zeck no Unsplash https://unsplash.com/s/photos/world-map

Tudo o que é contra o (verdadeiro) cristianismo dá mídia. Tudo o que nos enxovalha, como cristãos, “cola”. As ofensas contra nós são permissíveis e até dignas de encorajamento. Os sofrimentos terríveis de nossos irmãos ao redor do globo são motivo de chacota ou mesmo alegria por alguns que nos acham “elite branca” ou coisa que o valha. Tomam contra nós as barbáries (de fato) cometidas pela Inquisição Espanhola, cujos terríveis feitos já tem mil anos. Jogam contra nós as Cruzadas, como se não tivessem elas sido fruto de “defesa” contra as invasões do expansionismo muçulmano na mesma época, na Espanha, Hungria, Romênia e Áustria. Em síntese, tudo o que prejudica o cristianismo vale.

Recentemente a história da heresia do Porta dos Fundos nos doeu a todos. Obviamente que pedir para tirar do ar, entrar com medidas judiciais não resolvem e, de fato, é antidemocrático. Eles que falem o que quiserem, e arquem com as consequências – comerciais e espirituais; as primeiras de curto prazo e as últimas de prazo eterno. Liberdade de expressão serve para isso mesmo – para sermos agredidos sem chance de retorno. É liberdade e ponto. Nós podemos argumentar que eles não fariam isso com Maomé porque amanheceriam com a boca cheia de formiga. A reação (antidemocrática) eventual de grupos muçulmanos não nos dá o direito de justificarmos ações da mesma natureza. Não vivemos por esse código. Claro que se fisicamente assediados, temos o direito de defesa; mas não podemos fazer disso motivo de ataque.

Hoje vemos na mídia post do Ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, mostrando fotos que ele mesmo tirou para “provar que a terra é redonda”. Ora bolas, ressuscitar um assunto que a ciência já comprovou há séculos é imbecil demais. Olavo de Carvalho vem a público dizer de argumentos de terraplanistas e que “não viu nada que os refute” até o momento. Olavo é uma pessoa que, a despeito de boas visões sobre conservadorismo, é um líder de seita, fanático, e com antolhos. Não serve de base para nada. Xinga e grita com quem discorda dele. Tive a oportunidade de estar no lado errado do revólver que ele empunhou contra os protestantes, quando dos 500 anos da Reforma. Amigos católicos de certa forma “agradecem” à Reforma, por ter propiciado uma renovação dentro do catolicismo, acabando com a era dos papas tiranos, que tudo podiam, que viviam contra o celibato que eles mesmos impunham ao clero, que eram glutões, beberrões e fornicadores ao extremo. Em síntese, a Reforma acabou por “reformar” também a igreja católica, em uma certa medida que, cremos, melhorou muito desde então.

De qualquer forma, a Bíblia mesma tem uma passagem muito boa, escrita por Isaías, 400 anos antes da vinda de Jesus Cristo, e que diz:   Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; ele é o que estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar” (Isa_40:22, Versão J. F. de Almeida Revista e Corrigida). Difícil hein?

Então como justificar que a igreja católica tenha perseguido Galileo, Giordano Bruno e outros justamente por crerem que a terra era redonda? Bom, de fundamentos bíblicos é que não é; pois se existem lugares onde a Palavra menciona “cantos da terra”, também existe o texto acima, entre outros, bastante claro. O fato é que não importava aos escritores bíblicos; importava sim a mensagem de Deus aos homens, através de toda a Palavra, até a vinda de Cristo.

Se a bíblia não fosse clara sobre as perseguições, guerras e rumores de guerras, aflições e demais atrocidades que desde sempre nos perseguem, eu ficaria assustado. Não fico pois isso é “sinal dos tempos” como narrado no Apocalipse. Não crê nisso? Ok, não vamos brigar por isso. Não me chateie porque eu creio. É liberdade de expressão para os dois lados.

