Meu tributo a Thomas Sowell

Meu pai dizia que se era para lhe prestar homenagens, que o fizessem em vida. Depois de morrer, ele aproveitaria menos. Sábias palavras. Por isso, decidi escrever um tanto sobre um dos meus economistas e pensadores mais queridos, Thomas Sowell. Meu objetivo aqui é levar você a se interessar por seus escritos e sua personalidade marcante e opiniões fortes.

Passar tempo com o Dr. Sowell como convidado especial, na minha “Man Cave” aqui de casa, nesse friozinho típico de Curitiba, é uma alegria. Thomas (acho que já posso falar com essa intimidade dele, já que acho que já passei alguns dias inteiros ouvindo ele “falar” a mim, através de seus livros) é um pensador, mais do que um economista. É um observador arguto da realidade, despido das baboseiras típicas da academia, focado na prática.

Ele é o arquétipo do anti-establishment. Menino negro, pobre, nascido em 1930 numa cidadezinha rural da Carolina do Norte, Gastonia, criado pelos irmãos mais velhos após ter perdido o pai e a mãe muito cedo, tendo mudado para o paupérrimo Harlem, Nova York, foi amado e nutrido pela família, o que não o impediu de sofrer tanto discriminação como os efeitos de uma infância cheia de privações. Terreno fértil para o radicalismo que vimos em um Jesse Jackson, Malcolm X e outros de origem semelhante. Nada disso “pegou” em Sowell.

Fuzileiro Naval, veterano da Guerra da Coréia, foi aluno de Harvard e Columbia, chegando a um doutorado pela Universidade de Chicago, aos pés do mestre do liberalismo econômico, o incomparável Milton Friedman. Exemplo de superação maior, difícil de encontrar.

Pensamento

Como quase todo negro, pobre e periférico dos EUA, começou sua formação como esquerdista. Chegou mesmo a simpatizar com o Marxismo, como ele mesmo confessou, um tanto quanto envergonhado, parece. Mas o intelecto poderoso e a formação logo fizeram a diferença, e começou a perceber, à medida em que estudava, que as intervenções do estado na economia, principalmente os ditos “programas de incentivo” costumavam ter o efeito oposto do que se propunham: mais pobreza, segregação e imobilidade social, em vez dos objetivos desejados. Concluiu então que políticas “de cima para baixo” acabam por planejadores estatais quase sempre dão errado. Parece que para Thomas Sowell, economia não é essencialmente sobre dinheiro, mas sobre escolhas – decisões feitas sob situações de restrição.

Thomas Sowell insiste, até hoje que pessoas respondem a incentivos; que boas intenções não garantem resultados positivos; que sempre existem custos ocultos nos processos “de cima para baixo” e principalmente que, TODA decisão envolve trocas, “trade-offs” como ele as chama – como diria minha querida Profe, Tia Rosangela Pinel, “ou compra o doce ou guarda o dinheiro”.

Aliás, uma de suas frases mais conhecidas é justamente sobre isso:

“Não existem soluções. Existem apenas trade-offs.”

Ele expande esse conceito e fala com muita propriedade dessas escolhas em sua obra mais conhecida, Basic Economics.

Crítica ao intelectualismo político

Thomas sempre desconfia dos intelectuais, assim como quase todos os verdadeiros pensadores. Joãzinho Trinta, mestre das escolas de samba, já triscava o tema quando disse, de forma muito engraçada e apropriada:

“Pobre gosta de Luxo; quem gosta de miséria é intelectual”

É ou não é verdade? “Eu odeio a classe média“, “queremos acabar com a família tradicional” e outras pérolas do pensamento intelectual obtuso atual falam muito sobre esse conceito que Sowell estudou: há uma intelectualidade ligada diretamente à cretinice, sem um mínimo de análise da realidade fática. É uma intelectualidade que deveria ser desprezada, mas que é louvada nas torres de marfim do mundo ocidental.

Em “Intellectuals and Society”, Thomas argumenta que intelectuais frequentemente influenciam políticas públicas sem sofrer consequências diretas pelos erros que cometem. Ele distingue quem toma decisões reais sob risco e quem formula teorias sem responsabilidade prática. Ele fala sobre a diferença que existe entre as consequencias do erro de um engenheiro e o de um planejador estatal: o primeiro, se vê sua ponte cair, está ferrado profissionalmente para o resto da vida; o segundo, sequer fica sabendo que errou, exceto depois de anos, décadas, em que não se consegue nem ligar diretamente a bobagem feita aos efeitos nocivos deixados.

