
Recentemente estive, com mais três colegas, em um evento em Buenos Aires. Fiquei apenas dois dias e tive a oportunidade de mostrar aos colegas essa maravilha que é esta cidade, que tanto já vivi e visitei ao longo de décadas. A última vez que estive lá havia sido em 2022, logo depois da pandemia.
O que vi, então, foi uma cidade muito mais suja do que o habitual, com mais moradores de rua e muitos, muitos protestos para todo o lado. O que vi, agora em 2026, me animou. Mais limpa e segura, mais “leve” (parece), e como sempre, lindíssima.
Tomei um tempo para perguntar a quem me dava conversa, sobre Javier Milei. Ao todo tive a oportunidade de perguntar a umas 10 pessoas. Meu “instituto de pesquisas informal” retornou o seguinte resultado:
- 6 entusiastas
- 3 neutros
- 1 visceralmente contra.
Os entusiastas (entre motoristas de taxi e Uber, vendedores de lojas e gente que encontrei em saguão de hotel) eram claros em dizer duas coisas: a)que Milei estava fazendo uma faxina e um dever de casa enorme; b)que os benefícios do que ele estava fazendo ainda não podiam ser notados nas camadas mais baixas da sociedade.
Os neutros tomavam mais ou menos o mesmo caminho, em relação aos efeitos das políticas econômicas e de diplomacia, mas viam o governo como uma continuidade dos anteriores, sem mais virtudes do que defeitos em relação a eles.
O cidadão (motorista de Uber) visceralmente contra me chamou a atenção. Não apenas odiava Milei, mas odiava todos os políticos argentinos. Se dizia odiar o peronismo, o kirchnerismo e tudo o que já aconteceu em política no país. Nada, na opinião dele, exceto lá atrás, quando da independência do país, prestou.
Uma observação notável dele:
“Vocês estrangeiros, brasileiros, uruguaios, chilenos, todos… vêm aqui e ficam falando maravilhas de Milei. Não entendo. Acho o governo péssimo”
(Motorista de Uber argentino, Julho de 2026)
Papo vai, papo vem (eu tentando conter o furor do motorista) ele revelou a razão fundamental de sua raiva: um sobrinho com câncer deixou de ser atendido com os medicamentos necessários na rede pública, e estava em terrível sofrimento.
Bom, dá para se solidarizar com o rapaz, obviamente. Ninguém acha que uma pessoa deva morrer em dor e sofrimento. Mas a razão da raiva e oposição aqui é provavelmente a mesma de qualquer país, de qualquer cidadão em qualquer lugar do mundo: Onde o governo atual está ME afetando, para o bem ou para o mal.
Por isso o populismo atrai tantos. É feito de promessas, de uma relação direta com o eleitor. É a “picanha com uma gordurinha”, é o bolsa-isso e bolsa-aquilo, é a promessa de ser “contra tudo isso que está aí”. O povo em sua maioria vota com seu estômago e com seus desejos à frente de sua razão.
Nem o povo argentino, tão mais bem educado do que o brasileiro, tão mais politizado e envolvido na sociedade, escapa ao fato de que não se julga um governo por métricas importantes e por ações de médio/longo prazo. Nada disso importa quando o sobrinho está sofrendo.
Mas meu papel aqui não é julgar o motorista de Uber em sua análise. É o de buscar entender por que temos que ser maiores do que nossa circunstância pessoal ao votar.
Parentes e amigos meus foram influenciados a votar na esquerda brasileira porque um dia na vida tiveram um visto americano negado. Com isso, os EUA passaram a ser o grande satã também para esses, e naturalmente, se a esquerda brasileira demoniza os EUA, passam a votar na esquerda.
A Argentina chegou a um ponto de destruição de fundamentos econômicos que colocou no poder um sujeito estranho e radical. O tal sujeito está seguindo sua cartilha, liberalizante na economia e pró-fundamentos (superávit primário, controle orçamentário, realismo econômico, etc). Isso dói e doerá ainda para alguns. No final das contas, se a Argentina não recuar e continuar a fazer o certo, certamente menos sobrinhos doentes ficarão sem medicamento; menos ruas ficarão sujas, menos mendigos existirão nas Calles do centro de la ciudad; mais pujança voltará ao campo, à soja, ao trigo, ao gado.
Enfim, creio que meu instituto de pesquisas particular aponta a realidade argentina atual – Milei está vencendo…