Como disse Evelyn Beatrice Hall na sua obra “The Friends of Voltaire” em 1906 (sob o pseudônimo de S. G. Tallentyre), e cuja autoria é atribuída a Voltaire, de forma equivocada, “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o último instante o teu direito de dizê-la.”

“Eles mataram nossas elites e as substituíram por um governo liderado pelo clero”

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,terceiro-dia-de-protestos-no-ira-desafia-o-regime-dos-aiatolas,70003156392

Uma das vantagens de calar a boca e ouvir é que escutamos coisas muito interessantes, ditas sem papas na língua, com erros, acertos, coisas boas e más, na “lata”.

Anteontem, na praia, tive oportunidade de “escutar” um rapaz por volta de seus 25 anos explicando uma série de visões, passadas por um visitante Iraniano à sua casa, sobre por que o Irã tem razão e os EUA não o tem. Muito interessante, pois o rapaz parece não apenas ter ouvido cuidadosamente a visão do estrangeiro, como aparentemente aceita-la sem reservas nem qualquer análise crítica maior.

Entre o que entreouvi, algumas “pérolas” bastante conhecidas nossas, como um antissemitismo indisfarçável, contido na expressão “A Palestina nunca foi judaica, e os Palestinos estavam lá desde sempre” (parece saído do panfleto antissemita “O Protocolo dos Sábios de Sião”), ou “Na segunda guerra a divisão arbitrária do Oriente Médio foi feita somente para garantir à Inglaterra o acesso ao petróleo” (sem se aprofundar no porquê, na estratégia da própria guerra ou ainda na instabilidade milenar da região) ou, por último, a afirmação de que “tudo o que interessa sempre foi petróleo” uma afirmação que, se é correta em uma boa medida, o é mais para fins do conflito Suni-Xiita do que para com os EUA, especificamente, e mais diretamente para tempos mais recentes, em que os EUA são mais do que autossuficientes nesse podre óleo preto.

Indo adiante, o rapaz não conteve seu desejo de ver os “EUA derrotados” pelo Irã, indiscutivelmente algo que faz parte do ideário da esquerda brasileira, independentemente do fato dos Aiatolás perseguirem minorias, matarem cristãos, enforcarem gays em praça pública e reprimirem suas mulheres com crueldade. A síntese da conversa, da qual quase cedi à tentação de participar (ia dar zebra, certamente…) é a de que qualquer ação contra o ocidente está justificada; o ocidente é mau, o ocidente é o capeta.

Li agora a matéria do Estadão que dá conta da natureza dos protestos em Teerã e no restante do Irã, e me chamou a atenção a frase que coloquei como tema deste artigo: “Eles mataram nossas elites e as substituíram por um governo liderado pelo clero”. A que se refere? Temos que voltar a 1979, quando a revolução dos Aiatolás tirou do poder um governante meia-boca, autocrata, o famoso Xá Reza Pahlevi, e colocou no lugar uma teocracia. De lá pra cá, o que era um dos países islâmicos mais abertos e modernos do mundo se tornou um fato de instabilidade regional e mundial, com ramificações tão terríveis quanto a triste situação do Iêmen ou a ascensão de organizações terroristas em vários locais do mundo, patrocinadas pelo regime de Teerã.

Os manifestantes cantam como palavra de ordem o “Eles mataram nossas elites e as substituíram por um governo liderado pelo clero” na Universidade Tecnológica de Sharif. A elite eram o Xá, um sujeito não muito “povão”, como sói acontecer com monarcas de dinastias antigas, sua mulher, Farah Dihba, uma perua que tinha coleções imensas de sapatos e jóias, e que desfilava a bordo de carrões importados, e uma elite dominante de séculos. O tal Xá governou de 1941 até 1953, quando acabou tendo que fugir do país, que escolheu um governante por meio do voto, Mossadeq, e que foi deposto logo depois, no que se convencionou chamar de a primeira ação da CIA para depor um governante de outro país.