Thomas é um crítico permanente de burocracias centralizadas, planejamento estatal, engenharia social e utopias políticas. Isso me deixa pensativo, entre o que vi na China, e relatei em dois artigos recentes, e o fato de que, no ocidente, de fato, Sowell tem sobejas razões para sentir que se um planejador central propõe algo, miséria, centralização de poder e renda e baixos resultados positivos (se existirem) são a consequência.

Cultura e Sesempenho Social

Thomas Sowell sai do campo da economia quando escreve alguns de seus livros mais contundentes, como “Race and Culture”, “Black Rednecks and White Liberals” e “Discrimination and Disparities”. Ele argumenta que diferenças de desempenho entre grupos humanos nem sempre decorrem diretamente de discriminação. Segundo ele, fatores culturais, históricos, geográficos e institucionais têm peso enorme. Esse ponto tornou Sowell figurinha carimbada nas rodas de “cancelamento” da esquerda dos EUA, especialmente em debates sobre racismo estrutural, ações afirmativas, desigualdade racial e educação pública, temos caríssimos aos “despensadores” da elite educacional daquele país. Vamos por partes.

Educação

Sowell criticou fortemente o sistema educacional americano. Ele defende a meritocracia, a disciplina acadêmica, padrões objetivos de avaliação e performance e a competição entre escolas como forma de aumentar o sarrafo da qualidade acadêmica. Ele ainda criticava e critica a politização do ensino, a queda de exigência escolar, a burocratização universitária e a substituição de conteúdo educacional por ativismo. Parece algo que tenhamos aqui no Brasil? ah, sério?

Questão Racial

Sendo negro, poder-se-ia dizer que Thomas tem “lugar de fala’, né? Mas um aspecto singular é que Sowell é um intelectual negro conservador num ambiente acadêmico predominantemente progressista e isso lhe rendeu destaque público, nem sempre positivo. Para setores conservadores, Sowell representa aindependência intelectual. Para seus críticos, suas posições minimizam problemas estruturais ligados à raça. Ele muitas vezes rejeitou a ideia de falar como “porta-voz racial”. Ele insiste em análises históricas e econômicas mais amplas, e que dão base a suas conclusões que, por acaso ou não, envolvam raça.

Estilo Intelectual

Ler Thomas Sowell é alegre e divertido. Ele escreve de uma forma que é bastante incomum para um acadêmico: linguagem simples, exemplos históricos bem fundamentados, muitos dados comparativos e pouca teoria excessivamente abstrata são sua marca. Isso “dói”, ou deve doer, em seus detratores. Ele não fala como um Paulo Freire da economia, de um jeito hermético e tão rebuscado que tira de jogada o objetivo. O exemplo Paulo-Freireano abaixo diz muito sobre o que Thomas de fato NÃO é:

“É na inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente.”

O que o infeliz quis dizer com isso? Não consegui saber até agora, e duvido que alguém, mesmo que tenha entendido, possa usar de forma prática para qualquer (QUALQUER) objetivo. Thomas Sowell vai na direção oposta:

“Pessoas que gostam de reuniões não deveriam estar no comando de nada.”

Tipo Corte Seco Tramontina – chega a não ser “acadêmico”, mas certamente presta um serviço ao entendimento da vida, em geral, e da economia, em particular. Fazer é melhor do que falar. Não tem nenhuma “inconclusão do ser” aqui.

Ele também utiliza frequentemente comparações internacionais e históricas para mostrar que fenômenos sociais semelhantes ocorreram entre povos muito diferentes.

Minha Gratidão

Deixo, assim, minha gratidão a esse monstro sagrado que, do alto dos seus 95 anos, ainda dando entrevistas lúcidas e válidas, como as recentes, ao Hoover Institution, continua a me inspirar. Alguém correria atrás de autógrafos de influencers ou personalidades caricatas da mídia, uma Xuxa, um imitador de foca qualquer. Eu confesso que atravessaria um aeroporto inteiro, só para tirar uma foto e pedir autógrafo em um livro (compraria qualquer um dele, numa livraria qualquer, só para esse fim), se soubesse que guardaria desse herói incomum e improvável, uma lembrança tangível do pensador que no ocaso da vida, insiste em ser uma voz da prática, da lucidez e do bom senso, num mundo quase perdido para a imbecilidade.

