
Começo este artigo me remetendo não à música de Raul Seixas (“Ah ah ah…. eu prefiro ser / essa metamorfose ambulante … … / do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”). A música marcou uma geração de roqueiros nacionais. A mim, particularmente, nem tanto. Nunca gostei muito da deificação de Raulzito, de quem francamente, gosto muito mais da deliciosa “Ouro de Tolo”.
Me refiro mais ao uso dado ao termo por Lula da Silva, em pelo menos cinco ocasiões. O presida parece ter fixação pelo tema e pela música:
Lula e sua Metamorfose particular
Usei a IA para me ajudar e encontrar onde, e em que contextos, o “Pai” usou a analogia:
- Outubro de 2001: Lula usou a expressão em um discurso na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro ao receber o título de cidadão fluminense, afirmando que não queria ser uma figura engessada que acha que sabe e pode tudo.
- Dezembro de 2007: Durante o seu segundo mandato presidencial, no lançamento do PAC da Saúde, Lula recorreu novamente ao verso para explicar sua mudança de postura em relação à defesa de impostos como a CPMF, contra a qual lutou no passado quando estava na oposição.
- Novembro de 2025: Em uma cerimônia no Palácio do Planalto para o envio do novo Plano Nacional de Cultura ao Congresso, Lula repetiu a autodefinição para comentar sua visão política e ideológica, reforçando estar disposto a aprender por não saber de tudo.
- Outubro de 2025: Também empregou o termo em um contexto de negociações internacionais, afirmando ser uma “metamorfose ambulante na mesa de negociação” para indicar abertura a debater qualquer tema sem restrições.
Lula, como se sabe, muda de ideia conforme a conveniência do momento. É, de fato, uma metamorfose, quase sempre pelas razões erradas.
Outras Metamorfoses
Recebi ontem, do Clube do Livro da Brasil Paralelo, o primeiro volume da minha assinatura. Caprichado. Não somente o livro, mas o áudio livro. Li e ouvi ao mesmo tempo, boa parte do texto de “O Essencial da Grécia”. Na parte relativa à “Defesa de Sócrates” (escrita por Platão), me deparo com as seguintes citações (transcrevo à mão para refletir de novo nelas):
“Desse modo, novamente, no caso dos poetas, também reconheci logo isso: que o que compunham não era por sabedoria, mas por natureza e por inspiração, como os profetas e os que dão oráculas; pois estes também dizem muitas coisas belas, mas não sabem nada das coisas que dizem.”
(Op. Cit., P. 30 “b”)
Mais adiante, na mesma página, Sócrates (narrado por Platão) continua “dando de relho” nos poetas:
[os poetas]… “por praticarem bem sua arte, cada um pensava que era muito sábio também nos outros assuntos mais importantes, e essa tolice deles obscurecia aquela sabedoria, de modo que perguntei a mim mesmo, em nome do oráculo, se eu preferiria ser como sou – nem sábio na sabedoria deles, nem ignorante na ignorancia deles – ou ser em ambos os aspectos como eles são.”
(Op. Cit., P. 30 “d”)
Essa situação acima me fez refletir sobre “outros” Metamorfoses, como cantores e artistas brasileiros, que, analogamente aos dois textos citados acima, acham que precisam e deveriam ser ouvidos em assuntos tão diversos como política, meio ambiente e ética. Não. Não deveriam.
Já escrevi textos justamente sobre esse assunto – gente que admiro, como Chico Buarque, um poeta como poucos, compositor idem, mas cujas posições políticas, éticas e sociais, são muito, mas muito burras.
Metamorfoses ambulantes que “estavam à toa na vida” durante a ditadura militar, mas que hoje, não estão mais. A presente ditadura não os importuna.
Há virtude na Metamorfose?
A pergunta importante é justamente essa: ser uma metamorfose é bom? Em que sentido? Raulzito, e Lula, são/foram boas metamorfoses? Isso foi bom para eles, e para os que os rodeavam?
Me parece que não. E mais, tenho dificuldade em entender que o mundo precise de metamorfoses. O mundo muda tanto e tão rápido, que o que precisamos mesmo é um fulcro – um ponto de apoio que nos ajude a ancorar a cabeça, e as expectativas. Vivemos numa permanente montanha russa. Ora, virar de cabeça pra baixo, e de lado, a 200Km/h pode parecer bacana por um tempo. É uma adrenalina que muitos adoram. Mas ninguém se proporia a viver dentro de um loop perpétuo num troço desses.
Quando aqueles que se propõem a ser nossos líderes são constantes metamorfoses, não temos nenhuma garantia em suas palavras e ações, presentes ou futuras. Podem se desdizer a qualquer momento, pela conveniência do aqui e agora.
O sábio ancora sua ética em valores maiores. O ético vive de acordo com princípios que estabeleceu e reluta muito em quebrar. O metamorfose é diferente. Ele é mesmo alguém em quem é difícil confiar.
Nossos presidentes de hoje, nossos intelectuais, poetas e artistas do passado e do presente não nos dão nada além de pontos de apoio frouxos, opiniões cambiáveis como roupa suja, que se troca dia a dia. Uma nação não pode sobreviver fundada em metamorfoses, ambulantes ou não.