Fato é que o Xá era mesmo um péssimo governante, e que estava no poder quando da 2a crise do petróleo, de 1976. Essa crise não fez só essa vítima no mundo, mas em muitos lugares, inclusive com um baque terrível na economia brasileira, desencadeando anos depois a crise da inflação, entre outras, ao redor do mundo. O Xá subestimou os Aiatolás e estava muito mais preocupado com a URSS do que com os turbantes… O fato é que a Revolução começou com um “acordão” entre a esquerda local, municiada pelos comunistas de então, o clero e forças militares, acabou por sair vencedora, com o episódio imortalizado pelo filme “Argo”, sobre a invasão da embaixada americana em Teerã, e seus reféns, que impediram Jimmy Carter de se reeleger, e tido até hoje como um presidente fraco. Fato é também que os EUA queriam no poder um governante “a seu feitio” e acabaram por não enxergar que o “acordão” entre esquerda e turbantes seria mais efetivo do que parecia em princípio.

Hoje, os estudantes cantam algo que parece ser verdade – trocaram uma elite nobiliárquica, um rei autocrata, por um estado ainda mais autocrata, repressor ao extremo, e que, para piorar, se imiscui em cada cantinho da vida pessoal, cultural e religiosa do povo. Uma massa crescente de cristãos está sendo vítima de violência sem igual, crueldade macabra por parte do regime. A massa de cristãos continua a crescer, porém, num movimento não antecipado, e, com certeza, que não é resultado de “ações da CIA”, mas do fascínio que a liberdade cristã traz ao ser humano – inclusive a liberdade de rejeitar o cristianismo e fazer troça do próprio Fundador, sem que isso enseje maior repressão.

A dinâmica é quase sempre essa – a troca de uma elite por outra, sem qualquer garantia de melhora. Podemos marcar fatos com a queda da República Romana e ascensão do poder imperial, passando pela sangrenta Revolução Francesa, Revolução Soviética, Chinesa, e vários outros exemplos do mesmo padrão: por achar que algo está ruim, troca-se algo por alguma coisa dez vezes pior.

Aqui, trocamos a (ruim) ditadura militar por algo mais insidioso e que, com pretexto de aprofundamento da democracia, nos colocou no mais longo período de recessão e desemprego da nossa história. Corremos o risco, no Brasil, de fazer uma troca da mesma natureza da do Irã: trocar algo que se poder trocar por algo que não vai embora nunca, exceto com muito sangue: um regime que se mantêm a despeito do povo – no Irã, pela religião; aqui no Brasil, pela escravidão cultural-ideológica.

Até que ponto chega o mau jornalismo?

https://arte.estadao.com.br/internacional/geral/locais-historicos-ira/

Dei de cara com essa “manchete” do Estadão hoje e fiquei mais do que pasmo. Fiquei boquiaberto com o que está escrito ali pra todo o Brasil (e o mundo) ver. Por conta da eliminação do agora “diplomata” e “querido líder” Soleimani, um sujeito que andou mundo afora criando caos como o imposto aos judeus argentinos há alguns anos, ou à população do Iêmen, ainda hoje, tenho o desprazer de dar de cara com o “jornalismo” feito por um jornal que eu assino, e que julgava relativamente imune às estupidezes maiores. Trump ameaça o patrimônio histórico do Irã. Legal.

Aliás, nem “jornalismo” se trata, propriamente, mas apenas uma chamada enviesada para lindíssimas fotos de patrimônios culturais da humanidade em terras Iranianas.

Ou seja, o Irã desestabiliza toda a região, criando o caldo social que gerou o ISIS, que agora combate, invade (ou coordena) a invasão da embaixada americana no Iraque, infiltra milicias em vários locais, e agora diante da oportunidade não perdida pelos EUA de eliminar dois “coelhos gordos” com uma cajadada só (Soleimani e o líder miliciano no Iraque, Muqtada al-Sadr).