Toda Inutilidade Caduca

Nas ciências da natureza costuma-se dizer que “tudo aquilo que não tem utilidade acaba por desaparecer“. Dizem que foi assim com os caninos, no homem, com o apêndice, entre outras coisas que achamos que a micro-evolução acaba por tornar obsoleto.

Algo que só existe para cumprir um papel irrelevante tenderia, por esta “lei” a desaparecer também. Parece que foi assim, ao longo da história, com diversos penduricalhos colocados à vida humana, como excesso de roupas e badulaques medievais, com gravata em climas mais quentes e com certas regras de etiqueta cujo uso acabou sendo extirpado da sociedade por não ter serventia alguma.

A Reforma Protestante, dentro do cristianismo, parece ter cumprido um grande passo em eliminar um intermediário entre Deus e a criatura – o sacerdote (fazedor de pontes). Foi um passo civilizatório, logo após de se constituir como uma verdade bíblica – “achegai-vos confiantemente ao trono da graça” (Hebreus 4:16).

As próprias regras medievais de corte e casamento foram simplificadas e em sua maioria, deixadas de lado, por pares de seres humanos que julgaram, corretamente, que sua felicidade não podia ser deixada ao capricho de pais e autoridades que nem sempre tinham o seu melhor em seus corações.

Pois bem, assim como na religião e no amor, se a regra continuar valendo, entendo que algumas coisas muito incômodas tendem a desaparecer também, embora pareça que estamos longe de nos desfazer delas. Eis algumas.

Governo Grande

Já houve um tempo em que fichas de papel, carimbos e arquivos de pastas suspensas eram a tecnologia que catalogava, selecionada e ditava a ordem social. O carimbador maluco, caricaturado no “Plunkt-plakt-zum” parecia ubíquo e todo poderoso.

De lá pra cá, os processos informatizados, a internet e, mais recentemente, a Inteligência Artificial, parecem ter tomado o lugar do burocrata de plantão. Num mundo em que as coisas ocorrem cada vez de forma mais autônoma e rápida, é de se perguntar que tamanho de governo precisamos ter, e por que um país como o Brasil possui tanto funcionário público, pago acima dos níveis de mercado, e que, no fundo, na maioria das vezes, parecem apenas como um quebra-mola, um obstáculo entre o cidadão e sua necessidade.

Escola Ideologizada

Vamos à escola para aprender a pensar e sobre o que pensar. Íamos à escola porque o estudo do idioma, da matemática, da lógica, da física, química, biologia, história e outras disciplinas careciam de tempo e instrução precisa e muito, muito tempo dedicado à leitura e resolução de exercícios.

Ao longo do tempo, a escola, principalmente o ensino superior, acabou se tornando caro, excludente e, francamente, mais ideologia do que conhecimento prático, para a resolução de problemas. Tornamo-nos participantes – os EUA que o digam – de um processo de quase deseducação. Vivemos e respiramos o resultado disso: gerações e gerações de recém formados quase inúteis, sem postura e sem garra são o resultado disso tudo.

Volto à minha recente viagem à China só para fazer um paralelo entre a educação e garra do jovem profissional chinês e nossa horda de deserdados da inteligência (claro, com as marcantes exceções de sempre). Ver chineses lançarem-se ao trabalho e à busca por eficiência com tal desejo de vencer me deixa com a nítida impressão de que não teremos nunca a menor chance de competir nem com os asiáticos (o mesmo é praxe entre coreanos, japoneses e outros orientais) nem com países do primeiro mundo. Aliás, não conseguimos competir nem com os vizinhos argentinos e uruguaios.

Religião Bastardizada

Talvez o que mais dê tristeza a alguém que, como eu, vive e respira o Evangelho e o amor a um Deus todo-poderoso seja a inutilidade, para o ser humano, da religiosidade atual. Não falo aqui das religiões não cristãs, cujo cunho básico é no máximo neutro quanto à formação do indivíduo, espiritualmente. Falo de um cristianismo bastardizado que invadiu o Brasil, e que, ao contrário de tantos outros casos, não transforma o ser humano como só Cristo transforma.

Trata-se de um “evangelho de prosperidade” que trata Deus como um servo do ser humano, cujos desejos devem ser atendidos, e para quem tristeza e provação são prova de desfavor da Divindade. Como se o exemplo do cristianismo verdadeiro, ao longo dos séculos, não tenha sido o “tomar a cruz”, e sofrer pela causa de Cristo.

Esse cristianismo bastardo, fácil, sem dores nem lutas, é outra criação humana cuja utilidade é nula, cujo efeito benéfico na sociedade é pouco ou nenhum, cuja melhora moral – que só o Evangelho costuma trazer – não existe.

Quando se “abençoa a propina”, quando se recebe benesses de corruptos, quando se justifica o recebimento ilícito de uma concessão de rádio ou TV, ou outras ações terríveis por conta de um “fim justificável”, tem-se o caminho para a derrocada. Que isso (Deus nos livre) não nos leve a nós, que realmente cremos em Cristo e sabemos que o caminho dEle passa pelo trabalho árduo, honestidade, disciplina, oração e dores, a irmos junto com esse evangelho bastardo para a lata de lixo histórica.

Pseudo-Ciência

São vários os exemplos de pseudo-ciência que nos cercam e que, francamente, deprimem. Já li e ouvi sobre a “Matemática Inclusiva”, sobre as várias teorias críticas de Gênero, sobre outras aberrações que só acadêmicos ou intelectuais conseguiriam acreditar (parafraseando George Orwell).

Não apenas uma escola ideologizada, mas uma ciência que se curva a situações tão ridículas que é extremamente difícil até articular uma reação. Uma professora teima em não responder a uma pergunta objetiva de um senador, em uma comissão no congresso dos EUA. Este pergunta: “objetivamente, existem homem e mulher, do ponto de vista biológico?” ao que a intelectual promove uma dança de palavras sem qualquer intuito que não o de fugir ao mais fundamental conceito biológico: sim, são dois cromossosmos diferentes, X e Y, que performam um ser humano do sexo masculino, e dois iguais, X e X, que fazem o mesmo com alguém do sexo feminino. Só isso. É algo tão indefensável que seria pueril em qualquer outro século – exceto no nosso – ver alguém tentar defender algo diferente. Mas, ok… já vi alguém dizer que “2 + 2 = 4” ser algo pouco inclusivo, e muito radical. Não ter uma alternativa a isso é “bigotry”. Santo Deus…

Quatro exemplos, Governo Grande, Escola Ideologizada, Religião Bastardizada, Pseudo-Ciência, nos dão um vislumbre daquilo que um pouco de micro-evolução vai acabar por eliminar. Deus sempre dá um empurrão nesses processos; Deus sempre acaba por impulsionar a mudança para melhor. Sua Natureza, a criada por Deus, sempre acaba por empurrar as coisas para seus devidos lugares. Ainda que para isso coisas terríveis como fomes, pestes, guerras e outras tragédias tenham que, tristemente, intervir.

Vamos agora ao que mais dá medo, por estar-se tornando não apenas inútil, mas pernicioso

Política

Não é de hoje que países enfrentam o dilema entre A Política e Seus Políticos. Quase todos entendemos que a política parece ser algo importante. Elegemos representantes para que, em um número menor, e devidamente proporcionais aos anseios da população, lhes outorguemos mandatos para falar em nosso nome de uma forma mais ordenada.

A democracia representativa e a república parlamentar são formas legítimas e na maior parte das vezes correta de fazer com que o povo seja representado adequadamente. Parece que ao longo dos anos, tanto a qualidade moral dos políticos quanto as manobras para mudar o sistema de representação, de equitativo e equilibrado em desproporcional e privilegiado tem tornado a política algo francamente odiada.

Tomemos por exemplo o Brasil. Ninguém hoje pode dizer que temos um sistema de representação parlamentar minimamente justo, ou conducente ao equilíbrio do que pensa o país. Hoje, dois caras, um presidente do senado, e outro da câmara dos deputados, possuem um poder desproporcional, que ninguém os outorgou, e que acaba por destruir o sistema de freios e contrapesos da República.

Outro exemplo claro é o poder detido por presidentes de partidos políticos, no processo de indicação de puxadores de votos. O sistema atual de “encaixe” de candidatos nas vagas, independentemente de sua votação pessoal, torna nosso congresso um lugar que, francamente, não espelha, para nada, o que pensa e aspira a população.