O fato é que, conforma BBC, “O governo Trump ficou surpreso com a magnitude do ataque contra a Embaixada em Bagdá, visto como uma escalada, e acreditou que Soleimani estava por trás disso. Apresentado com uma oportunidade de alvo, o presidente autorizou o ataque (contra o general).” Ficou mesmo, pois foi a culminação de uma série de atentados aqui e acolá, matando americanos (civis e militares). Qualquer nação que tenha algo de orgulho se sentiria justificada em matar as duas figuras de uma vez só. Será que Trump pensou nas consequências? Muito provavelmente não. Isso é ruim? Bom, ruim mesmo foi a atitude covarde de Jimmy Carter, diante da invasão da embaixada americana em Teerã, em 1979; ruim e covarde foi a atitude de Hillary Clinton (e de Obama) em “botar a viola no saco” diante da mortandade de civis e militares no consulado americano em Bengasi, na Líbia, que vitimou um homem cuja morte foi sentida nos EUA, J. Christopher Stevens, carismático diplomata, por conta de um filme considerado “ofensivo ao Islã” (“The innocence of Muslims”, ou a Inocência dos muçulmanos)…

É de se perguntar se a não-retaliação, a inação diante desses atos resolveu algo no sentido de melhorar as relação dos países muçulmanos com o ocidente. Nada adiantou ficar chorando, sentado na calçada. Apenas acabou ali o “deterrence factor“, ou seja, o fator de dissuasão, que os EUA detêm desde meados da 1a. guerra mundial. Até o “advento” do maluco Trump, os terroristas, oficiais ou não, já acreditavam que poderiam fazer atentados aqui, lá e acolá, que sempre haveria um Barack disposto a pagar uns US$ 400 milhões para algum grupo terrorista “dar um tempo”.

É de se perguntar também se o “atentado” contra o Porta dos Fundos, perpetrado por um idiota, ou grupo de idiotas, merece a mesma reação e grau de solenidade dado ao filme “A inocência dos muçulmanos”, que nem de longe é tão ofensivo ao islã quanto o Jesus gay dos cretinos brasileiros é para o cristianismo.

O cúmulo, porém, é o jornalismo de prejulgamento: eu afirmo, eu informo, que “Trump vai colocar patrimônio histórico do Irã sob ameaça”. De onde se retira isso? Com que base? Na 2a. guerra mundial, os aliados, liderados pelos EUA, foram responsáveis por recuperar e devolver aos museus da Europa milhares de obras e objetos de arte roubados pelos nazistas, num ato coletivo (e até poder-se-ia dizer desnecessariamente dispendioso, face às necessidades prementes da reconstrução do pós-guerra) de grande visão cultural, de futuro e de mundo. Qual é a base para afirmar que os EUA de hoje seriam capazes de, deliberadamente, colocar zonas de preservação histórica sob ameaça? Nenhuma base, obviamente, exceto o interesse de desacreditar o Ogro Laranja (o que é fácil, dada sua natureza, digamos, bufona).

Peca a imprensa brasileira por acoitar em suas redações um número enorme de jornalistas cujo amor à notícia é nulo, cujo apego à verdade está subordinado a suas paixões ideológicas, cujo interesse em informar está debaixo da mão política de um grupo que tenta a qualquer custo ganhar esta guerra cultural-ideológica na qual estamos no meio: no Brasil, e em quase todo o ocidente.

Pela epistemologia de um grupo, jornalistas hoje enxergam o que querem; por essa visão de mundo, vêem qualquer ação de um lado como sendo má, necessariamente (vice-versa é verdade também, mas em nível – ainda – infinitamente menor e mais difuso). Por essa visão de mundo, congressistas deixam de pensar no país, se é que algum dia nele pensaram, para botar fogo em ideias excelentes – de um e outro lado, diga-se, apenas para não dar “chances eleitorais” ao adversário.

Enfim, “basta a cada dia seu mal”, como Jesus disse no sermão do monte. Vamos lutando a cada dia para tentar fazer retroceder, seja pela palavra, seja pelo humor, a imbecilidade de extremos que pensam em tudo, menos no próximo.