Até quando um punhado de pessoas dominará o interesse nacional? Até quando um punhado de autoridades vão, monocraticamente, desdizer decisões desse (já pessimamente representado) congresso e tomar para si o poder de definir leis não votadas?

Até quando, enfim, partidos sem representatividade real na população, dominar o congresso nacional com seus conchavos e tramóias?

É algo que cairá, certamente, em desuso. Antes de cair, porém, deverá trazer consigo alguma tragédia – normalmente acompanhada de sangue.

Cinco exemplos em que um Darwinismo social poderia ajudar a tornar inútil. Cinco tristes sintomas de que algo está muito artificial, muito ruim, em nosso planeta. Mais uma vez tenho que terminar com meu bordão, que uso de vez em quando: Deus nos livre!

Capitalismo versus Democracia na China

Uma consulta rápida em artigos acadêmicos e até uma pergunta complexa e bem formulada a uma IA me retorna alguns fatores que, em boa medida, posso comprovar pela minha recente visita à China, e que me está dando o que pensar.

O Pacto

Após a morte de Mao Tse Tung, e seu (na minha opinião) desastrosa política social, que levou milhões à morte pela fome, seu sucessor, Deng Xiaoping tratou de mudar o conceito da China moderna, com a inclusão da “burguesia” como fator de geração não somente de riqueza, mas de meios para sanar a miséria sistêmica dos anos de “Comunismo Raiz” de Mao.

Deng modernizou a China e, agora por cerca de 40 anos, o tal pacto continua forte, a despeito de muitas ameaças. Qual é o pacto, segundo a minha IA:

O Estado entrega:

  • crescimento econômico;
  • redução da pobreza;
  • estabilidade;
  • segurança;
  • infraestrutura;
  • ascensão nacional.

Em troca, a população aceita:

  • monopólio político do Partido;
  • restrições à liberdade de expressão;
  • ausência de eleições nacionais competitivas;
  • censura;
  • vigilância.

E de fato, nenhum país tirou tanta gente da pobreza como a China nos últimos anos. Claro que a entrada na Organização Mundial do Comércio (apoiada pelo Brasil, inclusive) foi o passo mais importante para tornar a China o que é hoje: fonte de 70% de toda a manufatura mundial e somente de 30% do consumo, ou seja, cerca de 40% da manufatura chinesa inunda o mundo, traz superávits comerciais enormes ao país e dá a condição de colocar comida na mesa de mais de um bilhão de almas.

O Dilema

Kissinger esperava que com a distensão com os EUA a China acabasse se tornando um país mais democrático. A crença ocidental, ou melhor, de boa parte dos governos ocidentais sempre foi a de que com a riqueza, a democracia representativa acabaria por prevalecer. Não aconteceu na China, por enquanto.

Xi Jinping aposta num fator chave: o fato de que o povo prefere a afluência ao voto, e que, no fundo, o sistema político chinês acaba por ser meritocrático, antes de ser democrático.

Convenhamos: a democracia do ocidente está em crise. Que digamos nós, brasileiros, submetidos a uma cleptocracia do executivo e do judiciário, somada a uma omissão quase total do legislativo. Os EUA se encontram rachados no meio em termos políticos. A Europa patina em bizarrices como dar casa e comida de graça pra imigrantes ilegais e francamente litigiosos contra os valores da EU. Qual foi a última vez que vimos o sistema político de algum país ocidental ser exaltado por suas qualidades, méritos e virtudes?

No Brasil, principalmente, fica claro que vai para a política, com a exceção possível do Partido Novo, gente desqualificada, capaz de tudo. Aliás, lembro bem da frase de Winston Churchil (creio) sobre o Parlamento:

“Metade deles é incapaz; a outra metade é capaz de tudo”…

Mas não nos iludamos. Não faz muito tempo víamos uma outra China. Lembro bem logo depois da morte de Mao quando sua viúva e vários outros “dignitários” (Jiang Qing, a viúva de Mao, mais Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan, Wang Hongwen) formaram o que se convencionou chamar de “A Gangue dos Quatro”. Até bem recentemente os casos de corrupção abundavam na China, quanto Xi resolveu combater “tigres e moscas”, sendo “tigres” os grandes líderes e as “moscas” os burocratas menores corruptos. A mensagem era –
ninguém estaria imune ao processo de limpeza. Isso começou em 2012 e ainda continua acontecendo. Recentemente dois oficiais generais do Exército do Povo foram condenados à morte por corrupção.

O processo de mudança foi até ao comportamento diário do chinês (cuspir no chão, entre outras práticas) e atitudes ante o trabalho. Entre minha última ida ao país no início do Século e esta, vi algo extraordinário: uma mudança que eu nunca esperaria. Muitas coisas para melhor, nem todas.

Como ocidental, considero a liberdade um valor fundamental do ser humano, e eu não abriria mão da minha em troca de estabilidade política comida. Mas não vou julgar o próximo, pois não vivi o “grande salto adiante” e outros períodos da vida chinesa, que podem perfeitamente bem justificar a troca de afluência pela obediência.

O Medo do Ocidente

Sim, o ocidente tem medo da China, por várias razões – a belicosidade em relação a Taiwan, a agressividade nos negócios externos, entre outros fatores. A China por suas vezes, reluta em admitir adesões a valores do ocidente, mas não dá para negar isso em todas as esferas – que o diga a adesão a um sistema internacional de contabilidade, o IFRS, bastante claro e rígido, além de uma formação técnica de auditores e contadores com base nisso, que em muito excede, ou parece exceder, os padrões de formação exigidos desses profissionais aqui no Brasil, por exemplo.

Mas cá entre nós, o ocidente tem mesmo que ter medo, quando o estudante médio chinês dá um couro em quase qualquer nação ocidental, em matemática e redação, por exemplo. Mais grave, reconhecem e combatem a tendência ocidental de trocar o que é fundamental (ciência, rigor de pensamento, clareza de ações) por “sensações” e “realização”, antes da comida na mesa. Não gosto nem um pouco de ver nossos “floquinhos de neve” derretendo quando exigidos mesmo que de leve, no cumprimento de suas funções. É extremamente preocupante ver que boa parte da juventude está mais interessada em Tik-Tok, em ser “Influencer” ou qualquer outra coisa, em vez de colocar o traseiro numa cadeira e pensar, estudar, criar e produzir.

O ocidente vê suas universidades invadidas por temas imbecis, por passeatas ridículas, por “ambientes seguros”, por não-me-toques e coisas absurdas, em vez de cultivar o saber. Universidade deixou de ser lugar de buscar-se a verdade e passou a ser um lugar de protestos risíveis, quase sempre para o lado errado.

Enquanto matamos bebês, os chineses acabram com as restrições à natalidade e a estão incentivando. O medo, portanto, é fundamentado, e para resolver o problema não devemos atacar os chineses. Exceto pela tal falta de liberdade, na conduta pessoal talvez devêssemos imitá-los.

A China que vi

Passei as últimas duas semanas em uma extensa e cansativa viagem ao outro lado do mundo. Shenzen, Shangai e Beijing, além de rápida passagem por Hong Kong, me deixaram pensativo sobre este país estranho (para nós), e fascinante.

Não foi minha primeira viagem para lá, mas poderia se dizer que sim. O país que encontrei em 2026 nada tem a ver com as versões de 1999 ou 2008. Não restou nada do smog (fumaça) nas cidades, do barulho do trânsito ou das cusparadas no chão que tanto davam nojo e irritavam. Ainda restam as cotoveladas (para ganhar espaço) e o relativo desrespeito pela fila. Cidades mais silenciosas, povo mais cordato, limpeza geral igual à Suíça, e, mais do que nada, muito, muito consumismo.

Surpresas Positivas

Não só a limpeza e silêncio gerado pelas scooters e carros elétricos, hoje a grande maioria da frota do país, fui surpreendido por um capitalismo que coloca muitos dos países ocidentais no chinelo. Barganhas ferozes entre compradores e vendedores, turismo interno intenso, um shopping mais bonito, maior e mais opulento que o outro, em quantidades novaiorquinas, entre outros indicadores de opulência e status de potência internacional.

Rodovias e ferrovias impecáveis, canteiros de plantas para onde se olha, e muita marca ocidental. Isso por si só nos levaria a pensar em um país quase que ocidentalizado, e que haveria rejeitado princípios do comunismo clássico. Não vou tão longe em dizer isso. No entanto vou citar quase que textualmente o que me disse um morador de lá (não cidadão chinês, mas que lá vive há anos): “A China deu a seu cidadão médio um padrão de vida mais alto do que em qualquer ponto de sua história. Será muito difícil retirar este padrão, ou baixá-lo, sem uma grande comoção social”. Se isso for verdade, se traduzirá em uma tendência a um capitalismo continuado, ainda que centralmente dirigido.

Surpreende mais ainda um Tributo sobre o Consumo de 9% (apenas) comparado com os 28% ou mais que nos será imposto quando da implementação total do novo sistema de IVA dual no Brasil. Ou seja, mesmo a China, teoricamente comunista, tem menos carga tributária sobre o cidadão do que o Brasil, teoricamente republicano.

Surpresas Sociais

Em nossa estada ali, fomos ciceroneados por muitos jovens profissionais, extremamente informados e interessados no ocidente. Mas com um orgulho de seu país que não condiz com uma situação tão repressiva quanto se poderia imaginar. Obviamente que se alguém corre algum risco social, vai se manter dentro de uma linha de conduta mais pró-governo, mas não posso afirmar que isso foi o que aconteceu.

Chamou a minha atenção o profissionalismo e interesse no futuro desses jovens. Aliás, o inglês deles e o conhecimento geral também são atrativos à parte. O contraste com um país como o nosso, em que a juventude está sendo alienada pela seu próprio processo educacional é gritante. O chinês médio parece estar agindo e trabalhando como nossos Baby Boomers. Duro e com um senso de missão que hoje parece que perdemos. Parecem ser pessoas mais pensativas e resilientes, mais dados a sacrifícios por uma carreira e futuro, mais senso de família, menos droga, menos desperdício de tempo.

A Quarta Estrela da Bandeira

Juro que regressei com um conflito entre o que vi e o que se relata aqui no ocidente. Passei a revisar, e continuo revisando, o que realmente se passa no nível de governo de lá. Creio que é claro que são controlados centralmente, e que hoje o comunismo está muito mais no nível do controle social do que econômico – coisa que até o Brasil poderia aprender – se imiscuir menos na atividade econômica e tributar menos, deixando o povo mais livre para empreender.

A bandeira chinesa possui uma estrela grande – o Partido Comunista Chines, ou, de resto, a própria China, e 4 estrelas menores, diz-se que representando o campesinato, os trabalhadores urbanos, a Burguesia urbana e a Burguesia nacional (não ligada ao “imperialismo internacional”). Deng Xiaoping, o arquiteto do atual desenvolvimento chinês, deu ênfase justamente à burguesia, considerando que sem ela, não há comunismo possível. Certo, sempre há que se ter quem espoliar, para poder manter o poder.

Então o comunismo deu certo na China? Duvido que se possa dizer isso. Mais certo seria dizer que o capitalismo permitiu a existência de um regime de planificação central. O que dá certo são regras claras (o que, a despeito de algum nível de desrespeito pelos direitos humanos, conforme nós o entendemos no ocidente, a China possui), o que dá certo é a certeza de que o cometimento de atos lesivos ao interesse coletivo serão punidos, sem direito à politicalha.

O que deu certo na China, desde que Xi Jinping ascendeu ao poder foi uma mistura de rigor contra a corrupção, foco na educação e liberdade para empreender.

Como é que existe propriedade privada num estado comunista? Pelo que ouvi e pude constatar, a China permite que áreas rurais sejam de propriedade privada. A razão para isso é para tentar trazer os trabalhadores de volta ao campo. A propriedade urbana, em tese, é do Estado. O estado não te “vende”, mas te permite usar por um período de 70 anos, renováveis (creio). Além disso, pode-se comprar e vender esses direitos a valores de mercado, renovando o período de posse. Ou seja, para a maioria dos seres humanos, isso é, na prática “possuir”. Somos “donos” de que, mesmo no ocidente? De nada, diria eu, exceto o direito de posse e de vender o ativo. Essa é toda a diferença? Não sei, mas continuo a estudar o assunto.

Não pretendo me tornar um Cinófilo, em nenhum dos dois sentidos – estudioso da China, nem grande amigo. Porém, dissipei alguns temores, e criei outros. O principal deles é que, a continuar a tendência, teremos uma “Idiocracia” cada vez mais no ocidente, com um nível de corrupção política indizível, e cidadãos deseducados, contra uma China bem gerida e com cidadãos pensantes.

Alea Jacta Est, ocidente.